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Capítulo 28 de 47
XIII
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Regresso A Terra. - A Gênese do Espírito. - A Realidade Espiritual
Saudei com júbilo o regresso a Terra, pátria de meus imediatos destinos, chamado a buscar entre seus habitantes a família em cujo seio terá de efetuar-se a próxima prova de meu foro espiritual, ela será o berço do meu renascimento, necessário, absolutamente necessário à minha depuração, único meio de preencher o vazio de meu sentimento e conquistar a harmonia, a felicidade de meu ser. Ao pisar outra vez no ambiente do planeta, satisfação e esperança me embargaram o animo, considerando quanto deixara atrás aqueles cárceres de merecida expiação, aquelas moradias da ira, aquelas mansões da ignorância maliciosa e da dor cruel, onde os espíritos, ao primeiro despertar, ensaiam sua livre atividade. Para lá ficaram!... longe, muito longe, na confusão de um passado que não haverá de se reproduzir na eternidade de meus destinos!..Deus meu! como sou feliz, como sou venturoso! Porque venho, sim, venho do passado, do sofrimento, da carne, da obscuridade, de um caos que bem posso chamar o nada da consciência.
Eu sou aquele que, antes de ser em e antes de ser aquele, errava sem luz nem vida, perdido, como gota d'água nas ondulações do oceano, no movimento das substâncias passivas, inconscientes, ignorantes do passado como do presente e do porvir. Eu sou aquele que, antes de ser eu e antes de ser aquele, foi dotado de uma força de vida e de uma centelha de luz, as quais o arrancaram do movimento dos corpos inertes e grosseiros para o precipitar no regaço das substâncias em que se elaboram o princípio de vida e o princípio espiritual. Eu sou aquele que, antes de ser eu e antes de ser aquele, rodava e se confundia nas transformações das coisas que vivem sem conhecimento de si mesmas, porém obediente à sapientíssima e providencial tendência à conservação, que nelas depositou o Sumo Legislador. Eu sou aquele que, antes de ser eu e antes de ser aquele, recebia os primeiros impulsos do instinto e os primeiros estímulos de uma sensibilidade embrionária, debaixo de uma organização rude e grosseira, ponto de partida de sucessivos e mais aperfeiçoados organismos.
Eu sou aquele que antes de ser eu morava no cárcere asqueroso das sensações e apetites da carne, indiferente às maravilhas da natureza e embrutecido na clausura da matéria. Eu sou aquele que viu, pela primeira vez e com a visão da consciência, as coisas do céu e da terra e sobre elas a humanidade, e usufruiu da criação e a desejou apenas para seus gozos, sacrificando os impulsos que, para o bem, lhe surgiram na consciência e lhe acordaram o coração. Eu sou aquele que, ébrio de ira e luxúria, rompeu as tábuas da lei do sentimento no mesmo instante em que as recebeu do Sinai da misericórdia e do amor. E foi arrojado aos lugares inferiores da desolação e do ranger de dentes. E mais uma vez reapareceu, e outra, e mais outra ainda, nas regiões de humilhação e prova, crisol das rebeldias e sanatório para os desregramentos da alma. Por último conheceu a Cristo, confiou em suas promessas e algo vislumbrou da lei e da escala da perfeição espiritual. Sim, eu sou aquele.
Como me faz venturoso a história de meu passado! (1) (1) Nesta magnífica evocação de seu passado, Nicodemos narra os sucessivos desenvolvimentos e fases da substância espiritual até a perfeita individualização e ingresso na esfera humana Pela liberdade, razão e consciência. Resulta das palavras de Nicodemos que tal substância se elabora, evoluciona e se depura através sucessivamente da matéria inorgânica, de tipos intermédios entre o inorgânico e orgânicos, dos organismos vegetais, de dos de transição entre o vegetal e o animal, e dos organismos animais, dos quais ascende, já individualizada, constituindo o eu racional e livre, à vida da consciência em organismos humanos. O leitor achará esta teoria desenvolvida de maneira muito luminosa na segunda parte da revelação de Nicodemos, que tem como titulo "Ao redor da Terra". Vós que morais ainda na Terra, vivendo sob o peso e a ilusão da carne, não podeis fazer idéia da profunda mudança que o espírito experimenta ao atravessar o umbral da região das almas.
