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Capítulo 12 de 47

VII — parte 3 de 8

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Que é o Espiritismo? Um sistema filosófico que estabelece, como o espiritualismo, além da existência de Deus, Ser de natureza incompreensível, a de seres distintos dos corpos e de uma ordem superior, nos quais residem, num grau mais ou menos adiantado de desenvolvimento, a inteligência, à vontade e o sentimento: estes seres, imortais por sua natureza, são os mesmos que animam os organismos humanos, dos quais se separam quando a morte do corpo sobrevém. Admite também a solidariedade universal de tais seres dentro da Criação e afirma que podem pôr-se e se põem em comunicação uns com outros por meios conhecidos às vezes, e às vezes desconhecidos, porém sempre naturais. Deus, inteligência suprema, causa de todos os seres e fonte de toda realidade, a criatura racional, inteligência relativa, perfectível, emanação de Deus; atração recíproca, pelo amor, dos seres inteligentes, espirituais; eis aqui os princípios capitais da Filosofia Espiritista, dos quais são derivações lógicas todas as doutrinas que sustenta.

O Espiritismo, pois, está edificado sobre a existência de Deus e dos espíritos e sobre a comunicação recíproca dos seres espirituais. Para julgar a solidez do edifício torna-se conveniente examinar em primeiro lugar a solidez dos alicerces; pois, se estes forem falsos, a obra carecerá de estabilidade e virei ao solo facilmente. Deus é a verdade fundamental, porque é a única verdade absoluta: sem ela não há Filosofia possível. A Filosofia é o conhecimento das coisas através de causas e de seus efeitos e claro é que faltando uma verdade fundamental, uma causa primeira, não seria possível se referir às causas secundárias e a Filosofia haveria de girar necessariamente num círculo vicioso, explicando os efeitos por outros efeitos, e estes por outros, até chegar a um efeito sem causa. É a matéria esta verdade fundamental, esta causa primeira? Não, por certo; a matéria sugue suas incessantes evoluções fatalmente impelidas por uma força, que não pode ser uma propriedade sua porque é regida por ela.

Do mesmo modo que não é uma propriedade da folha da árvore o sopro que a põe em movimento, assim tampouco é uma propriedade dos átomos o sopro que os aproxima ou separa. É a força aquela verdade fundamental? A força obedece por sua vez a leis matemáticas, às quais não pode de maneira nenhuma se subtrair e estas leis, sabiamente concebidas e infalivelmente ordenadas, acusam a realidade de uma inteligência suprema: esta e não outra pode ser e há de ser a verdade fundamental de toda Filosofia. A existência de Deus não é uma verdade exclusivamente metafísica, pois que pertence também, de certo modo, ao domínio da ciência experimental. Como conhecemos a existência do fluido eletro-galvânico pelo estudo dos fenômenos que se produzem com o auxílio da pilha de Volta, assim sabemos que Deus existe, pelo estudo e análise dos seres. Há, por ventura, no universo uma partícula, uma molécula, um, átomo que não circule obedecendo a uma força com inteligência dirigida, a um plano sabiamente préordenado?

E se na análise dos seres não encontramos um só no qual não exista uma atividade matemática, inteligente, podemos racionalmente duvidar de que existe um poder, uma virtualidade inteligente universal que preside ao comprimento das leis naturais, e que é a alma, e espírito da Criação? Porém a observação nos ensina que além da substancia inteligente universal, da alma da natureza, existem infinidades de individualizações de outra substância, inteligente também, com aptidões limitadas, emanação da Inteligência suprema, individualizações que se manifestam na Terra por meio de organismos, aos quais animam, como anima o universo à inteligência infinita. E do mesmo modo que não se perde na Criação nem se aniquila um só dos átomos materiais, tampouco haverá de perder-se um só dos átomos inteligentes, os espíritos. Não há razão plausível fundada na Natureza para que, sendo eternas as unidades atômicas, deixem de sê-lo as unidades espirituais. O que a experiência ensina é que umas e outras evoluem constantemente, entregues à lei das transformações, que é a lei eterna do progresso.

