Voltar ao livro Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento

Capítulo 45 de 47

XIV

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Moisés e o Sacerdote do Sinai Estabelecem as Bases de um Código Político-Religioso para a Educação do Povo. - Lavram o Decálogo em Duas Tábuas de Pedra. - O Povo Prevarica - Fraqueza de Aarão. - Josué Sobe ao Sinai

Moisés e o sacerdote falaram longamente sobre as coisas de Israel depois que voltaram à tenda. Possuía o sacerdote espírito de conselho e de justiça e Moisés inclinava a cabeça à sua sabedoria e virtudes. Juntos meditaram em ordem às leis que convinha dar ao povo, o qual, depois dos acontecimentos da véspera, tinha o ânimo alquebrado pelo temor e se sentia disposto a recebê-las. Antes de descer do Sinai e apresentar-se aos hebreus ouviu Moisés as instruções de seu pai, que abrangiam não só as necessidades morais como também os materiais e temporais, um plano completo de educação e governo, acomodado ao estado de cultura do povo ao qual deveria ser aplicado.

Tratava-se de iniciar uma civilização robusta sobre o fundamento das Tábuas; mas como Israel ainda não podia sentir nem compreender a excelência dos mandamentos nelas contidos, era de todo indispensável um código que, ao mesmo tempo em que pusesse ao alcance dos israelitas, na medida do possível, a moral dos preceitos, reprimisse severamente as abominações e os crimes, tão freqüentes naquela época de apetites grosseiros e egoístas; um código político e religioso, que visasse a estabelecer a moral com o auxílio dos preceitos de governo, um governo ordenado com o auxílio dos mandamentos religiosos. Só dessa maneira seria possível fundar os princípios de uma civilização regeneradora, a raiz de todas as civilizações posteriores, sobre um povo como o de Israel, tão ignorante e dado às brutalidades da carne. Moisés e o sacerdote eram muito superiores ao seu tempo e, ao se ocuparem das coisas dos hebreus, puseram suas vistas, tanto no presente como nas necessidades dos povos e dos tempos futuros.

Não teria sido suficiente a moral estabelecida nos oito preceitos das Tábuas para dulcificar os sentimentos e reprimir a ferocidade dos instintos e modificar, suavizandoos, os apetites grosseiros e egoístas das tribos; era indispensável que a religião aparecesse revestida de formas sensíveis, que falassem, mais que à alma, pelo cumprimento do dever, aos sentidos, pelo fausto ele um culto externo impregnado de misteriosos símbolos e práticas e pelo temor de terríveis castigos temporais aos contraventores da lei. Isso considerado, convinha dar ao culto uma importância suprema, pô-lo sobre tudo aquilo que se referisse exclusivamente à administração civil e ao bom governo das tribos. Ao que pecasse contra as práticas do culto deveria ser aplicado castigo maior que aos promotores de desordens que não fossem em menosprezo do culto ou de seus ministros. Em resumo, a adoração exterior, como princípio da adoração espiritual, deveria ser o nervo da legislação hebraica e considerado o sacerdócio como a mais venerada das funções que os homens possam exercer sobre a Terra.

A fim de que a autoridade de Moisés, necessária ao estabelecimento da nova civilização, não sofresse menoscabo, era preciso que os hebreus o considerem uma criatura superior, privilegiada, espécie de anjo ou semideus, intermediário entre o povo e a vontade divina. Convinha, portanto, que deixasse de intervir diretamente no governo e administração das coisas das tribos, delegando essas funções a varões, a anciãos respeitáveis que, administrando a justiça, fossem ante a consciência do vulgo os imediatos responsáveis. A autoridade de Moisés não se faria sentir a não ser em momentos supremos e sempre como expressão da vontade de Jeová. Quarenta dias estiveram no monte o filho de Levi, em companhia do sacerdote, ambos meditando acerca das leis, judiciais e eclesiásticas, que seria conveniente dar ao povo. Tomaram duas tábuas de pedra, lavraram-nas e nelas esculpiram os mandamentos, dividindo em dois o sexto e o sétimo, por serem os que Israel transgredia com mais freqüência: proibiam-se explicitamente nos novos o desejo do adultério e do furto, que é por onde começa a ocasião do delito.

Assim foram dez os mandamentos: três na tábua da direita e sete na da esquerda; e os dez são só dois mandamentos. Esculpidos em pedra, estariam sempre aos olhos de todos e Israel compreenderia que à vontade de Jeová é firme como a rocha. Virá depois o filho das profecias, Jesus, que reduzirá na nova lei a dois os mandamentos da antiga e dos dois fará depender a sanidade e a vida das almas. Israel, no entanto, perguntava: "Que foi feito de Moisés?" Todavia, cheio de temor pelas ameaças e porque vira a tempestade, não se atrevia a subir o Sinai. "Como adoraremos ao senhor nosso Deus", diziam os hebreus a Aarão: " como adoraremos ao grande Jeová, que nos tirou da escravidão e cuja glória e poder vimos no cumprimento da profecia de Moisés, teu irmão? Oh! Aarão! Teu irmão Moisés nos falou que Abraão, nosso pai, é um venerável ancião de barbas brancas, que vive com os espíritos de Deus, que o viu em sonhos e ouviu sua voz.

