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Capítulo 3 de 47
Considerações Críticas Sôbre o — parte 2 de 2
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Seguiu-se à oração inaugural do Senhor Montero Rios, como reitor da Instituição Livre de Ensino, a do Senhor Moreno Nieto como presidente do Ateneu de Madrid: magnífica jóia literária plena de erudição, salpicada de profundos conceitos, engalanada com aquelas elegâncias de estilo e de linguagem com que costumam cativar a atenção da platéia os mestres da palavra. Ela veio acrescentar ao já vivo interesse com que a consciência pública se entrega ao estudo daquela que podemos chamar a questão das questões, porque encerra este pavoroso problema que traz inquietos todos os ânimos e em cuja solução se agitam todos os povos cristãos tanto do novo como do velho continente.
A questão religiosa é a esfinge de todos os séculos desde o momento em que Jesus rompeu com suas palavras os moldes das antigas crenças; mas, a julgar pelo afã com que a razão humana, sedenta de verdades, se lança em nossos dias na pista de toda investigação luminosa, motivos assaz fundados há para acreditarmos que não passará muito tempo sem que se dissipem as nuvens de trevas morais em que se sente asfixiar a humanidade. Assistimos à agonia de uma instituição humana que haviam julgado divina e eterna a ignorância e o fanatismo, aos últimos momentos de ume fé que tenta resistir ás aspirações do progresso e à batalha decisiva entre a filosofia e o dogma; não queremos assistir como expectadores passivos a este movimento transcendental a esta evolução palingenésica, cuja última etapa será o estabelecimento de um mundo novo banhado por um sol mais esplendoroso, animado de um espírito mais puro, percorrendo caminhos que levam a ideais mais harmônicos.
Sente-se já cruzar as rajadas violentas que varrem os inseguros restas de fé: constituem o prelúdio da tempestade que acumularam pelo espaço de mais de dezesseis séculos, os ventos da intolerância e do erro. Estará destinada a desaparecer dos domínios da razão e da consciência a religião cristã? Se deve desaparecer, que religião ocupará seu lugar? Ou haverá um renascimento religioso cristão? Examinemos as causas que nos trouxeram a esta situação, e relatemos os trâmites e os momentos dessa história cuja última etapa, da maneira como se mostra na hora presente, é quase um desvio completo dos objetivos cristãos. Este o tema escolhido pelo Senhor Moreno Nieto na solene inauguração das cátedras do Ateneu.
Quem não percebe a importância deste tema: Indagar as causas da atual crise religiosa é submeter ao verectito da razão, ao exame analítico da critica, as causas da visível decadência daquela fé que transformou a face do mundo inaugurando a civilização em que vivem ainda todos os países cultos; é também expor à terrível prova as crenças mesmas, de cuja eficácia, se levar em conta o estado moral dos nossos tempos, lícito será duvidar. O século XIX é essencialmente crítico: pergunta, estuda, analisa; tudo submete à razão; sente os efeitos e quer investigar as causas; vê as causas e empenha-se em descobrir ou adivinhar os efeitos. Oh! Quão plausível é esta nobre atividade do entendimento humano! Não revela que o mundo está sedento de verdades? Que condena os erros de uma civilização defeituosa, legado de nossos crédulos antepassados? Eis porque pergunta, estuda e analisa: esta legitima atividade racional distingue nossa época e eleva sua cultura a um nível muito acima das épocas passadas.
As causas cia situação presente, do quarto minguante da fé cristã no horizonte dos povos, partem, no entender do Senhor Moreno Nieto, de todo o movimento dessa época que começa por volta do século XV, em que o espírito humano, já não concordando com os antigos ideais dogmaticamente impostos, se sente inclinado a buscar uma concepção nova, filha de sua própria e livre razão, construindo uma sociedade e realizando uma vida totalmente diferente, em harmonia com as novas aspirações. O primeiro sopro deste vento abrasador, que com o decorrer do tempo convertia em áridos desertos os deleitosos vergéis da Igreja, é a reforma protestante, que, a pretexto de purificar e vivificar o cristianismo, e proclamando a independência de toda consciência individual, o comoveu profundamente. Sua virtude revolucionária havia de franquear o caminho a novos conceitos religiosos e filosóficos e por fim apartar os povos europeus da antiga ordem, do regime tradicional. Logo a seguir amanheceu o Renascimento, tão pouco conforme ao espírito cristão, como se não fosse senão à volta, em certo modo, aos costumes e gostos sensualistas da civilização pagã.
