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Capítulo 10 de 47
VII — parte 1 de 8
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Jesus, na elevação imaculada de seu espírito, não tão somente sonda e conhece os vícios e os erros de sua época, mas vai muito mais além: rasga com sua profética palavra o véu que oculta os arcanos do porvir, em cujos horizontes descobre nuvens ameaçadoras, obscuras, infladas do vento dos egoísmos humanos. Que será de seus ensinamentos, de seu testamento, da luz que, para a saúde dos filhos dos homens, trouxe das alturas, onde resplandecia entre os bustos com a glória de suas virtudes? Será o Evangelho fielmente transmitido e lealmente explicado com amor às gerações vindouras, ou cairá em mãos de mercadores que dele se servirão em benefício de sua desbragada sede de domínio e de riqueza pessoal? Há momentos na vida de Jesus em que sua previsão dos eventos futuros é tão clara, tal é o vigor do colorido com que os apresenta e a minuciosidade nos perfis e detalhes, que não é possível confundi-los com outros acontecimentos e outras épocas.
Ouçamo-lo no capitulo XXIII do evangelista Mateus, e o veremos profetizando com toda a precisão os acontecimentos religiosos e condenando com toda a energia de sua alma os erros e mistificações do cristianismo oficial de nossos tempos. Na cadeira de Moisés, disse Jesus, sentar-se-ão os Escribas e os Fariseus, os que, julgando-se mais sábios que os demais, monopolizam a interpretação da Lei, e os que aparentando hipocritamente mais virtudes se arrogam uma jurisdição espiritual que não possuem, o direito de julgar a outros homens e dirigir as consciências. Não irriteis, pois, sua soberbia; observai e praticai tudo o que vos disserem, se não quer provocar seus anátemas; mas não procedais segundo as suas obras; porque dizem mas não praticam, e não consente no vulgo dos homens o que neles é comum.
Atam fardos pesados e difíceis de suportar, observâncias arbitrárias, inspiradas em seus objetivos de domínio e de lucros, e os colocam sobre os ombros dos homens, protestando que são mandamentos iniludíveis da Lei e eles porém, nem com o dedo querem erguer os fardos que com tanta solicitude atam sobre os demais. Sua religião é pura hipocrisia: fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens e amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas, querem ser saudados nas praças e chamados de mestres, isto é, intérpretes da palavra revelada (I). (1) Mateus, XXIII, 1 a 7. Mas vós, continua Jesus, dirigindo aos apóstolos, não queirais ser chamados de mestres, pretendendo que vossas decisões sejam oráculos infalíveis; porque um só é o vosso Mestre, e vós todos sois irmãos todos igualmente falíveis e fracos, como criaturas imperfeitas, expostas à sedução da concupiscência e ao erro.
E a ninguém na Terra chameis vosso Pai, investindo-o de um sacerdócio superior aos demais; porque um só é vosso Pai que está nos céus, e ele não reconhece entre os homens outra superioridade que não seja aquela que nasce da observância humilde das virtudes. Aquele que entre vós se julga maior, digno ou ,justificado e com o direito de julgar e fazer prevalecer seu juízo, será vosso servo ante o juízo infalível quando soar a hora da purificação do sentimento e da reparação das obras. Porque o que a si mesmo se exaltar será humilhado e o que a si mesmo se humilhar será exaltado (1) (1) Mateus. XXIII, 8 a 12. Considerando o significado e a transcendência destas doutrinas, seladas com a autoridade de Jesus, o grande Pontífice da Religião Cristã, já não nos maravilha que durante séculos se tenha proibido ao povo sua leitura. São tão luminosos seus ensinamentos e tão instrutivas as comparações que desperta!
Como havia de ser interessante que o vulgo dos homens, a plebe indouta, comentasse estes e outros delicados pontos, e comparasse os tempos, graduasse a observância dos preceitos de humildade e fraternidade universal dados por Jesus Cristo a seus discípulos? Vais sensato, para legitimar as inovações e fragilidades do presente, seria arquivar as prescrições do passado; fechar com forte cadeado a proibição do livro da Escritura, aberto somente aos iniciados da proveitosa arte da hermenêutica sagrada, de cujas acomodatícias regras podia tirar grande partido para levar a interpretação às correntes de sus conveniências. Porém há no Evangelho passagens em abundância, onde não bastam todos os equilíbrios e habilidades da hermenêutica para torcer seu sentido reto e acomodá-lo às conveniências e interesses das seitas que tomaram a revelação por instrumento de sua preponderância no mundo.
Pôde isto acontecer sem risco quando a leitura dos Livros Sagrados era monopolizada por uma classe, precisamente por aquela que podia ter interesse em ocultar ou mistificar certas verdades reveladas; mas agora que a afeição ao estudo dos problemas religiosos se propaga: que o pensamento voa nas asas de sua natural liberdade recentemente conquistada; que são muitos os que desconfiam da autoridade e reivindicam o direito de julgar e crer por conta própria; que as proibições do Index avivam o desejo de conhecer as obras condenadas, muitas talvez injustamente, à execração pública; só poderia a hermenêutica com seus recursos e sofismas desfazer o sentido das passagens evangélicas se não houvesse pessoas ilustradas e resolvidas que, conhecendo o disfarce, o denunciem e chamem sobre o mesmo, as suspeitas dos crédulos. Como dissimular, por exemplo, que as proféticas palavras de Jesus que reproduzimos e comentamos se acomodam perfeitamente à nossa época? Nelas não se condenam de uma maneira terminante atos concretos de hipocrisia e orgulho que todos presenciamos, diariamente?
