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Capítulo 16 de 47
VII — parte 7 de 8
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
O opróbrio, a calúnia, o insulto, a perseguição, tudo foi empregado e o continua sendo para afogar as aspirações de verdade e de justiça que tomam vulto na consciência humana e que o Espiritismo se encarrega de anunciar. Pelo suposto de que tudo isso se faz quase sempre ad majorem Dei gloriam, pretextando que a nova propaganda vem dirigida por Satanás em Pessoa e que essas aspirações de justiça e de verdade não são senão diabólicas travessuras que têm como objetivo seduzir os espíritos incautos e arrastá-los ao inferno pela trilhado caminho do erro. Nós e somente nós possuímos o sagrado fogo da verdade absoluta, clamam os escribas da época: fora de nós, a verdade não é verdade, a virtude não é virtude, a justiça não é justiça. Anátema sobre aquele que pretenda que o entendimento lhe tenha sido dado para julgar! O juízo das coisas a ninguém senão a nós pertence: aos demais somente compete alimentar-se de nossas verdades e observar nossos mandamentos.
E na realidade esta servidão intelectual e moral, da razão e da consciência tem prevalecido e formado as crenças e os costumes. Os escribas interpretavam a lei a seu modo e o povo a recebia sem exame, com uma venda nos olhos. Por esta perigosa via chegou-se aos maiores absurdos. Até onde nos levará? perguntaram-se, por fim, muitos ânimos inquietos; quem são estes nossos guias, que não nos permitem enxergar? Acaso a razão que nos outorgou Deus é germe de perdição? Onde está a luz, na servidão ou na liberdade? Nossos guias são deuses ou homens? Podem errar ou são infalíveis? Se a fé que nos impõem é racional, por que então nos proíbem de raciocinar sobre a fé? Que fé é esta que começa exigindo a abdicação do juízo? Por que não havemos de ver o que nos mandam crer?
E se nossa razão é um reflexo da eterna razão, e se o universo é o verbo de Deus, e se a ciência, segundo afirmam nossos guias, corrobora com a verdade em seus ensinamentos, não é lógico que apelemos para a razão no estudo da razão eterna e busquemos no universo o pensamento divino e a divina vontade e entreguemos nosso espírito á investigação científica que afirmará cada vez mais nossas crenças? E estes ânimos inquietos, estes espíritos receosos, estes homens vacilantes na fé, puseram suas mãos na venda de seus olhos. Timidamente a principio; porque lhes vinham à mente todas as ameaças contra os desditosos que se atrevessem a fazer uso dos olhos, e porque recordavam os mil e um castigos, exemplares, providenciais, terríveis, repentinos, por tentativas de independência religiosa, largamente, explicada e detalhada por castigos nos livros de perfeição. Mas depois, como não chovia fogo do céu, nem as tragava a terra em meio a seus anseios de emancipação mental, acabaram por lançar a venda ao chão e riram-se de sua infantil credulidade.
Os cegos de nascença abriram os olhos; entretanto o que sucedeu? Aí estão os exércitos do materialismo e do ateísmo cada dias mais fortes e mais numerosos, aí estão as legiões da fé cada dia mais fracas e mais escassas. Quando os cegos recobraram a visão, não encontrando o Deus que os haviam feito conceber, exclamaram: Deus não existe. E tudo mentira! Só é realidade a matéria que tocamos e a força que põe em movimento a matéria! Um escritor profundamente religioso e eminentemente sábio disse: "Ai da religião que não se acomode a razão! ai da fé que não seja racional! Sem a conformidade da razão, acabou-se a religião, acabou-se a fé. Chegamos a tal ponto de tenebrosa ignorância, de intelectual abdicação, que deixamos a porta franqueada ao ateísmo." De sorte que a fé cega é a abertura por onde penetra nas sociedades a dissolução atéia.
Convém repeti-lo para que meditem nisso os homens de boa vontade, os que suspirando pelo advento de uma era de fraternidade e de justiça vêem com inquietação as correntes céticas do século. O trânsito da fé cega ao ateísmo se realiza com apenas um movimento: o abrir dos olhos. Porém de onde nos veio essa fé, germe de incredulidade? Do cristianismo porventura? Certamente que não: A grande, a universal Igreja Cristã sempre ensinou entre seus eternos dogmas a fé; mas a fé nobre, esplendorosa, racional, em espírito e verdade, ativa, companheira inseparável da liberdade e do amor. Mas, como a corrupção do melhor resulta sempre no pior, assim também a corrupção do cristianismo resultou no ultramontanismo e a corrupção da fé cristã, na fé cena de nossos ultramontanos. Desgraçadamente são muitos os que confundem a nova seita com a primitiva Igreja e os erros e excessos daquela são comumente imputados às duas.
Convém, pois, e é de suma urgência, conter o movimento de decomposição que se observa e atrair através da razão todos aqueles que por não haverem encontrado justificadas as suas crenças milham nas hostes rebeldes do ateísmo. E necessário desligar a Igreja da seita; a verdade religiosa, das superstições e hipocrisia; a fé cristã, do fanatismo cego. E preciso anunciar ao mundo o cristianismo em sua pureza, os dogmas eternos da Religião Universal; caso contrário, a incredulidade se apoderará de todos os entendimentos e a humanidade mergulhará primeira na mais repugnante sensualidade e depois na mais grosseira barbárie. Pois bem; o Espiritismo anuncia aos povos esses altíssimos dogmas universais, eternos; a Religião de todos os tempos e lugares; a fé em conformidade com a verdade e por conseguinte com a luz do entendimento humano. Anuncia que a Igreja é a assembléia de todos os homens virtuosos, de todos os espíritos amantes da justiça. Para pertencer á Igreja não se necessita outro noviciado que o do sentimento do justo, nem outro gesto exterior que não seja a bondade das obras.
