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Capítulo 23 de 47
VIII — parte 1 de 4
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Porta Coeli - Hei de Nascer de Novo!...
Com amargura deixei aqueles afortunados lugares e agindo em mim a mesma força oculta que me vinha dominando desde o instante de minha morte, fui transportado e levado a regiões mais luminosas ainda, aonde meu corpo espiritual ia progressivamente adquirindo uma beleza e um resplendor que me deslumbravam e me aturdiam. Era uma vastíssima extensão, vastíssima dentro do infinito universo, envolta à direita e à esquerda e em todos os sentidos, de fulgurantes estrelas, cuja luz possuía as mais belas nuances de cores, que em mim penetrava como um calor de felicidade espiritual, de inefável bem-aventurança. Percebi que me achava na senda que guia ao ansiado Templo da felicidade imortal, na Cidade Santa, morada e assento perpétuo dos espíritos definitivamente vencedores. Eu buscava seres viventes que desejava envolver na atmosfera de luz de amor que de mim se desprendia, porém estava só? e a ninguém conseguia comunicar aquele amor, que não era meu, como não eram minhas a luz e a beleza de meu corpo, mas sim reflexo de luz, da beleza e do amor daqueles santos lugares. E isto era para mim remorso e tortura.
Uma arrebatadora harmonia acariciava todo o meu ser e em mim se produziam os ecos de mil vozes angélicas, melodias indefiníveis pela sua suavidade, hinos de adoração, de felicidade e amor, música puríssima que suavemente ressoa no atrium da celestial Jerusalém, coros inefáveis com que são recebidos nas portas da cidade os espíritos que cingem o laurel e ostentam a sua direita à palma do triunfo sobre as concupiscências humanas e na medida que meus pés deslizavam através daquela venturosa região, senda das quase divinas fruições e me aproximava do santuário da caridade e do pai, aumentava a formosura dos sóis, eram mais suaves às brisas, mais puros e agradáveis os aromas, e se tornavam mais claros e distintos os sons da música executada pelos filhos prediletos do Altíssimo. Aquilo era uma torrente de harmonias, um oceano de felicidade e de santo amor. Vi, por fim, bem ao longe, uni grupo de nuvens de neve e ouro, que ocultavam aos meus olhos a porta do sagrado recinto dos mistérios, guardada pela verdade e pela virtude.
Como vos descrever a majestade e a beleza daquela visão? Compreendi que não me era permitido ir mais adiante. Um pressentimento singular, uma indecifrável simpatia atraia para aquela direção os olhos de minha alma. Foi quando ouvi uma voz conhecida, e uni rosto divinamente perfeito apareceu. "JA O SABES - disse-me a majestosa voz: - NINGUÉM PODE ENTRAR NO REINO DE DEUS, SENÃO AQUELE QUE NÃO NASCER DE NOVO. LEMBRAS-TE DE MINHAS PALAVRAS? Era Jesus. Caí absorto e deslumbrado no próprio pórtico do templo da felicidade imortal. A fortíssima luz que irradiava o divino semblante do Mestre me havia cevado e em vão pretendera meu espírito ver outra coisa sue não fossem seus erros passados e seus extravios e rebeldias. É preciso nascer outra vez: estas palavras pesavam sobre minha alma e eram ao mesmo tempo seu remorso e sua esperança. Dezoito séculos haviam transcorrido desde que as ouvira dos lábios do Salvador e em espírito me havia rebelado então contra o renascimento, sendo mestre em Israel e mais recentemente sendo mestre nos conselhos infalíveis dos pontífices.
A pertinaz rebelião de minhas pretensões orgulhosas e de minha soberbia fez com que me perdesse primeiro em Israel e depois em Roma. Naquela julguei torpemente que os doutores e sábios da Escritura haveriam de ser depois da morte os preferidos e os íntimos do Deus de Judá e da casa de David; nesta eu me havia considerado tão acima do vulgo dos mortais que me julgava com direito de sentar-me com os Apóstolos e Jesus à direita do Pai e ser objeto de admiração das inumeráveis legiões celestiais. Tornava-se-me indispensável nascer outra vez. Era a terceira vez que ouvia esta frase dos lábios do Salvador (1), e ainda meu espírito resistia, não em acreditá-lo, pois não podia duvidar do fato ante sua repetida evidência, mas sim em aceitá-lo como condição precisa de meu porvir e destino espiritual.
O orgulho do saber e do merecimento próprio fora em mim tão poderoso e estava tão profundamente arraigado, que ainda meu espírito se sentia inclinado a rebelar-se uma vez mais contra sua sorte: julgando-se, por um resquício da passada soberbia, tão difícil de extinguir completamente, de natureza superior ao comum dos filhos dos homens, credor por merecimento próprio a grandes honras e distinções no céu. Se me acerquei de Jesus na época em que ainda estava conosco na Terra, se acompanhei seus restos ao sepulcro, não me movia inspirado na bondade de seus ensinamentos divinos, mas sim por uma orgulhosa curiosidade e um movimento de simpatia pessoal para com aquele que, opondo-se à corrente e às crenças seculares da época, ousava apresentar-se como regenerador do mundo e fundador de uma moral que, embora não fosse novo em todos os seus preceitos e máximo, o era em seu harmonioso conjunto e contrastava com os costumes, com hábitos hipocritamente religiosos, corri as tendências, com a política, com as paixões, com os interesses e o positivismo do século. (1) A primeira vez que Nicodemos ouviu de Jesus a afirmação do renascimento seria aquela a que se refere São João no capitulo III, e a segunda, quando Nicodemos chegou ao mundo espiritual pouco depois da morte de Jesus.
