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Capítulo 59 de 74

A Iniciação De Platão E A Filosofia Platônica

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

Três anos após Platão ter-se tomado discípulo de Sócrates, este foi condenado à morte pelo Areópago. Morreu cercado de seus discípulos, bebendo cicuta. Poucos acontecimentos históricos são tão discutidos quanto este. E poucos, não obstante, têm tido suas causas e seu alcance tão mal compreendidos. Chega-se a dizer, hoje, que o Areópago teve razão, de seu ponto de vista, ao condenar Sócrates como inimigo da religião do Estado porque, negando os deuses, ele abalava as bases da República ateniense. Mostraremos, dentro em pouco, que esta asserção encerra dois erros profundos. Lembremos primeiro o que Victor Cousin ousou escrever na introdução da em sua bela tradução Apologia de Sócrates, das obras de Platão: “Anitus, deve-se dizer, era um cidadão respeitável,- o Areópago, um tribunal eqüitativo e moderado. E, se houvesse algo para espantar, é que Sócrates tenha sido acusado tão tarde e não ter sido condenado por uma maioria mais representativa”. O filósofo, ministro da Instrução Pública, não viu que, se ele tivesse razão, seria preciso condenar ao mesmo tempo a filosofia e a religião, para glorificar unicamente a política da mentira, da violência e do arbítrio. Pois se a filosofia abala inevitavelmente as bases do estado social, este não passa de uma loucura pomposa. E se a religião não pode subsistir a não ser suprimindo a procura da verdade, ela não passa de uma tirania funesta. Precisamos ser mais justos para com a religião e a filosofia gregas. Existe um fato essencial e surpreendente que escapou à maioria dos historiadores e filósofos modernos. Na Grécia, as perseguições, aliás, bastante raras, contra os filósofos, jamais partiram dos templos, mas sempre dos intrigantes políticos. A civilização helênica não conheceu a guerra entre os sacerdotes e os filósofos, que desempenha papel tão grande em nossa civilização desde a destruição do esoterismo

cristão, no segundo século de nossa era. Tales pôde professar tranqüilamente que o mundo vem da água; Heráclito, que ele sai do fogo; Anaxágoras pôde dizer que o Sol é uma massa de fogo incandescente; Demócrito, pretender que tudo vem dos átomos. Nenhum templo se preocupou com isto. Nos templos, sabiam todas estas coisas e muito mais ainda. Sabiam também que os pretensos filósofos que negavam os deuses não podiam destruí-los na consciência nacional, e que os filósofos verdadeiros acreditavam à maneira dos iniciados e viam nos deuses os símbolos das grandes categorias da hierarquia espiritual, do Divino que penetra na Natureza, do Invisível que governa o Visível. A doutrina esotérica servia, portanto, de ligação entre a verdadeira filosofia e a verdadeira religião. Eis o fato profundo, primordial e final, que explica seu acordo secreto na civilização helênica. Quem, então, acusou Sócrates? Os sacerdotes de Elêusis, que haviam amaldiçoado os autores da guerra do Peloponeso, sacudindo a poeira de suas túnicas em direção ao Ocidente, não pronunciaram uma palavra contra ele. O templo de Delfos deu-lhe o mais belo testemunho que se pode prestar a um homem. A Pítia, consultada sobre o que Apolo pensava de Sócrates, respondeu: “Não existe homem mais livre, mais justo, mais sensato”. (1) As duas principais acusações contra Sócrates foram: corromper a mocidade e não crer nos deuses – não passaram, portanto, de pretexto. À segunda acusação Sócrates respondeu vitoriosamente perante os juízes: “Eu creio em meu espírito familiar. Com mais razão ainda devo crer nos deuses, que são os grandes espíritos do Universo”. Então, por que esse ódio implacável contra o sábio? Ele combatera a injustiça, desmascarara a hipocrisia, mostrara a falsidade de tantas vãs pretensões. Os homens perdoam todos os vícios e todos os ateísmos, mas não perdoam àqueles que os desmascaram. Foi por isso que os verdadeiros ateus, que tinham assento no Areópago, fizeram morrer o justo e inocente, acusando-o do crime que eles cometiam. Em sua defesa admirável, reproduzida por Platão, o próprio Sócrates explicava isso com perfeita simplicidade: “Foram minhas

