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Capítulo 7 de 47
III — parte 4 de 6
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Em cumprimento das profecias, e para preparar a abolição de uma prática repugnante da lei e predispor os ânimos á aceitação da moral evangélica, apareceu, antes de Jesus, João, filho de Zacarias, batizando com a água e pregando o arrependimento ao povo. Havia, assim, de deixar sem efeito a antiga lei em todos aqueles preceitos filhos da grosseria e da ignorância dos tempos, e João mostrava com este propósito ns caminhos, apagando suavemente com a água do Jordão a mancha da circuncisão, que era, por assim dizer, a igreja de Moisés. O mesmo Jesus, deixando-se batizar, autorizou a nova cerimônia e desde aquele instante a imoral circuncisão ficou abolida e reconhecido o batismo como o selo próprio da Igreja que vinha estabelecer-se sobre o alicerce dos ensinamentos de Cristo. Porém o batismo da água do Precursor não era senão uma figura do batismo de redenção, resumo do Evangelho.
"Eu em verdade batizo com a água, dizia João; mas outro virá que o fará no Espírito Santo e com fogo", isto é, em virtude e em amor. (1) João, com o batismo do corpo por meio da água, abolia uma prática vergonhosa; e Jesus, com o batismo espiritual, vinha substituir as exterioridades do culto mosaico com o verdadeiro culto do coração, com a adoração íntima do espírito, despida totalmente da vaidade e da hipocrisia. Já era tempo: todos os custos da Terra tinham a tendência de mistificar a consciência e a moral, a fim de perpetuar a ignorância, embrutecer a humanidade, matar o escasso sentimento religioso que germinava lentamente nos corações dos povos. Urgia abolir as cerimônias e realçar a religião; destruir o fanatismo e dar uma base firme às crenças; apagar os gestos exteriores que materializavam a adoração, e ensinar às gentes que não é a ostentação cheia de aparatos a homenagem grata ao Criador, mas sim o exercido constante da virtude e da prática do bem.
Eis porque não veremos Jesus pregando o culto mosaico, nem estabelecendo outro novo: cuidava pouco das fórmulas externas, e se às vezes delas lançava mão era para fazer ressaltar a sua insuficiência e a necessidade da religião verdadeiramente espiritual. Ouçamo-lo no admirável Sermão da Montanha, que foi como a semeadura de todas as suas posteriores prédicas, e teremos confirmado esta verdade. (1) Mateus III, 2. É espírito em seu todo, assim como sentimento e coração: nada de sacrifícios, nada de oferendas, nada de demonstrações externas. Jesus não exige para alcançar a perfeição cristã, outro sacrifício senão aquele do orgulho e das más paixões, outra demonstração visível que a da justiça das obras. Como é visível à irradiação de cada uma de suas palavras da inspiração divina? Quão bela, quão doce, quão espiritual é a religião que brota de seus lábios! Ao ler o sermão das Bem-Aventuranças, parece-nos ver Jesus sobre o monte, estendendo seus braços, querendo abraçar toda a humanidade regenerada.
Desde então domina com seu olhar profético o presente e o futuro dos povos: mede os tempos; lê a história das gerações; ouve o forte ruído dos combates, obra da ambição, do fanatismo e do ódio; penetra nos palácios dos poderosos; vê as suntuosas basílicas, nas quais o povo juntou seus tesouros, o gênio seus desejos e a arte suas belezas e suas formas; vislumbra a grande família humana dividida em raças, em igrejas, em sociedades inimigas umas das outras; e descendo por último aos indivíduos, observa seus caminhos, descobre suas misérias e suas virtudes, e exclama: Bem-aventurados os pobres de espírito: os que não põem seus sentidos nas riquezas da terra; os que são pobres com resignação, ou ricos com humildade; os que se consideram como administradores, em benefício de seus irmãos, dos bens que em suas mãos colocou a Providência; os que se julgam com severidade e se confessam pobres de virtudes na presença de Deus: porque deles é o reino dos céus.
