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Capítulo 19 de 47
VIII
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Nicodemos
Damos por terminados nossas Considerações Críticas sobre o cristianismo, tendo procurado nos deter nas mesmas, o mais breve que podíamos sem faltar à clareza na exposição das idéias uma vez que nosso trabalho não tinha outro alcance senão o de servir de introdução à obra "Nicodemos", objetivo principal deste livro e submeter ao veredicto da opinião pública o mesmo para que pudesse o leitor tomar conhecimento, ainda que incompleto, dos fundamentos racionais em que repousa a crença na revelação espiritual e das doutrinas que constituem o código filosófico da escola espiritista; era de temer um veredicto condenatório, que alcançasse tanto o livro como a escola, justificado até certo ponto no conceito errôneo que geralmente se tem do cristianismo espírita, que é o cristianismo racional ou o racionalismo cristão.
Com nossas considerações, o leitor poderá julgar com maior riqueza de antecedentes e datas; e, se bem que não nos constitua surpresa que não hão de faltar no presente litígio juízes apaixonados e severos que apelarão mesmo para a injustiça, conservamos a esperança de que tampouco faltarão espíritos honestos que julguem com independência e imparcialidade, exclusivamente nos méritos do processo. Trata-se de grandes interesses, cuja legitimidade negamos; de toda uma classe social, influente e poderosa, a quem vimos pedir contas de sua influência e poder; de multidões ignorantes e fanáticas, que têm como honra a escravidão da razão e como pecado o abrir dos olhos à luz: nosso livro será, por conseguinte, arma ele iniqüidade para uns, motivo de escândalo para tantos outros e somente para os que têm sede de justiça e de progresso, livro de regeneração e salvação. Haveremos, por isso, de desanimar e retroceder?
Nossa consciência nos grita: Adiante! e sempre adiante! pois o esplendor da verdade cativa os entendimentos, e ao fim de certo tempo, até os próprios mestres do erro acabarão por proclamá-la. “Nicodemos”, cujo mérito, não a nós, mas sim ao publico compete julgar, é uma revelação ou uma comunicação espiritual, obtida por meio da escrita no Círculo Cristão Espiritista de Lérida, o mesmo de onde se obtiveram as páginas inspiradas que se lêem na obra "Roma e o Evangelho". Os originais dos quais tomamos literalmente a revelação de Nicodemos, para entregá-la a critica ilustrada, estão cuidadosamente guardados em nosso poder e à disposição de quem quiser consultá-los: escritos automaticamente em presença de várias pessoas por uma dos componentes do Circulo, não aparece nos mesmos nenhuma correção, emenda ou acréscimo.
Podem dar testemunho de haver assistido a todas ou parte das sessões durante o curso da revelação e presenciado o ato de recebê-la mais de quarenta pessoas, sendo muitas delas homens pertencentes a diferentes cargos no Estado, dados ao cultivo das letras e das ciências e de altíssimo grau de instrução. Suscitavam às vezes dúvidas e animadas controvérsias sobre pontos da revelação no ato de recebê-la, mas logo em seguida as dificuldades eram esclarecidas e as dúvidas desvanecidas pelo espírito, sempre com a correção e fluidez de linguagem e a mesma elevação de conceitos que os outros trechos inspirados: o que teria bastado para apagar toda suspeita de preparação anterior por parte do indivíduo que escrevia e servia de instrumento com sua pena ao ser espiritual.
Há primeira parte de sua inspiração, intitulada "Depois da morte", Nicodemos relata suas impressões logo após ter abandonado a vida terrestre, sua última existência; falam de seus temores, esperanças e propósitos; descreve a paisagem dos mundos superiores e inferiores ao nosso e a paisagem do mundo espiritual com as recompensas e expiações correspondentes aos sentimentos e às obras. A segunda parte, que tem por título "Ao redor da Terra", é um resumo da história da criação terrestre, seja no que se refere ao desenvolvimento do globo, como à aparição e progressivas evoluções da humanidade no transcurso dos tempos até a época do advento de Jesus. A esta segunda parte, adicionamos as revelações do evangelista João, referentes ao movimento e vicissitudes da Igreja desde Jesus até nossos dias, fragmento da luminosa revelação que, subscrita por João e Lamennais, veio à luz nas páginas de "Roma e o Evangelho": deixando dessa maneira completa em linhas gerais a história da humanidade terrestre desde o princípio até hoje.
Pouco a pouco se irá compreendendo que a revelação não é patrocínio exclusivo da casta sacerdotal, mas sim chuva dos céus que fecundam toda as sementes, todas as aspirações de progresso e que é preciso sujeitar ao direito comum os bens espirituais, monopolizados e explorados durante séculos e séculos pelos tiranos da consciência humana, que souberam fazer desses bens espirituais à pedra filosofal de seu domínio e de suas conveniências mundanas. Oh! esse é o Satanismo! essa é a cátedra de Satanás! esse é o Mistério de iniqüidade! clamarão plenos de soberbia e de ira os sacerdotes do erro ao ler as verdades que fazemos chegar aos ouvidos do povo e considerar que constituem uma formidável ameaça à sua influencia e poderio. Não podem acostumar-se à idéia de serem julgados pelas pessoas, homens como os demais, os que devem ao seu falso caráter de semideuses, uma vida prosperam, cheia de deleites e uma influência imerecida. Porém terão de acostumar-se; porque a humanidade os vai conhecendo e se persuadindo de que foi sua vitima e seu joguete.
O reinado de Satanás se acaba: seu nome já não assusta ninguém e todos lhe faltam com o respeito, rindo-se em suas próprias barbas. Quando lemos "O Satanismo" do ex-secretário do pretendente D. Carlos, D. Vicente Manterola, não podemos deixar de admirar o heroísmo do escritor que escreve seriamente sobre um tema, sabendo de antemão que será lido com o sorriso zombeteiro da incredulidade nos lábios. Poderse-ia quase supor que Manterola escreveu para os que não sabem ler, os únicos entre os quais Satanás conserva ainda certo crédito. Amamos a liberdade e o progresso pela Ciência e fraternidade entre os homens, e cremos que contribuímos para o êxito de tão santos ideais com a publicação das revelações cuja continuação encontrará o leitor.
(Fim da primeira parte)
OU
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.