Hei de nascer de novo!...Esta é a minha sorte; este é o meu destino, como resultado da lei das harmonias que preside tudo, seja dentro da natureza material, seja na esfera do espírito, na lenta elaboração do entendimento e da consciência. Hei de desprender-me e limpar-me do orgulho e das misérias adquiridas e adquirir as virtudes necessárias à felicidade espiritual; e isto, no mesmo lugar de onde recolhi a semente de meu orgulho e onde se desenvolveram os viciosos germes que podia e devia ter combatido e que indubitavelmente teria arrancado de minha alma apenas com a vontade e empregando os meios de que podia dispor. Isto porque, pela mesma lei das harmonias morais, nunca a prova que serve para medir a têmpera espiritual da criatura é superior à resistência que a criatura pode suportar. Hei de renascer de novo!...Mas ai! que será de mim no próximo renascimento de minha alma na vida do olvido e do combate, assediado de todos aqueles inimigos que não nascerem de outra coisa senão de minha própria concupiscência?
Saberei triunfar sobre mim mesmo, já que sou o único obstáculo, o único inimigo da felicidade de minha alma? Se em meu espírito permanecessem escritos os ensinamentos e gravadas as maravilhas das quais fui testemunha, graus à misericórdia, desde que deixei vossa morada; se voltando a vos ver para sofrer e merecer convosco, conservar-se na minha memória e na minha mente a suave e majestosa imagem do Salvador, tal como me falou quando surgiu daquelas nuvens gire ocultam e entrada do reino das criaturas perfeitas, oh! neste caso não duvido de que me bastaria meu próximo renascimento para findar minhas concupiscências e arrancar a raiz de todas as minhas inclinações impudentes, filhas do não cumprimento voluntário da lei natural esculpida pelo Criador na pedra de minha consciência desde o princípio de minha vida racional e 1ivre. Vias isto não seria justo nem sábio e a sabedoria e a justiça se cumprem em todas as obras que vêm diretamente da lei, que é de toda eternidade o pensamento infalível do Altíssimo.
Que seria de minha liberdade, assim como ela minha faculdade de merecer, supondo que, ao retornar à vida de provas e sofrimentos, se conserva nítida memória da vida do espírito e das verdades e prodígios que, por misericordiosa permissão acabo de descobrir e presenciar? Em minha nova existência apenas meu corpo permaneceria entre os homens: o espírito viveria em contínuo desprendimento, de tosto alheio à vida material, sempre extasiado na meditação de suas recordações celestiais. Viveria como espírito emancipado entre os homens. Nu entanto, o justo e sábio é que o ser racional conquiste por meio da vida puramente humana entre os homens a emancipação espiritual necessária para viver mais tarde entre os anjos. Bendigamos a Deus em sua justiça e sabedoria, que constituem sempre amor e proteção aos débeis filhos dos homens. Porém, que será de mim, repito, em meu próximo renascimento, esquecido das misericordiosas lições do presente, da sabedoria e da verdade, dos poucos segredos que me foi permitido presenciar em minha viagem espiritual e entregue ao sabor e riscos de minha ignorância e de meu orgulho?
Bastar-me-á renascer outra vez na Terra como viajor ou continuarei retornando a ela através de uma série de renascimentos sucessivos? Oh, Jesus, minha luz e meu Mestre! Já sei que a lei de meu orgulho é que eu renasça de novo sobre a Terra na qual por orgulho e soberbia deixei as raízes de meu espírito. Já sei que a lei das belezas universais me rechaça em razão da pobreza de virtudes do mundo dos viventes, mas eu vos invoco como mediador do filho pródigo, para que faleis em presença do Pai, que é vosso Par e meu Pai, das misérias e pobreza do mais enfermo de seus filhos. Falai naquele lugar, naquele majestoso e santo templo, no qual meus erros e debilidades não me permitem entrar, da ovelha que se perde no bosque umbroso do vão saber e da aparente virtude; e talvez conseguisse endereçar seus passos ao redil se o Pastor a estimulasse com chamamentos de castigos.
Duas vezes fui príncipe, e em ambas sucumbi: chegou, pois, o momento em que me despojem de minhas riquezas e do poder, e mostre se sabe .ser pobre e desvalido aquele que não soube ser rico e poderoso. Bendita seja mil vezes a pobreza; benditos o abandono e a orfandade, se assim consigo romper os grilhões que sujeitam meu espírito a Terra.
IX
Vem... Segue-me! - Os Infernos da dor
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.