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Capítulo 17 de 47

VII — parte 8 de 8

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Na Espanha, na Itália, na França, na Europa, em todo o mundo civilizado e à sombra da legislação de cada povo, vive e se agita uma seita, cujos indivíduos, estreitamente unidos entre si com os vínculos de um pensamento e de um interesse comuns, diametralmente opostos aos interesses e fins da grande família humana, trabalham com incansável atividade para que prevaleçam seus ambiciosos planos em prejuízo das mesmas sociedades de cuja seiva se nutrem e em cujo seio se abrigam para. perturbá-las e oprimi-las. Sua pátria não é o pais em que nascem: sua pátria comum foi Roma e o será enquanto alentar suas concupiscências e desbragada ambição. Nascem em tortos os países e em todos us países são cidadãos para seus objetivos de prosperidade pessoal, mas são estrangeiros para contribuir para a prosperidade geral.

Dizem-se realistas e chegam aos corações dos reis com o punhal de Ravaillac; fazem ostensivo alarde de cega submissão aos papas, mas os papas que se opuseram aos seus desígnios sucumbiram vítimas de horrendos e misteriosos atentados; dizem-se homens de ordem, de paz, de caridade e de justiça, e os surpreendereis conspirando, pregando a resistência às leis e aos poderes quando estes contrariam seus propósitos, ativando as discórdias civis e as guerras internacionais, aconselhando o assassinato e o incêndio, tomando parte nos movimentos populares para despertar com vibrante eloqüência todas as iras e com pérfido conselho todas as paixões brutais. Tudo subordinam à conveniência da seita: seu realismo, seu papismo, seu Deus, de cujos sagrados objetos fazem instrumentos de seu domínio e prepotência. Omnia pro dominatione. Não os vimos em nossos dias fazendo votos pelo triunfo da Rússia cismática, que lutava contra potências católicas e pelo triunfo da Turquia maometana que lutava contra uma potência cristã? Em todas as partes suas simpatias e sua influência estão sempre à frente da conveniência e do progresso dos povos.

Na Itália maldizem a unidade nacional; na Suíça e na Alemanha resistem ao cumprimento das leis; na Bélgica, onde preponderaram por algum tempo no governo, puseram em perigo iminente as mais altas instituições; na França provocam turbulências e golpes de estado. Na Espanha... Ah! quisera o céu que pudéssemos esquecer as últimas calamidades que trouxeram sobre o solo pátrio esses eternos inimigos da civilização e da luz! Porém são bastante recentes e estão na consciência e na memória de todos os espanhóis. Com suas insensatas pregações acenderam em nome de Deus o estopim da última desastrosa guerra civil, que avermelhou nossos campos com o sangue de militares iludidos e de mártires. Como se prevalecem do fanatismo e da ignorância das massas! Como as alucinam, as exploram, as despojam e as levam ao matadouro uma vez que isto vá a favor de seus maquiavélicos objetivos! Como sabem educá-las para a escravidão moral e material! Entregai-lhes a educação do povo e ouvireis as multidões gritando: "Queremos grilhões! vivam os grilhões!"

É então quando eles asseguram que chegou o reino de Deus sobre a Terra; que a salvação das almas está assegurada; que todas as bênçãos e felicidades descerão sobre os servos agrilhoados. Miseráveis! Em cada lugar um convento e um castelo, em cada castelo uma força e a inquisição como tribunal supremo de justiça, esse é o vosso ideal, lá o sabemos; somente vós podeis reinar sobre cadáveres ou escravos. Apesar deles e de seus furibundos anátemas, a civilizadora seiva do progresso penetrou nas veias dos organismos sociais. inoculando em seu sangue preciosos germes de renovação e transformação. Porém eles não se civilizaram e não progrediram; não se renovam nem se transformam: são incrustações do passado no presente: reverberações daquela geração de tiranos do pensamento, que dominou sobre uma geração de ilotas durante a longa noite da Idade Média; reproduções fiéis daqueles antigos familiares do Santo Ofício, que em nome da caridade e do amor ao próximo acendiam as fogueiras da fé.