Sem-aventurados os mansos: os que não dão guarida em seu ânimo às sugestões da ira; os que sofrem com paciência os golpes da injustiça; os que tratam com doçura e amor mesmo os seus próprios inimigos: porque eles possuirão a Terra. Bem-aventurados os que choram: os que derramam lagrimas por suas próprias faltas e pelos desvios alheios, e imploram contritos e humilhados o perdão: porque eles serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça: aqueles que buscam com ardor a justificação de seu espírito na reforma de seus costumes, e suspiram por ver desterrados da Terra o dolo e a iniqüidade: porque eles serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos: aqueles que esquecem as ofensas recebidas, perdoando cordialmente seus irmãos: aqueles que compartilham a dor e o infortúnio alheios, sentindo-os como próprias e procurando aliviá-los na medida de :suas forças: porque eles alcançarão de Deus a misericórdia que tiveram dos homens.
Bem-aventurados os limpos de coração: aqueles que abrigam em sua alma a sensibilidade e pureza de sentimento da inocente criança, não dando jamais guarida à falsidade, ao orgulho ou ao egoísmo: porque eles verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos: os que procuram, mesmo com os maiores sacrifícios, conservar a paz interior de sua consciência pelo escrupuloso cumprimento do dever e a harmonia entre seus irmãos por meio do bom conselho: porque estes serão chamados. Bem-aventurados os que padecem por causa da justiça: àqueles que são injustamente vexados, caluniados e oprimidos e sofrem com paciência os insultos e perseguições de que são vítimas pela causa da justiça de suas obras; porque deles será o reino dos céus. (1) (1) Mateus, v. Assim começa Jesus falando ao povo no incomparável Sermão da Montanha, com aquela eloqüência popular, ingênua, cheia de naturalidade e de graça, que constitui o caráter de suas prédicas.
Suas palavras constituem o novo ensinamento religioso, em cuja sombra podem abrigar-se todos os homens, tidas as nações, tidas as igrejas da Terra, que buscam sinceramente Deus pelo caminho do sentimento da virtude e do dever. São a seiva regeneradora do mundo; a nova idéia que há de transformar as sociedades; a forma do princípio e do sentimento do amor e da justiça, que há de suavizar as asperezas e manchas da consciência; a singela linguagem da religião do espírito, que há de substituir os cultos cheios de hipocrisia e soberbia; o belíssimo ideal da perfeição, ao qual devem dirigir-se, para chegar à felicidade, as aspirações dos homens. Para Jesus, toda a religião se fundamenta na doçura do sentimento, na gosto do bem, nas harmonias da consciência, na prática da justiça e do amor. Seu código religioso é a bondade da alma e a moral em exercício. Não é a adoração exterior o vínculo místico, a homenagem, a força misteriosa que nos eleva até as altura divinas, mas sim o culto íntimo da alma sancionado pela virtude das obras.
Jesus promete bem-aventurança, não ao circunciso, não obstante se haver ele submetido à circuncisão mosaica, nem ao batizado na água, não obstante ter ele recebido também o batismo no Jordão, nem ao que jejua, nem ao que se abstém de comer certos pratos em determinados dias, nem ao que doa valiosos bens à igreja em sufrágio de sua alma: a quem Jesus chama de bemaventurados são os mansos, os que choram, os pacíficos, os misericordiosos, os puros de coração; em ultima palavra, os que sentem os estímulos do bem e constantemente: o praticara respeita todas as formas, tidas as cerimônias racionais, porém não prescreve nenhuma como essencial para a perfeição e merecimento do espírito. Nesta parte foi Jesus tão explícito, que não deixou à ignorância lugar para a duvida, nem à malícia espaço para interpretações arbitrárias ou interessadas.
