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Capítulo 38 de 47
III — parte 3 de 4
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Essas são os ultimas inundações gerais da Terra até hoje e para sempre (1). (1) As inundações de que se fala no final do capitulo anterior. Estenderam-se principalmente pelo ocidente da Ásia, norte da África e o oriente da região hoje conhecida por Europa. Territórios inteiros com seus povoados e cidades ficaram sepultados debaixo das águas. O aspecto geral do globo sofreu notáveis transformações, que deixaram sinais indeléveis, mercê dos quais poderá a Ciência humana retificar grandes erros alimentados pelo egoísmo e causados pela ignorância da história do planeta e das gerações que sucessivamente o povoaram. Desses tempos e desses acontecimentos nasceram às tradições de alguns povos concernentes a uma inundação universal. Tribos inteiras se afogaram, mas as águas não lograram invadir a décima parte dos continentes descobertos. Uma dessas tradições foi a dos caldeus, comum também á dos fenícios, porque nestes povos foi onde o flagelo causou mais vitimas e mais terríveis estragos.
Contava-se que ali, em remotíssimos tempos, uma invasão de águas arrancadas do leito dos mares pela vontade dos deuses e aglomeradas nas nuvens do firmamento mudara o orbe e riscara do livro da vida as corrompidas gerações humanas. Só muito reduzido numero de justos, que encontraram salvação em uma tábua providencialmente enviada pelos emissários do Deus supremo, haviam sobrevivido e foram os pais das nações. Os poetas cantavam a tradicional lenda e assim passava de geração a geração, de povo a povo, embelezada pelo mistério do tempo e pelos rasgos peculiares da imaginação de cada povo. A lenda, que tinha fundo de verdade, correu por grande parte da Ásia e algumas regiões da África e da Europa, se bem cada país a transformasse acomodando-a ao seu caráter e, podemos dizer, à sua especial literatura. Mais adiante, das tradições egípcias tomou-a o historiador hebreu e a escreveu como símbolo na história da geração e vicissitudes de seu povo.
Em conseqüência das revoluções físicas do globo veio a revolução moral das consciências, pela estreita solidariedade que reina entre todas as forças do universo, mercê da qual umas reagem sobre as outras e reciprocamente se completam, obedecendo à lei dos movimentos harmônicos. A memória e as conseqüências do castigo infundiram na mente dos povos a idéia do merecimento pela infração da lei e vira-se brotar, aqui e ali, espíritos em missão que atiravam ao rosto dos homens os seus passados erros e as suas abominações presentes. Considerando-se, em seu isolamento, sem forças para derribar os altares erigidos aos deuses da concupiscência, levantaram sobre esses prostituídos altares um trono ao Deus: Máximo, à Deidade Onipotente, preparando desse modo os tempos em que o Pai dos deuses arrojaria do Olimpo as imagens vis, os mitos impudicos das leviandades humanos, Uma vez convertidos em tributários do Deus da verdade, os deuses da mentira, o tempo e o progresso se encarregaram de os despojar por completo de sua jurisdição usurpada e corruptora influência.
A idéia cristã começava a ser o mistério dos sábios e o desejo dos espíritos fortes. Por isso os sábios se reúnem na obscuridade e se iniciam em seus pressentimentos; por isso os fortes levantam a cerviz e medem com olhos irados a resistência das cadeias que oprimem os fracos. No segredo de sua iniciação escrevem os sábios livros da regeneração, que dão ao povo como recebidos do Deus Máximo, e no convencimento do seu poder meditam os fortes o momento ele libertar o oprimido. A fraude dos sábios é a prudência do irmão maior, que toma o nome do pai de família para evitar os extravios dos irmãos pequeninos. Em verdade, são inspirações da Sabedoria os livros de regeneração e virtude. No entanto, continuam as usurpações, as guerras e a luxuria; a opressão e a escravidão dos homens primitivos. A inteligência sensual e corrompida avassala a ignorância e fála servir os seus próprios desígnios.
Estendem-se o culto idólatra das paixões ao Ocidente e Meio-dia, nas terras que se chamam Europa e África; enquanto nas ilhas e continentes nesse tempo não descobertos brilhava ainda a tranqüila adoração da segunda época do homem, ou dormia este o sono pesado de sua estupidez primitiva, a iniciação se propagava e deitava fundas raízes nas regiões orientais da Ásia. Ali a iniciação se robustece de um pressentimento fecundíssimo, capaz de por si só levantar uma civilização robusta: pressentimento da imortalidade ela alma. Todavia esta fecunda idéia não entra no domínio do vulgo senão depois de alguns séculos, porque os iniciados, adivinhando que poderia perturbar ao invés de levar a luz aos espíritos, guardam-na selada no mistério.
Prossegue aqui e ali a luta ele invasão e opressão da parte de uns, e de resistência e fera vingança da parte de outros, entre os homens de Adão e os descendentes dos velhos povoadores: luta necessária e regeneradora, porque o ódio e a crueldade das tribos selvagens servem à expiação dos moradores da cidade, à cultura e superior inteligência desses ao despertar e ao progresso das condições morais das raças primitivas. Uns são contrapeso e complemento dos outros dentro da harmonia espiritual do universo. É a iniqüidade brutal dos sentidos à frente da iniqüidade cética e positivista do espírito. A primeira se assenhora do mundo e escraviza; a segunda arrasa as cidades e se alimenta ele sangue. Contudo, em resultado definitivo a vitória, e sempre ela inteligência sobre a força e, por conseguinte, das cidades sobre as tribos. Os filhos de Tubalcaim não bastam para fundir o ferro que se necessita para forjar as cadeias com que oprimem aos fortes. Que importa, porém, a escravidão do corpo, se ela é o princípio da emancipação e independência do espírito?