A Europa voltou os olhos ao ideal clássico que os bárbaros haviam afogado em torrentes de sangue romano e se apaixonou por uma civilização alegre, expansiva, livre, que lhe permitia extasiar-se na contemplação da beleza exterior e gozar os prazeres do mundo. Caiu em desuso o misticismo religioso e esqueceu-se a severidade e a pureza do cristianismo primitivo. Por sua vez, o espírito científico começava a manifestarse. Estudando a Natureza e seus fenômenos e leis, selecionava os materiais de um mundo desconhecido, porém vivo, positivo, real, muito diferente do puramente imaginário idealizado pela Teologia e Filosofia escolástica. Surge Copérnico arrancando a Terra do centro do universo, desbaratando com um sopro toda a maquinaria do universo teológico. Colombo, Vasco da Gama e tantos outros numerosos intrépidos navegantes descobrem continentes e famílias humanas no oceano, colocando em situação embaraçosa a tradição bíblica de Adão e Eva como progenitores únicos de toda a linhagem dos homens. Fácil é de se imaginar a carranca, a santa ira dos teólogos, a cada descobrimento que vinha engrandecer as esferas da ciência.
Juntamente com o movimento científico ia-se realizando, embora tímida e lentamente, o movimento filosófico. A princípio, tanto a Filosofia especulativa como as Ciências Naturais quiseram conviver em estreita harmonia com o dogma, e mesmo insurgir-se como seus mais fervorosos defensores; porém esta fraternal aliança havia de ser pouco estável, pois as ciências amam a luz enquanto que o dogma lhe dá as costas. A razão se emancipou da autoridade e o dogmatismo cristão forçosamente passo, para o campo oponente. A impiedade voltairiana e o racionalismo alemão minavam profundamente as crenças. Tais são, no conceito do Senhor Moreno Nieto, as causas da crise religiosa que se iniciou nos fins do século passado e continua cada dia mais profunda: e o que é mais grave é que não consegue vislumbrar uma volta próxima da Filosofia à fé cristã o douto presidente do Ateneu; à fé cristã dos sacramentos, das formas, das indulgências, dos mistérios, dos milagres, dos dogmas, da divindade de Jesus Cristo.
Ao chegar a este ponto de seu discurso, não é o Senhor Moreno Nieto um frio pensador do século em que vivemos; é Jeremias chorando sobre os escombros da Jerusalém cristã. Os caminhos de Sião estão de luto, pois ninguém vai às solenidades; todas as suas portas destruídas, seus sacerdotes gemendo, suas donzelas desalinhadas, e a cidade oprimida de amargura. (1) (1) Lamentações de Jeremias, I. 4. Porém, são em realidade os fatos ligeiramente apontados as causas da crise que torna em nossos dias desassossegadas as consciências? Não teria sido mais lógico e mais imparcialmente crítico, antes de incluir entre aquelas causas a Reforma e o Renascimento, esquadrilhar as origens destes dois grandes eventos e demonstrar que não havia dado motivo e nem tomado parte nos mesmos o cristianismo? Por que o espírito humano ia em busca, dentro do mesmo cristianismo, de um novo conceito religioso? Não pretendia a Reforma que a Igreja oficial se havia desviado do ensino apostólico, desvio que já muitos séculos antes dera margem ao mais terrível dos cismas, à separação da igreja do Oriente?
E Renascimento foi outra coisa senão um protesto vivo contra o ascetismo Claustral, Contra a rigidez e fanatismo de uma civilização cujo belo ideai era o menosprezo das comodidades da vida, o sacrifício dos mais doces sentimentos, o celibato, o isolamento contemplativo em cela solitária, a anulação da vida propriamente humana? O cristianismo naquela época parecia não pensar em outra coisa senão em levantar exércitos de frades, e a Europa, que recusava converter-se num imenso convento, volveram os olhos à civilização clássica e, por uma espécie de legítima reação, buscou na alegria, no prazer, na beleza exterior, o ideal que serviu de contrapeso ao misticismo reinante. E por que as ciências todas, tanto as naturais como as sociais, se desenvolvem e vivem em oposição aos ensinos da Igreja e levam a razão por rumos diferentes dos rumos ortodoxos?