È certo que à malícia nunca falta espaço para torcer o sentido dos conceitos que aos seus propósitos se opõem; porém isto não quer dizer que basta ler o - Evangelho para confundir aqueles que, talvez com objetivos mundanos, pretendem mistificar o cristianismo, fazendo do mesmo uma religião plena de cerimônias. O Sermão da Montanha será em todos os tempos um testemunho que inutilmente tentarão desvirtuar ou fazer servir aos seus propósitos. Quereis formas, quereis exterioridades, quereis oferendas? Muito a propósito: o Evangelho não as condena, e podeis fazê-las sem contrariar os ensinamentos de Cristo; mas apresentadas apenas como figuras do culto verdadeiramente espiritual e como incentivo da adoração interior, e não como condições essenciais para a salvação das almas; porque neste caso estarão em flagrante contradição com os ensinamentos do Enviado. Porventura pronuncia o Mestre uma só palavra de recompensa para os que tenham efetuado as práticas exteriores do culto? Lembra-se sequer deles ao chamar os justos à sua direita, isto é, à felicidade imortal?
"Porque destes de comer ao faminto, e de beber ao sedento, e ao peregrino hospedastes, e vestistes o desnudo, e visitantes o enfermo e o encarcerado vinde, abençoados de meu Pai", disse Jesus. (1) É importante não esquecer, muito ao contrário deve-se ter muito em conta este especial caráter de que parece revestido o cristianismo em suas origens e que o distingue de todas as demais religiões conhecidas, pelo majestoso selo de universalidade que lhe imprime. (1) Mateus, XXV. Jesus Cristo levanta uma bandeira em cuja sombra podem agrupar-se todos os homens, mesmo aqueles a quem não chegou a radiante luz do Evangelho. A seiva da doutrina redentora está destinada a dar vida a todos os ramos da árvore da humanidade. O Filho do homem não chama bemaventurado nem coloca à sua direita ao que se intitula católico, judeu, cristão ou ateu, mas sim àquele em cujo coração germinou a semente da virtude e em cujas obras resplandecem a justiça e o amor. E não poderia ser de outra maneira.
Não seria senão uma monstruosa blasfêmia supor que Deus absolve ou condena por motivos puramente acidentais, independentes por tudo da liberdade individual? É por acaso livre e voluntário o ato de nascer neste ou em outro país, nesta ou em outra igreja? E se não o é, em que fundamento de justiça se apoiaria o prêmio ou o castigo do judeu ou do maometano por exemplo, simplesmente pelo fato de ser maometano ou judeu? Indubitavelmente em nenhum; e por esta razão, ninguém é interrogado no tribunal da justiça infalível por sua filiação religiosa, mas sim pela filiação de suas obras e sentimentos. Alguns exclusivistas interessados pretendem que isto é igualar todas as religiões e rebaixar o cristianismo ao nível das demais. Quão parca é a idéia que fazem do cristianismo! Melhor, como exploram a ignorância de uns, a boa fé dos outros e a aquiescência cega ou maliciosa de todos!
Somos nós, que tomamos e aceitamos o cristianismo tal como Jesus o pregou, os que o rebaixamos ao nível das outras religiões; ou aqueles que, despojando-o da universalidade, que é seu caráter ou cunho peculiar, o diminuem até torná-lo não uma religião, mas sim um culto, não a igreja universal, mas sim um miserável templo de pedra onde apenas cabem umas poucas dezenas de sectários? O catolicismo oficial, o maometanismo e o judaísmo são cultos intuídos pelos homens, e dentro dos mesmo cabem apenas os católicos, os maometanos ou os judeus: o cristianismo é a religião eterna, instituída por Deus desde o principio dos tempos, e nele cabem todos os homens de boa vontade, seja qual for seu nome, sua pátria ou o culto a que por circunstâncias acidentais pertençam. Por isto disse Jesus (1) que virão muitos do Oriente e do Ocidente, e se sentarão com Abraão, Isaac e Jacob no reino dos céus. (1) Mateus, VIII, 11.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.