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Capítulo 21 de 47
III
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
A Terra e a Humanidade Terrestre ante o Espírito
De repente cessou a impetuosidade de minha carreira à vista de um pequeno globo que vagava perdido nos abismos do espaço, pequeníssimo, invisível fragmento do universo infinito. E aquele diminuto átomo me atraía em meio à imensidade e me sentia ir de encontro a ele vagarosamente, mas impelido por uma força desconhecida e ao mesmo tempo atraído por uma misteriosa simpatia, Cheguei e vi que aquele insignificante globo era a Terra, sim, a orgulhosa Terra, a rainha dos mundos, o jardim das complacências do Altíssimo!... Oh! orgulho dos homens! Ignoro o tempo que levei em minha viagem ao redor de um torvelinho de brilhantes e majestosos mundos, os quais faziam com que se me apagasse por completamente qualquer lembrança da Terra. Lembro-me apenas e procurarei não esquecer, pois será o ponto de partida de minhas futuras investigações: é que, retornando a Terra, a vi tão pequena e tão pequeno o homem que a habita, que fiquei envergonhado e cheguei mesmo a temer que Deus pudesse vir a nos esquecer, tal a nossa pequenez.
Acabava de assistir a um espetáculo inimaginável para os homens, por sua inefável grandeza e assombrosa majestade. No curso de minha miserável existência terrena rechacei a idéia de outros mundos habitáveis e habitados por criaturas racionais, pondo orgulhosamente limites à prepotência e condensando toda a glória da Sabedoria na microscópica humanidade que se agita sobre a superfície do planeta. Havia lido alguns dos alemães, franceses e meus compatriotas acerca da realidade de outros mundos e famílias humanas além da nossa humanidade e de nosso mundo; porém reputei aquelas afirmações como loucuras concebidas dentro da soberbia dos homens, sem jamais pensar que a soberbia pudesse estar, isto sim, em meu egoísta exclusivismo. Pois bem: aquelas loucuras são a verdade da Natureza.
Tiveram razão àqueles filósofos antigos que pressentiram a verdadeira criação científica, a imensa criação digna do Ser dos seres, e fixaram os primeiros olhares para o descobrimento final da verdade, e razão tinham meus contemporâneos de um e outro lado dos Alpes ao afirmar que a Terra não é senão um ponto da etapa no caminho da peregrinação das almas e o conjunto de seus fugazes moradores uma pequeníssima fração, o átomo, se assim me for permitido expressar, da família universal, expressão a mais sublime, infinita, talvez, do pensamento de Deus. Ante a rápida e inesperada contemplação, quase inconsciente, das maravilhas universais, senti-me confundido e humilhado.
Porque não hei de vos dizer a verdade? linha presunçosa ciência se referia inteiramente à Tenra e às suas criaturas e agora verifico que esta Terra é uma miserável ilhota, separada do continente da felicidade e da paz, lugar de expiação e de desterro onde não se respiram nem as balsâmicas auras do amor puro, nem sc percebem os suaves conceitos da sabedoria, nem brilham os raios da luz da verdade, nem caem às benéficas chuvas da esperança e da fé. E choro por meu orgulho, e pelo orgulho que contribuí para cimentar entre os desterrados da Terra. E choro por minha Ciência, e pela Ciência que pretende ser absoluta dentro do relativo e da sucessão, não sendo senão ignorância e vaidade. E choro por minha religião e pela religião dos homens que erguem altares ao seu egoísmo, e deificando seus semelhantes se separam cada dia mais da adoração ao Ser supremo.
E choro, por último, porque vi de certa forma e até certo ponto a escala divina do progresso e eu, e vós todos da Terra, estamos ainda no principio do principio. O homem ignora de onde vem e não sabe para onde vai. Seu horizonte visível é tão limitado e circunscrito, que só consegue dele se afastar a altitudes ínfimas e em prazos de tempo mínimos. Presume conhecer seu passado retrocedendo alguns séculos e estudando os seres que o rodeiam e o acompanham em sua presente morada e crê adivinhar seu futuro fixando sua consideração na beleza que seu sentimento concebe, no último término de seus desejos humanos ou no mais afastado e luminoso dos mundos que embelezam seu próximo firmamento. Ai? isto não é senão o presente do homem. Onde está a sua origem? Qual a última palavra de seus destinos futuros? Este é o mistério das criaturas e o segredo de Deus, segredo do qual os homens descobrirão sucessivamente, através do estudo e da virtude, alguns rasos sem contudo chegar jamais ao fundo na sucessão interminável dos tempos.
