[user_registration_my_account]
Capítulo 22 de 47
VII
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Mundos Venturosos
Perdi de vista os mundos de provas, sendo levado admirar a sábia economia do universo e extasiar-me ante a magnificência da glória do Criador num torvelinho de esferas celestiais, cujos felizes moradores vivem em recíproca comunicação e inteligência, por meios simples, ainda que para vós inconcebíveis, apesar das enormes distâncias que dividem e separa suas moradas umas das outras, primeira cidade triunfante na extensão das cidades de Deus. Neste momento recordo aquelas visões à maneira de um sonho de felicidade vislumbrada e prometida. Estas brilhantes habitações da virtude e do amor, estes tranqüilos templos de caridade, iluminados pelos puríssimos eflúvios do sol da Providência, fulgores do entendimento divino, flutuam longe, muito distantes de vosso curioso ou indiferente olhar; pois a potência de vossos olhos está em relação com o poder de vosso espírito e não vos é dado alcançar com a vista até onde podeis aspirar pela eficácia de vossos sentimentos e a virtude de vossas obras.
Lá não são conhecidos nem os perigos e debilidades de uma infância laboriosa, nem a velhice e as enfermidades do corpo, homem nasce envolto num organismo sem complexidades e com uma inteligência e uma consciência varonis, capazes, desde os primeiros instantes, de admirar os sábios portentos do universo e sentir as belezas da virtude e conceber as legítimas aspirações até a perfeição e até Deus através da prática do amor e do estudo constante das maravilhas naturais. Ditosa criatura, venturoso ser o que mora nas regiões de que vos falo! Nutre seu formosíssimo e transparente corpo de substâncias que seriam inapreciáveis a vossos sentidos e seu espírito, de idéias e sentimentos que não cabem ainda em vosso cérebro ou em vosso coração. Nenhum de vós - falo dos homens da terra - conquistou ao morrer a suma das ciências e sentimentos que possui ao nascer o último, as mais insignificantes dos seres que vivem e brilham na cidade triunfante dos justos.
Lá a virilidade se mede, não pelo desenvolvimento e idade dos órgãos do corpo, mas sim pela robustez e harmonia do sentimento e pela força e aprimoramento da potência intelectual. E, uma vez alcançada essa poderosa virilidade das aptidões espirituais, não se degeneram jamais, antes pelo contrário adquirem incessantemente maior alcance e esplendor em virtude da incansável diligência com que aquelas ditosas criaturas investigam pelo amor os segredos das leis universais na contemplação e estudo do livro do universo. Quereis que vos descreva sua felicidade, que vos fale dos puríssimos encantos que constituem o orvalho de suas almas? Falai-me primeiro vós da mais pura das delícias do carinho maternal; contai-me a dosara do primeiro beijo de mãe; recordai-me o celestial solilóquio da criança adormecida, quando seus lábios sorridentes revelam a primeira palavra do mistério de seu espírito.
E se vós nada disso me podeis explicar, porque não o podeis sentir nem compreender, como hei de poder eu, que sou como vás e talvez menos que vós, como hei de poder explicar os gozos daquelas luminosas inteligências, das quais a expressão mais simples é superior a toda a sabedoria dos homens da Terra? Como hei de poder, eu que sou como vós ou mesmo menos que vós, como poderei dar-vos a medida da doçura do sentimento daqueles corações amorosíssimos dos quais o mais pobre, o mais humilde, o mais obscuro lampejo adquire toda a adoração e toda a caridade do mais piedoso amante dos corações humanos da Terra? Tudo o que posso dizer-vos e não o digo por mim mesmo, é que lá os gozos se alimentam do conhecimento e estudo das leis em cuja virtude se Governa o universo e da observância da lei pela qual o mundo moral deve reger-se para o progresso sucessivo da felicidade dos espíritos. A Ciência e o dever lá constituem os pólos do movimento espiritual das bem-aventuradas regiões de que vos falo.
Porém, que Ciência e que dever! elas, se acham que podeis comparar aquela Ciência com aquela que julgais como tal em vosso mundo e se medirdes aquele dever pelo vosso, por aquilo que chamais dever e cumprimento do dever, eu vos afirmo que vossa idéia ficará tão distante da verdade como a Terra em que morais está do céu, da terra da promissão onde moram para gozar e elevar-se aqueles seres angélicos Vossa Ciência é a primeira letra do alfabeto do saber e vosso dever a primeira faísca luminosa do grande foco, do grande sol dos espíritos, que desde o centro do universo irradia em todos os sentidos sobre a grandiosa criação. Isto vos ensinará que, consistindo a felicidade no conhecimento da lei e no cumprimento do dever, vossos gozos não são senão uma pálida sombra, um remotíssimo bosquejo dos gozos dos justos. Em sua frente se vê brilhar a majestade da Ciência e em seus olhos a santidade do amor.
Eles medem as incomensuráveis distâncias que separam uns dos outros os luminares de seu céu, com mais facilidade e precisão, simplesmente com o grande poder de seu inteligentíssimo olhar, com mais facilidade e precisão, repito, do que vós a profundidade de um de vossos rios ou a elevação de uma montanha. Vós formais sucessivamente os números por adição, pois não cabe em vossa mente a agrupação clara e distinta de uma dezena de unidades; e eles vêem com toda clareza e distinção os agregados de milhares e milhões. Assim possui uma ordem de idéias superiores a toda concepção dos homens da Terra. Sua linguagem, não menos rica e expressiva do que sintética, não contém uma palavra desnecessária: porém falam com mais freqüência por visão ou transmissão intelectual. Conhecem desde o nascimento e com toda perfeição a escrita em todas as suas manifestações e desenvolvimentos; não obstante jamais a empregam: é um meio de comunicação e ensino grosseiro e primitivo, do qual não tem a menor necessidade.