Por que não rogas tu a nossa pai que te visite em sonhos e te manifeste a vontade de Deus a nosso respeito, que a observaremos hoje e sempre?" Como Aarão não tivesse visões em sonhos, nem Moisés descesse do monte, tomaram jóias de ouro das que haviam levado do Egito, fundiram-nas e erigiram um deus à semelhança do homem, dizendo a Aarão: "Eis a imagem de Jeová, nosso Deus, que tu sejas seu sacerdote, oferecer-lheás sacrifícios, nós dobraremos a cerviz e o adoraremos". Aarão resistiu, mas como o povo o ameaçasse de morte, ofereceu sacrifícios ao deus de ouro sobre um altar de pedra e todo o povo se prostrava ao redor do altar. Esquecia-se de Moisés e não se dava conta de que era Moisés aquele que havia de receber e lhes manifestar a vontade do Senhor. Somente Josué pensava a toda hora no filho de Levi, pois o próprio Aarão perdera a lembrança e acabara por aceitar gostosamente o sacerdócio do ídolo, que o investia de uma importância ilimitada entre os filhos de Israel.

Josué via a idolatria e a tenaz obsessão do povo e lamentava o seu feroz e estúpido fanatismo, considerando quão fatal seria sua influência nos sentimentos e costumes. Ansiava pela volta de Moisés, como a única autoridade capaz de reprimir os abusos e dirigir o sentido moral e o sentimento religioso dos hebreus. Estes tinham ouvido que Moisés tivera visão espiritual e que Abraão, baixando ao sepulcro séculos atrás, vivia entre os espíritos de Deus e creram que também viveriam depois da morte quantos houvessem fenecido na piedade e na virtude; nessa crença evocavam freqüentemente os espíritos, a fim de inquirir os segredos da vida e da morte. Josué observava essas coisas e, como não se sentia com forças para se opor às práticas supersticiosas que iam nascendo dos desvios do sentido religioso, fazia votos para que o chefe de Israel apressasse seu regresso. No entanto, passavam os dias; era já o trigésimo oitavo e Moisés continuava no monte.

Considerando Josué que com alguns dias mais de tardança já não teriam fácil remédio as abominações do povo, tomou a resolução de deixar em segredo o acampamento e subir ao Sinai. Encontrou Moisés e o sacerdote dando a última demão às duas tábuas e conversando sobre o estabelecimento do código que dali por diante regeria os destinos das tribos. Falou-lhes dos últimos acontecimentos, da adoração ao grande Jeová em uma imagem de ouro à semelhança de um homem e da propensão elo povo ao culto idólatra dos mortos, a cuja evocação supersticiosamente se entregava. Era assim necessário o imediato regresso de Moisés ao acampamento, a fim de opor um dique ao desbordamento das tendências fanaticamente religiosas e aos extravios morais de Israel. Isso ouvido, ainda permaneceram dois dias no monte, até o quadragésimo da partida de Moisés do acampamento e nonagésimo da sairia de Mênfis. Os três deliberaram juntos até a norte do segundo dia, quando Moisés e Josué regressaram às tendas.

XV

Ameaças de Moisés. - O Povo se Arrepende. - O Tabernáculo. - O Sacerdócio na Tribo de Levi. - Instituição dos Juizes

Ao amanhecer, convoca Moisés os anciãos, os chefes, os sacerdotes e os cabeças de família, e lhes diz: Todos haveis pecado na presença de Deus, oferecendo sacrifícios ao ídolo que lavrastes com vossas mãos, do ouro dos egípcios. Por que não pudestes aguardar que eu descesse do Sinai e vos transmitisse a vontade de Jeová, que nos livrou por minhas mãos da escravidão em que gemíeis? Sois réus de morte, porque fizestes essas coisas e forçastes meu irmão Aarão a que as fizesse convosco. Mas quais de vós ou de vossos filhos foram os primeiros nas violências e na adoração do deus de ouro? Esses são réus de morte pela perdição e pela idolatria dos outros e morrerão hoje, antes do pôr do sol, para que paguem por sua iniqüidade e aprendais o castigo dos que transgridem as leis da justiça."

Todos os presentes, cheios de pavor pelas palavras de Moisés e por terem visto sair de seus olhos como que dois raios luminosos que subiam sobre a fronte alguns dedos, inclinaram a cabeça. Julgavam que falava por sua boca o espírito do grande Jeová ou algum dos espíritos de Deus. "Vós ouvistes a minha profecia, que recebi de nosso pai Abraão, e vistes o trovão e o relâmpago, continuou Moisés. Eu vos havia dito que a lei viria do Sinai e a desprezastes, porquanto não esperastes que a lei viesse do Sinai, antes vós mesmos estabelecestes a lei e fizestes pressão sobre o Sacerdote a fim de que vossa lei ficasse estabelecida entre o povo, Por que ninguém de vós nem de vossos filhos se levantou contra a violência para dizer: "Moisés está no monte: esperemos de sua mão à vontade de Deus?" "Pecamos nós, e nossas mulheres e nossos filhos, contra Deus, que nos livrou do jugo dos egípcios, e contra ti, que foste o instrumento da misericórdia, exclamaram os anciãos.

