[user_registration_my_account]
Capítulo 36 de 47
III — parte 1 de 4
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
A Terceira Idade do Homem
O homem se contempla a si mesmo: presta atenção nos animais, nas aves e em todas as demais coisas que embelezam a criação terrestre: sente o estímulo, o aguilhão do prazer pela sensualidade; E exclama: “Viver é matar a fome e aplacar a sede: viver é o gozo na fornicação e na satisfação dos apetites cuja voracidade sinto nas entranhas”. “Viver é vencer, é dominar, e ser o rei das coisas da terra”. "Eu sou superior à planta cujas raízes são seu cativeiro e em cativeiro morre: eu sou superior às aves do céu e às bestas da Terra, que sucumbem às minhas mãos e não sabem se esquivar aos laços da minha astúcia; eu sou superior a todas as coisas que me rodeiam, porque todas estão a meu serviço. Eu sou, portanto, rei de todas as coisas. Quem me disputará o seu império?
"Vejo na outra parte do monte homens e mulheres; e vi homens e mulheres cruzando a selva e os campos do meu domínio, suas mulheres, sua caça, suas peles e suas tendas; porque eu arranco pela raiz uma árvore com a força do meu braço e as feras, escarmentadas, fogem de mim. "Eu sou o rei e minha vontade é soberana." E descendo do monte, à luz do sol penetrou na tenda do homem que habitava no lugar mais próximo, matou-o, apoderou-se de sua mulher e se recostou sobre suas peles. E exclamou: "Eu sou o rei e minha vontade é soberana." Ao pôr do sol passou à outra margem do rio e, caindo de improviso sobre a tenda do homem que ali morava, matou-o, apoderou-se de sua mulher e de suas peles, exclamando: "Eu sou o rei."
Aguardou a noite e cautelosamente seguiu as pegadas do homem da selva, porque o homem da selva era mais poderoso em forças que os outros; introduziu-se sigilosamente durante o seu sono; matou-o, apoderou-se de sua mulher e dormiu o resto da noite sobre as peles de sua tenda, junto à mulher do homem do outro lado do monte, à mulher do homem da outra margem do rio e à mulher do homem da selva. Durante o sono sonhou que ele era o rei e que sua vontade imperava soberana na Terra. 'Todavia, não despertou desse sonho de dominação e luxúria. Os fracos tinham visto o forte matando o homem do outro lado do monte, o homem da outra margem do rio e o forçudo homem da selva, apoderando-se de suas mulheres, suas peles e suas tendas.
Temerosos pela própria sorte e da de suas mulheres e de suas coisas, haviam se encontrado e tramado antes do amanhecer e, caindo com o ímpeto do temor (1) sobre o homem forte que dormia e sonhava, mataram-no durante o sono e se regozijavam sobremaneira. (1) "Com o ímpeto do temor", isto é, "com o ímpeto de quem está certo da morte se não matar o inimigo". E fizeram aliança de vida entre eles, e de morte contra os fortes e os inimigos. Puseram suas tendas nos cumes a fim de descobrirem os propósitos das tribos que não haviam com eles estabelecido aliança de vida e morte c as tendas estavam próximas umas às outras para a defesa e a agressão. O mais forte chefiou a tribo, porque seu braço violência sobre os que lhe disputavam o prêmio do da força. Desgalharam ramos das árvores e destes e de pedras agudas e cortantes fizeram instrumentos de guerra e extermínio. Emigravam para fugir da tribo cuja ferocidade temiam, ou para invadir os domínios das tribos cuja debilidade lhes era conhecida.
A freqüência das lutas estimulava seus instintos de ira, de sangue e de vingança. Embriagava-os a vista do sangue e devoravam como feras os inimigos que lhes caía nas mãos. Assim lutava a mulher como o homem; nas entranhais de ambos ardia o mesmo fogo, a mesma ferocidade. A violência por causa do egoísmo, do temor e do ódio, e a brutal fornicação assentaram seu horrendo império sobre as primeiras tribos na terceira época do homem. Oh! se a vossa imaginação tivesse força para retroceder a esses tempos e criar novamente as cenas horríveis tão comum na vida daqueles homens, como cerraríeis, se vos fosse possível, os olhos do espírito, para deles apagar a lembrança e a visão! A iniqüidade, sem embargo, não era universal. Havia homens, inimigos da fornicação e do sangue, que repreendiam os outros com o exemplo e ainda com palavras, ameaçando-os com as iras do gênio da tempestade e do gigante do trovão, os deuses da idade da força e da carne.
Esses homens eram os justos da Terra, porque seguiam, embora sem ter noção de seus passos, o caminho reto da lei na medida de suas escassa atividade espiritual. Entretanto, justamente porque andavam retamente segundo a luz, logo chegavam ao termo ela viagem. Os dias de sua peregrinação eram curtos, porque os abreviava a ira dos iníquos. As tribos se acrescem, porque a carne atrai os homens uns aos outros e a iniqüidade os faz débeis, a vingança os entrosa e a usurpação os agrupa. O irmão com a irmã, o pai com a filha, o filho com a mãe, o homem com o homem. Dentre da tribo a carne; fora, a opressão, o opróbrio e a matança. O filho é filho da tribo. Só a mãe começa a sentir algum estímulo de sentimento anu roso, mas isso enquanto na primeira infância do filho da tribo. No homem só dominam a gula, a fornicação e a ferocidade.
Pela gula, abre as entranhas do adversário, devora seus membros ainda palpitantes e lhe bebe o sana re ainda quente; pela fornicação, busca a mulher, o homem, o animal imundo que percorre a selva; pela ferocidade, destrói com as mãos, em acesso de ira, o filho da tribo e assalta de noite a tenda do chefe da tribo vizinha com a qual tem estabelecido pacto de amizade. Vive primeiro dos frutos da terra e dos animais do monte; em seguida a pesca e impõe seu jugo aos animais ferozes, juntando-se em rebanhos que se apascentam ao redor da tribo e com elas passam aos mais remotos climas. A sua linguagem, filha da necessidade e da luz, é áspera e grosseira como os movimentos do seu inculto coração; o som da palavra, seja qual for o pensamento que expressa, ouve-se sempre à maneira de iracunda ameaça. E o fragor da tormenta da alma, o eco dos ferozes instintos do homem carnal e vingativo. Dupla capa de trevas, trevas da fornicação e do sangue – Estende-se sobre a miserável humanidade e afoga por enquanto o germe de seu progresso.
Os espíritos da pureza e do amor apartam seus olhos da Terra e os dirigem ao céu; mas não deixam de bendizer a Providência, porque não ignorava que o reinado da iniqüidade e da carne é efêmero; o do espírito e do amor, eternamente duradouro. A dúvida germina já no entendimento e move as entranhas da criatura, por isso treme e esconde o rosto quando ouvem a terrível palavra de seu Deus no bramido do furacão ou no estridente ronco da nuvem, cujos ecos repetem as depressões das montanhas. Deixai o homem lutando asperamente com a dúvida, vencido aqui e acolá vencedor; ela há de ser o cautério de todas as úlceras da alma. E com a contínua guerra e a ininterrupta fornicação dos homens, chega ao fim à terceira época da humanidade em sua peregrinação sobre a Terra.
IV
O Quarto Dia do Homem. - A Imigração Adâmica. Seth. Caim
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.