As concepções artísticas, as ciências exatas e a história de seus gloriosos feitos e gerações se transmitem por fidelíssima tradição, auxiliada pela claríssima recordação que cada um conserva de suas existências precedentes. Lá não é a dúvida, mas sim o desejo e o amor, o móvel das iniciativas individuais e das ações voluntárias. Surpreenderam a natureza, Monte inesgotável de fruições mentais, na realização misteriosa de muitas de suas secretas harmonias e aspiram tirar, através da investigação de novos segredos, motivo de novos gozos. Conseguiram vislumbrar as leis imediatas pelas quais se produzem e realizam quantidade infinita de conceitos naturais que permitem de certo modo entrever a divina economia que preside a criação e desejam conhecer com mais perfeição aquelas leis para elevar-se no estudo de obras superiores que, aclarando mais e mais os horizontes da inteligência, do sentimento e da vida, permitam conjeturar com acerto e ordem a inefável sabedoria do autor da vida, do sentimento e de toda força inteligente, E neste assíduo e proveitoso estudo, à medida que conquistam noções mais claras e profundas do universo e de suas leis, maior é a sua compreensão do Sumo Legislador e mais profundos seu amor e agradecimentos ao Todo Poderoso.
Lá a adoração e o amor ao próximo não são como entre vós imposições do dever: são convicções e sentimentos inatos, conquistados numa larga série de existências consagradas à depuração e progresso pelo cumprimento, egoísta primeiro e generoso depois, dos deveres naturais. Adora-se o Conhecedor Supremo, porque se conhece e se pressente a sabedoria ele suas obras, sua onipotência e amor, adoram-no por atração e doce arroubamento, pela simpatia e relação que existem entre aqueles três divinos, e como tais, infinitos atributos, e os que por transmissão ou reflexo possui a sempre limitada criatura racional. Como não bendizer e adorar a infinita Perfeição, sabendo, como sabem, que nela residem fundamentalmente o poder, a sabedoria e a bondade, que é o amor, trindade atributiva, causa de todas as perfeições relativas e da qual partem em todas as direções as benéficas influências que alentam, vivificam e levam a felicidade até os mais obscuros confins do universo!
Lá o amor ao próximo não é uma abstração, uma bela teoria sem aplicação real na prática; ama-se o irmão como se adora a Deus, em espírito e em verdade. O amor, sem ser interessado, é uma exigência da felicidade própria; e como as doçuras da felicidade são apreciadas em seu justo valor, não há quem possa resistir à sua atração celestial menosprezando as leis que a desenvolvem e fomentam, Ama-se em espírito, porque o amor sobe elas entranhas à mente, diferentemente daquilo que se passa na Terra, onde desce da mente às entranhas. (1) (1) Entendemos que o amor sobe das entranhas à mente, quando começa por ser puro sentimento e se eleva à complacência ou fruição mental; e que desce da mente às entranhas, quando é sentimento que nasce da conveniência ou do cálculo. Da mesma forma, ama-se em verdade, porque as obras. e as palavras de amor, diferentemente daquilo a que se está acostumado entre os homens, são o reflexo fiel dos sentimentos do espírito.
Se agora me perguntais se lá se sente ou se pratica o divino preceito de adoração e amor em toda a sua perfeição e pureza, eu vos direi: aquele divino preceito é a fórmula eterna de felicidade pelo dever e do progresso que se há de realizar nas criaturas até a consumação eternamente remota das obras do poder e da vontade de Deus. Lá se adora ao Sumo Bem, em relação com a idéia que se tem de sua magnificência, poder e sabedoria; e ama-se aos seres irmãos em geral, com aquele amor que vós professais aos vossos pais, filhos e irmãos. de sangue. AMAR A DEUS SOBRE TODAS COISAS E AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO é o dever absoluto, como emanado de Deus, que se cumprirá e praticará em crescente progresso pelos seres inteligentes relativos dentro do relativo e da sucessão eterna. E o término de uma perfeição que não há de ter fim. E complemento, ou melhor, a idéia absoluta da felicidade, que é a felicidade própria, Deus próprio.
Lá, por último, o trabalho, o estudo e a caridade se exercitam e depuram durante uma vida de grande, enorme duração, figura da eternidade de puros gozos, de celestiais fruições que aguardam o espírito em sua imediata e próxima elevação. O término da vida chega naquelas afortunadas regiões sem violência, dor e sem tristes definhamentos: o ancião sente, ao chegar sua hora, uma espécie de suave e atrativa sonolência e cerra suavemente os olhos ao transpor o horizonte um dos sóis que enviam seus formosos raios e seu calor aquela terra prometida. A morte, que lá não se chama morte, pois ninguém ignora que se trata do início de uma vida mais feliz, aparece como o mais tranqüilo de vossos sonhos. O espírito parte radiante de amor no momento dos crepúsculos, no ocaso do mais esplendoroso das luminares daquela bem-aventurada estação, ao mesmo tempo em que o corpo se dissolve e desaparece no pó de ouro do ambiente.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.