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Capítulo 43 de 47

XII

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Índole e Missão do Povo Hebreu - Chega ao Pé do Sinai - Política de Moisés. - Sobe Moisés ao Monte - A Visão - A Tempestade

Nada menos de quarenta anos empregou Moisés em preparar o indômito povo hebreu para sobre ele fundar a civilização que iria transformar no futuro as sociedades humanas. Quarenta anos de incansável afã de luta incessante contra as naturais inclinações dos homens que não rendiam culto senão aos prazeres da luxúria, da gula e da ira, trindade infernal, horrível princípio de grandes calamidades. Quarenta anos de obscuridade do entendimento, incapaz de conceber a beleza das harmonias morais, e de deserto, de aridez do coração, impotente para dar vida ao sentimento do amor. Israel é a representação da família primitiva da Terra, que pelas iniqüidades de sua arrogância teve de cair sob a dominação dos espíritos inteligentes vindos de outros mundos mais prósperos, condenados ao desterro pelas iniqüidades do seu orgulho. Em sua escravidão, no entendimento do povo primitivo brilharia a alvorada do saber, e em seu coração a aurora da consciência.

Haveria de ser o povo hebreu o fermento humano da civilização do futuro, primeiro, em cumprimento da ordem de justiça que preside nas evoluções naturais, morais e físicas; segundo, a fim de que os homens cheguem a conhecer pelos ensinamentos históricos que as grandes iniciativas, que os movimentos transcendentais da humanidade não vêm da própria humanidade, mas baixam das regiões divinas, onde o amor providencial, onde a sabedoria inefável elabora os germes de felicidade que, com mão pródiga, derrama em toda extensão na imensidade do universo. Israel foi instrumento das iniciativas superiores naquele tempo, como mais tarde, nos tempos de Jesus, o foram alguns homens simples, grosseiros e ignorantes, como na atualidade o são indivíduos de todas as classes sociais, de todos os climas e de todas as crenças.

Convém que os homens não se atribuam a si mesmos o mérito das obras celestiais e isso em benefício dos próprios homens, a fim de que não busque toda a sua felicidade na Terra e elevem as suas esperanças e desejos No terceiro mês de sua saída do Egito chega Israel ao pé do Sinai. Durante a peregrinação, Moisés se persuadira de não haver autoridade nem forças humanas capazes de dominar aquele povo inquieto e brutal e que só a palavra de um Deus terrível, vingador das prevaricações e dos atos nefandos dos povos, poderia dobrar sua cerviz e submetê-lo à obediência dos preceitos naturais.

Sendo ignorante e mau, e também crédulo e supersticioso, o que não poderiam sobre ele os mais sãos conselhos da prudência nem as sábias lições da justiça, o alcançará a voz irritada daquele misterioso c gigantesco Ser que levanta a tempestade e fulmina o raio com sua destra, Deus, feito segundo as valeidades dos homens, tão propício a outorgar recompensas e privilégios as gerações arbitrariamente eleitas, como disposto a deixar sentir todo o peso de seu desagrado sobre os rebeldes às suas ordens. E ao pé do Sinai, congrega Moisés todo o povo e, rodeado dos anciãos e capitães, lhe fala assim; "Ouvi-me, filhos de Judá e de José, e todos os que saístes do músculo de Jacó em vossos pais e vossos avós, nos dias da glória de Israel, quando o sol do Egito era nosso pai José.

Vi em sonhos uma, duas, três vezes nosso primeiro pai Abraão, que vive e é um ancião de branca barba e venerável presença, e que me disse: "Filho, se meu povo andar na justiça, triunfará das nações da Terra e será a luz do mundo, porque Deus, o Deus terrível dos prevaricadores, assistirá seus desígnios, e com ele a paz e a vida. Sobe ao monte e no lugar mais retirado, livre do olhar humano, prostra-te de joelhos e ora; não levantes o teu rosto da terra até que o Espírito do Senhor desça sobre ti e te expresse sua vontade. Que ninguém te acompanhe; que todos, na tua ausência, orem contigo e te ajudem. O Espírito do Senhor descem sobre ti durante a noite, e o povo ouvirá o trovão, e verá brilhar o raio e conhecerá a vontade do Senhor. Ouvirás então a palavra do Espírito e a transmitirás a Israel para que a conheça e a cumpra, porque será palavra de ordem para séculos, e não passará com os séculos.

