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Capítulo 5 de 47

III — parte 2 de 6

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

A República Romana, ferida de morte sob o domínio de Júlio César, o vencedor de Pompeu, acabava de sucumbir afogada entre os braços vigorosos de Augusto, o vencedor dos republicanos Bruto e Cássio e dos triúnviros Lépido e Marco Antônio. A nação soberana, que havia massacrado com o carro de seus triunfos e imposto seu jugo a todos os povos da Terra, prostrava-se por sua vez como humilde escrava aos pés de um macebo, submisso, ao que parece, às mais leves insinuações do Senado. Uma modificação radical se operava na organização política do grande povo, e sobre as velhas instituições de uma república tirana e invasora se erigia um império robusto e varonil desde seus primeiros dias de Júlio César, com sua espada, havia feito de todo o antigo continente uma só província, cuja metrópole era Roma e Augusto pacificará com sua moderação e gênio organizador os países conquistados, inaugurando nos mesmos um período de bem estar e prosperidade que seus sucessores não saberão continuar.

Porém, semelhante modificação de instituições políticas, se bem que essencial na forma, não alterava na base a maneira de ser daqueles povos. Levantara-se um edifício novo sobre alicerces gastos. Era um enxerto jovem e pujante em um tronco vetusto e carcomido. O mundo necessitava de algo mais do que uma mera transformação na organização dos poderes públicos, porque o mal que o minava e corroia não estava tanto na superfície como no sangue, como nas entranhas daquela geração corrompida e depravada. Em vão o jovem Império recolherá do lodo a autoridade prostituída, em vão cerceará os direitos e foros populares e as cabeças turbulentas: em vão também levará aos mais remotos climas suas aguerridas legiões para que o estrondo das armas faça olvidar a liberdade perdida e o prestígio apregoe aos quatro ventos a glória da orgulhosa Roma: tudo isso em vão; porque a grande família humana tinha o coração gangrenado e o Império continuava as tradições e os vícios sociais que vinham desde há muito ferindo os sentimentos, os hábitos e as cremas.

As civilizações romanas, imperfeitas desde seu nascimento e princípio, e corruptora depois, à medida que alargava suas fronteiras conquistando cada dia novos paises, precipitavam com a lepra de seus vícios a decadência da antiga sociedade. Era uma civilização ruidosa pelo fragor dos combates, brilhante pela eloqüência de seus oradores, e pelo fausto de seus cidadãos, dominadora pelo direito do mais forte e sensual pelo epicurismo, com portas abertas a um politeísmo brutal. A imoralidade e a dissolução reinavam no Olimpio entre os deuses, senhores, libertos e escravos. Cada apetite possuía um altar e cada paixão um templo; e se um resquício de pudor erguia altares a uma divindade protetora das virtudes, os profanava a corrupção geral ou então permaneciam esquecidos e solitários. O fanatismo oferecia holocaustos humanos nos templos e as donzelas e as matronas divertiamse nos circos vendo a arena tingida com o sangue do gladiador ou com os restos ainda com vida de algum miserável escravo, entregue à voracidade dos leões e ao bárbaro gozo popular.

E que princípio regenerador podia a antiga sociedade opor a essas causas dissolventes, a essas enfermidades morais que paralisavam suas forças e aceleravam sua decomposição e morte? Havia em suas entranhas algum germe, latente ainda, com a virtude necessária para restabelecer e reforçar as aptidões morais daquelas gerações; ardia em sua mente alguma idéia salvadora entre tantas aberrações que a aviltavam e perturbavam; existia um povo virgem em meio à prostituição, crente em meio ao ceticismo e fanatismo, virtuoso no centro do relaxamento universal dos costumes, forte e robusto no seio de uma sociedade impotente e decrépita, povo de onde pudesse arrancar o princípio de uma nova era de luz, de prosperidade e de glória? Além, na Ásia, berço da humanidade histórica, e na sua parte ocidental, na Palestina, vivia um povo que, apesar de estar submetido ao jugo dos Césares, se regia e governava por leis próprias, tendo sabido preservar seus hábitos e crenças da influência invasora que a capital do mundo exercia sobre todas as nações até onde alcançavam seu poder.