Hoje se revoltam irados contra o século, porque em seu transcurso se escreveu o primeiro capítulo da redenção dos escravos e das consciências. Seu assombro, primeiro, e seu furor logo em seguida, foram superiores a toda ponderação, "Como! - exclamaram - é possível que esses povos estúpidos, abjetos, vil, obra de nossas mãos e de nossas previsões, tenha concebido idéias de dignidade e liberdade e sonhe em romper as estreitas malhas da imensa rede em que o mantemos cativo! Não adormecemos sua alma no fanatismo, para que se acreditasse eternamente escravo; não embrutecemos seu entendimento na ignorância, para torná-lo refratário a toda luz; não flagelamos em todos os tempos seu rosto e suas costas, para que nos considerasse seus senhores naturais? Hipócritas de todos os países, fariseus da religião, tiranos do pensamento, parasitas sociais, nós que possuímos a arte de vender pelo zelo das coisas santas a escória de nossos abomináveis apetites, unamo-nos, formemos uma só face, uma só falange, onipotente, incontrastável, terrível, pronta para cair sobre as falsas hostes do progresso.

O mundo foi nosso e deixaremos que nos arrebatem a posse do mundo? Ainda há multidões ignorantes; ainda nos pertence por vaidade e fanatismo à mulher ainda há grandes interesses entrelaçados com os nossos, grandes ambições que se amparam em nossa ambição; ainda podemos levantar exércitos formidáveis que nos reconquistem o esplendor e a pujança de outros tempos! Guerra ao direito moderno em nome da tradição! Guerra à ciência em nome da fé! Guerra à civilização em nome do cristianismo! Guerra à liberdade em nome do Evangelho!" Estes são os sinistros planos do ULTRAMONTISMO, do JESUITISMO, da INTERNACIONAL NEGRA. Para realizá-los, as instruções do sinédrio ultramontano partiram em todas as direções. "Primeiro urge contar os soldados e organizá-los, ocupar depois vantajosas posições para não aventurar o êxito e cair por último com ímpeto irresistível sobre as forças divididas do progresso. Delenda est Carthago?

Durante o fragor da peleja, não dar trégua á mão homicida enquanto ficar um só inimigo de pé: depois da luta, organizaremos, da maneira mais legal possível, unções e purificações, para que a força ou fogo termine a obra iniciada pela espada. Todo o que tiver tendências liberais ou racionais deve ser eliminado. Desta maneira é que havemos de recobrar a posse pacífica do mundo, que a liberdade e o racionalismo nos disputam." E este programa da Internacional Negra vem se desenvolvendo de uns tempos para cá com o maior descaro, à ciência e paciência dos povos e dos governos, sem que talvez se tenha pensado seriamente em evitar suas terríveis conseqüências. Para o engajamento dos soldados adictos à causa do retrocesso, nada mais a propósito do que as peregrinações e remarias; pois, quem suspeitará que o piedoso bastão do peregrino ou do romeiro poderá amanhã se transformar em fuzil de raivoso partidário? Para a organização das forças, aí estão certos comitês e associações de caráter político, mal encoberto sob um disfarce religioso, encarregados de recrutar e. fanatizar a juventude.

Para levantar o espírito dos adeptos, não faltam artigos plenos de insolentes ameaças na imprensa neocatólica, nem discursos incendiários lançados de cátedras, de onde não deveriam pronunciar-se senão palavras de caridade e de perdão. Falta apenas, - e ainda nesse sentido tem muito adiantado em alguns países a internacional de que falamos, - se apodere de posições estratégicas, com as quais possam ferir impunemente todos aqueles que não comunguem em sua igreja ou não milhem em suas fileiras. Falta apenas que sua influencia invada as regiões oficiais; que dê aos seus homens participação na administração e governo dos povos. Isto seria n mesmo que acalentar em nosso peito a víbora que nos ferirá mortalmente. Seremos tão estúpidos? Teremos perdido por completo o instinto de conservação e esquecido as mais rudimentares máximas de prudência? Nós não estamos filiados a nenhuma das parcialidades políticas que dentro e fora cta Espanha lutam por escalar ou conservar o poder: sob este ponto de vista, não pertencemos nem aos vencedores nem aos vencidos.

