Voltar ao livro Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento

Capítulo 6 de 47

III — parte 3 de 6

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Trinta anos permaneceu Jesus oculto antes de dar inicio à santa pregação de uma doutrina nova, que haveria de derrubar os altares dos antigos deuses para substituí-los por outro altar, não feito de mármores e de madeiras raras, mas sim de sentimento puro e espiritual. Filho de pais humildes, de pobres artesãos, que necessitavam do fruto de seu trabalho manual para uma subsistência honrada, com eles compartia as fadigas de um ofício obscuro, enquanto o vastíssimo plano de modificar radicalmente a face do mundo e salvar a humanidade da dissolução e da ignorância, que pesam sobre ela como uma espessa lousa, ia amadurecendo. Naqueles esquecidos rincões de Nazaré germinava a semente da regeneração humana, e de lá havia de brilhar a faísca destinada a produzir um incêndio purificador universal sobre todos os povos da Terra.

A luz das sagradas lâmpadas que ardiam junto aos altares das divindades helênicas, que eram as divindades do colossal. império dos Césares romanos, começava a vacilar e a empalidecer ante o brilho cada vez mais intenso de outra luz mais poderosa, a do entendimento, a ela razão humana que se emancipava pouco a pouco das espessas brumas do fatalismo e do terror. Enquanto os ídolos se comoviam em seus gastos assentos ao choque da Filosofia invasora, e o farisaísmo judaico pugnava inutilmente para sustentar-se e prevalecer sobre as ruínas da tradição mosaica, todas as crenças soçobravam no turbulento mar das paixões ilimitadas, do utilitarismo, da dissolução e dos vícios da época. Derretia-se a civilização antiga; desmoronava-se a velha sociedade sem estrépito e sem glória, como um edifício em ruínas que vai caindo lentamente, roído pela ação demolidora dos séculos.

Vazias as consciências, exaustos os corações de virtudes e de fé, a religião não era outra coisa senão um conjunto aparatoso de formas artificiais com o que procurava dissimular a carência quase absoluta de moral. Cinco séculos antes, já haviam notado este vazio e entrevisto os meios de preenchê-lo para o bem da humanidade o ilustre Sócrates, filósofo grego que exerceu notável influência em todos os filósofos e escolas filosóficas moralistas posteriores. Ele e seu discípulo Platão, conhecedores profundas dos males de seu tempo, vendo que a religião era algo mais do que o tributo de adoração da criatura ao Criador: era máscara hipócrita com a qual se pretendia encobrir a corrupção e o sensualismo. Quiseram eles pois, espiritualizar as crenças, fazendo da alma humana o princípio e o objeto de toda a Filosofia e da Divindade o fim de toda a aspiração humana. Mas o terreno não estava preparado para receber a semente salvadora.

Ainda havia a humanidade de chafurdar-se por longo tempo no seio de suas leviandades e na imundícia de seus grosseiros deleites, para que se fizesse mais sensível à necessidade da regeneração e os povos abrissem seus ouvidos à verdade e seus olhos à luz. Sócrates foi obrigado a beber cicuta em desagravo às absurdas crenças dominantes e Platão esperou em vão a aurora do novo dia. Ao chegar Jesus Cristo, o amado não estava em condições de oferecer frutos da verdade, mas sim de receber a semente. Por esta razão todas as crenças vacilaram e a confusão religiosa agitava os ânimos inquietos, que haviam de volver-se facilmente na direção de onde quer que venha um raio de sol que iluminasse os desertos da consciência.

Tropeçaria a nova idéia com obstáculos aparentemente insuperáveis; suscitaria tempestades de perseguição e de ira; teria que constantemente travar batalhas contra as tradições, contra os costumes, contra os interesses seculares criados à sombra de antigos princípios; porém, conto sobre aqueles interesses, costumes e tradições esta a necessidade de conservação, e todas as sociedades a sentem, e ainda por ela, providencial ou instintivamente, sacrificam qualquer outra necessidade, chegaria no ultimo dia o momento em que a nova idéia triunfante de todos os seus inimigos, se apoderasse dos entendimentos mais refratárias a inovações e ao progresso. Não se ocultava à claríssima inteligência de Jesus, que veio a Terra em cumprimento das profecias para redimir com sua doutrina a humanidade desgarrada, o estado moral das sociedades de seu tempo. Desde seu obscuro retiro de Nazaré seguia o movimento do mundo e cheio de amor por seus irmãos chorava em silêncio as veleidades dos homens; no entanto, não quis aventurar por precipitação ou leviandade o resultado da grande obra cuja primeira e fundamental pedra havia de colocar com seus divinos ensinamentos.

Nada menos de trinta anos levou para meditar e preparar-se para a luta, como se tivesse querido manifestar que todas as forças que ao espírito e ao corpo presta a idade viril haviam de lhe ser necessárias. Soou por fim a hora marcada nos supremos conselhos para a reabilitação dos homens. Sai Jesus de Nazaré, isto é, da obscuridade, do silêncio, da meditação, do sossego e dos afetos do lar, para entregar-se inteiramente ao ministério da palavra, ao ensino público da doutrina redentora, ao desenvolvimento prático do plano divino que há de transformar o mundo, à agitação e aos perigos que traz consigo a luta franca da verdade contra o terror, ao sacrifício de si próprio em altares de amor pelos demais e pela salvação de todos.

