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Capítulo 31 de 47

III — parte 1 de 3

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

O Segundo Dia da Terra

Depois do primeiro dia, contudo, a luz e as trevas estavam mescladas e confundidas nas entranhas do mundo que lentamente surgia do misterioso caos (1), e o tempo ainda não se havia fixado, nem a economia universal estabelecido o firmamento da Terra. (1) Por essa confusão e mescla de luz e treva parece que se deve entender a obscuridade incompleta e uniforme que devia reinar no interior do planeta. A luz astral, ao atravessar as camadas vaporosas da Terra teria perdido sua intensidade e difundido debilmente no interior como ligeiríssimo crepúsculo. A luz dos sóis penetrava e fecundava seus envoltórios tênues e vaporosos, cuja mobilidade e flexibilidade a livravam da influência definitiva de cada um dos gigantescos corpos estelares, dos quais sucessivamente invadia o domínio. Os seus movimentos eram indecisos e lentos por causa de sua escassa solidez. As suas formas se modificavam e variavam segundo as diferentes influências dos diversos astros que sucessivamente a atraíam. A luz desses sóis enriquecia com seu alento fecundante as sementes de vida que os átomos elementares da Terra haviam absorvido no éter.

A luz e as trevas continuavam confundidas no interior da Terra; porém a lei ia aproximando e agrupando as partículas terrestres fecundadas de vida e saturadas de calor, formando assim como um núcleo central que, no decorrer dos séculos, haveria de atrair e agrupar em redor as partículas esparsas. Iniciada a formação do núcleo, o movimento da Terra embrionária foi um tanto mais acelerado e uniforme que durante o primeiro dia da criação terrestre. Rogo-vos que não tomeis minhas palavras como presunçosa expressão da verdade infalível; quem chegará à sua plena posse? Elas são o resultado de estudos incompletos e da relativa elevação do meu entendimento, sujeito ao erro como todos os entendimentos humanos. Vós tendes o vosso; dele vos deveis servir em tudo aquilo que cai sob sua atividade e domínio, como vos deve servir de pedra de toque do sentimento em tudo quanto se refira ao exercício ou caia debaixo da jurisdição de vossa consciência. Vi alguma coisa; todavia, nas coisas entregues à investigação dos homens, nem o pouco que vi posso dizervos.

Falar-vos-ei, pois, no que respeita à Ciência como qualquer um de vós, isto é, com a convicção que o trabalho engendra e com a insegurança própria da natureza humana ao querer definir as vias misteriosas de um passado que escapa e se confunde nas densas nebulosidades do caos. Tudo isso porque as ciências servem também, em meio a seus extravios e erros, de estímulos para despertar o amor à sabedoria, que é a verdadeira ciência do espírito. Agora que sabeis como vos falo e de que maneira haveis de receber as minhas palavras, prosseguirei no fio de meus estudos concernentes ao desenvolvimento e à formação do planeta no segundo dia de sua criação e evoluções no âmbito do universo. À medida que o núcleo central terrestre, operando sobre as fugitivas camadas exteriores, as atraía e aumentava em densidade e volume, a luz deixava as trevas no coração da Terra, levando seus raios até às camadas da superfície, que permaneciam independentes até certo limite e alheias aos movimentos e á atividade do núcleo, de cuja jurisdição lutavam por emancipar-se, embora em vão.

Retinha-as com a sua poderosa força atrativa, até determinar lenta e sucessivamente a sua aproximação e descida. Da condensação das substâncias elementares da Terra no núcleo de atração ia surgindo pouco a pouco o movimento circular ou giratório, peculiar a todos os corpos gigantescos que oscilam e reciprocamente se atraem nos desertos do éter. Tal movimento giratório, apenas perceptível a princípio, aumentava em celeridade à medida que ia sendo maior o núcleo do planeta. O aumento do volume da massa central acrescia a sua força de atração e assimilação sobre as demais substâncias submetidas á atividade do núcleo, destinadas pela lei a entrar na formação do mundo que se ia elaborando Nessa concentração geral das camadas exteriores, enriquecia-se o núcleo com o calor, a força e a vida das moléculas que lhe traziam o próprio contingente de vida, de força e de calor, recolhido lá na imensidão das regiões etéreas. O volume do planeta diminuía conforme aumentava n do núcleo, base de sua formação.

