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Capítulo 4 de 47

III — parte 1 de 6

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

A Onda Cresce

Não se ganhou Zamora em uma hora, e não é obra de alguns anos derrubar com a palavra uma instituição que conta muitos séculos de existência. Para as grandes demolições se requer, além do perseverante martelar de inumeráveis inteligentes operários, a lenta porém segura ação do tempo, desse grande demolidor, que tudo desgasta e pulveriza, salvo aquilo que jamais foi instituído e que é, por isso mesmo, indestrutível e imortal. Sabemos isto e em sã consciência não alimentamos a ilusão de presenciar em um brevíssimo prazo como submerge e desaparece definitivamente a formidável igreja ultramontana, nem edificamos castelos de pura fantasia acreditando numa imediata renovação do sentimento religioso. O ultramontanismo está irrevogavelmente condenado por sua corrupção, por suas infâmias, por seus erros, pela odiosidade que seus obscuros objetivos despertam, a sucumbir envolvido pelo progresso em sua majestosa corrente; mas ainda dispõe de elementos e forças, não já para recobrar sua onipotência perdida, mas sim para resistir e perturbar.

Um novo símbolo, submetido primeiro ao grande concílio ecumênico das ciências e da razão, virá preencher o vazio que na consciência humana terão deixado os velhos erros, os caducos dogmas, as superstições herdadas; porém ainda a indiferença e o ascetismo, densas névoas da razão e do sentimento surgidas dos antigos caudais religiosos interceptarão por algum tempo a luz da nova fé. Haveremos, pois, de renunciar ao legítimo desejo de assistir em nosso século ao desaparecimento do despotismo teocrático, verdugo das consciências, filho espúreos do cristianismo, e à doce, à consoladora esperança de saudar a primavera de uma civilização expansiva, harmônica, fundada na liberdade, na justiça, na fraternidade humana; à fé racional que emana da contemplação científica do universo e que nos impele a dobrar os joelhos e beijar a mão de Deus na infalibilidade de suas leis, na magnificência de suas obras? Não, certamente.

Quase todo o trabalho de demolição já está feito: o cimento do catolicismo convencional da escola ultramontana está totalmente minado e com um supremo esforço da parte dos amantes da verdade a torre babilônica pode cair reduzida a escombros, sobre os quais abrirá profundos sulcos o arado da civilização, da fecunda civilização filha da Filosofia e da consciência livre. Desde Orígenes e Sírio até Fócio, desde Fócio até Lutero, desde Lutero até a Enciclopédia Francesa, desde a Enciclopédia até o racionalismo de nossos dias, o pseudocristianismo, mescla informe de religião, de Filosofia e de política, teve sempre pela frente ilustres gênios para combatê-lo e abalar seu tenebroso domínio. Foi à perpétua cruzada da razão centra a perpétua opressão do pensamento. E a onda que varrerá e sepultará nos abismos a frota ultramontana, foi crescendo com os séculos, cumulada de maldições e engrossada com o sangue de milhares e milhares de vítimas e mártires.

O século XIX parece estar designado pela Providência para consumar-se nele a grande ruína de todo um sistema religioso que teve sua razão na ignorância e atraso moral das idades passadas. Não é esta uma afirmação gratuita, expressão infundada de um desejo; é o anúncio de um acontecimento de cuja proximidade nenhuma consciência duvida. Que aconteceu com aquele poder incontrastável da seita ultramontana, aquela sua decisiva influência na política dos estados, aquele seu despótico domínio nos costumes, aquela sita indiscutível infalibilidade na declaração do dogma? Apenas permanece do mesmo um pálido reflexo; e em breve, a julgar pelo encadeamento e a lógica dos acontecimentos, somente ficará sua memória, para maldizêla, como o maior de todos os crimes históricos, como a de uma grande miséria social, espécie de asquerosa lepra moral que contagiou todas as consciências, submetendo-as, ou em angustioso desespero ou em vergonha servidão.

O ultramontismo será, no futuro, a raça judia da nova civilização; povo transumante que, levando á frente o estigma da reprovação, do desprezo universal, em vão esperará a vinda do Messias restaurador de sua infalibilidade e antigo poderio. Houve um tempo em que sua força era superior à dos imperadores e reis; em que seu espírito era o único que informava os costumes; em que seus dogmas determinavam à Filosofia e todas as ciências a pauta de seus desenvolvimentos; hoje vive de esmola, da proteção interessada dos governos, sem a qual a ciência destruiria o dogma e a consciência humana o jugo teocrático. A onda de Indignação dos povos cresce ameaçadora; se a nave ultramontana flutua ainda sobre as águas, é porque a rebocam os poderes públicos, que não julgam ainda oportunos deixá-la abandonada a si mesma, a mercê da tormenta.