Entre o presente do homem e sua origem de um lado e seu destino de outro, há dois abismos aos quais não poderá nunca chegar. De um e outro lado o limite da matéria conhecida; de um e outro lado o desconhecimento, atrevome a dizer completo e absoluto, da substância espiritual. É indubitável que o homem, em cada uma de suas evoluções, alarga o horizonte visível de seu espírito; que quanto maiores forem seu aperfeiçoamento e sua pureza, mais dominará e mais esclarecimento obterá pelas vias de seu porvir e de seu passado, mais claro é o seu pressentimento daquilo que será e mais extensa e fiel sua intuição daquilo que foi; porém, daí ao perfeito conhecimento de seu ponto de partida e do término de sua viagem, há a mesma distância, em meu entender, da que do finito ao infinito.
IV
O Despertar das Almas
Quisera descrever-vos com toda fidelidade as misérias e grandezas que presenciou meu espírito em sua rápida e forçada viagem ao redor dos mundos de peregrinação das almas; porém não entendereis minhas palavras e as vossas apenas bastam para a descrição de uma pequeníssima parte e de um limitadíssimo número dos fatos e fenômenos que a Natureza, que é o verbo de Deus e filha de sua sabedoria, oferece um perpétuo espetáculo aos seres inteligentes. Algo hei de vos dizer, não obstante, ainda que de maneira incompleta, acomodada à vossa expressão e discursos, algo por onde possais adivinhar e pressentir a marcha e o desenvolvimento da humanidade nos misteriosos seios do universo e a atração de amor com que todas os seres de luz são solicitados para a Causa Universal. Mas devo advertir-vos de que não haveis de considerar minhas palavras senão como leves traços de verdades que, se podeis pressentir, não é conveniente nem justo que saibais.
Podeis sabê-las quando chegar à hora de vosso desprendimento e o despertar de vosso sonho; porém as sabereis como eu, para tornar a esquecê-las até que justifiqueis e justifiquemos todos a recordação, através dos méritos contraídos na luta das provas. Que título nos assiste para recordar na série de nossas almas, que título nos assiste para recordar verdades que a miséria nos permite contemplar, mas cuja posse não é devida nem à nossa virtude nem ao nosso estudo? A alma conserva perpetuamente a ciência e o sentimento que são fruto de sua iniciativa e liberdade, mas não os sentimentos e ciência que vêm, para estimulá-la, da bondade inesgotável de Deus. Meditai bem sobre este ponto, se quereis explicar, de um modo mui satisfatório algumas das leis da suprema justiça ainda não muitas bem compreendidas pelos homens.
Entre o instante que o homem adormece na Terra e o seu despertar no mundo espiritual, a duração desse espaço de tempo é mais ou menos longa segundo as condições e qualidades do espírito e o gênero de morte que ocasionou o desenlace ou separação definitiva. Nesse intervalo de transição, curto para uns, difícil e laborioso para outros, o espírito perde a consciência de si mesmo por completo ou conserva no máximo umas levíssimas reminiscências espirituais, estados parecidos àquele de quem desperta lentamente ou recobra pouco a pouco o uso dos sentidos, perdido em virtude de um destes acidentes tão comuns entre os seres mortais. Quão temível é o fim dessa transição, o despertar subseqüente ao sonho que vós chamais morte! O frio, a dúvida, o temor, a recordação sucessiva de todas as faltas voluntárias da vida corporal, vão penetrando e ocupando o ânimo, oferecendo ao espírito sua própria imagem em contemplação, imagem nua de todo véu que pudesse ocultar a mais ligeira mancha, a menor deformidade.