Suas faculdades morais, que são faculdades essenciais, permanecem as mesmas; todavia, desligado dos vínculos grosseiros que na vida de provas o subjugaram e oprimiram, recobra sua liberdade natural, sente e age sem obstáculos que entorpeçam seus juízos e sentimentos. Afigura-se-lhe nos primeiros instantes que suas visões são vôos caprichosos da exaltada fantasia; que os inesperados e desde logo inexplicáveis fenômenos que presencia são puros devaneios da imaginação, quadros da exaltação, sonhos passageiros que se dissiparão sem deixar no ânimo mais que amortecida lembrança; contudo, logo a ilusão se transforma em realidade, os vôos da fantasia em luminosas afirmações do entendimento, as diversões da imaginação e os sonhos em fatos tangíveis sobre que não paira a mais ligeira dúvida; e então o espírito percebe que a morte não é mais que o desenlace de uma prova e o nascimento de outra vida, ou melhor, de outra fase da vida eterna, fruto dos méritos ou responsabilidades contraídas na prova recentemente terminada. Como, em brevíssimo lapso, mudam seus conceitos e desejos!
Se porventura imaginou que o universo inteiro se move somente ao impulso das leis da matéria e que a harmonia nada mais é que o concerto dessas leis, ao mesmo tempo causa e efeito da mecânica celeste universal e dos fenômenos que em todas as esferas se produzem no seio da Natureza mãe comum, a realidade levará ao seu entendimento uma convicção contrária, relativamente tardia, e terá de reconhecer que as leis da matéria, bem longe de constituírem o código completo, são apenas os primeiros esboços, os primeiros artigos do grande código, do eterno e infinito código das belezas e harmonias da criação e de suas leis. Se julgou que a felicidade dependia dos impuros gozos sensuais e se queimou incenso nos torpes altares do egoísmo, dos deleites e riquezas, sofrimentos ulteriores e o pungente, o cruel espinho do remorso, evocando passados sonhos e delírios, fa-lo-ão compreender que os ídolos de sua alma eram vaidade, falácia e podridão, mentira do prazer e germe de inumeráveis enfermidades do espírito, talvez incuráveis por séculos e séculos.
Se prendeu o coração às dispersivas coisas da Terra e fixou os sentidos no presente, menosprezando os bens do futuro, verá com certeza que construíra sobre areia e escrevera sobre as águas, e seu porvir será a lembrança e a acusação daquele presente que passou sem proveito para sua alma. Se em seu insensato orgulho negou o próprio Deus, de cujo poder é pálida manifestação, de cuja sabedoria é um reflexo, de cuja bondade é beneficiário, a grandeza da vida que começa ou continua com a morte o abaterá e confundirá. E, caindo de joelhos, ferido pela luz da consciência, cujos vividos replendores farão mais horríveis às trevas em que se sumiu sua soberba, - Deus meu! - exclamará a cada momento, aniquilado na profundidade da dor, Julgais estável, perpetuamente estável, alguma das instituições que vedes nascer, elevar-se e enraizar-se sob o firmamento?
Vinde aqui, e vossos juízos se desvanecerão como ao beijo do sol o átomo vaporoso; vereis que toda instituição nasce mortalmente ferida pela lei das modificações e transformações que é o progresso permanente, que perdurável é só o que nunca foi instituído, o que vem da eternidade dos tempos. Supus eterna, sendo mestre em Israel, a palavra de Moisés: apenas despertado nos círculos espirituais, eu a vi desvanecer ao sopro da palavra de Jesus. Julguei eterna, sendo mestre em Roma, a igreja dos papas; todavia, acabo de despertar outra vez e a contemplo já reduzida a escombros sob o grande peso de seus vícios, revelados aos homens, mercê da nova luz que se desprende da palavra do Cristo.