Cada um tem em si mesmo a evidência da existência do espírito; porém os materialistas afirmam que a causa do espírito é a matéria; que as funções do espírito não são outra coisa senão resultados fatais de propriedades da matéria, convenientemente disposta. De maneira que os átomos, sem ser inteligente nem com inteligência dirigidos, se combinam de sorte que chegam a produzir o pensamento. Argumenta-se-á que semelhantes combinações procedem de uma lei, e que esta lei é propriedade da matéria. Muito bem; mas neste caso concluiremos que a matéria, carecendo de vontade e de pensamento, está possuída de uma lei sapientíssima e infalível, em virtude da qual combina e elabora seus inconscientes elementos e produz a consciência. Deseja-se algo mais ilógico, mais anticientífico, mais descabelado, mais absurdo?

E se tanto as sábias leis universais como as manifestações inteligentes individuais não podem ser propriedades da matéria, mas sim efeitos de causas inteligentes, resulta que há uma Inteligência Universal animando a Criação, e multidão inumerável de inteligências relativas ou limitadas, individualizações de uma substância ativa, diferente da matéria: Deus e os espíritos. Nisto concordam todas as escolas espiritualistas, seja qual for sua comunhão religiosa; porém o Espiritismo acrescenta algo mais, e este algo é o cavalo de batalha, a linha que divide em dois campos aos que milham sob uma bandeira comum. Esta linha divisória é a comunicação espiritual. Dizem os espíritas. Pasto que as almas vivem depois da decomposição dos organismos que animaram na terra, compreende-se sem dificuldade que podem aproximarse de nós e ainda nos comunicar por uns ou por outros meios seus desejos e pensamentos. Porventura romper-se-ão todos os laços espirituais com a decomposição do corpo? Não deixam os espíritos na Terra afetos, simpatias, seres amados, que hão de exercer sobre eles uma atração irresistível?

Não irão em busca desses seres que tanto amaram e com quem dividiram as alegrias e as penas? E se lhes oferece ocasião de lhes manifestar sua proximidade ou fazer-lhes sensível sua presença, não experimentarão nisso um vivo prazer, uma satisfação inefável? E que os espíritos não são livres, replicam uns: seu destino é definitivo depois da morte: ou o céu com os seus gozos eternos, ou o inferno com suas chamas inextinguíveis. Pergunta-se: ele onde tomaram certos espiritualistas este céu e este inferno localizados em que as almas hão de permanecer eternamente confinadas? Quão grosseira, quão pobre concepção tem formado do espírito aqueles que fazem depender de um lugar os deleites e os sofrimentos morais! Qualquer que seja a fonte onde tenham bebido semelhante conceito tocante ao destino dos seres espirituais, suas afirmações pugnam com a sã razão e não resistem ao mais ligeiro exame da crítica.

O que o bom sentido ensina neste ponto é que tanto a felicidade como o sofrimento dependem da harmonia ou do equilíbrio moral dos espíritos, de conformidade com seu estado relativo, e que estes levam em si mesmos, independentemente da região do espaço em que se encontrem, o inferno de seus remorsos se feriram as leis da consciência, ou o céu de seus gozos derramaram o bem a mancheias. O céu da Filosofia é a inefável satisfação que experimenta o justo pelas bênçãos que o seguem, pelos amores que o acompanham, pela contemplação das belezas que o rodeiam, pela liberdade de que goza, pela esperanças de um futuro ainda mais venturoso dentro do livre cumprimento de seus deveres; e o inferno, a aterradora recordação dos crimes, o eco das maldições, a obscuridade, o isolamento, a necessidade de recomeçar a prova e reparar as injustiças, a convicção de ter-se separado do caminho que conduz à posse da felicidade e do amor.

A comunicação entre as almas dos que morreram e os homens é impossível, replicam outros: entre o espiritual e o corpóreo não se concebe meio de relação. Não se concebe meio de relação! Poderá desconhecer-se o meio, porém a experiência demonstra que a relação existe; que a substância espiritual age sobre a matéria corpórea. Não vemos nas leis universais a atividade incessante do Espírito supremo agindo sobre a natureza sensível? Não se serve dos órgãos do corpo para suas manifestações o espírito do homem? É, por conseguinte, infundada sob todas as luzes, a teoria que nega aos espíritos a faculdade de revelar-se aos homens, supondo que não possa haver laço de relação entre o mundo espiritual e c corpóreo.

