[user_registration_my_account]
Capítulo 8 de 47
III — parte 5 de 6
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
O Sermão da Montanha é todo constituído de espírito democrático: é a expressão mais pura da igualdade, derramando-se como bálsamo consolador sobre todos os deserdados, sobre todas os aflitos e oprimidos e a condenação mais categórica de todas as tiranias e todos os privilégios. A palingenesia cristã aparece em sua origem rompendo as cadeias do escravo, e devolvendo ao homem, com sua liberdade, os foros inalienáveis de sua dignidade humana, espezinhados e escarnecidos desde o nascimento das primeiras sociedades, em prejuízo dos fracos e humildes. Os que tinham os olhos cravados na terra ele seus suores, de suas penas e de suas lágrimas, erguem-nos ao céu das promessas de Cristo; e aqueles que os haviam posto no céu de seu orgulho, baixam confusos a cabeça e os cravam na terra de sua leviandade e misérias. Ouviu-se uma voz que modulou as esquecidas harmonias e despertou as consciências, suave para uns como o ameno sopro da brisa, mas terrível para outros como o ameaçador vento da tempestade.
Jesus não vai buscar a divina inspiração sob a arcada e majestosa abóbada do templo. Para ali se dirige simplesmente para confundir os doutores e sábios ou para expulsar os mercadores. Mas para levar a palavra de Deus e mostrar às pessoas as sendas da vida, o templo de sua preferência é o universo, a abóbada o firmamento, a cátedra a montanha e o altar o coração do humilde povo, que o ouve absorto e com o coração alegre. Quanta coisa há para ser meditada em tudo isto! Quantas reflexões, quantas inquietudes, quantos comentários, quantos tristes pressentimentos não surgem na mente e no corarão ao retroceder até o berço do cristianismo para estudá-lo em seus desenvolvimentos posteriores! Dezenove séculos de luz e trevas, de virtudes e vícios, de verdades e erros, nos separam de Jesus e do monte da Galiléia, onde ele começou a derramar os tesouros de amor, de sabedoria e de fé, que lhe confiara a paternal solicitude de seu Pai e de nosso Pai, de seu Deus e de nosso Deus.
Se quisermos voltar ao Evangelho, que é o cristianismo original, necessário será que bebamos as cristalinas pérolas da revelação divina no manancial regenerador dos lábios de Jesus. A quem melhor do que Cristo podemos voltar os olhos para inquirir a sanção das crenças cristãs? Os sagrados ecos de sua prédica deslizam ainda pelas vertentes do monte da Galiléia. Após mostrar ao povo, nas Bem-aventuranças, o puríssimo ideal da perfeição do espírito, continua instruindoo nas verdades morais ou religiosas indispensáveis para obter a salvação. Não basta, disse o Mestre, o preceito que se acha na lei antiga: Não matarás? Dias eu vos digo que todo aquele que se afastar com seu irmão, dele abusar, ou injuriá-lo com a palavra, não verá o Reino de Deus, até que haja reparado a falta e tenha devolvido ao irmão o sentimento de amor que deve reinar entre os homens.
Portanto, se fores oferecer tua oferenda no altar e ali recordares que alguma inimizade te separa do próximo, deixa a oferenda e corre a reconciliar-te com ele; pois, a melhor das oferendas na presença para o Pai é o abraço fraternal que provém do perdão ou da reparação tias ofensas. Não esperes para reparar ou perdoar as injúrias; pois, se, desgraçadamente para ti, a morte te surpreender nos caminhos do ódio ou da má vontade, teu castigo será terrível e tão duradouro como teu iníquo sentimento e suas abomináveis conseqüências. Aos antigos lhes foi dito por Moisés: olho por olho e dente por dente: mas eu vos digo que isto não é a perfeição nem o dever. O dever consiste em apagar do entendimento a memória do agravo e a perfeição em amar os nossos inimigos, fazer bem aos que nos aborrecem e rogar por aqueles que nos perseguem e nos caluniam. Dai ao que pede e ao que vos pede emprestado não volteis as costas.
Não ponhais os olhos em uma mulher para cobiçai-la, pois todo aquele que a cobiçou torpemente cometeu já em seu coração o adultério e feriu a lei de caridade atentando contra o desejo à pureza, que é o mais precioso, predicado do amor. Até hoje vos foi dito: Não perjurarás ao Senhor teus juramentos: porém vos dito que de nenhum modo deveis jurar, nem pelo céu, nem pela Terra, nem por nada que existe acima ou abaixo; que vosso pronunciamento seja sim, sim, não, não: pois tudo que disso excede, é o princípio da desconfiança ou da má fé. Aquele que quebrar algum destes mandamentos ou ensinar a quebrálos, será chamado menor no reino dos céus e será chamado grande aquele que os cumprir e ensinar. (1) (1) Leia-se o cap. V do Evangelista. Assim se ia realizando o que o Batista havia predito de Jesus: que batizaria as pessoas, não na água, mas sim em espírito e fogo, em virtudes e em amor.