Que teremos de fazer para aplacar a justiça de Jeová por nosso pecado e teu pesar? Fala, Moisés, e agiremos como o Senhor nos ordenar por tua língua, porque a tua palavra é profecia e os céus te honram com sonhos e visões. Que temos de fazer, Moisés? Sê tu o nosso mediador entre Jeová e o povo de Israel, daqui por diante o povo será sempre fiel à palavra de Moisés, pois em ti está a sabedoria e achaste graça na presença do Deus que nos ajudou contra todo o poder do Faraó no Mar Vermelho. Tomou então Moisés mostrando-as à multidão, prosseguiu: Agora está bem; confessou o vosso pecado e fostes juizes do pecado Israel. Mas o Senhor é misericordioso e apagou o pecado pela vossa confissão, e daqui em diante sereis fiéis a seu mandamento. Este é o mandamento do Senhor, que para todo o povo recebi no Sinai na noite da tempestade, escrito nestas duas Tábuas de pedra, a fim de que seja perpétuo o seu cumprimento entre vós e as gerações que virão depois.

Vi em sonhos as duas Tábuas no firmamento, ouvia voz e vi o dedo do Espírito que seguia os mandamentos das Tábuas. E a voz do Espírito dizia: "Estes são os mandamentos da vontade de Deus sobre Israel e sobre todos os povos: se os guardardes, o Senhor fará com ele perpétua aliança de paz; mas se os desprezardes e os transgredirdes, a servidão, o opróbrio e a morte para os filhos de Jacó." E então leu Moisés os dez mandamentos das Tábuas. Ouvia-os o povo em profundo e respeitoso silêncio, exclamando interiormente: "Eis a lei escrita pelo dedo do formidável Jeová nas duas Tábuas que Moisés recebeu no Sinai." Porque o povo julgava que Moisés as recebera do céu na noite da profecia e Moisés, que conhecia o espírito do povo, achou que não convinha desiludi-lo.

E prosseguiu: "Tomareis agora as jóias e riquezas que foram dos egípcios, madeiras e telas preciosas, e com elas construireis um tabernáculo e dentro do tabernáculo um altar, onde sejam guardadas as Tábuas por todo o tempo da peregrinação do povo; no altar serão oferecidas ao Deus dos exércitos hóstias pacíficas pelo bem das tribos. Meu irmão Araão, a quem impusestes a força, e seus filhos, oferecerão os sacrifícios em desagravo da adoração do ídolo que vossas mãos lavraram, e o sacerdócio não sairá da tribo de meu pai Levi, porque do tronco da Levi tomou o Senhor o nosso senhor, ao eleito entre Ele e o povo. Porém, nem no tabernáculo nem no altar haverá figura ou imagem de coisa alguma e as Tábuas serão o único sinal de aliança entre Jeová e o povo. Agora me afastarei de vós e, retirado na obscuridade da minha tenda, me prostrarei na presença de Deus, a fim de que me ilumine para designar os mais dignos entre os anciãos de Israel.

A eles confiarei o povo, para que o governem com justiça e resolvam as vossas contendas, dando a cada um o seu direito e aplicando as leis que pela palavra deles serão dadas às tribos. Porque daqui em diante não intervirei em vossos pleitos e destarte não me acusareis de injustiça e de parcialidade em relação a pessoas e tribos. Os que eu determinar, eles vos julgarão, e vós os julgareis pelos seus julgamentos. Se esses seus julgamentos não forem retos, maldição e morte sobre eles, porque foram instituídos sobre os demais como instrumentos não de iniqüidade mas contra a iniqüidade, a título de guardiões da lei e pais do direito de cada um. Vosso respeito para com eles e as obras de sua justiça Ide contar estas coisas em vossas tendas na presença de vossos filhos e mulheres; amanhã congregareis o povo em nome de Moisés, e Israel conhecerá seus juízes, que serão os que, em meu entendimento, designar a inspiração do Alto."

Retirou-se Moisés e se foi para a sua tenda, onde permaneceu o resto do dia sem se deixar ver pelo povo. Orava e meditava. Ao chegar à noite com suas trevas, enviou o irmão Aarão ás tendas de alguns dos anciãos e dos chefes. Eram os sábios de Israel os Cínicos que possuíam todo o testamento de Abraão, Isaac e Jacó e com Moisés haviam libertado os hebreus. O seu espírito ia adiante do espírito das gerações daquele tempo. Tinham acerca de Deus idéias muito superiores às do vulgo das massas e estudavam o curso das coisas e dos homens, o destino das almas e o mistério da morte, na qual o vulgo ignorante não pensava. Comunicavam-se os seus estudos, pressentimentos e crenças; porém só entre eles, depois de haverem jurado de modo solene o mais rigoroso segredo. Valiam-se de signos misteriosos e frases cabalísticas, para se distinguirem e se entenderem. Foram eles que Moisés convocou, por meio de Aarão, na segunda noite de seu regresso ao acampamento.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.