Aos espiritualistas que aceitam como autoridade indiscutível as Sagradas Escrituras recomendamos a leitura do capitulo V de Tobias, capitulo IV de Job, XLVI do Eclesiástico, VIII, XX, XXX, e XXXVII de Isaias, XXX de Jeremias II de Ezequiel, VIII, IX e X de Daniel, II de Joel, XI de São Lucas, VI, X, XI, XVI dos Atos dos Apóstolos, II - de São Paulo aos Filipenses, as Epístolas e o Apocalipse de João, e em todos eles além de outros mil que poderíamos citar encontrarão provas as mais cabais da realidade da comunicação espiritual, tal como o Espiritismo a entende. E, se além do testemunho das Escrituras quiséssemos acrescentar o testemunho humano, citaríamos livros às centenas, nos quais encontramos a realidade do fato e dezenas de periódicos que o atestam com autoridade de um enorme número de pessoas pertencentes a todas as classes e categorias sociais. Demonstrada a possibilidade da comunicação entre ambos os mundos, o espiritual e o corpóreo, o testemunho humano e o dos historiadores sagrados têm uma força incontrastável.

De maneira que os princípios fundamentais da doutrina espírita vêm a público através de debates das idéias sancionadas pela observação, pela autoridade humana, pelo testemunho religioso, pela crítica filosófica. A isto se deve o fato de militarem nas fileiras do Espiritismo, cada dia mais numerosas e compactas, homens eminentíssimo, de esclarecida reputação científica, verdadeiros faróis da humanidade, procedentes de diferentes igrejas, formados em diferentes escolas, espalhados por todos os povos cultos. Já começam a se persuadir os detratores interessados da nova idéia, da ineficácia de seus esforços em querer apagar a esplendorosa luz que começa a brilhar sobre o obscuro fundo dos erros passados. Chega a seu fim a infância dos povos e com ela a tirania dos que prosperam ás expensas do progresso.

Cremos haver demonstrado que os princípios fundamentais da doutrina espiritista vêm ao público através dos debates das idéias sancionadas pela observação, pela autoridade humana, pelo testemunho religioso e pela crítica científica, constituindo um corpo de Filosofia digno de profundo estudo. Acrescentamos agora que o Espiritismo, além da Filosofia, é também religião, e poderíamos ainda acrescentar tratar-se de uma única religião natural e racional. Somente ele explica satisfatoriamente, sem violar o bom senso nem ferir o sentimento, os destinos da criatura e suas relações com o supremo Autor do universo. Mas que não se creia, quando afirmamos que o Espiritismo é religião, que entendemos como tal o culto externo, esse conjunto de cerimônias e fórmulas aparatosas com que as religiões chamadas positivas procuram sustentar a fé, excitando a imaginação de seus adeptos. Ao nosso modo de ver. as cerimônias exteriores do culto organizadas ou regulamentadas pelas respectivas igrejas não são, não podem ser indispensáveis para o progresso espiritual e muito menos, por conseguinte, da verdadeira religião.

Claramente o dá a entender São Paulo, em sua segunda epístola aos Romanos, quando diz que não é judeu o que o é manifestamente, nem circuncisão a que se faz na carne, e que é judeu circunciso aquele que o é no interior de sua alma: doutrina elevada, justa, racional, que explica com toda perfeição a necessidade do sentimento religioso e a superfluidade das formas. E preciso não esquecer que a religião é de origem divina e os cultos, instituições humanas; eterna e imutável a primeira, mutáveis e perecíveis as segundas. Podem as exterioridades satisfazer os homens em suas relações sociais, porque seus olhos não podem sondar os corações alheios; porém Deus, que penetra no intimo de nosso ser, só pode ser satisfeito com a adoração espiritual. Nós entendemos por religião o culto íntimo da alma, a sentimento de adoração que vai da criatura ao Criador, a observância das leis que presidem ao movimento espiritual, à inefável economia moral do universo.