Suas palavras são o sol dos entendimentos e o Jordão das almas: iluminam a inteligência e fecundam o coração sobre a justiça estéril e egoísta dos antigos, baseada no olho por olho e dente por dente de Moisés, ergue-se à justiça expansiva e generosa da caridade baseada no perdão das ofensas; e sobre as ritos, as exterioridades e as cerimônias dos hebreus, a religião do sentimento e das obras, a humanidade, a ingenuidade, a pureza e o amor. Todas as suas máximas as endereçava Jesus Cristo a fazer da humanidade uma única família, sem exceção de povos, de raças nem cultos, exigindo como únicos títulos necessários para a ela pertencer à bondade das ações.
Por isso o cristianismo se eleva muito acima de todos os cultos conhecidos porque é o único culto verdadeiramente do espírito: por isto é chamado de universal porque ampara e cobre todos os homens, todos os homens de boa vontade; por esta razão rechaçarão ou mistificarão a palavra de Cristo os sacerdotes de todos os tempos, pois designava um lugar muito secundário às oferendas e fazia depender o sacerdócio da palavra e do exemplo. Os sacerdotes não perdoarão a Jesus o Sermão da Montanha, que lhes arrebatava o monopólio da adoração, desde o instante que a adoração deixava de ser uma cerimônia aparatosa, em que necessariamente deviam intervir e a retirava para o solitário altar da consciência. Não o perdoarão por haver revelado ao ignorante povo que a adoração mais agradável a Deus não é aquela que se faz à vista das aglomerações, na praça ou no templo, como o faziam os fariseus e os hipócritas (1), mas sim a que se eleva, secretamente no aposento mais retirado do lar, sóbria de palavras e ricas de sentimento.
Nem o perdoarão tampouco haver ensinado que cada pessoa pode alcançar por si própria, sem mediação alheia, as graças espirituais, e que não basta intitular-se profeta ou ministro da palavra para sê-lo em realidade. (2) Como haviam de perdoar-lhe este divino atrevimento, eles, tão zelosos guardiões das práticas externas, tão exigentes no cumprimento dos ritos e cerimônias do culto, tão credenciados em sua oficiosa mediação entre a criatura e o Criador, tão enamorados de sua intervenção nos negócios espirituais, origem de sua poderosa influência nos negócios do mundo! (1) Leia-se o cap. VI, do citado Evangelista. (2) Leia-se o cap. VII, vv. 7 a 11 e 21 a 23. Sublevarão as turbas e pedirão com elas a morte do inocente. Jesus Cristo despojou o sacerdócio do caráter oficial de que era revestido desde os tempos de Moisés e, estendendo-o a todas as classes sociais, como missão individual, compatível com o exercício de qualquer outro ministério ou profissão, arrebatou-o ao monopólio de uma classe privilegiada.
O verdadeiro, o legítimo sacerdote será aquele que difundir a luz do Evangelho com sua palavra, e a prática de suas virtudes com seu exemplo digno de imitação e aplauso, sejam quais forem seu estado e condições sociais. De onde toma o Mestre seus discípulos, seus apóstolos, seus sacerdotes? Do templo, porventura, onde exerce completa jurisdição o sacerdócio oficial? Da tribo de Levi? Da legislatura? Não, por certo: prescinde da lei: esquece a tribo a que Moisés dedicava o serviço do altar; deixa no templo os sacerdotes oficiais, que, segundo S. Jerônimo, faziam no mesmo um tráfico vergonhoso e elege seus apóstolos dentre o povo, entre as classes mais humildes, entre os pais de família, entre os profanos à ciência teológica, que tanta confusão havia introduzido nas consciências e tanta divisão nos ânimos. Unicamente a pregação e a bondade das obras imprimirão já o caráter sacerdotal.
Virão dias tristes, de confusão e opróbrio, em que o orgulho e os interesses mundanos, envernizados de cristianismo e prevalecendo-se da ignorância comum, se introduzirão no ensino das máximas sãs de Cristo para adulterá-las e explorá-las. Já o profetizara o Messias no mesmo Sermão da Montanha, ao recomendar ao povo que se resguardasse dos falsos profetas, mansas ovelhas em aparência, mas na realidade lobos devoradores. (1) (I) Mateus, VII, 15. Estes falsos profetas são aqueles a quem Jesus mais adiante chama (2) de alvos sepulcros, formosos e limpos por fora, mas cheios de corrupção e podridão por dentro. Virão os tempos, e se levantará sobre os fundamentos do cristianismo primitivo o ultramontanismo, que usurpará para si mesmo o título de cristão, se grande pelo número de seus adeptos, pequeno pelos seus objetivos e orgulhoso egoísmo: porém a solidez do alicerce não salvará da ruína a obra falsamente edificada. A base subsistirá eternamente, mas o resto do edifício tombará ao solo com ruidoso estrépito.
Porque cairão às chuvas, crescerão os rios, soprarão os vento que indo de encontro às frágeis obras dos homens, as arrastarão em sua corrente, e serão apagadas da memória dos séculos. (2) Mateus, XXIII, 27.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.