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Capítulo 26 de 47
VIII — parte 4 de 4
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Foi permitido ao meu companheiro assistir a algumas cenas da vida humana no planeta que ultimamente vos fiz conhecer. A nuvem que o circundava adquiria a intervalos certa transparência e, embora confusamente, via os homens e penetrava as suas intenções ocultas. De suas atitudes e pensamentos inferi que estivera recentemente entre aqueles homens e compartilhava das vicissitudes da vida naquele solo. Vi escrito isso com toda a clareza na expressão ele sua alma: havia sido um dos caudilhos daquelas tribos ferozes, ainda mais violento e sanguinário que eles próprios. Morrera ansiosamente nas mãos dos inimigos, as próprias mãos tintas de sangue, nos lábios o inumano sorriso da vingança, rodeado ela multidão de vítimas da sua insaciável crueldade. Continuavam vigorosas em seu espírito as mesmas tendências e paixões da vida corpórea e renasciam com fúria ao presenciar fatos parecidos com os que em outros tempos haviam contribuído para fomentá-las. O desditoso esqueciase de que só vivia em espírito e tomava parte nos ódios e violências que os seus olhos se manifestavam e consumavam.
Em tal estado, procurava eu inspirar-lhe mais suaves e piedosos sentimentos e renovar em sua mente a lembrança amarga do mundo de expiação do qual acabara de sair, mas nem sempre isso bastava pra trazê-lo à senda da regeneração as reminiscências de violentos e luxuriosos hábitos, apagando nele as recordações salutares, absorviamlhe a atividade da alma e dos sentidos. Vinha então a lei em auxílio do infeliz espírito: de novo a obscuridade o aprisionava, conseguindo as trevas o que não haviam podido os meus conselhos e sadias inspirações. O mísero se recobrava e chorava, à sua maneira prometia melhorar. Oh, eficácia misteriosa da lei! Oh, provida. Sabedoria! As trevas - que são - diríamos - uma imperfeição, um lunar da Natureza, servindo ao aperfeiçoamento espiritual e contribuindo para avivar nas almas a chama puríssima do arrependimento, da virtude e do dever! Extasia-se o espírito em cada uma das harmônicas belezas que descobre estudando Deus no universo e no cumprimento de suas leis. Deixamos aquela mansão de iniqüidade e fomos transportados em visita aos outros mundos do sistema.
Este, na ordem de sua elevação e da elevação intelectual e moral das criaturas que o povoam, precede imediatamente o sistema ao qual a Terra pertence. A última de suas moradas, aquela em que prepondera com mais força os apetites impudentes, é a que acabo de submeter ao vosso estudo, lugar que havia sido de expiação e prova do espírito que, a meu lado e sete me perceber, vislumbrava os pavorosos mistérios reservados pela morte aos desobedientes à voz da consciência. Enquanto subíamos e fixávamos o olhar nos demais mundos ela série, notávamos gradativamente maiores progressos nas humanidades que ali fazem o aprendizado de sua liberdade e faculdades espirituais, A concepção de Deus se vai aclarando: vê-se aparecer medrosa a idéia da alma espiritual; ouvem-se palavras de imortalidade e vida eterna; e no mais avantajado daqueles mundos, do qual se descobre na profundidade do firmamento o vosso sol como se fora diminuto luminar, as noções da alma e do Ser Supremo surgem tão modificadas que dão já lugar ao conhecimento das verdades cristãs e à sua prática, tal como eram conhecidas e praticadas entre vós antes da descida de Jesus.
Todos pressentem uma mudança transcendental mas crenças e costumes, alguns mesmo a profetizam e os povos concordam com as palavras e as promessas dos profetas. O solo está preparado para receber a semente e o divino Semeador aguarda o momento mais oportuno para deixá-la cair. Talvez não passe a presente geração antes que as profecias se cumpram e ressoe de um a outro confim a doutrina redentora. Visitamos rapidamente todos aqueles planetas, exceto os que divisamos a grande distância e que presumi seriam, conforme deixo indicado, terras em formação. Impenetrável aos meus olhares curiosos, densa atmosfera as envolvia. Em cada um dos demais planetas pudemos presenciar algum episódio da vida e adivinhar algum ato do pensamento e da vontade de seus respectivos povoadores. O estado de meu companheiro tinha muita analogia e semelhança com o do meu espírito na ascensão aos mundos superiores. Primeiro assombro, depois vergonha, logo mais o arrependimento e os bons propósitos, tais eram as sensações e as resoluções que sucessivamente modifica seu animo a cada nova concessão da providência e da misericórdia da lei.
