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Capítulo 14 de 47

VII — parte 5 de 8

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Vimos que o Espiritismo, sob o ponto de vista religioso, não é senão a adoração em espírito e verdade, assim como o sentimento e a prática do amor: precisamente o contrário do ultramontanismo, dessa escola corrompida e corruptora que, antepondo aos mandamentos de Deus seus próprios mandamentos, faz depender a perfeição espiritual da observação de certas fórmulas e cerimônias exteriores que em nada modifica nem melhora as condições internas do indivíduo. Explicada esta questão, da qual nos ocupamos mais detalhadamente a fim de desvanecer certas preocupações, certas injuriosas imputações jesuiticamente propaladas, passemos a estudar o Espiritismo em seu aspeto filosófico, propondo-nos demonstrar que, se como religião e moral é o Evangelho e a caridade, é como Filosofia a única solução racional dos mais árduos problemas providencialmente entregues à investigação dos homens para seus indefinidos progressos. As crenças religiosas se acham no Espiritismo tão intimamente entrelaçadas com as conclusões filosóficas, que com dificuldade poderá fixar-se entre umas e outras uma linha perfeitamente divisória.

As soluções filosóficas, pondo sob nossos olhos as grandezas do universo, nos levam a admirar a esplendorosa sabedoria que. anima todos os seres, e por conseguinte a erigir em nosso coração um altar a essa mesma sabedoria inescrutável, vida de nossa vida, alma de nossa alma; e fazendo-nos compreender a comunidade de nossa origem espiritual, despertam em nós meigos sentimentos de benevolência, prólogo dessa fraternidade que há de reinar um dia entre os homens. E como todas as investigações científicas vêm confirmar por fim a verdade religiosa fundamental, Deus, agente absoluto, substância universal vivificante, alma da Natureza, podemos nesse sentido dizer que a Filosofia é a teoria da religião. As principais afirmações filosóficas da escola espiritista, além de Deus, da alma humana imortal e responsável, e da comunicação recíproca dos seres espirituais, de que já nos ocupamos, são a pluralidade dos mundos habitados, a pluralidade das existências da alma e o progresso indefinido dos espíritos por meio de recompensas ou castigos em harmonia com os merecimentos ou com as infrações voluntárias da lei.

Não falta quem, com o objetivo de despojar do Espiritismo sua importância, o acuse de ter-se apropriado de idéias e doutrinas que não são suas, penetrando, por assim dizer, em campos pertencentes a diferentes igrejas e a diferentes sistemas filosóficos; mas, à parte de que as verdades, tanto religiosas como cientificas, não são patrimônio exclusivo deste ou daquele indivíduo, desta ou daquela coletividade, como não o são o oxigênio que respiramos e a luz em cujo seio vivemos, Iode isto se considerar como uma acusação formal? Foi, porventura, o Evangelho algo mais que um corpo de doutrina formado com as verdades morais pressentidas por eminentes filósofos anteriores a Jesus. Que é a Filosofia senão a ciência de todos os povos e de todos os séculos, edificada lenta e sucessivamente em suas partes por todas as escolas que tiveram alguma participação nas conquistas que vêm aumentando e enriquecendo os domínios do entendimento humano?

O Espiritismo inspirou-se nos mais eminentes filósofos e nos mais distintos moralistas e, unindo ao melhor destes e daqueles os ensinamentos da revelação, formou seu código moral e sua Filosofia, Filosofia a mais luminosa para explicar o sapientíssimo plano da Criação, e código moral mais perfeito para que a humanidade marche sem tropeços pela via de seus eternos destinos. Deus não fez nem pôde fazer senão o mais belo, o melhor e o mais justo: aquela Filosofia e aquelas morais, cujas soluções estejam mais conformes com a idéia que temos da beleza, da bondade e justiça, serão as que mais se aproximam da verdade da Natureza, cujos segredos não podemos descobrir senão pouco a pouco e com perseverantes esforços.

E então: pode-se conceber algo mais belo que a imensidade povoada de rutilantes estrelas e de mundos plenos de inteligência e vida, à maneira de notas harmônicas do progresso, à maneira de estações de etapa, onde as criaturas racionais deixem o descanso de suas fadigas e os meios necessários para continuar sita eterna ascensão em direção a uma felicidade sempre crescente? Pode-se idealizar algo mais belo, justo e consolador que a substância espiritual humana persistindo eternamente em suas individualizações, purificando-se e aperfeiçoando-se de organismo em organismo, de mundo em mundo, de século em século, e avançando pelos méritos de sua liberdade, perseguindo sempre um progresso cujo ideal é para cada ser inteligente e livre a plena posse de si mesmo e dos tesouros esplendidamente derramados no universo pelo amor divino, pela sabedoria infalível? Onde está Deus, super criador da beleza, da bondade e justiça, puríssima essência da verdade, manancial inesgotável da sabedoria, única sanção da liberdade humana, dos atos do entendimento, da moralidade das obras?

Porventura, no conceito materialista, que arrebatando à inteligência o cetro da criação destrói toda liberdade, cegando dessa maneira os mananciais do belo, do bom e do justo? Porventura no dogma católico com sua trindade bramânica, com seus deuses e semideuses tomados do paganismo, com seus milagres à maneira de soluções de continuidade no plano da sabedoria, com sua predestinação fatal, com suas divinas vinganças e divinas preferências? Porventura na absorção panteísta, no Nirvana, que promete por toda felicidade um sonho eterno, o aniquilamento de cada um no oceano da vida universal, depois de uma existência de lutas sem causas, sem planos e sem objetivo? Substituamos todas estas teorias incompletas, caprichosas, desconsoladoras, infundadas, com os racionais princípios da Filosofia cristã que resolve satisfatoriamente as grandes questões relativas ao plano da Natureza e aos destinos humanos.

