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Capítulo 74 de 74
A Realização Da Promessa. O Templo
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
“Em três dias eu destruirei o templo. Em três dias o reconstruirei”. Assim falou a seus discípulos o filho de Maria, o essênio consagrado filho do Homem, isto é, o herdeiro espiritual do Verbo de Moisés, de Hermes e de todos os antigos filhos de Deus. Essa promessa audaciosa, essa palavra de iniciado e iniciador, teria ela se realizado? Sim, se considerarmos as conseqüências que o ensinamento do Cristo, confirmado por sua morte e por sua ressurreição espiritual, tiveram para a humanidade, e todas as conseqüências que sua promessa contém para um futuro ilimitado. Seu verbo e seu sacrifício lançaram os fundamentos de um templo invisível, mais sólido e mais indestrutível do que todos os templos de pedra. Mas ele só continua e se completa na medida em que cada homem e todos os séculos nele trabalhem. Que templo será esse? O templo da humanidade regenerada. É um templo moral, social e espiritual. O templo moral é a regeneração da alma humana, a transformação dos indivíduos pelo ideal humano, ofertado como exemplo à humanidade na pessoa de Jesus. A harmonia maravilhosa e a plenitude de suas virtudes tornam difícil sua definição. Razão equilibrada, intuição mística, simpatia humana, potência do verbo e da ação, sensibilidade até a dor, amor transbordando até o sacrifício, coragem até a morte, nada faltou nele. Havia bastante de alma em cada gota de seu sangue para fazer um herói; mas com que doçura divina! A união profunda do heroísmo e do amor, da vontade e da inteligência, do Eterno-Masculino com o Eterno-Feminino, fazem dele a flor do ideal humano. Toda sua moral, que tem por última palavra o amor fraternal sem limite e a aliança humana universal, decorre naturalmente daquela grande personalidade. O trabalho dos dezoito séculos decorridos desde sua morte teve como resultado fazer esse ideal penetrar na consciência de todos. Pois praticamente não existe homem algum no mundo
civilizado que não tenha dele uma noção mais ou menos clara. Pode-se então afirmar que o templo moral almejado por Cristo está, não acabado, mas fundado sobre bases indestrutíveis da humanidade atual. Já não se dá o mesmo com o templo social. Este supõe o estabelecimento do reino de Deus ou da lei da Providência nas instituições orgânicas da humanidade. Todo ele ainda está para ser construído, pois a humanidade vive ainda em estado de guerra, sob o domínio da lei da Força e do Destino. A lei do Cristo que reina na consciência moral ainda não se estendeu às instituições. Só toquei incidentalmente nas questões de organização social e política, neste livro unicamente destinado a esclarecer o cerne da questão filosófica e religiosa mediante algumas das essenciais verdades esotéricas e através da vida dos grandes iniciados. Também não me ocuparei dela nesta conclusão. Ela é muito vasta e complexa e escapa demasiado à minha competência para que eu ao menos tente defini-la em algumas linhas. Direi apenas isto: A guerra social existe em princípio em todos os países europeus, pois não há princípios econômicos, sociais e religiosos admitidos igualmente por todas as classes da sociedade. Da mesma maneira, as nações européias entre si não cessaram de viver em estado de guerra aberta ou de paz armada. Nenhum princípio federativo comum liga-as legalmente; seus interesses, suas aspirações comuns não têm recurso em nenhuma autoridade reconhecida, não têm sanção em nenhum tribunal supremo. Se a lei de Cristo penetrou nas consciências individuais e, até certo ponto, na vida social, é ainda a lei pagã e bárbara que governa nossas instituições políticas. Atualmente o poder político está constituído, em toda a parte, sobre bases insuficientes. Por um lado, ele emana do chamado direito divino dos reis, que não é outro senão a força militar; por outro, do sufrágio universal, que não passa do instinto das massas ou da inteligência não selecionada. Uma nação não é um número de valores indistintos ou de cifras adicionadas. Ela é um ser vivo composto de órgãos. Enquanto a representação nacional não for a imagem desse organismo, desde seus corpos de profissões até seus corpos docentes, não haverá representação nacional orgânica e