Essa flagrante antinomia, essa lamentável contradição, esse vale intransponível que isola o dogma, enquanto as ciências e a Filosofia se emancipam e abrem ao espírito vastíssimos horizontes, não podei iam ser indícios de que não foram integralmente meditados como deviam, os ensinamentos da Igreja oficial; de que esta houvesse procedido antes com alguma ligeireza proclamando a priori, como verdades indubitáveis, conclusões que necessariamente haviam de pugnar mais adiante com as conclusões da ciência? Isto é o que deveria ter investigado em seu discurso o Senhor Moreno Nieto: deixar bem claro se a responsabilidade desse divórcio havia de pesar inteiramente sobre as ciências, ou se o haviam provocado intemperanças e imprevisões de dogmas inadmissíveis. Afiguram-se nos que o Senhor Moreno Nieto confunde lastimavelmente as coisas, tomando por motivos da enfermidade aquilo que não eram senão sintomas. E dizemos sintomas, aceitando por um momento que haja tal enfermidade, isto é, colocando-nos sob o ponto de vista do Senhor Moreno Nieto.
Ao nosso modo de ver, o movimento filosófico de que se trata é uma evolução necessária do entendimento humano, uma fase mais perfeita de sua atividade e poder, uma declaração de guerra ao dogma oficialmente imposto, incompatível com o progresso e as aspirações do século, para substituí-lo por outras crenças em harmonia com as novas luzes que derramou sobre o mundo a inteligência universal. Seja como for o que não cabe duvidar é que realmente aparecem divorciadas a fé e a Filosofia, mas assim como o presidente do Ateneu culpa a ciência desta separação, que diz ter-se apartado das correntes cristãs, nós culpamos aqueles que desviaram o cristianismo de suas linhas primitivas, das correntes racionais de sua origem, segundo as quais, jamais o movimento científico teria criado obstáculos formais à sua Civilizadora influência. Não foram a Reforma e o Renascimento, nem tampouco o espírito científico e filosófico com seus novos ideais foram os motivos da perturbação, da crise religiosa em que nos encontramos.
A crítica do Senhor Moreno Nieto padece de manifesta parcialidade, conto se tivesse resolvido antecipadamente absolver a Igreja e condenar a Filosofia; pois se assim não fosse, ao mesmo tempo em que fazia a História da Filosofia, teria feito a História da Igreja, a fim de que a opinião pública julgasse tendo em vista os méritos do processo. Não somente a Filosofia mas também o sentimento humano se foi desviando dos derrotistas ortodoxos; e consta que o desvio do sentimento foi que provocou principalmente a atual crise religiosa. A Igreja oficial riu dos filósofos e dos sábios e muitas vezes obrigou-os a calar-se para que não escandalizassem os fiéis, enquanto reinava com ilimitado poder nos Corações; se hoje se lamenta amargamente, se indizível ansiedade a agita, se chama em seu auxílio à intervenção dos poderes do céu e da terra para enfrentar a tempestade que vê surgir no horizonte e sem forças para resistir é porque reconhece que lhe falta o incontrastável apoio das consciências, aquele entusiasmo fervoroso dos povos em que sempre havia consistido a sua pujança.
E por que se separou da ortodoxia o sentimento, por que se extinguiu aquele amor, por que a obediência cega transformou-se em rebeldia, por que do entusiasmo se passou a glacial indiferença? Pelas mesmas causas que forçaram a ciência a emigrar do campo da fé. Tarde ou prematuramente o sentimento acaba por inclinar-se do lado da ciência; e se o vemos alimentar-se de superstições e ilusões é somente enquanto o entendimento as considera realidades. O Senhor Moreno Nieto deixou intacta a questão que desenvolve no princípio de seu discurso. Promete remontarse às origens, às causas, a gênesis, por assim dizer, da atual crise religiosa; porém, não chega ao prometido, cingindo-se a explicar o êxodo do espírito cientifico, sua emancipação da servidão do dogma, não sabemos se para ir em busca da verdade, ou voltar arrependido à escravidão primeira. Oh! o tema era espinhoso e o presidente do Ateneu terá julgado que não era necessário lastimar-se removendo os espinhos.