A luz ia se retirando do centro para a periferia, deixando às trevas o império da condensação central das matérias terrestres. O novo mundo se formava em virtude de uma concentração ininterrupta de força, vida e calor. A maior quantidade de todas essas propriedades residia no ponto central do núcleo. Não vos esqueçais de que vos falo não pelo que vi como espírito livre, e sim pelo que adivinho como homem, sujeito às continências do erro e do orgulho científico. O movimento de concentração de propriedades e forças tinha de continuar sempre mais rápido e vigoroso nas camadas planetárias. Imensos tesouros de calor e de vida necessitava a Terra acumular em seu seio durante a juventude, a fim ele irradiá-los do centro à superfície durante os longos e frios períodos de vetustez. Por último, depois de séculos e séculos de séculos, as matérias errantes se agruparam ao núcleo e o planeta tornouse então um corpo esférico relativamente compacto.

Entrou nos domínios do Sol e o Sol o sujeitou em seu firmamento para sempre, até a consumação da Terra. Em virtude de seu movimento próprio e de forças contrárias que solicitavam sua massa, verificou-se o desprendimento de uma parte considerável do núcleo e ainda hoje essa porção desagregada acompanha a Terra em sua perpétua trajetória. Assim foi o segundo dia da gênese da Terra.

IV

A Terceira Época

O planeta ainda se apresentava, entretanto, como um agrupamento uniforme, como uma só substância. Para descobrir nessa confusão de vapores a diversidade na unidade da matéria, teria sido necessário elevar-se até às regiões dos espíritos puros; para descobrir os germes de vida que haveriam de fecundar por séries de séculos as entranhas daquele globo aparentemente infecundas, necessárias teria sido subir e subir até os filhos primogênitos da Sabedoria: necessário teria sido saltar a vala que separa o finito do infinito e confundir à vista da criatura na mesma Sabedoria eterna. Sem embargo, ali, nas zonas interiores e exteriores do planeta, na unidade de sua substância, germinava e se elaborava a diversidade de formas e manifestações materiais; ali, no seio daquele gigante, na aparência carecedor de atividade vital, palpitavam todos os princípios de vida que haveriam de se manifestar na sucessão dos dias da Terra; e também, presumo, irmãos - escondia-se algo da essência espiritual, rudimentar, grosseira, se assim posso expressarme, entregue à eterna corrente da purificação e do progresso.

A acumulação de todas as partículas terrestres ao redor do grande núcleo, até confundir-se com ele, comunica ao movimento giratório do planeta toda a força, toda a velocidade com que este haveria de efetuar as suas revoluções diárias; a força absorvente e atrativa do astro central fixara o curso submetido à jurisdição de seu poder. O calor do núcleo central terrestre, multiplicado pelo que ia lhe comunicando uma após outras as camadas superiores que sucessivamente se lhe aderiam e assimilavam, convertera o interior do planeta em imensa fornalha, oceano de vida e de calor formado de todas as substâncias que vinham da unidade e caminhavam para a diversidade por uma série indefinida de elaborações e transformações. O coração do planeta sentia-se cada vez mais oprimido, própria causa de sua própria expansão e das sucessivas acumulações das matérias exteriores. Palpitava terrivelmente e era-lhe necessário espaço, mais espaço, para a sua dilatação e equilíbrio. Estalou a Terra, e desgarraram-se algumas de suas zonas.

Imenso rugido saiu de suas entranhas e cataratas de fogo se precipitaram sobre a sua face em todas as direções. Esse fogo não era porém assolador e mortal: a vida e a fecundidade corriam naqueles rios de matéria incandescente. O equilíbrio é uma lei universal. O centro do globo começava a devolver às camadas exteriores os tesouros de calor, de fecundidade e vida que delas recebera. O dia em que a restituição se completar, terá terminado a missão da Terra do universo: porque, ao passo que as camadas exteriores vão recebendo o depósito central, elas o restituem ao éter de onde o receberam. O éter ê o laboratório universal do calor e da vida: dele sai e a ele volta à fecundidade dos mundos que, uns após outros, ocupam as estações do espaço.

Começavam a elevar-se, nas asas do calor e da luz, as particular empapadas de vida e calor que se estendiam sobre a superfície do planeta com tendência a emancipar-se de sua ação; mas a força absorvente do núcleo terrestre e a baixa do calor nas regiões afastadas diminuíam o vigor do seu movimento de expansão e as retinha cativas ao redor da Terra, dependentes de seus movimentos e forma. Flutuavam no espaço, sem se afastar mais, além da esfera circunscrita pela radioatividade ela Terra, até que, expendida toda a sua virtualidade de expansão e esgotado o calor no intercâmbio de propriedades com as substâncias derramadas no éter, caíam novamente sobre o planeta, transformadas, em busca da virtualidade perdida, contribuindo em seu novo estado a temperar o excesso de calor e fecundidade das zonas terrestres; preparando desse modo o nascimento dos primeiros organismos pela fermentação e elaboração de seus germes ocultos.

