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Capítulo 25 de 47

VIII — parte 3 de 4

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Fui levado dali depois de presenciar os últimos momentos de uma daquelas infelizes criaturas, Sua vida havia sido curta; os horrores de sua morte, prolongados. O espírito, fortemente agarrado à carne, não pode dela desprender-se sem uma longa e obstinada luta, em que o corpo consome a metade de sua existência e a alma toda a sua atividade mecânica. Efetuou-se, por último, o desprendimento e o espírito, emancipado, passou junto a mim sem me ver, abatido, convulso e com o horror estampado em seu semblante Segui-o e juntos visitamos os outros globos daquele pequeno sistema. Todos eles são ilhas de desterro, cárceres de sofrimento. A vista dos tristes episódios que ali se desenrolavam, procurava excitar em meu pobre companheiro a compaixão e o sentimento do bem. Ele não me via, nem ouvia meus pensamentos: não obstante, acendia-se em sua alma uma pequena luz e íamos nos elevando e nos separando daqueles lugares à medida que aumentava a luz de sua adormecida consciência. Chegou um momento em que vi aquela consciência arrependida e derramando lágrimas.

"Chora, pobre irmão meu, - disse-lhe abraçando-o: - essas lágrimas são o teu Jordão o rompem as cadeias de tua escravidão. Chora e espera; que as esperanças dos que choram são promessas do Senhor." Sem que me visse e ouvisse, em seu semblante ia surgindo uma satisfação inefável. E os mundos de expiação desapareciam de nossa vista, perdidos nas brumas do ocaso e víamos nascer no oriente uma aurora luminosa, precursora de um sol e de um universo mais risonhos. Fomos impelidos diretamente a uma estrela longínqua, cujo disco aumentava sensivelmente em virtude da grande velocidade de nossa marcha. Conforme ia diminuindo a distância que dela nos separava, novos corpos estelares e planetários vinham embelezar o firmamento. Estas belezas não alegravam o meu triste companheiro, envolto em negra obscuridade. Envolvia-o uma nuvem de tal natureza, que, ao invés de receber as moléculas luminosas do espaço, as repelia como se resvalassem sobre uma superfície dura e polida. Oh! prodígios da sabedoria e da lei!

Um mesmo ponto do espaço era para o meu infortunado companheiro de peregrinação o purgatório, mas para mim correspondia, relativamente, ao céu. Enquanto meu espírito se ensolarava na luz consolados do universo e se alimentava do ar da caridade e do cumprimento do dever, ele era presa de horríveis dúvidas e temores, sustentados pelo remorso que começava a revelar-se no fundo de sua alma. Houve, todavia, um instante solene, de felicidade para ele e de estupor para mim: cessou de repente nossa caminhada, e aquela nuvem que o cegava depreendeu-se dele podendo ver-me e admirar por momentos breves a luz em cujas ondas nos movíamos. Julgou que eu era seu deus e me contemplava absorto, entre temeroso pela luz que de mim se desprendia e esperançado pelo benévolo sorriso com que procurava infundir-lhe alento e atraí-lo ao mesmo tempo. Ia por fim prostrar-se a meus pés para beijá-los e adorar-me; mas nesse momento aquela nuvem negra a envolveu novamente e a nossa viagem retomou seu curso interrompido.

O ato de adoração do infortunado espírito havia renovado a lembrança de meus erros e recrudescido minhas penas. A estrela para a qual nos dirigíamos estava já próxima. Parecia aos meus olhos, da mesma magnitude de vosso sol e aparentemente da mesma natureza. E o centro de todo um sistema astral. Ao seu redor descrevem suas correspondentes órbitas alguns corpos opacos, mundos cheios de atividade e de vida, exceto dois, que presumi fossem terras ainda em formação e por isso ainda inabitáveis a seres viventes. Chegamos a um daqueles mundos, morada de criaturas livres, banhado em suas noites pelo pálido fulgor de pequena lua irmã daquela que envia seus raios a Terra. Ostenta em sua superfície, eriçada de montanhas, engalanada de bosques, sulcada de profundos vales e caudalosos rios, mares como os vossos e uma vegetação variada e exuberante.

Povoam suas selvas, seus montes e suas ribeiras, animais das mais variadas espécies, muitas das quais desapareceram a muito tempo de vosso solo; em seus mares uma diversidade enorme de peixes, muito parecidos àqueles que vivem nas águas da Terra; e revoam em sua atmosfera e cantam amores nas sombras e nas ramagens pássaros de riquíssimas cores, muitos deles jamais vistos nem ouvidos por vós sobre a superfície terrestre. Levantam-se de distância em distância imensas espirais de fumo e chamas que sobem das crateras abertas e abundantes lavas mudam os vales limítrofes e as regiões vizinhas. O excesso de calor e atividade não cabe no ínterim do globo e, como seu solo opõe débil resistência em muitos pontos, abrem-se respiradouros necessários através dos quais a matéria busca maior espaço, em suma, geologicamente falando, um mundo com todo o seu vigor e pujança da robusta juventude: a formosura no rosto, a força nos movimentos e o fogo devorador em suas entranhas.