Deus é a causa de todos os seres, a substância ativa por si mesma, a inteligência suprema, o amor universal: o espírito do homem é como uma emanação da divina substância, como um farol da inteligência suprema, ser relativo, perfectível por sua liberdade e pelo cumprimento da lei, o mundo visível é a substância passiva, teatro da atividade e caminho de depuração dos espíritos. A vida e a inteligência têm assento e se desenvolvem não somente na Terra, mas também nestes astros que aos milhões vemos fulgurar no fundo azulado dos céus, povoados todos eles por humanidades irmãs, filhas de Deus, que vão por diferentes vias à conquista de seus ditosos destinos. A vida do espírito é eterna, e cada existência um anel dessa eternidade. Nascemos derramando lágrimas, e essas lágrimas não podem constituir um protesto contra a justiça de Deus; por conseguinte devemos merecê-las em virtude de infrações da lei cometida em existências anteriores.

Deus é nosso pai e nosso juiz e por isso temos que nos sujeitar ao cumprimento da lei; como Pai, não nos pode jamais fechar a porta de seu amor nem nos privar dos meios necessários para nos reabilitar a seus olhos. Que é a vida presente? Um minuto de nossa eternidade; pode um momento de prova ficar nossa sorte...para sempre? Não, não; mil vezes não; porque Deus é juiz, porem discerne com justiça; porque Deus é pai, porém pai amorosíssimo, que não quer a morte, mas sim a redenção e salvação dos filhos de seu amor. Poderá o homem estacionar, poderá retardar o pronunciamento de sua sentença, poderá voluntariamente desviar-se, desobedecendo a voz de sua consciência e cerrando os olhos à luz, poderão sofrer séculos e séculos as conseqüências de sua voluntária cegueira; porém Deus, Deus é o ímã das criaturas, e sua benéfica atração acabará por guiar o homem ao caminho do qual não deveria nunca se ter apartado.

A felicidade espiritual consiste na posse do poder, da sabedoria e do amor, atributos que, no sentido absoluto, são próprios exclusivamente da Natureza divina; mas o homem ir-se-á enriquecendo progressivamente com os mesmos, ainda quando sem ultrapassar jamais os limites da sucessão e relação. Q livre arbítrio é também relativo, como tudo aquilo que possui a criatura em sua natureza finita e imperfeita. Nossa liberdade está de acordo com a elevação de nosso espírito: apenas perceptível nos albores de nossa consciência, vai dilatando sua atividade na medida em que o espírito alarga seus horizontes, resultando dai os diferentes graus de responsabilidade segundo os sucessivos conceitos do dever, Quanto mais puro for o espírito, mais livre o será: e quanto mais livre, mais responsável perante a lei. As condições da vida humana claramente nos manifestam que o dever é mais rígido na idade varonil do que na juventude ou na infância, nos povos civilizados do que nos selvagens, no homem douta e experimentado do que no ignorante.

O dever absoluto e a liberdade sem limites somente são compatíveis com a sabedoria infinita: por isso, Deus é lei e o dever absoluto a um mesmo tempo. E não sendo absoluto nosso dever nem ilimitada nossa liberdade, quem poderá com retidão e lógica discorrer sem perverter o sentimento de justiça, deixando de compreender que não nos podemos fazer dignos, por nossas obras, da felicidade suprema, nem credores de perduráveis tormentos? No cumprimento da lei moral presidem a justiça e a misericórdia; porém sempre a misericórdia antes da justiça. Pela misericórdia saímos do caos, da misteriosa origem da existência dos seres, e chegamos à vida, à luminosa vida do espírito, na qual começamos a vislumbrar Deus e a lei divina do progresso; pela justiça vemo-nos obrigados a agir de conformidade com prescrições da consciência, voz do céu, revelação permanente, mecha acesa pelo Criador no mais íntimo de nosso ser para iluminar o caminho de nossa progressiva perfeição.

Pela misericórdia desce sobre a humanidade o orvalho da inspiração superior, sem a qual impossível lhe seria dar um passo adiante e emancipar-se da impureza e do erro e esta inspiração vem aos homens através dos bons espíritos, em observância ao preceito amoroso de caridade imposto às criaturas inteligentes; pela justiça, a inspiração se levantará contra nós para acusar-nos, aí menosprezamos seus sábios ensinamentos. Esta é a Filosofia cristã; este o Espiritismo, Esta é a que alguns denominam a loucura do século XIX! Loucura!...Porém, quem são os sensatos? Os indiferentes em matérias filosófico-religiosas, que nem afirmam nem negam, porque não se dão ao trabalho de estudar; que não se preocupam com estas cousas pois não se sentem inclinados a meditar? Os materialistas, que, para não transigir com a idéia de Deus e do espírito imortal, transigem com o absurdo, pretendendo que a consciência é efeito de uma causa inconsciente, que a liberdade é filha de uma lei fatal, que o sentimento procede da insensibilidade, que a inteligência emana de uma lei ininteligente e cega?

Os ultramontanos, os fariseus, os mercadores religiosos, que nos falam de um Deus parcial e vingativo, de um espírito infernal criado para torturar eternamente as almas, de uma ,justiça que castiga em filhos inocentes as culpas dos pais até a íntima geração? Sim, estes são os sensatos de nosso século, os redentores da humanidade, os homens de sabedoria. Oh! santa moral do Evangelho! oh! Filosofia cristã! oh! Espiritismo! Os que te condenam, ou não te conhecem ou te caluniam.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.