Mas nós milhamos nas legiões que levam erguida a grande, a humanitária, a civilizadora bandeira do progresso, que não é de nenhum partido, mas sim comum a todos os partidos que amam a liberdade, que não é exclusiva de nenhuma nação, mas sim da humanidade inteira, Nós não fazemos oposição a nenhum governo, mas antes, inspirando-nos na submissão evangélica, respeitamos profundamente em todos sua altíssima investidura e proclamamos este respeito como um dos primeiros deveres de todo bom cidadão. Não é por isso, porém, que renunciamos ao direito, inalienável e sagrado, de dar o grito de alarma, quando vemos em perigo qualquer das conquistas do direito moderno, às quais rendemos fervoroso culto. Mas, quando este perigo se aproxima, se não nos permitem gritar, falamos em voz baixa; se não nos permitem falar, assinalamos com o dedo qualquer que seja a ameaça.

É-nos doloroso ver - e aqui começa a respeitosa indicação de um desses perigos que vislumbramos no horizonte social, - é-nos doloroso ver, repetimos, essa imensa rede de conventos que se estende e aumenta em nosso solo, tão espezinhado e empobrecido em outros tempos de triste recordação por estas mesmas instituições religiosas, que determinam uma época de lamentável decadência no povoamento e na prosperidade da Espanha. Énos lastimável ver como o jesuitismo, inimigo mortal de todos os avanços que a civilização traz consigo, se introduz em nossas vilas e cidades, de onde foram desalojados pela provisória política do rei D. Carlos III, para ser logo abolido pelo papa Clemente XIV. É-nos lastimável ver como se alimentam no púlpito, considerado pelas multidões como cátedra da verdade, insensatas esperanças da próxima volta a uma completa restauração teocrática, acompanhada dos mais terríveis anátemas contra as instituições que a santa liberdade estabeleceu e o direito moderno sancionou.

É-nos lastimável ver os causadores das nossas discórdias civis preparando tranqüilamente, depois de vencidos, e abusando da magnanidade da nação que os tolera, os elementos necessários para nos submeter outra vez aos horrores do passado. E é-nos lastimável, por último, ver como a Internacional Negra propaga livremente seus enganos e suas perniciosas doutrinas, atentatória a tudo o que de mais santo e mais sagrado têm as sociedades modernas; ao mesmo tempo em que os instrumentos ativos de seus tenebrosos planos usam e abusam da palavra e da imprensa para derramar sobre as turbas fanáticas e ignorantes a asquerosa semente de suas iras; a nós partidários da ordem baseada na justiça, os que professamos respeitoso culto ao princípio de autoridade, aos que amamos e defendemos a liberdade de consciência emanada dos ensinamentos evangélicos, apenas a lei nas deixa um pequeno resquício por onde podemos opor propaganda a propaganda, combater esse pernicioso fanatismo que corrói nosso povo e destrói os mais enobrecidos sentimentos, arrancar ao farisaísmo a máscara da hipocrisia com que dissimula sua sede de medrar e de dominar e denunciar, enfim, aos receios sociais os nefandos fins da seita ultramontana e suas reprováveis maquinações.

Este estado de coisas produz um mal-estar geral, uma penosa inquietude nos ânimos, que só as podem acalmar medidas reparadoras e progressistas, francamente hostis a todo contato clerical de restauração. E não é que se creia possível à eventualidade desta restauração aborrecida. Não; o progresso já está acostumado a vencer seus irreconciliáveis inimigos e os vencerá uma vez mais se necessário for: o que se teme, o que às almas honradas agita e atribula é a perturbação mais ou menos duradoura que poderia trazer aos interesses da civilização o vestígio reacionário produzido por certas esperanças imprudentemente alertadas. O que se teme é um momento de surpresa, ainda quando seus efeitos tivessem que ser efêmeros, de curtíssima duração; porque a Internacional Negra é implacável, e se lançaria furiosamente sobre as vitimas designadas por seus sangrentos instintos. E preciso não esquecer que os ultramontanos têm a glória de ser descendente daquele povo que ao penetrar numa cidade sitiada não distinguia em seu furor nem a indefesa mulher nem a inocente criança. Os extremos se tocam.

A Internacional Negra e a Internacional Vermelha, ainda que com objetivos opostos, são igualmente temíveis: o triunfo de uma delas seja qual for, por passageiro que fosse, deixaria atrás de si rios de sangue e montanhas de cinzas. Para frustrar seus planos, basta a prudente vigilância dos governos, quando estes são benéficos e justos; mas para destruí-las moralmente e extirpar suas raízes, necessita-se de algo mais, uma propaganda incessante, um trabalho ininterrupto de instrução popular e principalmente uma terceira internacional, a Internacional Cristã, da qual nos ocuparemos no capítulo seguinte.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.