Assim também é o homem que lá vive, fisiologicamente estudado, ou seja através das formas e manifestações com que em seu organismo se revelam a existência e a vida. Seu corpo tem a formosura do vigor, seus movimentos a agilidade e decisão da força; em suas entranhas se oculta tumultuoso c por suas veias circula como rio de lava o fogo devorador dos apetites da carne. A violência c a luxúria reinam despoticamente nos costumes; pois, nesta primeira fase de sua liberdade, o homem colocou soa vontade a serviço de sua concupiscência. Não acata outra lei nem respeita outro direito, que a lei e o direito da força. Sente vez por outra estímulos de tristeza e ainda acessos de ira contra si próprio, que não são senão sintomas de remorso, avisos inseguros de uma consciência débil; porém recobra os apetites seu domínio, lançando-se de novo pelo caminho da violência, da fornicação e do ódio. E um cavalo endoidecido: quem poderá detê-lo no curso de sua vertigem, de sua fatal carreira?

A mesma terra com seus imponentes cataclismos, com suas tremendas convulsões, se encarrega de dominar aquela natureza indômita e aparentemente indomável. À violência do homem opôs a lei da violência dos elementos e meios vitais do planeta. Falarão o vento e a tempestade, as inundações e os tremores subterrâneos, o fogo das nuvens e o fogo dos vulcões; numa palavra, falarão a terra e a céu, e com sua terrível voz emudecerá o furor do homem, caindo este confundido, envergonhado de sua impotência, recordando as violências de seu passado criminoso, e temeroso ante as ameaças universais, de seu confuso futuro. Lá as sociedades estão em seu nascimento e os vínculos que aproximam uns de outros os indivíduos para formar pequenas tribos não são geralmente os do amor ao dever, mas sim os da luxúria, do egoísmo, da usurpação e do temor.

O homem se une à mulher e a acompanha pela carne; a mãe cuida dos filhos, não tanto por inclinação maternal e carinhosa, mas sim para que os mesmos se tornem no futuro os instrumentos de seu instinto e de seu gozo. Dessa maneira vai-se construindo a família. Os estímulos da luxúria e a necessidade de conservar as usurpações da violência provocam a agrupação das famílias. A debilidade, o medo, e o desejo de domínio agrupam várias tribos isoladas e dispersas, constituindo juntas o protótipo das sociedades primitivas. O chefe desses primeiros povos sem pátria e sem lar é aquele cujo robusto braço não tem rival entre os seus e os conduz com prazer à matança e ao saque das tribos inimigas. Tais foram também em seu princípio às sociedades da terra e seus caudilhos; mas daqueles tempos e daqueles acontecimentos não restou memória entre vos; e como as primeiras páginas de vossa história foram escritas pela ignorância. vossa história não é a narração verídica da formação, caráter e vicissitudes das primeiras sociedades terrestres.

Dia chegará, não obstante, em que todos conhecerão o passado da humanidade da Terra; porque a revelação c a ciência preencherão o vazio da ignorância e dos séculos e reconstruirão a História. O Deus do mundo que vos descrevo é aquele que deixa ouvir sua voz pela boca dos vulcões. Os elementos que o homem diviniza a sua maneira são as únicas forças capazes de dobrá-lo e apagar, pelo menos momentaneamente, o fogo de seus ferozes instintos. Ante as grandes convulsões da Natureza é o reais débil e o mais insignificante dos seres: cai de joelhos pedindo misericórdia, esconde-se, fecha os olhos, tapa os ouvidos e treme. Sua covardia é, todavia, uma revelação, isto é, uma revelação eloqüente de sua consciência e liberdade: recorda seus atos de ferocidade e fornicação: adverte que na Natureza há forças muito superiores às suas e teme que as mesmas tenham sido criadas para punir suas leviandades e seus crimes. Fácil é compreender quão tôsca é a idéia de Deus nesses planetas: entretanto, mais rudimentar ainda é a idéia da alma espiritual.

O homem teme a seu Deus, a esse Deus monstruoso, modelo de sua ignorância e da desordem de seus sentimentos e obras; mas não o teme senão com relação ao presente como a um misterioso e gigantesco ser que penetrasse os segredos todos de seu pensamento e pudesse abreviar a seu bel-prazer os dias de sua existência. Todas as suas aspirações e ações vão endereçadas ao presente, que é a sua religião se procurar agradar ao Deus de sua imaginação acomodando algumas vezes seus atos aos preceitos naturais, é com a esperança de que os anos de sua vida sejam dilatados, resolvido a empregá-los na satisfação de seus ódios e de seus apetites libidinosos. Não faltam, entre eles, homens de entendimento e coração, que vêem e conhecem a iniqüidade e derramam lágrimas por ela, esperando com paciência o renascimento de seus irmãos e o reinado da verdade pelo triunfo da virtude.

