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Capítulo 24 de 47
VIII — parte 2 de 4
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Tive que retroceder do umbral da felicidade, de onde me repelia a virtude, que tinha lá sua morada e seus encantos. Não pesava sobre mim uma maldição; porém, preso pela recordação, retornava do caminho de minha elevação impelido por uma força e uma vontade incontrastáveis. Havia ascendido rapidamente pela misericórdia, e descia com maior rapidez pela justiça. Singrava o espaço com a velocidade do pensamento que ia aumentando com o peso de minhas grosserias materiais, deixando atrás de mim todas as maravilhas que me fora concedido admirar e tocando ligeiramente os mundos que havia visitado. Subitamente, uma espantosa comoção, oh! tremo ao recordá-la, transtornou todo o meu ser: havia regressado ao meu ponto de partida- estava de novo na Terra; soube-o, sem vê-la, no abatimento em que se apoderou de minha alma. Circundava-me uma semi-obscuridade que me impedia distinguir os objetos materiais; porém a luz espiritual brilhava em toda sua plenitude e iluminava os mais recônditos segredos de minha vergonha. Sombrio desalento que tocava os primeiros termos do desespero invadia meu ânimo.
Quando sairei deste cárcere, perguntava-me; quando poderei sacudir o jugo que me retém neste lugar de expiação; quando se me abrirão as portas da bem-aventurada região dos espíritos puros? Quantos séculos de séculos me separam do templo do amor, morada dos viventes? Oh.. céus da virtude, inacessíveis às almas covardes que, como eu, foram vencidas sem luta! Chegará, porventura, o dia em que meu espírito, por direito próprio, pelo direito dos espíritos vencedores, atravesse o abismo que de vós me separa e forme nos angélicos coros que perpetuamente entoam cânticos à sabedoria, ao amor e à justiça? Até quando? Oh terra! serás o fruto das obras de meu espírito? Oh desventura a minha! exclamei. Então uma voz suave como o amor e atraente como a esperança chegou ao meu coração e senti que me dizia: Espírito pusilâmine desconfiado, reanima e prostra-te agradecido ante a bondade e a providência do Altíssimo.
Tu viste algo de teu porvir, que é o porvir de todos os homens da Terra e no entanto desfaleces quando constatas quão longo é o caminho que te separa da bem-aventurança: mas, sabes algo de teu passado? Mediste o caminho que já percorreu tua alma? Vem: segue-me." E fui levado, embora com menor velocidade do que pela primeira vez. Meus olhos enxergavam com facilidade e pude notar que ia me afastando do arquipélago planetário a que pertence a Terra. Sentia-me possuído de uma indisfarçável tristeza, que aumentava à medida que nos afastávamos da Terra. Tive vontade de retroceder; mas o invisível, o misterioso sopro, impregnado de tristeza como meu ânimo, me repetia: "segue-me..." e eu seguia. Por que o sol se ia empalidecendo e se tornando obscuro no espaço? Por que me oprimia o desalento? O estado de meu espírito tinha muitos pontos de semelhança com os de uma pessoa que vai visitar o ossário onde dormem seres de seu afeto.
Ou melhor ainda, parecia-me ao mesmo tempo em que embora vivo já havia morrido e que era levado a orar sobre meus próprios e inanimados restos num local tenebrosamente solitário. E o sol havia desaparecido, não no horizonte, mas sim do próprio espaço que eu percorria impelido vez por outra pelo melancólico "segue-me" de meu misterioso guia e companheiro. Para falar como vós e que me entendais, meu coração batia apressadamente e tremiamme as pernas. Deixai-me um momento com minhas tristes recordações, irmãos meus da Terra: elas constituem de certa forma meu consolo e minha esperança. "Segue-me" repetia a voz sempre misteriosa e triste e eu seguia através daquela obscura, daquela espantosa solidão. Sentia-me dominado pelo temor como a criança perseguida por tétricas visões. Por último sobreveio uma tênue luz semelhante a um crepúsculo que vai chegando a seu fim. Lentamente ia ficando maior a claridade, porém uma claridade estranha, insuficiente, que, ao invés de alegrar e dar esperanças, oprimia a alma e era portadora de sombrios pressentimentos. Onde vagava o sol que emitia aquela luz fúnebre?
E a lua? Eu não distinguia nenhum astro: sem dúvida, espessas trevas me rodeiam diminuindo a força de minha vista espiritual. Pouco a pouco se foi dissipando a obscuridade que entorpecia minha vista e abrindo-se a meus pés um novo espaço com esparsas estrelas afastadas umas das outras por enormes distâncias. Em vão busquei a Terra: em vão persegui o sol que brilha sobre os habitantes do planeta. Aquele espaço, aquele universo, se assim posso expressarme, está fora do universo em que vós afortunadamente viveis. Ocupa seu centro um corpo de luz avermelhada e tênue e ao seu redor e a distâncias relativamente pequenas giram tristemente alguns corpos opacos de diferentes magnitudes. E uma grande fogueira, cujo calor mantém a escassa vida daqueles corpos trêmulos de frio e necessitados de maior luz. E um sistema planetário completo, porém tão triste, que ao contemplá-lo me lembrei da Terra e de seu Sol como uma mansão afortunada.