Nesta religião a templo é o espaço sem limites, o altar o coração da criatura, o sacerdote o homem, e a Igreja a formam todas as famílias humanas existentes na imensidade dos céus. Veste sentido o Espiritismo é religião; porque ensina que Deus é o centro de todas as perfeições e harmonias e mostra aos homens o caminho da perfeição e felicidade pelo cumprimento do dever. Crê em Deus, na liberdade humana, na sobrevivência do espírito, e na responsabilidade individual efetiva pelos sentimentos e pelas obras voluntárias. Para o Espiritismo, religião e moral constituem uma mesma coisa, porque só o cumprimento do dever nos pode aproximar de Deus, da felicidade e a moral, a ciência, do dever. Qual será o homem verdadeiramente religioso? Aquele que age com justiça: aquele que ergue no fundo de sua alma um altar ao Pai do universo e levando em conta a comunidade de origem das criaturas racionais, considerando todos os homens como seus irmãos. Disso se deduz que o Espiritismo é a religião cristã em sua pureza original, sem formas exteriores e sem mercantilismo, tendo por coligo único a moral do Evangelho.

Jesus Cristo não fez indispensável nenhum culto para a salvação das almas, mas sim a fez depender do amor ao Criador e à criatura. Porque, pois, se faz tão rude guerra ao Espiritismo sob o ponto de vista religioso e se procura insurgir contra ele a consciência dos povos? Não o apresentam como um conjunto de máximas absurdas e imorais e de práticas diabólicas? Não lançam aos seus adeptos os mais terríveis anátemas? Isso sucede de fato, e ainda iriam mais longe as coisas, se a Igreja não tivesse, segundo a expressão de um escritor católico romano, as mãos amarradas. (1) (1) "A Fé católica e o Espiritismo" do Dr. Niceto Alonso Perujo. Por que foi caluniado, escarnecido e crucificado Jesus? Por que os sacerdotes insuflaram contra ele as turbas Por que o ódio sacerdotal até o extremo de preferir a morte do filho de Maria à morte de Barrabás? A religião naqueles tempos não era outra coisa senão comércio e hipocrisia; e Jesus veio para desmascarar os hipócritas e desbaratar do templo os mercadores.

A religião era a oração na sinagoga e em praça pública. E Jesus veio para condenar as exterioridades, recomendando a oração que se faz a Deus no recôndito dos lares. A religião era o templo de pedra. E Jesus veio para substituí-lo pelo templo do sentimento. Em resumo, a religião falava aos sentidos pela vaidade das cerimônias; e Jesus fazia caso omisso das cerimônias, dando toda importância à bondade e às obras do espírito. Vejamos agora o que o Espiritismo faz, e talvez não será difícil conjeturar os motivos da encarniçada guerra que lhe declararam os descendentes daqueles fariseus que crucificaram Cristo. Em primeiro lugar, proclama a ilegitimidade do sacerdócio que não se baseia na prática das virtudes e na pregação da verdade; apenas isto é suficiente para que se apresentem à luta as hostes ultramontanos. Recusa aos homens o direito de absolver ou condenar, fazendo depender a redenção, da bondade de suas obras. Não crê na eficácia da oração paga, neta que o dinheiro possa influir na sorte das almas.

A única infalibilidade que reconhece é a de Deus e só a Deus presta homenagem de adoração, rechaçando, por conseguinte, o culto dos semideuses tão em uso em todas as religiões positivas, sem excetuar a católica romana. Considera dentro do cristianismo e herdeiros das promessas de Jesus aqueles que adoram Deus e praticam a caridade, seja qual for sua filiação religiosa, ou mesmo que não pertençam a nenhuma igreja conhecida. E, por último, combate sem tréguas nem descanso à seita ultramontana, a maior e mais nociva praga da época, que fez do cristianismo o cadinho de suas misérias, do culto um esplêndido mercado e do sacerdócio um oficio lucrativo e um elemento de resistência contrário ao progresso e à emancipação dos povos. O Espiritismo é a pregação do Evangelho de Jesus: por isto os escribas e fariseus do século concitam contra ele as turbas e clamam aos ouvidos de (César: Crucificatur!... Crucificatur!

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