Que fará o espírito na presença de si mesmo e nada mais do que de si mesmo? Se pretende cerrar os olhos, impossível! porque os olhos do espírito na vida espiritual jamais se fecham. Se pretende ouvir, em vão! Está só na imensidão e na imensidão como é possível ouvir? Sua imagem, sua acusadora imagem o persegue. A imensidão é um espelho puríssimo e todos seus atos voluntários se reproduzem ali, naquele espelho fiel, para acusá-lo ou consolá-lo. Não, não é possível o esquecimento nem a miserável fuga ao despertar na região das almas: o espírito, na presença de si mesmo, vêse forçado a contemplar-se, primeiro para se reconhecer e depois para sofrer ou gozar até sua futura prova ou próxima elevação.
Em torno do meu cadáver - Os afetos da Terra
Vós desejaríeis uma descrição detalhada de quanto, desde o meu despertar, presenciei e admirei mas eu não vos posso dizer senão aquilo que, sem satisfazer de todo vossa curiosa expectativa nem vos infundir uma certeza invencível das coisas da vida das almas, possa no entanto, com este pequeno relato, despertar vosso entendimento pela dúvida e o estudo e fortalecer a vacilante virtude. Não está tão longe o dia de vossa realidade e certeza. Então recordareis minhas palavras com complacência se em virtude delas tiverdes realizado algum bem, ou com angustia se não tiver deixado em vosso espírito algum sinal de caridade. Duvidai em tempo, porque a Terra é lugar de expiação e prova pela dúvida e nesta principia o mérito das ações humanas; mas em meio às dúvidas que continuamente vos assaltam para arrefecer os sentimentos do espírito, procurai inspirar vossas obras e juízos na bondade para com as criaturas e na gratidão e adoração ao ser que é a Providência e o Pai do universo.
Ao despertar e me reconhecer, irmão meus, o que primeiramente me revelou a continuação de minha consciência foi à visão do invólucro material dentro do qual havia peregrinado pela Terra. A presença de meu corpo inerte, sem luz, sem movimento, sem vida, e que não obstante recebia honrarias que mesmo em vida não merecia, me causara uma terrível repugnância, uma sensação tão repulsiva, que teria fugido do mesmo não fosse ter-me retido uma força mais poderosa que minha vontade, isto é, um vínculo que ligava ainda minha alma aqueles restos corrompidos. Ao mesmo tempo me observava a mim mesmo e via-me com assombro dono de outro corpo jovem e lépido, muito parecido na forma àquele do qual acabava de sair. Tudo era para mim surpresa e estupor. Fechava os olhos e continuava enxergando. Parecia voar e não obstante continuava no mesmo lugar, testemunha de meus pensamentos posteriores. Entravam para ver meu cadáver alguns dos que me haviam manifestado sentimentos de amizade e poucos saíam com o coração oprimido, para não dizer, cheios de temor.
Então conheci o quanto valem os homens e quanta hipocrisia pode esconder-se sob uma aparente devoção religiosa de piedade. Muitos acompanhavam meus restos, porém pouquíssimos seguiam em espírito o companheiro ou o amigo. E aquela solidão espiritual castigava duramente, embora merecidamente, minhas soberbas pretensões. Pude, afinal, desprender-me completamente de minhas carnes e deixar a companhia dos que estavam impacientes e desejando que terminassem logo as cerimônias que os obrigava a acompanhar meu corpo. Concedia-se-me a liberdade necessária para sair de lá, e dirigir-me a todos os meus conhecidos e amigos da Terra, a fim de que fizesse reflexões sobre o valor e verdade dos afetos dos homens; e usando daquela liberdade recorri aos lugares cujas amizades e carinhosas manifestações em meu favor me atraíam no curso de minha existência terrestre. Quantos desenganos, irmãos meus! Como caíram uma a uma ao sopro da realidade sem máscara nem véu as ilusões de meu orgulho!
Então verifiquei que as amizades eram, com raríssimas exceções, a mentira do amor e as simpatias à moeda falsa da caridade e que tudo isso tem principalmente seu assento no mesmo lugar ocupado pelo interesse e pelo egoísmo. Meus amigos o haviam sido mais por apego a si próprios do que pelo bem que a sua amizade pudesse fazerme. Em tudo isto vi, não obstante, o cumprimento de uma grande lei de justiça: a suma dos amores humanas que refluíam sobre mim, era igual, perfeitamente igual ao amor que eu havia professado pelos demais. E então chorei pelos meus desenganos e pela miséria de meus sentimentos amorosos. Ansiava partir daqueles lugares acusadores, testemunhas de minha presunção e egoísmo e do egoísmo e presunção de tantos outros. Desejava emancipar-me e fugir daqueles sítios, em que a hipocrisia e a falsidade imperavam nos ânimos e dirigiam os costumes.