Sou Abraão, vosso pai, que vive, e viverá em Deus, e minha vida com os espíritos de Deus." "Agora já sabeis todos a palavra de Abraão, nosso primeiro pai, que vive e me falou pela visão em sonho por vontade de Deus e do Espírito que abre os caminhos de Israel. Em obediência, eu me afasto de vós e subo ao monte, onde permanecerei um, dois e três dias e noites, até que cheguem a mim a voz do Espírito e me diga à vontade do Senhor. Vós continuareis acampados aqui, e que ninguém ouse seguir os meus passos, pois que a maldição do Deus de Abraão cairá sobre sua cabeça e a morte. Orai com vossas mulheres, vossos irmãos e filhos; quando ouvirdes o ruído da nuvem, estai atentos e dizei; "A palavra do Senhor desce sobre o Sinai: ousamos a palavra do Senhor:" Desde esse momento não fecheis olhos e orelhas, antes estai atentos e olhai na direção do monte, porque ouvireis a vontade e vereis a glória de Senhor."

E Moisés subiu lentamente o Sinai, meditando acerca da gravidade e transcendência da missão que lhe estava confiada e disposto o ânimo a receber a inspirarão que deveria fecundar em seu povo a semente das virtudes. Dirigiu-se pensativo e ensimesmado à tenda do pai de sua mulher, que estava no monte, porque confiava na sabedoria e prudência de seus conselhos, os quais lhe haviam servido em muito para a libertação dos hebreus. O sacerdote era de entendimento reto e alma piedosa, e o céu o favorecia freqüentemente com visões e palavras de espírito profético. Ali chegou Moisés altas horas da noite. Informado o sacerdote, por inspirarão, da missão e próxima chegada de Moisés, velava e esperava. Afastaramse ambos para o mais recôndito da tenda e, como tivessem caído de joelhos invocando o Grande Espírito, uma luz celestial inundou o aposento e ouviu-se uma voz, não humana, mas da revelarão superior, que disse; "Moisés, Moisés: Deus é grande e se serve dos pequenos para que resplandeçam suas obras e os homens não se envaideçam.

Israel é dos povos menores; seus caminhos o declaram, que não os ela ignorância, da truculência e da vileza dos apetites. Foi hipócrita e falso com o rei e cruel com os egípcios. Não tem outra lei que a concupiscência e a força, por isso vês como se entrega ao adultério e à gula, e tu não podes desviar dos instintos de rapina com que oprime os povos fracos das cercanias de suas tendas. Tu já o sabes: hoje se cumpre a justiça no Egito e nas regiões desta parte do mar; sabes também que não ficarão sem castigo as crueldades, leviandades e rapinas dos homens que livraste de secular escravidão. No entanto, o Altíssimo, em cuja obediência te falo, escolheu o mísero Israel para instrumento de sua misericórdia e te colocou entre o povo e a inspiração do céu. Ouve-me bem.

"Ao amanhecer, descerás do monte e dirás ao povo congregado: "Tive no monte a visão do espírito e ouvi a palavra de revelação anunciando-me a próxima chegada da vontade do Senhor sobre vós. Para que conheçais que não vos falo de minha vontade, mas por inspiração profética, ouvi o sinal: Vedes como o sol resplandece sem que a mais pequena nuvem empane o azul do firmamento? Pois bem: contareis o dia de hoje com a sua noite, o dia de amanhã com a sua noite e o outro dia, e ainda não terá aparecido nuvem em nenhum dos quatro pontos do céu. Uma vez posto o sol do terceiro dia, porém, vereis aparecer no Oriente pequena nuvem, que crescer com rapidez até ocupar todo o firmamento. A noite será terrivelmente tempestuosa: o rugido do trovão não cessará e contínuo relâmpago vos cegará no mais abrigado de vossas tendas. Será então que o Espírito do Senhor me cobrirá com sua luz e me dará, para vós, à vontade do Senhor.