Removamo-los nós, pois que estamos acostumados a penetrar nesse gênero de questões, sem temores nem complacências e sem temer os reiterados golpes com que o farisaísmo nos atinge como castigo pela rude sinceridade que inspira nossos escritos. (1) (1) Como castigo por haver publicado o livro Roma e o Evangelho e por causa das doutrinas religiosas que sustentamos na Revista Mensal de Ciências e Moral Cristã que, sob nossa direção e com o título de O Bom Sentido, saiu publicada na cidade de Lérida fomos destituídos do cargo de segundo professor da Escola Normal da mencionada cidade. Por que os caminhos de Sião estão de luto? Por que ninguém mais vai às suas solenidades? Por que a ciência e o sentimento se afastam cada dia mais da Igreja? Por que o espírito humano aspira mover-se por suas próprias virtudes e substituir com novos ideais os antigos?
Em suma: Quais são as causas que nos trouxeram a presente situação, à saudável crise religiosa que atravessamos e cujo término aguardam com temor os que não sabem ou não querem compreender que essas crises são necessárias para a purificação do ambiente moral que a humanidade respira? Preciso é fechar os olhos, para não ver que uma daquelas causas, a principal sem dúvida, foi o afã dogmatista que se apoderou da Igreja desde que o cristianismo começou a perder seu primitivo caráter de religião puramente espiritual para confundir-se com o número das religiões positivas. Cristo havia reunido todos os seus ensinamentos em Deus, pai, e na alma humana imperecível, filha de Deus; na adoração em espírito e em verdade e no amor ao próximo, que é o sentimento de confraternidade entre as almas.
Muito embora a consciência humana jamais se tivesse rebelado contra estes princípios racionais, proclamados por Jesus e superioras aos profetas e à lei, a Igreja, a oficial, a hierárquica, julgou-os ou pareceu julgá-los insuficientes para a salvação e entendeu de multiplicar os mandamentos e promulgar dogma sobre dogma. A ciência e o sentimento que nada viam de censurável no primitivo ideal cristão, tiveram infelizmente muito que combater e censurar nas sucessivas adições. Meu reino não é deste mundo, havia dito Jesus, condenando com estas palavras, por tantos séculos esquecidas, toda a intromissão do poder espiritual nos negócios temporais. E não obstante foram aparecendo desde o princípio como que germes de mundanos apetites na hierarquia eclesiástica, cujas ambições não podiam alimentar-se senão ultrapassando os limites do reino espiritual ele Jesus Cristo. Se aqueles apetites aumentaram, se aquelas ambições se contentaram com outra coisa que não fosse o domínio da Terra, sabem-no bem todos aqueles que têm algum conhecimento da História da Igreja.
O poder eclesiástico invadiu os domamos do poder civil, fazendo-se superior a este último no governo dos povos e o vigário de Cristo empunhou, além das chaves e do bastão do pescador, o cetro e a espada dos Césares. No entanto, a consciência humana se refugiava em si mesma e o espírito filosófico reunia meios de destruir o que o erro e a ambição edificavam. Não voltemos as nossas vistas àquelas tumultuosas eleições em que a proclamação do Pontífice custa torrentes de sangue; tampouco àquelas outras em que a simonia e a corrupção, no dizer dos historiadores, desempenham o principal papel, não falemos também de eleições duplas e tríplices em que os agraciados se disputa a mão armada o triunfo definitivo. Recordaremos as veleidades políticas dos pontífices reis, suas alianças defensivas e ofensivas, sua participação nas guerras? Será necessário dizermos que todas estas coisas tiveram sobre as consciências uma grande influência, predispondo-as a sacudir um jugo que se torna cada vez mais pesado?
Vieram às guerras religiosas a os espíritos íntegros angustiosamente perguntavam; Será possível que a religião arme o braço do homem contra o homem, do irmão contra o irmão, de um povo contra outro povo? Pode o sentimento de caridade compactuar com o derramamento de sangue? É concebível que Deus possa comprazer-se em que seu nome seja invocado nos momentos mais árduos da disputa, quando o ódio ferve nas entranhas de desumanos combatentes? Será a guerra outra coisa senão o fratricídio organizado? Não mandou Jesus que Pedro embainhasse a espada? Não haveria religião onde não haja paz?...E as guerras religiosas aumentavam o vazio em torno da ortodoxia. Deus é espírito e quer que os que a adoram, o adorem em espírito e verdade; esta é a adoração evangélica e a única que a Filosofia e a consciência humana podem reconhecer como fundamento da verdade em religião. A adoração externa e o formalismo não procedem do cristianismo, pois são vulneráveis e transitórios.