Via o coração alheio e tinha meu próprio coração ante os olhos do meu espírito: e mesmo sem ignorar que os homens não podiam já ler o segredo de meus sentimentos, a vergonha tomava conta de mim. Estava só, apenas só com minha consciência! Eu a ninguém via ao meu redor; sentia-me, isto sim, confundido e arrasado, nem mais nem menos; sobre meus erros e impurezas caia o olhar de inumeráveis criaturas inteligentes e puríssimas. Foge, foge de ti! gritava-me o remorso; porém, ao fugir, a mesmo remorso me reproduzia pela centésima vez o quadro de meus erros. Mas não estava na lei que aquele tormento fosse eterno. Formou-se pouco a pouco em torno de mim como que uma nuvem tênue, que começando por ser transparente acabou por deixar-me numa obscuridade quase completa. Esta obscuridade foi de curta duração; talvez não tenha chegado a cinco de vossos minutos. Paulatinamente também se dissolveu e desapareceu a nuvem que me envolvia, vendome de novo livre das trevas e envolto agradavelmente na luz do universo. Porém, oh assombro!
Oh, admiração minha! quando me julgava na mais perfeita imobilidade durante aquele intervalo de absoluto isolamento, verifiquei, ao dissolver-se a nuvem, que me encontrava a uma distância incalculável daquele que acabava de ser o lugar de expiação e castigo de meu orgulha e sentimento de egoísmo. Não apenas me havia alijado sem o sentir de meus amigos e daquelas pessoas de quem em vida recebera manifestações de afeto, mas também a mesma Terra havia desaparecido, sem que pudesse conhecê-la nem adivinhá-la em nenhum dos infinitos pontos luminosos que cintilavam na profundidade e em todas as direções. Então foi quando me senti terror naquela solidão e pela vertiginosa rapidez involuntária viagem. Julgava-me seguro, vos havia dito. condenado àquele movimento, àquela vertigem, aquela impotente solidão!
VI
Mundos Regeneradores - Corpo Espiritual - Harmonias de Luz
Sabeis a velocidade com que anda a luz de vosso sol, desse pequeno astro que aparece a vossos olhos como o pai dos astros? Pois essa velocidade é nada em comparação à que voava eu através dos insondáveis espaços. Não voava, vagava no éter, de uma maneira que não sei explicar nem vós a saberíeis compreender. Transportava-me de um a outro ponto com a medida do pensamento e da vontade, porém de ama vontade inconsciente, fatal. Eu queria, mas não se me ocultava que meu querer era o resultado de uma vontade superior à minha. Minha atividade, tanto mecânica como moral, não era conseqüência de meu arbítrio espontâneo; era sim, efeito do cumprimento da mais formosa das leis, a lei dos concertos harmônicos da misericórdia de Deus. Recorri e visitei em primeiro lugar uma série, um sistema de mundos progressivamente mais afortunados do que a Terra, com a qual têm muitos pontos de analogia e semelhança constituindo num mesmo grau um mesmo elo da cadeia dos mundos e do progresso das humanidades.
Estas moradas estão todas à vossa vista, à vossa vista aquela em que habitais. Seus moradores se diferenciam pouco de vós no que se refere ao organismo e às condições com que nos mesmos a vida se manifesta e as formas de que se revestem. Alguma formosura maior nos corpos e certa perfeição superior nos sentidos os distinguem; porém não há diferença essencial que os diferenciem de vós. Quanto à sua cultura espiritual e desenvolvimento de sua inteligência e sentimento, eu vos direi assim como está que o roubo, a mentira e o crime são apenas conhecidos naquele que ocupa o ponto culminante da série. Neste último, os homens que entre vós constituem exceção por seu saber e virtudes, formam a imensa maioria, carecendo mesmo de leis escritas e de códigos para o bemestar dentro do regime social, pois os mesmos não lhes são necessários. A escrita não tem ali outra aplicação senão a cultura das ciências, generalizadas em todas as classes, se é assim que podemos denominar as diferentes e harmoniosas hierarquias naquele mundo estabelecidas.