Ele via acentuar-se a beleza do seu corpo e se esforçava por despojar-se daquela falsa e acusadora beleza: via os homens e, crendo-se visível aos olhos deles, pugnava por ocultar de todos sua vergonha e confusão: via-me a mim e se prostrava humilhado, pedindo-me misericórdia. Nesses casos, eu teria querido estreitá-lo em amoroso abraço e contar-lhe a história de meus antigos delitos e de minhas presentes misérias, mas uma força superior à minha vontade coibia meus desejos e só me era permitido dirigir-lhe uma palavra e um sorriso em que podiam transparecer ao mesmo tempo a severidade, recordando, e a ternura, prometendo. Nem aquele sorriso nem aquela palavra eram meus: a sua inefável expressão e o respeito que de mim se apoderava bem claro me diziam que eram línguas de fogo da inspiração superior. Ao ver-me sorrindo com aquela majestade e falando com aquele poder, o pobre espírito caía confuso e assombrado, vertendo lágrimas e estendendo-me os braços em atitude suplicante.
A seu redor refazia-se a obscuridade e em seu coração o pungente remorso, anunciador das resoluções de virtude; eu deslizava então junto dele como anjo de conselho e de luz; como um irmão mais velho e carinhoso me confundia com ele em abraço fraternal. Desde o instante em que meus olhos descobriram além, no limite do firmamento, o astro a cuja volta gira o vosso pequeno planeta, apoderou-se de mim o mesmo impulso superior que me tinha elevado ás regiões da felicidade e abatido até os infernos das criaturas manchadas do extermínio e do sangue de seus irmãos. Como se o vosso sol exercesse sobre mim sua força de atração, sentia minha vontade arrastada ou dirigida para aquele foco de luz, desejoso de volver aos lugares das minhas derradeiras recordações e imediatas esperanças. Parecia-me que a última separação da Terra, a contar do momento em que a voz misteriosa de invisível espírito me levou a visitar as regiões inferiores, datava de pelo menos um século, tão triste havia sido o caminho ultimamente percorrido em castigo do meu orgulho!
Não obstante, sabereis o tempo empregado desde o princípio da minha descida até o instante em que a vista do sol tornou a alegrar-me o ânimo, abatido pelas dilacerantes visões dos mundos de sofrimento? Menos de oito dias, sim, oito dias conforme a vossa medição do tempo. De nada serve o tempo no mundo espiritual, a não ser para medir a pequenez e as misérias da terra. Na região dos espíritos, se vos elevais, os séculos representam frações de segundo; se desceis e habitais nas trevas, os segundos serão para vossas almas séculos de obscuridade e isolamento. Dirigi o último olhar de despedida aos mundos de violência e luxuria, rogando a Deus que apressasse os tempos das pobres criaturas que ali se revolvem no torvelinho das mais escuras paixões, embrutecidas naquela atmosfera de crassíssima ignorância.
Teria querido levar comigo todos aqueles encarcerados, a fim de que viessem respirar na Terra, para a eles a terra de promissão, - o hálito regenerador da virtude e conceber a idéia salvadora da paternal misericórdia do Altíssimo; eram porém de todo irrealizáveis minhas súplicas e desejos: a justiça da lei ali os retém e só pelo cumprimento da lei podem :ser redimidos e libertados. Adeus, irmãos, tristes irmãos meus! Que vosso sol gire com a celeridade do pensamento; que vossas gerações se sucedam com a rapidez de vossos dias; que o cada novo sol nasça em vosso peito uma virtude e a cada geração um libertador que rompa vossas cadeias e vos conduza em legiões inumeráveis à terra de Canaã, para onde neste instante me dirijo. Adeus!...
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.