Estabelecer como essenciais para a salvação das almas os gestos e cerimônias exteriores é, ao mesmo tempo, corrigir e alterar o Evangelho, expor o dogma às agressões do bom sentido e ao desvio do sentimento. Dizia Paulo que a circuncisão da carne nada era, mas que a circuncisão do espírito é tudo; não obstante, alcançamos tais tempos, bem o sabe o Senhor Moreno Nieto, em que a circuncisão da carne constitui o mandamento mais importante do código religioso. Passemos por alto o fausto dos ministros do culto, tão terminantemente condenado por Jesus, que proibia aos seus Apóstolos possuir duas túnicas, possuir dinheiro, carregar provisões e que não teve em sua morte onde reclinar a cabeça: não ressuscitemos aquela máxima pela qual se preceitua dar graciosamente o que graciosamente se recebe, para aplicá-lo ao apostolado de nosso século e comparar um cristianismo com outro. Há necessidade de mencionar estes contrastes, se os tem presente todo aquele que sabe ler; se qualquer pessoa medianantente instruída ignora que muito contribuíram para a decadência da fé?
E a intolerância religiosa, sancionou-a porventura Jesus com a palavra ou com os atos? Servia-se do braço secular, dos homens de armas, para obrigar as multidões a segui-lo? Fez derramar sequer uma grita de sangue alheio por sua causa, ou verteu generosamente a sua pela salvação de todos? Incendiou ou mandou acender alguma fogueira para destruir as heresias tirando a vida aos hereges? Não; nada disso fez Jesus; o cristianismo é precisamente todo o contrário: a liberdade, a caridade, o amor, o perdão, as obras da misericórdia. Nada de ódios, nada de vinganças, nada de tormentos. E o espírito filosófico e a consciência humana afastaram-se com horror daquele outro espírito que, intitulando-se cristão, havia instituído o tormento corporal e as fogueiras da fé para convencer aos desventurados que se permitissem manifestar alguma dúvida com respeito aos axiomas da Igreja. Estas, exatamente estas, as causas verdadeiras a que se deve a presente crise religiosa, uma das mais transcendentais que registrará a História da humanidade terrestre.
Pecado grande cometeu Jerusalém; por isto foi feita instável todos os que a glorificavam a desprezarão, porque verão sua ignomínia. (1) (1) Lamentações de Jeremias I. 8. Como culpar a Filosofia, como culpar a consciência submetida ao crisol depurador do Santo Oficio? Seríamos sequer homens? Eram-no acaso aqueles seres degradados que denunciavam ante a Inquisição os seus amigos, os seus familiares, talvez o pai, a mãe, a esposa, por uma suspeita de heresia? Oh! e aqueles tempos são evocados como os do apogeu da Igreja, como a época mais esplendorosa da fé! Por que o Senhor Moreno Nieto, nada disso mencionou no Ateneu, em seu discurso inaugural? Apesar de tudo, nós não tememos que desapareça dos domínios da razão e da consciência a religião cristã; cremos, ao contrário, que prevalecerá sobre todos os cultos, porque é a única religião do dever e da fraternidade universal.
Diga o que quiser o Senhor Moreno Nieto, o movimento que se leva a cabo aos nossos olhos não é um desvio completo do divino cristão; é antes um desvio das absurdas crenças acrescentadas depois de Jesus ao cristianismo puro. A indiferença e a incredulidade de hoje constituem a ponte entre as crenças dogmáticas do passado e as crenças racionais do porvir, que a ciência fecundará com seus eflúvios benéficos. Não é ela luminosa irradiação dessa inteligência suprema que palpita em todas as harmonias do universo, em todas as leis naturais? Fortalecerá a tempestade: o movimento das ondas varrerá a coberta da nave de Cristo; será necessário arrojar o pesado lastro do erro, do orgulho, das superstições, do mercantilismo religioso, da hipocrisia, da intolerância; porém a calma se restabelecerá, e a nave singrará vitoriosa e ligeira as ásperas águas do oceano (2). (2) O Senhor Moreno Nieto, como o Senhor Montero Rios pertencem a essa escola conhecida pelo nome de catolicismo liberal, que pretende em vão aliar o catolicismo histórico ao espírito moderno.
Os católicos liberais perseguem algo impossível, para não dizer absurdo pois, para a realização de tão monstruosa aliança, o catolicismo haveria de renunciar a quase todos os seus dogmas e deixar de significar o que sempre significou. Com seu ecletismo não logram senão fazerem-se suspeitos aos liberais e repulsivos aos genuínos católicos históricos, que são os ultramontanos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.