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Capítulo 24 de 74
Osíris. A Morte E A Ressurreição — parte 2 de 2
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
insondáveis estão semeadas de constelações. Para o menino, não passa de uma abóbada com cravos de ouro; para o sábio é o espaço ilimitado onde giram os mundos com seus ritmos e suas cadências maravilhosas. Esta visão encerra os números eternos, os signos evocadores e as chaves mágicas. Quanto mais aprenderes a contemplá-la e a compreendê-la, mais verás se estenderem seus limites. Porque a mesma lei orgânica governa todos os mundos”. E o profeta do templo comentava o texto sagrado. Explicava que a doutrina do Verbo-Luz representa a divindade no em seu estado estático equilíbrio perfeito. Demonstrava sua tríplice natureza, que é ao mesmo tempo inteligência, força e matéria; espírito, alma e corpo; luz, verbo e vida. A essência, a manifestação e a substância são três termos que se superpõem reciprocamente. Sua união constitui o princípio divino e intelectual por excelência, a lei da unidade ternária, que de alto a baixo domina a criação. Tendo assim conduzido seu discípulo ao centro ideal do universo, ao princípio gerador do Ser, o mestre desabrochava-o no tempo e no espaço, sacudia-o em florações múltiplas. Pois a segunda parte da visão representa a divindade no isto é, em evolução ativa ou, estado dinâmico, em outros termos, o universo visível e invisível, o céu vivo. As sete esferas ligadas a sete planetas simbolizavam sete princípios, sete estados diferentes da matéria e do espírito, sete mundos diversos que cada homem e cada humanidade são forçados a transpor em sua evolução através do Sistema solar. Os sete Gênios, os sete Deuses, cosmogônicos significavam os espíritos superiores e dirigentes de todas as esferas, oriundos, eles mesmos, a inelutável evolução. Cada grande Deus era, portanto, para o iniciado antigo, o símbolo e o modelo de legiões de espíritos que reproduziam seu tipo sob mil variantes e que de sua esfera podiam exercer uma ação sobre o homem e sobre as coisas terrestres. Os sete Gênios da visão de Hermes são os sete Devas da Índia, os sete amachapandas da Pérsia, os sete grandes Anjos da Caldéia, os sete Sefirotes (3) da Cabala, os sete Arcanjos do Apocalipse cristão. E o grande setenário que envolve o universo não vibra somente nas sete cores do arco-íris, nas sete notas da escala musical: ele se
manifesta ainda na constituição do homem, que é tríplice por essência, mas sétuplo por sua evolução (4). Dizia o hierofante, para terminar: - Assim penetraste no limiar do grande arcano. A vida divina apareceu-te sob as quimeras da realidade. Hermes te fez conhecer o céu invisível, a luz de Osíris, o Deus oculto do universo, que respira por dez milhões de almas, anima os globos errantes, e os corpos em ação. Cabe a ti, agora, dirigir-te a ti mesmo e escolher teu caminho para subir até o Espírito puro. Pois, de hoje em diante, pertences aos ressuscitados vivos. Não te esqueças de que há duas chaves principais da ciência. Eis a primeira: “O exterior é como o interior das coisas; o pequeno é como o grande; só há uma única lei e aquele que trabalha é Um. Nada é pequeno, nada é grande na economia divina”. Eis a segunda: “Os homens são deuses mortais e os deuses são homens imortais”. Feliz daquele que compreende essas palavras, porque possui a chave de todas as coisas. Lembra-te que a lei do mistério dissimula a grande verdade. O total conhecimento só pode ser revelado aos nossos irmãos que passaram pelas mesmas provas que nós. É preciso regular a verdade segundo as inteligências – disfarçá-la com um véu para os fracos, porque ela torná-los-ia loucos; ocultá-las dos maus, que dela só podem apreender fragmentos, dos quais fariam armas de destruição. Encerra-a em teu coração e que ela fale por tuas obras. A ciência será tua força, a fé tua espada e o silêncio tua armadura infrangível. As revelações do profeta de Âmon-Rá, que abriam ao novo iniciado tão vastos horizontes, sobre si mesmo e sobre o universo, sem dúvida alguma produziam profunda impressão, quando feitas no observatório de um templo de Tebas, na calma lúcida de uma noite egípcia. Os pilares, os tetos e os terraços brancos dos templos dormiam a seus pés, entre os maciços negros dos nopais e dos tamarineiros. À distância, grandes monolitos, estátuas colossais dos Deuses, estavam assentados como juizes incorruptíveis sobre seu lago silencioso. Três pirâmides, figuras geométricas do tetragrama e do setenário sagrado, perdiam-se no horizonte, espaçando seus triângulos no cinzento leve do ar. O insondável firmamento pululava de estrelas. Com que surpresa ele
olhava esses astros, que lhe pintavam como futuras moradas! Quando, finalmente, o esquife dourado da lua emergia do espelho sombrio do Nilo, que se perdia no horizonte como uma longa serpente azulada, o neófito acreditava ver a barca de Ísis navegando no rio das almas e transportando-as para o sol de Osíris. Recordava-se, então, do Livro dos Mortos e o sentido de todos esses símbolos se revelava agora a seu espírito. Depois do que havia visto e aprendido, podia acreditar-se no reino crepuscular de Amenti, misterioso interregno entre a vida terrestre e a vida celestial, onde os defuntos, a princípio sem olhos e sem palavra, recuperam pouco a pouco a visão e a voz. Ele também iria empreender a grande viagem, a viagem do infinito, através dos mundos e das existências. Hermes já o absolvera e o julgara digno, tendo já lhe dito a palavra do grande enigma: “Uma única alma, a grande alma do Todo, gerou, dividindo-se, todas as almas que se movem no Universo”. Armado do grande segredo, o neófito subia na barca de Ísis. Ela partia. Soerguida nos espaços etéreos, ela flutuava nas regiões intersiderais. Ora amplos raios de uma imensa aurora varavam os véus azulados dos horizontes celestes, ora o coro dos, espíritos gloriosos, dos Auimu-Secu, que alcançaram o eterno repouso, cantava: “Levanta-te, Rá-Hermacuti! Sol dos espíritos! Aqueles que vão em tua barca estão em exaltação! Soltam exclamações na O barca de milhões de anos. grande ciclo divino transborda de alegria glorificando a grande barca sagrada. Celebram-se festas na capela misteriosa. Levanta-te, Âmon-Rá Hermacuti! Sol que a si mesmo se criou!” E o iniciado respondia com estas palavras orgulhosas: “Eu alcancei o país da verdade e da justificação. Ressuscito como um Deus vivo e brilho no coro dos Deuses que habitam o céu, porque sou de sua raça”. Tanto os pensamentos altivos como as esperanças audaciosas perseguiam o espírito do adepto, na noite que sucedia à cerimônia mística da ressurreição. No dia seguinte, nas avenidas do templo, sob a luz deslumbrante, não lhe parecia mais do que um sonho. Mas que sonho inolvidável fora essa primeira viagem no impalpável e no invisível... De novo ele lia a inscrição na estátua de Ísis: Nenhum mortal levantou meu véu.