Não passam erguidos à nossa vista escribas e fariseus que, como os da lei antiga, atam para os demais, fardos difíceis de carregar, mas que eles não tocam nem com seu dedo? Não fazem eles suas obras para serem vistos pelos homens? Não amam os primeiros lugares nas ceias, as primeiras cadeiras nas sinagogas, não querem ser saudados nas praças e tidos como mestres e pais infalíveis, superiores aos outros homens em matéria de costumes e de ciência espiritual? Desejam-se provas mais concretas de que nossos dias são os da profecia de Jesus? Mas, ai de vós; - prossegue o evangelista Mateus no capítulo XXIII - ai de vós. Escribas e Fariseus hipócritas! que, multiplicando os mandamentos e atando cargas pesadas, fechais o reino dos céus diante dos homens: pois nem vós entrais, pela malícia de vossos corações, nem deixais entrar os que entrariam, porque lhes tornais mais difícil e insuportável à virtude.
Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas! que devorais as casas das viúvas sob pretexto de prolongadas orações; que explorais a piedade alheia, atribuindo à oração paga uma eficácia que não possui, e assim vos enriqueceis com os despojos da credulidade e do temor: por isso sofrereis mais rigoroso juízo. Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas! que dizimais a hortelã, o cedro e o cominho: que exigis com o maior rigor e cumprimento das coisas que atendam aos vossos interesses, como as formas externas do culto, e deixais de lado as coisas mais importantes da lei, a justiça, a misericórdia e a fé. condutores cegos, que coais um mosquito, afetando muito escrúpulo dos atos de pouquíssima importância que não procedem de perversidade do coração, e engolis um camelo, fechando os olhos às grandes iniqüidades e abusos, contanto que afetem exteriormente a religiosidade e devoção.
Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas! que limpais o exterior do copo e do prato; que vos preocupais em grande estilo em aparecer como os mais zelosos cumpridores da hei, mas por dentro estais cheios de rapina e imundícia, de orgulho c leviandades. Semelhantes sois aos sepulcros caiados, exteriormente formosos, mas por dentro cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e iniqüidade. (1) Depois de lidas estas passagens evangélicas, não olhemos ao nosso redor. Como o Profeta chorou sobre as ruínas de Jerusalém que derramou o sangue do justo, nos também choramos sobre as ruínas da Jerusalém cristã, mal dissimulada entre os fumos do incenso. A primeira crucificou o Homem; a segunda mata a idéia.
Porém a idéia, como Jesus, ressuscitará no terceiro dia, porque leva em si a virtude, o germe, à seiva da ressurreição; porque o sol e a lua se obscurecem e as estrelas caem do céu; porque se ouve já dos quatro ventos as trombetas dos anjos do Senhor alertando os homens para o grande juízo em que a verdade há de sair triunfante do erro; porque o véu do firmamento se rasga, e a humanidade, auxiliada pela revelação e pela ciência, descobre do outro lado novos firmamentos e terras até hoje ignoradas, onde mora a justiça, céus e terras que majestosamente surgem no infinito, como que dizendo à humanidade atônita: A terra é o teu presente; os mundos que brilham sobre tua cabeça, teu porvir, tuas esperanças; o cumprimento do ideal cristão, a força que te levará de praia em praia, de mundo em mundo, de céu em céu, viajando sempre em mares mais tranqüilos, respirando ares mais puros, visitando climas mais venturosos e marchando eternamente para Deus. (1) Mateus, XXIII, 13 a 28.
Dissermos e demonstramos que a abnegação é o primeiro princípio da semente cristã, e dissemos também que nos parágrafos seguintes veríamos nos ensinamentos evangélicos o amor e o sacrifício constituindo juntamente com a abnegação a seiva, o pensamento completo de grande revolução moral iniciada por Jesus. Sim é no desprendimento próprio, no amor a Deus e às criaturas e no sacrifício pelo bem do próximo que está todo o mistério da redenção humana. Esta é a tese que vimos desenvolvendo, embora não com a amplitude que se poderia dar a este gênero de estudos, mas com os principais. pontos que bastam para demonstrar que o cristianismo, religião puríssima da alma, não é o catolicismo oficial, seita que se nutre e vive de ostentação e de cerimônias. Que é o cristianismo?
Dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César; é o desinteresse, é a adoração elevada no lugar mais recôndito do lar, é a persuasão pelo amor e sacrifício, é a igualdade de todos os homens, é a redenção pelas obras, é o culto do coração, é a abnegação dos ministros da palavra, é a falibilidade da criatura e a infalibilidade de Deus, é, em suma, Deus reinando sobre as almas e a beneficência nos costumes. Que é o neocatolicismo? a política do domínio clerical, ou o César aos pés do sacerdote: é o dízimo, é a primicia, é a bula da composição, é a oração retribuída, é a imposição religiosa sobre o homem desde que nasce até depois de morto, é o despotismo sobre o entendimento e o coração, é a morte cia liberdade humana, é a elevação de um homem ao trono do mesmo Deus, é o céu para o rico e o purgatório para o pobre, é a salvação pelo temor e não pela virtude, é o culto farisaico das formas, é em uma palavra, o mercantilismo no templo e o domínio da tribo de Levi sobre todo o povo de Israel.
E, não obstante, a escola católica proclama ser a única que possui o testamento de Cristo. O pior é, mio que ela o diga, mas sim que haja quem o creia. Porque, na realidade, tais são a ignorância e o fanatismo de nossos tempos, que uma grande parte do povo que se intitula cristão ou piamente na infalibilidade daquela escola. Por esta razão torna-se necessário que as verdades evangélicas cheguem ao conhecimento do povo. A ocasião é oportuna, porque as hostes ultramontanas lutam a peito descoberto e tiraram a máscara que cobria seus propósitos. Aspiram elas a dominação universal e não o ocultam; querem impor a inquisição ao pensamento; buscam nos trâmites da política a anulação dos direitos mais sagrados da personalidade humana provocando com a maior impudência sangrentas guerras civis, satisfazendo a ambição de qualquer pretendente desalmado que os admitam em seus conluios. Rebelam-se contra os poderes constituídos; empregam suas riquezas, que deveriam distribuir entre os pobres, em pólvora e fuzis, e embora as tenham recebido dos governos, servemse dessas armas para derrubar estes mesmos governos.
Acaso não foi isto que ocorreu na Espanha há Poucos anos atraís? Quem se esqueceu dos curas de Santa Cruz e de Flix, e tantos outros clérigos que abandonaram sua paróquia, o cuidado de suas ovelhas para dedicar-se inteiramente aos azares da guerra? Qual povo não chora as conseqüências dessa cruzada imortal, que a título de guerra santa semeou a discórdia entre os filhos de um mesmo solo, o luto nas famílias e a miséria nos lares? Se estas palavras encerram gravíssimas acusações, não é nossa a culpa, mas sim daqueles que de erro em erro e da mistificação em mistificação acabaram por levar o cristianismo ao mercado, dele fazendo comércio como se fosse o produto de uma indústria. Hipócritas, guias de cegos, sepulcros caiados, assim chamava Jesus aos Fariseus de sua época. Longe de escusá-los e dissimular suas injustiças, as denunciava em público para que todos fugissem deles como se foge de uma raça de víboras.
São bastante fatais as conseqüências de toda exploração ou fraude de caráter religioso, para que a sofram em silêncio os corações que batem com impulsos de um generoso sentimento. Perdoemos todos, porque todos nós ternos necessidade ele perdão; porém sem nus esquecermos dos ensinamentos históricos do presente, assim como das experiências do passado, para utilizá-las com oportunidade e não nos deixarmos prender nas redes que lançam sobre os homens os inimigos do progresso. Aos que nos falem de cristianismo, provemo-los na pedra de toque do Evangelho; pois assim nos será fácil distinguir se busca nossa salvação ou seu negócio. Que significa a proibição que por tanto tempo pesou sobre a leitura dos Livros Sagrados? Obedecia, porventura, ao temor de que suas máximas fossem erroneamente interpretadas pelo povo?
Todavia não nos esqueçamos de que Jesus as pregava ás multidões e no princípio da Igreja eram lidas ao povo com freqüência; e isto acontecia naqueles tempos em que havia apóstolos e mártires, apóstolos que imitavam o Mestre dentro da mansidão, humildade, pobreza, tolerância, e mártires que ofereciam sua vida em testemunho de sua fé! Quanto mudaram os costumes, os homens e as crenças! Esperemos...Não foi em vão que veio para a redenção da humanidade terrestre um mensageiro do Altíssimo. Não foi em vão o sarcasmo dos escribas e fariseus, cuja preponderância temporal recebia, com a palavra de Jesus, um violento estremecimento. Não foi em vão que ameaçou de ruína imediata o templo de pedra e barro, figura da adoração exterior, que há de ser substituída pela adoração íntima da alma, cujo templo não pode ser outro que a imensidão do espaço.
Alguns séculos de ofuscamento e trevas constituem algo mais do que um parêntesis obscuro na inesgotável história das gerações, algo mais do que um dia nebuloso na eterna sucessão das idades. Os princípios que constituem a seiva do cristianismo, a abnegação, o amor e o sacrifício, conservam ainda sua fecunda virtude. A árvore está enferma, porém não morta. Cairão logo as vegetações parasitas que entorpecem seu crescimento ordenado e absorvem seu viço, e então recobrará seu vigor e à sua sombra benfazeja virão resguardar-se das tempestades da vida, um após outro, todos os pobres viajores da Terra.
O Espiritismo
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.