A igreja ultramontana em nossos dias é uma instituição anacrônica; é o quietismo religioso em meio ao movimento, do vapor, da eletricidade; é o firmamento teológico de cristal pretendendo recobrar a perdida possessão do céu, arrebatado que foi por milhões de mundos descobertos pela ciência, inimiga terrível da Teologia dogmática. Porém o vapor e a eletricidade do pensamento emancipado triunfarão sobre a inércia religiosa e os mundos e as humanidades se apoderarão do universo apesar da lenda adâmica e da minguada criação teológica. Quem não deixa de sorrir quando ouve assegurar com circunspeção teológica que Deus entregou a certos homens a posse da Providência, ele cujas mãos afirmaram ter recebido diretamente as chaves do céu e dos abismos. A quem podem persuadir com a indigesta, a irracional geringonça de que para ver com clareza as coisas espirituais são necessárias fechar os olhos do espírito?

Medite-se no que o ultramontanismo perdeu nos últimos trinta anos, sua atual notória decadência, a importância de seus reveses políticos, o descrédito em que vão caindo os seus ensinamentos, a frieza com que a consciência pública acolhe, sejam suas impotentes ameaças, sejam suas ridículas promessas, tenha-se também em conta que o bom sentido dos povos o assinala como causador das discórdias civis e das agitações incessantes que turvam a paz dos estados, entorpecendo a marcha ordenada do progresso; e compreender-se-á que com o que resta do século a tempo de sobra para que possamos presenciar os últimos momentos de seu império. Presentemente vive-se muito apressadamente a julgar pela rapidez com que os acontecimentos se sucedem, cada lastro vale por um século. Oh! igreja ultramontana, dos dogmas absurdos, ela intolerância feroz, do comércio sacrílego! Ainda alimentas a soberba pretensão de jungir uma vez mais as sociedades ao julgo de erros? Tua sede de domínio e de riquezas é inextinguível; porém o mundo te conheceu, e o dia de teu poder declina rapidamente.

Erigiste teu trono sabre a ignorância; mas a ignorância foi vencida pelos fachos de luz que a ciência irradia: a razão humana toma posse de si mesma, envergonhando-se de seu longo cativeiro. Como se pergunta maravilhada como pude dar crédito à palavra desses homens que, pregando a pobreza, se fazem ricos; recomendando a humildade, são orgulhosos; pregando amor e paz, avivam os ódios e as guerras; ostentando-se fiéis discípulos de Jesus, constituem a contradição viva da moral evangélica. Eles querem nivelar com fé cega o abismo que os separa do cristianismo; mas este abismo torna-se cada dia mais profundo, e já não ha ignorância nem fanatismo que bastem para preenchê-lo. Transferem-se em massa os fanáticos para o campo dos céticos, uma vez que os homens pensadores se agrupam para derrubar os ídolos, para denunciar as fraudes, para opor aos dogmas da Teologia os da Natureza da razão, que hão de ser os fundamentos da Igreja universal. Soou a hora de romper os moldes das amigas aberrações, substituindo-as com os que a Filosofia e as ciências nos vêm proporcionando.

Acentua-se nesse sentido uma evolução que não pode passar despercebida por pouco que se estenda o movimento intelectual e moral de nossa época. No seio das famílias, nas tertúlias, nos círculos ilustrados, nos ateneus científicos, onde quer que se reúnam pessoas estudiosas e se comuniquem suas idéias e observações, para fazer eco, seja dos grandes ensinamentos da História como das necessidades e aspirações humanas; em todas as partes, como se invisível espírito associara em um mesmo pensamento todas as inteligências, a atual crise religiosa é um dos temas preferidos e que provoca as mais freqüentes e disputadas discusões. A imprensa de todos os matizes, esse novo poder das modernas sociedades, órgão da opinião, barômetro da cultura e do progresso, chama por sua vez a juízo a fé e a tradição, e refletindo fielmente o estado dos ânimos certifica a necessidade de uma renovação nas crenças, que venha pôr termo ao imoral tráfego das mercancias espirituais.

Milhares de livros entregues à voracidade do livre exame, nos quais se elucidam todos os problemas da Filosofia religiosa, avivam nas almas o desejo de estudar a Natureza para nela encontrar a chave do destinos humanos. Confiemos nesse movimento regenerador, nessa agitação incessante dos espíritos. A inércia é a enfermidade e a morte; o movimento é a saúde e a vida. Assistimos a gênesis de uma transformação moral que há de ser o ponto de partida de uma nova civilização. Quem não se admira ao considerar as modificações realizadas neste século? Quem pode duvidar que atravessamos um período de rápida transição? Quem não prevê que a humanidade vai semear em um mundo novo, nutrir-se com outros alimentos, acariciar outras idéias, fundar outras instituições, Substituir por outros mais perfeitos os velhos organismos sociais? Sorriamos com a esperança de que em breve o racionalismo cristão iluminará todo o mundo e da igreja ultramontana não ficará pedra sobre pedra.

IV

A Seiva do Cristianismo

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.