Em breve abordava um daqueles inóspitos mundos e me apoderava do segredo de seus sombrios destinos: era um globo habitado por criaturas racionais, um crisol, um cárcere de expiação dos espíritos que ao nascimento de sua liberdade quebraram violentamente os sábios preceitos da lei. A contemplação daquela ilha de desterro despertou em minha mente recordações de tempos olvidados, que agora se destacavam confusamente do obscuro fundo de meu passado. Pareceume haver retrocedido, talvez alguns milhares de anos, no curso de minha existência e que voltavam a se reproduzir às primeiras páginas da história de meu desenvolvimento moral. Nem a natureza do solo, nem a estrutura ou configuração orgânica de seus infelizes habitantes, nem o peso daquela atmosfera, nem a melancolia daquele céu eram novos para minha alma. E ao fixar-me em meu corpo espiritual, notavelmente transformado desde minha ultima partida da Terra, sua grosseria e fealdade avivaram minhas mais adormecidas recordações, reconhecendo-me tal como havia sido em uma das primeiras fases de minha inteligência e vontade. Naquele mundo a estrutura do corpo humano difere muito da estrutura dos organismos humanos da Terra.
Os órgãos dos sentidos aparecem rudes, torpes e grosseiros, aptos apenas para as grosseiras sensações de que são capazes os atrasados espíritos a quem hão de servir. Uma cabeça redonda, exígua e repugnante, um peito pequeno e disforme, um abdômen grande e abaulado, extremidades úteis apenas para os movimentos ordenados, um só aparelho para a visão, assim como para a audição, ambos muito imperfeitos para seus fins naturais e toscamente formados, eis aí o homem do mundo que unha ante minha contemplação, reavivando as aparadas cinzas de meu passado. Mundo destinado à expiação de infrações gravíssimas da lei escrita na consciência desde os alvores da vontade racional, apenas oferece um ou outro meio para o gozo, enquanto que abundam os caminhos que levam ao sofrimento. E preciso dobrar a alma que em seus princípios se entrega à ferocidade e se embriaga no crime. Um espírito áspero e feroz reclama um mundo cruel: é a lei das harmonias.
Lá a dor não deixa lugar aos cálculos do crime e o espírito se predispõe a receber o jugo da consciência, incomparavelmente mais leve e suave de que os efeitos da violência e do rancor. Lá a vida é antes um incessante malestar, um perpétuo sofrimento. (1) (1) Ao chegar a este ponto da revelação de Nicodemos, iniciou-se entre os membros do Circulo Cristão de Lérida, onde a mesma foi recebida, uma animada conversação, estendendo-se em comentários referentes às condições do mundo e da humanidade que o espírito acabava de descrever. Julgando que Nicodemos simbolizava naquela humanidade e naquele mundo o passado, o berço, por assim dizer, dos mundos e das humanidades, repugnava-lhes tal símbolo. que vinha destruir as mais racionais hipóteses e as mais justificadas noções cientificas tocante à gênese da Terra e ao homem primitivo. Na revelação de Lamennais, recebida no mesmo Circulo e publicada no livro Roma e o Evangelho, se descreve a grandes Pinceladas o passado do homem terrestre e da Terra e nada do que ali se lê tem analogia com o que narra aqui Nicodemos.
Era conveniente fazer estas indicações, para que possa o leitor medir o verdadeiro alcance dos luminosos arrazoados com que o espírito esclarece, na continuação de seu relato, o ponto controvertido pelos componentes do círculo. Meu relato vos maravilha e vos surpreende: Isto não me admira! Falo-vos de um homem e chamo-o assim, porque se trata já de uma criatura racional e vós vos lembrais unicamente do homem da Terra. Credes haver contradição entre minhas palavras e vossos discursos e entre meus discursos e outros mais autorizados que por inspiração e superior permissão recebestes no curso de vossos estudos! Mas, falo-vos porventura da Terra e do passado da humanidade terrestre? Pensais que o primeiro dia da humanidade terrestre é na forma o primeiro dia da humanidade universal? Que sabeis vós e que sei eu, ainda em minha emancipação, do passado das substâncias, tanto daquela que se conhece sob o nome de matéria, como da que constitui a essência do espírito?