Debaixo das cadeias geme o homem primitivo, mas sua alma aprende a voar nas asas da esperança. Essa luta de raças e aspirações opostas servem grandemente para preparar o fim que presidiu na criação da Terra e na imigração forçada dos espíritos de luz que pela luz haviam delinqüido; a fusão, em uma só família, de todos os povos, realizada pelo trabalho e pelo amor depois da expiação da iniqüidade e da depuração das almas. As primeiras tendências a essa fusão universal vieram amanhecer nas regiões mais orientais do globo; como se o sol dos espíritos devesse seguir o mesmo curso do astro que fecunda com os eflúvios de luz a redondeza do planeta. A iniciação havia nascido no Ocidente da Ásia, mas se estendeu para o Oriente, onde deitou novas e mais profundas raízes. De lá vieram os iniciados e daqui os mestres e doutores da regeneradora iniciação religiosa.
Eram os primeiros, filhos avantajados dos homens do paraíso e um ou outro dos povoadores originais da Terra; mas os segundos, espíritos de missão para impelir a humanidade terrestre ao cumprimento de seus futuros destinos. Os iniciados conceberam a idéia do Deus do bem ao lado do Deus do mal, compartilhando ambos a criação e a direção do mundo e de seus sucessos, e a idéia da imortalidade da alma no seio de Deus, na absorção divina. Os mestres ensinaram a unidade do Grande Princípio e a persistência eterna das almas em si mesmas e em Deus; falaram cia felicidade e origem comum das criaturas, da redenção pelas obras, da preexistência espiritual como sanção da pósexistência, dos anjos e dos demônios. Entre os mestres houve doutores; entre os doutores, messias, e entre os messias, primeiro o Cristo. A Boa Nova do Deus Pai e dos homens filhos de Deus foi pregada por Cristo, nos confins do nascimento do sol.
O Cristo pôs sobre sua cabeça as doutrinas dos mestres e dos messias e as simbolizou em uma só palavra CARIDADE, ponto de partida e termo das virtudes humanas e da revelação, orvalho do céu que desce das conselhos de Deus. O Cristo fugiu da iniqüidade dos seus ao ocidente do tempo, que formavam as multidões; mas a semente da Boa Nova caiu ao solo disposta a germinar um dia em virtude dos trabalhos oportunamente ordenados pelo previdente e sapientíssimo pai de família. Todavia, quem ao sair da escuridão não maldiz a rutilante luz do sol? Por isso maldisseram o Cristo os cegos de seu tempo, que formaram as multidões; mas a semente da Boa Nova caiu ao solo, disposta a germinar dos trabalhos oportunamente ordenados sapientíssimo pai de família. O Cristo fugiu da iniqüidade dos seus, ao ocidente dos seus a oeste do Oriente, onde estabeleceu alguns como mestres de seu Evangelho, voltou ao Oriente e ali ofereceu a vida ao ódio e a ignorância. Morreu para dar virtude à semente e exemplo de virtudes aos mestres do povo.
Sua vinda e pregação eram necessárias: haviam de preparar a vinda e a pregação do Cristo da Galileia, porque os homens tomariam a testamento do primeiro e fariam retos os caminhos do segundo. Os mestres se apoderaram das doutrinas do Cristo para a redenção das almas, mas fizeram sua a redenção e levantaram sobre ela um sacerdócio de conveniência e de raças. Poder-se-ia dizer que haviam recolhido a túnica do grande Mártir e sobre ela deitado sorte, iniciando a época de preponderância e domínio pelo tempo. O Cristo libertara os espíritos, salvando-os da absorção no seio da Divindade; mas us sacerdotes os condenaram de novo a essa absorção, que é a morte da eternidade das almas. O mesmo fizeram os sacerdotes de todos os tempos para impor despoticamente sua influência e interesse, tomando como meio os exageros do fanatismo, que asfixiam o coração e a mente. Sem embargo, a palavra do Enviado não haveria de ser estéril nem para as gerações de seu tempo, nem para as que se iriam sucedendo.
A boa semente penetrou em algumas consciências retas chamadas a transmiti-las aos homens de boa vontade. A árvore, exteriormente seca desde o seu aparecimento, haveria de brotar mais tarde em virtude da riqueza de sua benfazeja seiva e cobrir com sua soberba ramagem toda a redondeza da Terra. Os sacerdotes do Oriente quiseram açambarcar a luz que haviam recebido e retê-la em seus domínios; mas a luz penetrou as trevas e salvou os obstáculos amontoados no egoísmo e no interesse. Atravessou o centro das regiões asiáticas, chegou até à Pérsia e à Caldéia, e seus resplendores ainda alumiaram os egípcios, que os refletiram transformados de religião em filosofia aos confins da Grécia, mais tarde mãe da cultura do mundo (1). (1) Pelo Cristo de que se fala em parágrafos precedentes, entendemos o Crisma das Escrituras e tradições bramânicas.
VI
Abraão - Suas Viagens - Sua Política e Seus Planos. - Isaac e Ismael. - Testamento e Morte de Abraão. - Esaú e Jacó. - Sua Educação e Elevação. Os Filhos de Jacó no Egito
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.