Nessa constante evolução e sucessivas transformações das partículas e substâncias terrestres, a camada exterior ia tomando consistência, não porém até o ponto de algumas de suas partes entorpecer ou servir de obstáculos aos transbordamentos do núcleo. Quanto maiores sua resistência e sua espessura, mais facilmente as fendia e destroçava o hálito ardente que subia do interior do globo. Começavam a aparecer às primeiras colinas e a se estender às sombras pelos primeiros vales. Se os olhos do homem tivessem podido dominar aquela ilha que se agitava em um ponto do arquipélago universal, teriam surpreendido imensos rios improvisados, sem leito fixo, cujas águas desapareciam rapidamente nas enormes grêtas do córtex terrestre, das quais se elevavam, transformadas em nuvens, até as camadas atmosféricas. As águas de que vos falo não eram águas no estado em que hoje aparecem na Terra.

Mescla informe de diversas substâncias que lentamente se elaboravam para individualizar-se no curso dos séculos e cumprir, cada uma, a sua especial missão na economia da vida do planeta, chamo-as águas por analogia e porque da depuração e individualização de suas substâncias componentes haveria de surgir à água fecundante, que teria tanta importância no desenvolvimento e a conservação da atividade vital. Passaram-se dez séculos e outros dez séculos, passaramse cem séculos e outros cem séculos, porque no desenvolvimento das criações os séculos são gotas d'água no oceano da eternidade. Lentamente, se quiserdes, mas rapidamente aos olhos daqueles seres que medem os séculos como vós o fazeis com os instantes, ia-se verificando a seleção das substâncias que, sem embargo da comunidade de sua origem, estavam pela lei a cooperar insoladamente na expansão de forças e princípios de vida e de luz sobre o planeta.

O desenvolvimento da criação terrestre, como o de todas as sucessivas criações terrestres do universo, era obra de seleção e individualização dos princípios recolhidos na substância etérea pela substância geradora do esqueleto Os princípios recolhidos por essa substância dos mananciais do éter não eram senão o calor, o fluido elétrico, o princípio de vida e o principio espiritual, os quais haveriam de ser outras tantas fontes inesgotáveis seleções da primeira substância. As modificações e transformações da substância única e as seleções dos princípios etéreos até chegar a individualizarse dentro do desenvolvimento da criação terrestre tardariam em realizar-se mais ou menos o tempo que dependesse da sua importância e em conformidade com a elevação relativa de seus futuros destinos. Aparecerão primeiro as substâncias terrosas e grosseiras em combinação com o calor e progressivamente, do movimenta e evoluções dessas e da força calorífica, nascerão e tomarão corpo novos modos de ser da substância geradora mais depurados e perfeitos.

Primeiro, o calor e logo a eletricidade, operando hoje e amanhã sobre as substâncias já individualizadas, despertarão os germes vitais que, começando a evoluir através das grandes massas de matéria inerte, determinarão mais tarde o aparecimento das primeiras manifestações da vida em organismos rudimentares, início de todos os organismos ulteriores. Por último, aparecerá esplendoroso sobre a Terra, em organizações adequadas, o mais puro e delicado dos princípios do éter, o princípio espiritual, elaborando-se e depurando-se, antes de sua perfeita individualização, através de todas as substâncias e organismos, com o auxílio dos demais princípios vindos do planeta, do grande depósito ou sementeira dos mundos. A individualização das matérias terrestres e dos princípios indispensáveis ao despertar e expansão da vida e do espírita verificava-se em virtude de uma lei de atração e simpatia engendrada na afinidade das próprias substâncias que tendiam a individualizar-se, filhas cia irradiação, podemos dizer, da substancia essencial, primitiva.

Os movimentos do jovem planeta no espaço contribuíam, subida e descida das substâncias em sua superfície a irradiação do calor, para consolidação de sua crosta, ao tempo que a força de expansão do núcleo levantava em muitos pontos o solo consolidado, determinando a formação das primeiras cordilheiras, que haveriam de sofrer grandes alterações na sucessão das eras. As ascensões e descidas da Terra a atmosfera e da atmosfera a Terra apressavam a depuração e a individualização das matérias, das quais umas teriam lugar nas regiões atmosféricas, outras na superfície terrestre. Mercê dessa individualização e dessa depuração incessantes, chegaram os tempos em que todas as partículas terrestres ficaram definitivamente estabelecidas na Terra, abundância de gases e partículas ambientes na atmosfera e a água, já em sua pureza fecundante, ascendendo e descendo em forma de nuvens e de chuvas. Tal foi o terceiro dia da gênese da Terra.

A Quarta Época - Matéria, Principio Vivificador; Substância Espiritual

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.