Aquele povo era o judeu, com seus costumes, com suas tradições, com sua Teologia, com seu templo, com seu Deus, em uma palavra, cara sua civilização especial de quinze séculos, refratário por completo à civilização pagã, que ameaçava absorvê-lo. Ora na prosperidade, ora na desgraça; triunfante hoje, subjugado amanhã; tiranizado pelos egípcios, humilhado pelos madianitas e filisteus, levado de cá para acolá na servidão, oprimido pelos babilônios, assírios, caldeus, persas e gregos; havia demonstrado ao mundo que, se podia ser vencido e encarcerado, possuía uma firmeza inquebrantável de caráter, em cuja virtude via transcorrer os séculos na servidão, conservando suas tradições c esperanças, sem se descompor com os rigores do desterro nem confundir-se jamais com os seus dominadores. Será, pois, a civilização hebraica chamada a triunfar sobre as nações: o rito mosaico, a seiva regeneradora das sociedades; e o povo judeu, o povo típico da Terra para a renovação moral dos demais? Não certamente.

Ainda que baseada na unidade de Deus, e por conseguinte superior às práticas politeístas dos outros povos, a civilização hebraica é, como a romana, a civilização do fausto, da conquista, do ódio, da servidão e da voluptuosidade. Jeová é o Júpiter tonante dos pagãos e o Deus dos exércitos de Israel é Marte da teogonia grega. Os holocaustos humanos aplacavam as iras do Deus da casa ele Judá, da mestra forma que detinha a força das deidades do Olimpo. O povo judeu, na longa e trabalhosa série de suas invasões e conquistas, havia tratado com ferocidade os vencidos, apagando da face da Terra nações inteiras com o ferro e o fogo, exterminando com seu furor não somente os soldados inimigos como seus anciãos, crianças e mulheres. Dirigido por seus juízes, acaudilhado por seus reis e impelido por seus sacerdotes, que pregavam a matança e extermínio como deveres iniludíveis e sagrados, julgava-se o instrumento das divinas vinganças e o eleito de Deus para subjugar a Terra e possuí-la.

Cessou de invadir e exterminar quando se tornou débil e seus inimigos se tornaram poderosos. Á chegada do Império, o povo judeu não era senão o esqueleto de um gigante e sofria a sorte das nações que entraram no ultimo e crítico período de sua humilhação e decadência. Sua importância social e política era nula; e se ainda subsistia como nação até certo ponto independente, devia-o não à virilidade de sua organização mas sim à liberdade ou ao orgulho dos Césares, que gostavam de ter reis como vassalos e nações como províncias. Apenas compaixões inspiram os descendentes de Jacob: seu poderio ficou reduzido a uma vergonhosa impotência. Nem suas leis nem suas crenças irradiam fora dos estreitos limites da Judéia. Povo saído do nada, volta rapidamente ao nada, depois de esgotada sua fecunda atividade e cumprida sua providencial missão. Não. Não é tampouco a civilização hebraica a que pode tomar a causa das correntes humanas, que vertiginosamente se precipitam nos abismos da indiferença, do ódio, da hipocrisia e da iniqüidade.

O povo judeu é, como o povo romano, um povo degenerado, flutuante. Aparentemente rígido observador de suas tradições religiosas, mas na realidade carecido de fé e apegado à sensualidade e ao egoísmo. Belicoso nos tempos de pujança, já que não pode disputar aos romanos suas conquistas, esgota suas próprias forças em estéreis querelas de caráter religioso acerca do sentido das Escrituras, promovendo cismas e seitas que aumentam pouco a pouco sua debilidade interior. Trabalhado pelo farisaísmo, cujos numerosos prosélitos faziam consistir, como os modernos ultramontanos, toda a perfeição espiritual em vãs exterioridades ao mesmo tempo em que continua julgando-se o eleito entre os povos, utiliza a religião para cobrir suas abominações. Como há de poder este povo servir de partida à regeneração do mundo, exausto como se acha de todo germe de virilidade e de virtude?