Uma ponta do véu soerguera-se, todavia, mas para tornar a cair em seguida, e ele despertara na terra dos túmulos. Ah! como estava longe do fim sonhado! Quão longa é a viagem na barca dos milhões de anos! Pelo menos ele entrevira o alvo final. Mesmo que sua visão do outro mundo fosse apenas um sonho, um esboço infantil de sua imaginação ainda repleta das vaidades da terra, poderia ele duvidar dessa outra consciência que ele sentira eclodir dentro de si, desse duplo misterioso, desse eu celestial que lhe aparecera em sua beleza astral como uma forma viva e que falara durante o sono? Seria uma alma gêmea, seria seu gênio ou apenas um reflexo do íntimo de seu espírito, um pressentimento de seu ser futuro? Maravilha e mistério. Com certeza seria uma realidade, e se essa alma não fosse a sua, seria a verdadeira. O que não faria ele para reencontrá-la! Vivesse ele milhões de anos e não esqueceria esta hora divina em que vira seu outro puro eu, e radiante! (5). Terminara a iniciação. O adepto estava consagrado sacerdote de Osíris. Como egípcio, ele ficaria ligado ao templo; como estrangeiro, era-lhe permitido às vezes retornar a seu país, para lá fundar um culto ou cumprir sua missão. Mas, antes de partir, ele prometia solenemente, mediante um juramento terrível, guardar silêncio absoluto sobre os segredos do templo. Jamais deveria contar a alguém o que vira ou escutara, nem revelar a doutrina de Osíris, a não ser sob o tríplice véu dos símbolos mitológicos ou dos mistérios. Se ele violasse esse juramento, uma morte fatal o atingiria cedo ou tarde, tão longe quanto estivesse. O silêncio tornara-se o escudo de sua força. Regressando às plagas da Jônia, à sua turbulenta cidade, sob o choque das paixões furiosas, naquela multidão de homens que vivem como insensatos, ignorando-se a si mesmos – muitas vezes relembrava o Egito, as pirâmides, o templo de Âmon-Rá. Então o sonho da cripta lhe voltava. E como lá o lótus balança sobre as ondas do Nilo, essa visão branca sempre flutuaria sobre o rio lodoso e confuso desta vida. Em horas escolhidas, ele ouvia sua voz, e era a voz da luz. Despertando em seu ser uma música íntima, ela lhe dizia: “A alma é uma luz velada. Quando a negligenciamos, ela escurece e se extingue.
Mas, quando nela derramamos o óleo santo do amor, ela reluz como uma lâmpada imortal!”
. A visão de Hermes Hermes (1) se encontra no frontispício dos livros de Trimegisto Poimandrés sob o nome de . A antiga tradição egípcia só chegou até nós sob uma forma alexandrina ligeiramente alterada. Tentei reconstituir esse fragmento capital da doutrina hermética no sentido da alta iniciação e da síntese esotérica que ele representa.
(2). Decerto, esses Deuses traziam outros nomes na linguagem egípcia. Mas os sete Deuses cosmogônicos se correspondem em todas as mitologias, por seu sentido e suas atribuições. Têm sua raiz comum na antiga tradição esotérica. A tradição ocidental adotou os nomes latinos e nós os conservamos para maior clareza.
(3). Há dez Sefirotes na Cabala. Os três primeiros representam o temário divino, os sete outros, a evolução do Universo.
(4). Daremos aqui os termos egípcios dessa constituição setenária do Chat Anch homem, que se encontra na Cabala: , corpo material; , força vital; Ka Hati Baí , duplo etéreo ou corpo astral; , alma animal; , alma racional; Cheybi Ku , alma espiritual; , espírito divino. O desenvolvimento dessas idéias Orfeu fundamentais da doutrina esotérica será encontrado no livro de e sobretudo no de Pitágoras.
(5). Na doutrina egípcia, considerava-se que o homem só tinha Hati e Baí consciência da alma animal e da alma racional, chamadas . A parte cheybi ku superior de seu ser, a alma espiritual e o espírito divino, e , existem nele em estado de germe inconsciente e se desenvolvem depois desta vida, Osíris. quando ele próprio se toma um
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.