Cruzará o cenário da vida pública como um meteoro fugaz, despercebida pela quase totalidade dos homens de seu tempo: algumas pessoas do povo, poucos em número, adivinhando sua missão, o crerão Profeta e o chamarão Messias; os sábios do século e os céticos o confundirão com os doidos e visionários, dignando-se lhe conceder apenas um olhar de compaixão depreciativa; os sacerdotes o tomarão como instrumento de Belzebu e todos aqueles condenados pela severidade de suas doutrinas o chamarão de impostor, mago, corruptor dos costumes e das antigas crenças e agente sedioso dos inimigos de César. Não logrará agrupar em redor de si, para a divulgação da boa nova, senão uma dezena de criaturas do povo, pobres e humildes como ele, sem nome, sem instrução, sem influência; e ainda, dos doze, o maior e mais dedicado o negará três vezes, outro o venderá aos sacerdotes, seus mortais inimigos, e todos se dispersarão ao sopro da perseguição, deixando-o abandonado no dia da tormenta. Mas não importa.

Nada disso escapara à previsão de Jesus: ele sabe quão ineficazes hão de ser por ora sua abnegação e sacrifícios; que nem mesmo os seus o conhecerão e o receberão; que seus ensinamentos provocarão as iras da hipocrisia e do orgulho; que o vaidosa povo o saudará hoje como salvador, para levar-lhe amanhã a ignomínia da cruz; tampouco ignora que existe a época da sementeira e a época da colheita, e para tornar fecunda a semente da nova fé teria que regá-la com seu próprio sangue Eis porque, desde sua saída de Nazaré, nem uma só vez seus lábios deixam transparecer o mais leve sorriso. Seu semblante e suas palavras revelam continuamente a tristeza que existia em seu coração. A nuvem de seu rosto se dissipa apenas quando seu espírito venturosamente arrebatado se desprende da terra para ir ao encontro do céu, de onde, dominando os tempos e vislumbrando o futuro, conta às gerações e os séculos, e vê a árvore da vida fazendo grata c salvadora sombra sobre todos os povos, confundidos em um só pela adoração e pelo amor.

Nestas horas de inefável e divino êxtase, em que o sentimento o toma por completo, sua alma salta rapidamente as distâncias que o separam daquela feliz idade, término remoto de seus presentes desejos, em que nem no monte nem em Jerusalém se adore ao Pai, senão com a adoração verdadeira do espírito, e reinem entre os homens a fraternidade e a virtude. Que significam para Jesus naqueles momentos as amarguras de sua vida? Gloriosas recordações de uma abnegação heróica, harmônicos ecos de uma existência toda consagrada ao amor, e doces memórias de um passado de redenção e de sacrifício, plácidos aromas de uma flor em cujo cálice bebeu a humanidade o delicioso néctar da vida.

Porém, se durante estes parêntesis de arrebatamento e de profecia se vislumbra em seu rosto e brilham em seu olhar a felicidade e o triunfo, novamente as lágrimas empanam o brilho de seus olhos e a tristeza turva a sua face divina, quando de novo volta a desconsoladora realidade que o rodeia, prevê as dificuldades com que sua doutrina terá de lutar e os muitos séculos e gerações que haverão ele se suceder antes que chegue a época da ceifa e a humanidade se aposse, por seus méritos, da venturosa Terra Prometida. De sorte que a reformadora missão a que consagrou Jesus todas as forças vivas de seu espírito nos três anos de ensino público do Evangelho, que foram os últimos de sua vida, termina com um ato de incomparável abnegação, consumado no segredo de sua vontade, no santuário de sua alma, na arca selada de suas celestiais concepções e na puríssima fonte de seus sentimentos de amor.

Porque, saber que toda a energia de suas palavras e ele seus desejos haveria de ir de encontro ao ridículo, à hipocrisia, ao ceticismo e à ignorância; saber que haveria de ser a mofa e o alvo das iras daqueles mesmos a quem se propunha regenerar e salvar; e, não obstante, vencer tudo, ridículo, mofas, perseguição e martírio, para que em tempos ainda remotos frutificasse a semente evangélica e pudesse a humanidade sair do Egito de sua cegueira e de suas misérias. Isto é abnegação e tão grande, que só é possível conceber-se em quem, como Jesus, se esquecesse por completo de si mesmo para apenas lembrar-se da felicidade dos demais. A abnegação é o primeiro princípio da semente cristã: nos parágrafos sucessivos a veremos alimentar-se do amor e deitar profundas raízes pela: virtude do sacrifício, três palavras que, como os três atributos, se completam e reciprocamente se explicam, constituindo jantas e separadamente a seiva do cristianismo primitivo, a única que possui a virtude necessária para que a árvore erga majestosamente sua copa sobre o firmamento e cubra Sob sua esplendida ramagem todos os povos da Terra.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.