Não esperemos tampouco que venha de outras civilizações e dos mais longínquos confins o primeiro impulso regenerador, A África, em sua vasta extensão não sujeita à espada do Império, se agita dentro da obscuridade e da barbárie; se esparsos clarões de civilização brilham na Ásia, perdem-se sob a espessa bruma que erguem o fatalismo e a ignorância. A América dormirá ainda um sonho de quinze séculos até que nasça o gênio chamado a arrancá-la dos segredos do oceano. Estará, pois, a humanidade condenada à ruína, por sua corrupção? Os povos desaparecem, as sociedades se fundem, as civilizações têm sua ascensão e seu ocaso; porém a humanidade subsiste perpetuamente, entregue à lei das transformações, que constituem o crisol de sua depuração e de seus necessários desenvolvimentos. Das ruínas de um povo, dos resíduos de uma sociedade, das cinzas de uma civilização, surge uma nova civilização, uma nova sociedade ou um outro povo, com toda a virtualidade necessária para o cumprimento dos mais atraentes fins.

O gênero humano, no primeiro período de sua existência terrena, teve que levar, como a larva, uma vida de instinto grosseiro e material, para converter-se, chefiando ao segundo período, em simples crisálida, afogado por suas paixões e limitado no cárcere de sua ignorância e na miserável servidão de seus vícios. Porém a obscura crisálida se converterá por sua vez em lépida borboleta e, libertada de seu asfixiante casulo, elevará seu vôo a regiões da liberdade e de luz, ganhando em formosura e felicidade em cada uma de suas fases. A humanidade, no momento histórico do nascimento do Império, havia chegado ao último período da segunda de suas essenciais metamorfoses. Aprisionada no grosseiro casulo de suas leviandades, ilhas de sua ignorância e orgulho, tem necessidade de ar e luz; ar para a renovação de suas forças e luz para que possa conhecer seus funestos extravios. Ainda não terão sabido os homens aprender que pelo caminho das invasões chegam à escravidão; espreitamse traidoramente com o objetivo de se usurparem uns aos outros os direitos mais sagrados.

Ainda não compreenderam que a comunidade de origem os faz a todos iguais por natureza; lutam para se destruírem, raça contra raça, seita contra seita, povo contra povo, como se o destino do homem sobre a Terra fosse devorar ou ser devorado e a humanidade uma horrível confusão de vítimas e de verdugos. Ainda não pressentiram as branduras do amor, nem adivinharam que todos, sem exceção de um só, são irmãos; o egoísmo e o prazer constituem a balança das ações individuais e dos movimentos coletivos. Para adivinhar os puros gozos da fraternidade universal; para conhecer a grande justiça da igualdade dos direitos, e para aprender que a liberdade é a saúde do corpo e a vida do espírito, falta um raio ele sol que com a pureza de seu brilho e a suavidade de seu calor desperte os entendimentos e fecunde os corações. Rompa as trevas o sol benéfico da verdade e do sentimento para que a obscura ninfa despregue suas asas, ditosamente transformada em alegre e ativa borboleta.

Adoradores de divindades obscenas e brutais, derramai no fogo sagrado de vossos altares os últimos grãos do nauseabundo incenso: discípulos de Epicuro, apurai em lúbricas orgias as borras da moral do prazer: fariseus hipócritas, esmerai bem o manto de vossas exterioridades para seduzir o povo c explorá-lo um dia mais nas suas crenças religiosas: escribas, doutores, levitas, acrescentai a derradeira interpretação ao sentido da Escritura, para que se levante uma seita a mais, um novo motivo de discórdia e divisão no seio da sociedade judaica: apressai-vos todos a corromper e a perturbar, porque vai soar a hora em que a humanidade sacudirá o jugo de vossas falsas práticas e de ensinamentos corruptos. É mister que a linhagem humana se salve, e se salvará, porque o necessário irrevogavelmente sucede, A humanidade é filha de Deus e Deus não permitirá, em seu onipotente amor, a perdição de sua filha. Descerá do céu a verdade que abrirá a porta do entendimento humano e a brandura do amor suavizará a dureza do sentimento.

Querendo Augusto conhecer o número de homens submetidos a sua autoridade no Império e nas províncias tributarias, mandara fazer um recenseamento geral. Em cumprimento ao edito imperial, um homem e uma mulher, com características de modesta condição, caminhavam em direção da cidade de Belém a fim de serem recenseados; mas antes de chegarem ao término de sua viagem sobrevieram à mulher as dores do parto e numa humilde choça, sem nenhum auxílio senão o de seu esposo e sem outro amparo que o de Deus, deu à luz a um belo menino. Uma estrela, precursora da regeneração da linhagem humana, brilhou naquele instante pelos lados do Oriente. Acabava de nascer o predestinado dos tempos, o redentor dos homens, Jesus Cristo.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.