inteligente. Enquanto os delegados de todos os corpos científicos e de todas as Igrejas cristãs não se sentarem juntos em um conselho superior, nossas sociedades serão governadas pelo instinto, pela paixão e pela força. E não existirá o templo social. Como se explica então que, acima da Igreja, pequena demais para contê-lo inteiramente, acima da política que o nega e da ciência que só o compreende parcialmente, o Cristo esteja mais vivo do que nunca? É que sua moral sublime é o corolário de uma ciência mais sublime ainda. É que a humanidade só agora começa a pressentir o alcance de sua obra, a extensão de sua promessa. É que por trás dele vemos, ao lado e além de Moisés, toda a antiga teosofia dos iniciados da Índia, do Egito e da Grécia, da qual ele é a confirmação deslumbrante. Começamos a compreender que Jesus em sua mais alta consciência, que o Cristo transfigurado abre seus braços amantes a seus irmãos, aos outros Messias que o precederam, como ele, raios de Verbo vivo; que ele abre seus braços imensos para a Ciência integral, para a Arte divina e para a Vida completa. Mas sua promessa não pode cumprir-se sem o concurso de todas as forças vivas da humanidade. Duas coisas principais são necessárias, hoje, para o prosseguimento da grande obra: por um lado, a abertura progressiva da ciência experimental e da filosofia intuitiva aos fatos da ordem psíquica, aos princípios intelectuais e às verdades espirituais; por outro, a ampliação do dogma cristão no sentido da tradição e da ciência esotérica, e por conseguinte uma reorganização da Igreja segundo a iniciação gradual; isto por um movimento livre e tanto mais irresistível de todas as igrejas cristãs, que são todas, igualmente e com o mesmo título, filhas de Cristo. É preciso que a ciência se torne religiosa e que a religião se torne científica. Essa dupla evolução, que já se prepara, acarretará finalmente e forçosamente uma reconciliação da Ciência e da Religião sobre o terreno esotérico. Essa obra não se realizará sem grandes dificuldades no princípio. Mas o futuro da sociedade européia depende dela. A transformação do Cristianismo no sentido esotérico ocasionará a do judaísmo e do islamismo, assim como uma regeneração do bramanismo e do budismo
no mesmo sentido. Fornecerá pois uma base religiosa à reconciliação da Ásia e da Europa. Eis aqui o templo espiritual a ser construído. Eis o coroamento da obra intuitivamente concebida e almejada por Jesus. Poderá seu verbo de amor formar a cadeia magnética das ciências e das artes, das religiões e dos povos, e tornar-se assim o verbo universal? Hoje, o Cristo é senhor do globo através das duas raças mais jovens e mais vigorosas, ainda cheias de fé: através da Rússia, ele tem o pé na Ásia; através da raça anglo-saxônica, ele possui o Novo Mundo. A Europa é mais velha do que a América, mas mais jovem do que a Ásia. Os que a julgam votada a uma decadência irremediável caluniamna. No entanto, se ela continuar a se entredevorar em lugar de federalizar-se sob o comando da única autoridade válida, a autoridade científica e religiosa; se pela extinção dessa fé, que não é senão a luz do espírito alimentada pelo amor, ela continuar a preparar sua decomposição moral e social, sua civilização se arrisca a perecer, pelas desordens sociais primeiro, e em seguida pela invasão das raças mais jovens. E estas tomarão a tocha que ela terá deixado escapar de suas mãos.
A Europa teria um papel muito mais belo a desempenhar e que seria o de manter a direção do mundo, completando a obra social do Cristo, formulando seu pensamento integral, coroando, pela Ciência, pela Arte e pela Justiça, o templo espiritual do maior dos filhos de Deus.
Platão, detalhe do afresco A Escola de Atenas, Rafael - Vaticano
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.