Entretanto, não deixeis de orar cada um no silêncio de sua tenda até que a profecia se cumpra; não aconteça que o Deus de Israel, o forte e zeloso Jeová, se irrite com a vossa indiferença e nos destrua com a sua justiça. Volto ao monte e ali, com o rosto no pó da terra e o corarão contrito por nessas iniqüidades passadas, aguardarei a palavra do enviado do Altíssimo." Fez Moisés como o espírito lhe ordenara. Em companhia do sacerdote deu granas ao Senhor e ao amanhecer desceu ao povo, ao qual referiu a visão e a profecia; depois voltou ao Sinai e à tenda do pai de sua mulher, com o intento de preparar-se ao lado do bom sacerdote para receber as luzes do Alto.

Juntos na tenda pediram a Deus, de corarão, que por amor e para a regenerarão do povo tivesse cabal cumprimento a promessa do espírito, pois do contrário, se chegasse à terceira noite e não se confirmasse à palavra de Moisés, seria impossível dali por diante dirigir os destinos de Israel, o qual não temia os homens nem temeria tampouco as arrearas que se lhe fizessem em nome do Deus de Abraão, Isaac e Jacó, Freqüentemente, em meio à oração, Moisés e o sacerdote se sentiam como que interiormente iluminados e guiados, e se diziam um ao outro: "Sim, a palavra do Espírito se cumprirá, o povo verá a glória e saberá a vontade do Senhor, porque a visão foi visão de luz, de paz e de consolo." Assim passou o primeiro dia, o segundo e o terceiro. O povo murmurava e dizia: Que se passa? Que cousas são essas que Moisés nos referiu? Que nosso primeiro pai Abraão vive e lhe falou em sonho?

Que o Espírito baixou sobre ele no Sinai em visão de luz e profetizou o trovão e o relâmpago: Eis que já estamos no declinar do terceiro dia; já o sol se oculta aos nossos olhos e ainda nenhuma nuvem se descobre no horizonte: que são todas essa coisas? E todo Israel vigiava, porque sobrevinha à noite e as estrelas começavam a fulgir aqui e ali no fundo do firmamento. Todavia, não tardaram em desaparecer da vista do povo assombrado os luminares da noite. Uma nuvenzinha, apenas perceptível a princípio, veio do lado do Oriente, estendendose com inusitada rapidez até chegar ao Ocidente, ao Meiodia e ao Setentrião. Trevas densíssimas envolvem os hebreus acampados ,juntos ao Sinai, em cujo cimo brilha a intervalos o relâmpago acompanhado do fragor da tempestade. Logo os relâmpagos e os trovões são tão freqüentes que todas as forças parecem ter conspirado para aniquilar os homens e suprimi-los da Terra. A montanha aparece constantemente iluminada por sinistros resplendores. Israel se sente como fascinado c não pode desusar os olhos do Sinai.

No entanto, Moisés orava ao Senhor em companhia do sacerdote. Aos primeiros ruídos da tempestade, estranha superexcitação embargou-lhe o ânimo e os sentidos: teria adivinhado que nele operava a influência de um espírito invisível. A superexcitação aumentava com o ruído exterior e a vívida cintilação da luz. De improviso, levanta-se como que movido por misteriosa mola, abandona a tenda, corre ansioso através das sarças e precipícios e vai cair rendido, ofegante, convulso, sobre uma rocha saliente do Sinai, da qual se descortinam as tendas de Israel muitos dos hebreus viram Moisés erecto sobre a rocha, envolto no resplendor do relâmpago feito aparição sobrenatural, e julgaram ouvir a sua voz forte e terrível como a do próprio Jeová. Essa manifestação de poder, esse aparato de força era necessário para tocar profundamente o coração daquele povo feroz e incrédulo. Não obstante, tudo sucedera dentro da norma natural, do movimento ordenado das coisas, sem que se perturbasse no mínimo a ação das leis que operam sobre a criação desde o princípio.

Esta é a sabedoria da Inteligência suprema; a predeterminação, na eternidade, de todas as harmonias e correspondência que se sucederão no curso das idades sem suspender os efeitos das leis estabelecidas nem coibir a atividade voluntária das criaturas racionais.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.