Anuncia que Deus é o Pai de todos os seres inteligentes e livres, a Bondade infinita e a justiça absoluta e que nenhum de seus filhos jamais será excluído de sua providência de amor; mas, para nos acercarmos de que temos que ser justos e bons. Anuncia que é lei da criação a redenção universal e que a redenção individual depende do uso da liberdade de cada um. São redentores da humanidade os elevados espíritos que com a palavra e o exemplo inoculam nas gerações humanas a amor e a justiça. Anuncia que o único Templo digno do Criador é a criação. Chegará o dia em que todos sentirão esta verdade e então os homens, ao invés de se reunirem nos templos de pedra, o farão sob a nave do firmamento e das estrelas. Anuncia que a Revelação na justiça e na verdade é luz que ilumina todo homem que vem ao mundo. Ela é a tocha divina que dissipa as trevas da consciência. Sem a revelação não se concebe o progresso espiritual dos seres.
E como a Terra não é a única morada da vida, do pensamento e da liberdade, nem a humanidade terrestre a humanidade universal, o Espiritismo proclama unidade de origem e de destinos de todas as criaturas racionais disseminadas nos infinitos mundos do espaço. Proclama que, assim como todos os orbes se transmitem reciprocamente sua luz, as humanidades que habitam os mesmos transmitem os eflúvios de seu pensamento e de sua vontade. Com a luz dos sóis nos chega a inspiração das almas puras. Para elas a liberdade não tem outro limite que o da onipotência. São os ditosos mensageiros da revelação divina. Proclama, por último, que a vida sobre a Terra não é senão uma jornada da vida perene dos espíritos. Nosso destino é ascender sempre, através da liberdade e da justiça. Temos que visitar todas as cidades onde temos irmãos, para abraçá-los e estreitar os vínculos fraternais. Por que edificou Deus essas cidades e colocou-as à nossa vista, se não tivéssemos que visitá-las?
Para que nos dar irmãos se não devêssemos conhecê-los, amá-los e constituir com eles uma Família? A constituição dessa família universal, pelo triunfo da verdade, da justiça, da adoração e do amor, é o ideal do Espiritismo, sua suprema aspiração; ainda os erros nos oprimem e ofuscam os entendimentos; ainda prosperam entre nós a ,falsidade, a mentira e o orgulho; ainda há corações que destilam ódio e mãos que destilam sangue; ainda abundam as consciências rebeldes que se desentendem com os benefícios celestiais, filhos ingratos que negam o Pai, de quem a luz, a vida, a liberdade; mas como? Não viemos das mãos de Deus? Não é nele que vivemos e nos movemos? Acaso podemos fugir de seu regaço, emancipar-nos sua tutela paterna? Onde poderemos ir sem que Deus esteja conosco; onde podemos nos esconder de sua bondade? Oh, Deus, suprema Lei. Causa soberana do mundo, eterna Sabedoria que em tudo penetra, Ser de meu ser, Vida da minha vida, Alma de minha alma! Sei que vim de ti, que estou em ti, e que a ti ascenderei eternamente.
Tuas bondades me aperfeiçoarão e não me abandonarás; acendeste a luz em minha alma e não a apagarás. Enriqueceste-me com a liberdade, para glória tua e felicidade de meu espírito. Gravaste tua lei no mais íntimo de meu ser e essa lei é um suave chamamento, uma irresistível atração, que acaba por vencer todas as resistências humanas. Posso esquecer-me de ti; posso desconhecer-te; posso dentro de minha liberdade deter o movimento ascensional de minha alma; poderei voluntariamente enveredar-me dentro da injustiça, chafurdarme no lodaçal da iniqüidade, fazendo-me dessa maneira credor por séculos de acerba expiação: porém tu voltarás a chamar-me, pois és meu pai; tu me abrirás caminho por onde possa reparar minhas injustiças e me perdoarás, pois és Deus.
E depois que meu espírito se tenha desprendido do erro, quanto minha alma se tiver purificado de todo egoísmo, de toda injustiça, de toda mancha de miséria terrena; então, oh, Deus! receber-me-ás na comunhão dos justos, na vida das almas purificadas, lá onde o sol de uma felicidade sempre crescente não transponha jamais os horizontes. Isto é que o Espiritismo, o que o Evangelho, o que a eterna Religião me anuncia. Isto é, não obstante, o que uns chamam de extravios da razão e outros, mistérios de iniqüidade. Extravios da razão! Em que consiste, pois, o juízo dos sensatos? Mistério e de iniqüidade! Onde, pois, a justiça dos justos? Contudo, o mundo marcha, as gerações se sucedem e a verdade cedo ou tarde se apodera dos espíritos, por anais obcecados que sejam. O Progresso humano acelera a cada instante sua carreira e suprimindo séculos precipita as soluções de todos os problemas transcendentais surgidos desde o nascimento das civilizações e dos povos.
Reinarão um dia sobre a Terra a verdade e a justiça e então, os mesmos que hoje não têm para com o Espiritismo senão os desdém, maldições e opróbrios, se assombrarão de sua obstinada cegueira e transformarão esse opróbrios em nobreza, em honra essas maldições e em grandeza esses desdém. Somos todos irmãos e uma reconciliação coroada de amor há de pôr fim aos egoísmos que nos dividem para que possamos marchar estreitamente unidos à conquista da felicidade comum.
VI
A Internacional Negra
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.