Não sei se me compreendereis ou se saberei expressar meu pensamento. A cada ascensão meu corpo espiritual se modificava e se transformava, tornando-se diáfano e ganhando em beleza e esplendor; porém estas modificações, longe de comprazer-me e proporcionar bem-estar, constituíam para minha alma motivo de sofrimento e de vergonha; toda aquela beleza exterior correspondia a uma pureza e virtude interiores de que carecia meu espírito, representada pelo remorso e pela lembrança da grande distância que havia entre aquilo que sou e o que poderia ter sido com alguns esforços de adoração e amor. Imaginai o que se passará no intimo de um miserável escravo quando, tendo que chegar à presença de um príncipe da Terra, cobrem seu corpo com tecidos e roupagens estranhos a suas condições e caráter e tereis então uma leve idéia de meu aturdimento. Eu não era escravo por minha pobreza de méritos e virtudes; porém, chamado a visitarem moradas de magnificência e de luz, não me era permitido fazê-lo senão vestido de boda.
A roupagem não era adequada, mas era devida simplesmente à infinita bondade do Senhor, que me havia chamado para vislumbrar aquelas suntuosas e maravilhosas harmonias. A beleza de meu corpo espiritual, da mesma forma que minha confusão e vergonha aumentavam cada vez mais conforme visitava outras moradas mais venturosas, das quais vos falarei se me for permitido, no curso de minhas revelações. Quanto maiores eram a claridade e a formosura de meu corpo, mais contrastava a fealdade das misérias de meu espírito. Bem que teria desejado ocultar a meus olhos e a minha consciência aquele esplendor imerecido emprestado, e aos olhos das bem-aventuradas criaturas que parecia sentir pousado sobre a minha pessoa; mas a minha vontade era vã e não podia velar aquela luz nem me subtrair às justas censuras que suscitava meu passado. n medida que me elevava, mais humilhado e abatido me sentia. Era um desgraçado no seio da felicidade; uma ave que bate suas asas numa região pura e tranqüila, mas levando cravada em suas entranhas uma flecha cruel.
A luz que inunda os montes e planícies dos mundos que ligeiramente descrevi é muito mais pura que a do sol que alegra vossos olhos e faz brotar o consolo e a esperança em vosso ânimo. Ao lado daquela luz, a de vosso mundo é treva, e a dos mundos imediatamente superiores, pálidos crepúsculos precursores da aurora. Oh, que harmonias, Deus meu, Pai, Rei e Autor da beleza, da harmonia universal! A luz que dá colorido e vivifica os corpos guarda sempre perfeita conformidade e paralelismo com a que emana das almas por reflexo daquela que nasce da virtude do Altíssimo. A de vosso sol corresponde à luz espiritual que a Terra irradia no seio da criação inteligente e a que ilumina as aprazíveis regiões onde habitam os seres que pela virtude resplandecem, guarda encantadora semelhança com a que desprendem o pensamento e a vontade daqueles ditosos seres. Por isso os espíritos puros chamam a Terra de mundo das trevas e vós com toda propriedade, mundos e espíritos de luz às moradas dos espíritos puros e seus felizes moradores. Meu Deus, meu Pai e Pai de meus irmãos!
Eu vi um formosíssimo clarão de vosso inefável amor. Ouvi hinos de adoração e cânticos de caridade, suaves como o beijo da virtude e doces como o divino fruto que pressinto na mesa celestial dos espíritos perfeitos, que são por seus merecimentos vossos filhos primogênitos. Ao ver e ouvir aqueles suavíssimos concertos, sofria e sofria de uma maneira imponderável, porque o remorso me lançava ao rosto minhas impurezas e meu egoísmo. Não obstante, graças, meu Deus! graças ainda pelo mesmo remorso que veio despertar meus tardios propósitos! Bem sei que não é minha aquela felicidade vislumbrada e que passarão talvez séculos e séculos antes que minha alma a conquiste; porém sei também que chegará o dia de minha elevação quando serei também admitido à mesa das bodas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.