Os que presumem que o nada é o amanhecer do espírito; os que abrigam a néscia esperança de que o tempo há de varrer o pó de suas misérias; os que confiam na eficácia de um arrependimento tardio; os que se prometem escalar o céu encerrado em místico e contemplativo egoísmo, infecundo para o bem, ou entregues à prática herdada de certas exteriorizações que em nada contribuem para a melhoria progressiva das condições da alma; os que orgulhosa ou estupidamente se, atribuem o divino poder de purificar com sua palavra as consciências alheias e os que estabelecem nesse falso poder a purificação das próprias consciências; os que esperam sua redenção e o perdão dos pecados na inesgotável bondade de Deus e nos méritos e sacrifícios dos justos; os que aspiram à felicidade lá de cima sem atos de abnegação e amor para com os que estão cá embaixo; os que imaginam a Grande Causa insensível às insignificâncias humanas, toda embebida na esfera e na direção das grandes leis e traçam o mesmo imediato destino a todas as criaturas racionais, -
destino pitoresco e agradável, encantador e poético de uma viagem à qual se chega pelos mais opostos caminhos; em suma: assim os que suprimem Deus, como os que o fabricam sobre o fundamento de suas paixões e egoísmo; assim os que negam a sobrevivência das almas, como os que forjam uma vida ulterior disposta, não segundo as leis da justiça e da sabedoria, mas em conformidade com os propósitos impuros e os cálculos mesquinhos da malícia, do interesse ou da ignorância, Ah!.. que terrivelmente diversa do que imaginaram hão de ver a realidade de seu presente!
Quanto chorarão, uns a indiferença de seus sentimentos, outros os seus merecidos erros, por haverem menosprezado as lições da Natureza, - todos, a maldade do coração, a pobreza de suas obras e a falta ele caridade! Porque aqui todas as máscaras caem e cada um apresenta a consciência descoberta; desaparecem todas as aparências morais que na Terra freqüentemente iludem a constatação de verdadeiras virtudes. Assim eu, desde que ultimamente a morte me separou de vós, a cada instante que passa vejo-me na necessidade de retificar ou substituir algum dos conceitos acerca da vida futura, formados em minhas existências terrenas. Reputei definida a sorte dos espíritos e definitivo o veredicto imediato da lei; e agora compreendo que vivo na instabilidade, como na viagem pela Terra, que nem se me abriram as portas da mansão eternamente feliz nem se me fecharam as da esperança consolados que venho afagando desde que a idéia e o sentimento do bem me puseram na alma o selo da Divindade.
Hoje sei que, mesmo existindo a felicidade absoluta, como existe Deus, - sua causa permanente -, o homem somente a gozará dentro da relação e da sucessão, elevando-se sempre e sempre progredindo, sem chegar à estabilidade, exclusiva do Ser que subsiste por si mesmo. Aqui, como entre vós outros, continua operando a lei de purificação e transfiguração. Não sou o mesmo, desde quando deixei a cidade dos pontífices: meus juízos e sentimentos adquiriram mais vigor, modificando e melhorando o estado e as condições de meu espírito. Minha soberba fez me acreditar que, ao morrer, o próprio Jesus e sua bendita mãe desceriam para receber minha alma entre legiões de anjos e coros de espíritos de luz; e despertei no maior isolamento, como triste náufrago que consegue aportar a silenciosa praia de solitária ilha, sem mais amparo que a Natureza desnuda. Nenhum poder celestial, nenhuma das ditosas criaturas que se deleitam em Jesus Cristo veio arrebatar-me da Terra para elevar-me ao céu orgulhosamente esperado. Pobre e nu, sentia-me sujeito àqueles lugares onde, por amor próprio, minha alma deixara presos os sentidos.
Mais tarde, saí disse isolamento espiritual, mas somente por um instante, para ver o majestoso semblante do Salvador e lhe ouvir a voz inefável, que me condenava ao renascimento a fim de purificar-me e merecer. Pela segunda vez interrompeu-se a minha solidão; não porém pela companhia de algum dos filhos primogênitos filo Pai, e sim de um miserável filho do pecado, espírito falho de sabedoria e virtudes, provindo dos infernos de dolorosa expiação e condenado a reviver em mundos de sofrimento.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.