São espíritos missionários, vindos de esferas superiores como sementes de regeneração cristã, destinados a condenar a perversidade das tendências humanas através de seu exemplo ou de sua palavra e mostrar o caminho da reabilitação e da felicidade das criaturas. Muitos vivem ignorados e confundidos entre as multidões, porém edificando com sua piedade e virtudes as famílias que constituirão o fermento da sociedade do porvir. Mas também há aqueles que, com sua palavra cheia de ameaças e mistérios, despertam as consciências e convulsionam as tribos. Os efeitos imediatos destes chamamentos são os ódios, as discórdias e as guerras; providenciais e necessários para fazer com que o homem possa fazer voltar ao caminho a sua vontade extraviada e a sua perturbada razão. A discórdia matará a discórdia, e a guerra matará a guerra; pois, os povos aprenderão temperança nos estragos do ódio e os horrores do sangue lhes inspirarão sentimentos de benevolência e com paixão.

Então cairá do alto o puríssimo orvalho do cristianismo, que, vivificando os corações e dando aos entendimentos robustez e beleza, transfigurará a humanidade e as sociedades, sucedendo ao império da matéria e da carne sobre os gozos do espírito o moral e reparador império do espírito sobre a carne e a matéria. Quanto tempo passará porém, antes que a semente frutifique e seja o pensamento de Cristo o guia das nações daqueles homens, que ainda nem suspeitam da existência de suas próprias almas espirituais e que só vêem Deus através do trovão e do castigo? Primeiro terão que travar conhecimento com a espiritualidade e atributos de Deus, acerca do qual e de sua natureza conceberam as mais absurdas idéias, da espiritualidade e imortalidade da alma, cuja existência ainda não pressentiam. Lutar por séculos e séculos, de geração em geração, com os rudes instintos do egoísmo, primeiro até vencê-lo, para depois arrancá-lo dos costumes e finalmente do coração e do espírito.

Os prelúdios mensageiros da aurora do cristianismo amanhecerão ao fixar a humanidade sua consideração no passado e conseqüentemente a geral aceitação da imortalidade espiritual. Talvez esta longa via assinalada às humanidades para sua depuração e desenvolvimento provoque dúvidas em vossa mente e temor em vossos ânimos. Por que esta longa, enorme, interminável peregrinação da substância espiritual através dos corpos e suas impurezas para conquistar o triunfo e com ele a felicidade? Por que estes mundos e essas idades de luxúria, de violência e de expiação? Por que não abreviou o Criador com sua sabedoria e onipotência e caminho de prova das almas? Eu por minha vez pergunto a vós que duvidais e temeis: por que a belíssima mariposa foi antes um asqueroso verme? Não compreendeis nem adivinhais, e eu tampouco, a misteriosa causa; mas, apesar de nossa ignorância, temos o direito de duvidar da onipotência e sabedoria dAquele que pôde e soube transformar o verme em mariposa?

Se soube e pôde converter, em virtude de uma lei desde a eternidade estabelecida, as trevas de nossos princípios na luz de nossos últimos períodos de vida sempre mais formosa e refulgente, transformando-nos de larvas em mariposas, haverá motivo racional e justo para duvidar da sabedoria e poder de quem tais milagres de poder e sabedoria trabalhou em benefício de nossa natureza? Ele que pôde e soube estabelecer em sua lei o bem como perpétuo e o mal como transitório, sendo este último um meio para se atingir o bem, não demonstrou, simplesmente através disso, possuir a infinita sabedoria e o infinito poder? Ademais, havereis de reconhecer comigo que, onde principalmente resplandecem a onipotência e a suma sabedoria do Criador, é na criação da vontade e da liberdade inteligente. E uma vez estabelecida à liberdade das ações humanas pretenderíeis que Deus a coibisse com o fim de apressar a redenção da criatura, manifestando assim que sua sabedoria e poder tiveram limites; tendo dessa forma de reformar a mais excelente de suas leis?

E, o que seria, se assim acontecesse, do mérito de nossos atos e da justiça do Altíssimo? Se invocais sua misericórdia, eu vos replicarei dizendo: não vedes a divina misericórdia mesmo nos mais cruéis sofrimentos dos homens? Na vida do homem, mesmo o mais desafortunado, alternam constantemente as amarguras e os gozos e pode-se até assegurar que não há dor por mais cruel que pareça que não abrigue em seu recôndito alguma semente de consolo. Não invoqueis tampouco a longa duração das idades de prova: o tempo!... significa o tempo algo, porventura, quando medimos por eternidades o passado e o porvir? Quanto mais estudais e meditais as maravilhas naturais que se erguem aos olhos de vossa alma, maior e mais íntima será vossa convicção de que em tudo brilham irmanadas a onipotência, a sabedoria e a misericórdia de Deus.

XI

Continuação dos Mundos Primitivos. - O Crepúsculo da Idéia Cristã - Adeus, Irmãos Meus, Tristes Irmãos Deus!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.