Porque vos vedes a vós próprios e a matéria e as formas que vos rodeiam, presumis haver adivinhado o passado da matéria e das formas? Notai, ademais, que eu não disse que aquele mundo de sofrimento seja o do passado do homem, mas sim de um homem, daquele que em princípio, notai-o bem, no princípio de sua liberdade, rompe violentamente o pacto estabelecido entre o Supremo Criador e a criatura. A lei não seria sapientíssima como é, se o prêmio e o castigo das obras não correspondessem ao caráter, condições e natureza do espírito que em virtude de sua liberdade as realiza. No reinado da violência predominam sobre o espírito a carne e a matéria; e a justiça, para ser justiça, exige que os castigos, assim como os prêmios, recaiam de preferência sobre a carne, que por sua vez os transmite ao espírito, contribuindo para o aperfeiçoamento e desenvolvimento do mesmo.
A responsabilidade moral é nula antes da aparição da liberdade espiritual: talvez não fosse arriscado supor que os sofrimentos do corpo aceleram o nascimento da liberdade de espírito. A principio, esta liberdade acha-se com freqüência coibida, principalmente pela escassez de luz, que impede a alma de vislumbrar o caminho de sua perfeição e progressiva felicidade; e então a responsabilidade completamente nula, é muito escassa, lugar sobre o corpo as contingências criatura, que se acha, podemos dizer, sua infância racional. Conforme diminui o predomínio da carne e cresce a pujança do espírito, diminui também a responsabilidade física do corpo, que não é senão o cumprimento ela lei harmônica da matéria e da vida, e aumentando a responsabilidade espiritual, que não é senão o cumprimento da lei harmônica da liberdade, que preside nas manifestações do universo inteligente.
Está no cumprimento de ambas as leis, que os prêmios e castigos recaiam primeiro sobre o corpo, ou melhor, sobre a substância espiritual por intermédio dos órgãos do corpo, até elevar-se, em virtude de depurações sucessivas, ao espírito, isto é, pelo discernimento e sentimento do bem e do mal, Delas inefáveis fruições de um, ou as torturas e remorsos do outro. Se cuidadosamente observais o que em vós se passa, vereis confirmado o cumprimento dessa lei: vereis que quanto maior for o atraso do senso moral de uma criatura, mais redundam em sofrimento da carne seus extravios voluntários. Seu espírito apenas é suscetível de sofrimento através dos órgãos do corpo; sendo esta a razão de justiça que explica porque seu espírito há de receber pelo organismo corporal as desagradáveis conseqüências dos abusos de sua liberdade de arbítrio, ainda que esta liberdade nele se encontre em seu berço, no princípio de suas manifestações espontâneas.
Que corretivo haveria na lei, que meios de depuração e progresso para o espírito incapaz ou quase incapaz de remorso, e para tanto, de arrependimento de suas abominações, se não fossem as torturas que pelo caminho da carne avivam e robustecem os germes morais latentes nos segredos da alma? Porém a eterna justiça, que é ao mesmo tempo a eterna misericórdia, tudo previu: os providenciais destinos da matéria hão de cumprir-se e se cumprem com a ajuda da atividade espiritual e o moral, ainda que não recaindo em primeiro e efeitos dos atos da nos primeiros dias de desenvolvimento e sucessivo melhoramento do espírito há de verificar-se e verifica-se com o auxílio da matéria inconsciente. Todo o universo se completa e tudo é necessário, para que seja perfeitíssima em seu conjunto a criação do Altíssimo.
E vos admirareis de que haja mundos como o mundo de que vos falo, onde os espíritos carnais e violentos expiem faltas enormes e se predisponham a receber pela lei da carne a nobilíssima lei do sentimento, que há de ser a base e causa imediata de seus merecimentos, de seu dever e de sua felicidade? Deixemos este lugar de merecida expiação, forja de onde os espíritos pertinazmente rebeldes no primeiro período de sua liberdade recebem a têmpera necessária para iniciar a vida da razão e da sensibilidade da alma. Deixemolo, mas dispostos a rogar por eles ao Príncipe das misericórdias e pelo pronto término de suas grosseiras provações. Quiseram emancipar-se da bondosa tutela da lei e a lei os levou ao cárcere de suas obras e misérias. Porém nem por isso deixam de ser filhos do Pai e da lei e a lei e o Pai os -libertarão um dia do desterro, e abrir-lhes-ão as portas da família e do amor. Não nos esqueçamos de nossos pobres irmãos, hoje envoltos na asfixiante atmosfera do crime e da carne.
Expiarão suas abominações; levantar-se-ão e tornarão a cair e voltarão a chorar; mas chegará o dia de amanhã, que será o de sua purificação e o Pai não os repelirá da mesa dos justos, mas sim os receberá com paternal complacência.
Um Espírito desafortunado - Mundos Primitivos Peregrinação das Almas
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.