buscas infrutíferas para encontrar homens sábios entre os atenienses que excitaram contra mim tantas inimizades perigosas. Daí todas as calúnias levantadas contra mim. Pois todos aqueles que me ouvem supõem que eu sei todas as coisas e que desmascaro a ignorância dos outros... Intrigantes, ativos e numerosos, falando de mim segundo um plano combinado e com uma eloqüência muito capaz de seduzir, há muito tempo encheram vossos ouvidos dos rumores mais pérfidos, e prosseguem sem descanso em seu sistema de calúnias. Entre eles se destacam Mélitus, Anitus e Lícon. Mélitus representa os poetas; Anitus, os políticos e os artistas; Lícon, os oradores”. Um poeta trágico sem talento, um ricaço mau e fanático, um demagogo cínico conseguiram fazer condenar à morte o melhor dos homens. E esta morte tornou-o imortal. Ele pôde dizer altivamente a seus juízes: “Eu creio mais nos deuses do que qualquer um de meus acusadores. É tempo de nos deixarmos. Eu, para morrer, e vós, para viverdes. Quem de nós fica com a melhor parte? Ninguém o sabe, exceto Deus” (2). Longe de abalar a verdadeira religião e seus símbolos nacionais, Sócrates tudo fizera para reafirmá-los Ele teria sido o maior sustentáculo de sua pátria, se ela tivesse sabido compreendê-lo. Como Jesus, ele morreu perdoando a seus carrascos e tornou-se para toda a humanidade o modelo dos sábios mártires, pois representa o advento definitivo da iniciação individual e da ciência aberta. A serena imagem de Sócrates morrendo pela verdade e passando sua derradeira hora conversando com seus discípulos sobre a imortalidade da alma, gravou-se no coração de Platão como o mais belo espetáculo e o mais santo mistério. Foi sua primeira, sua grande iniciação. Mais tarde, ele deveria estudar a Física, a Metafísica e muitas outras ciências. Mas permaneceu sempre o discípulo de Sócrates. Platão nos legou sua imagem viva, colocando na boca do mestre os tesouros de seu próprio pensamento. Esta prova de modéstia fez dele o discípulo ideal, como o fogo do entusiasmo faz dele o poeta dos filósofos. Sabemos muito bem que ele fundou sua escola aos cinqüenta anos e morreu aos oitenta; porém só podemos imaginá-lo jovem. Porque a

eterna juventude é o quinhão das almas que somam à profundidade dos pensamentos uma candura divina. Platão recebera de Sócrates o grande impulso, o princípio ativo e masculino de sua vida, sua fé na justiça e na verdade. Deveu a ciência e a substância de seus ideais à sua iniciação nos Mistérios. Seu gênio consiste na forma nova, ao mesmo tempo poética e dialética, que soube dar-lhes. Essa iniciação, ele não a tomou somente com Elêusis. Procurou-a em todas as fontes acessíveis do mundo antigo. Após a morte de Sócrates, ele se pôs a viajar. Acompanhou as lições de vários filósofos da Ásia Menor. De lá foi para o Egito, a fim de entrar em contato com seus sacerdotes, e passou pela iniciação de Ísis. Ele não atingiu, como Pitágoras, o grau superior em que se torna adepto e se adquire a visão efetiva e direta da verdade divina, com poderes sobrenaturais do ponto de vista terrestre. Deteve-se no terceiro grau, que confere a perfeita claridade intelectual, com o domínio da inteligência sobre a alma e sobre o corpo. Depois, seguiu para a Itália meridional, a fim de juntar-se aos pitagóricos; bem sabia que Pitágoras havia sido o maior dos sábios gregos. Comprou a preço de ouro um manuscrito do mestre. Tendo bebido assim a tradição esotérica de Pitágoras em sua própria fonte, recebeu deste filósofo as idéias-mães e o arcabouço de seu sistema. (3) Voltando a Atenas, Platão ali fundou sua escola, que se tornou célebre sob o nome de Academia. Para continuar a obra de Sócrates era preciso divulgar a verdade. Entretanto Platão não podia ensinar publicamente as coisas que os pitagóricos mantinham encobertas com um triplo véu. Os juramentos, a prudência, sua própria finalidade o proibiam. E, certamente, a doutrina esotérica que encontramos em seus Diálogos, mas dissimulada, moderada, carregada de uma dialética argumentativa, como uma bagagem estranha disfarçada em lenda, em mito, em parábola. Ela não se apresenta aqui como o conjunto imponente que lhe conferiu Pitágoras – que tentamos reconstruir – como o edifício fundado sobre uma base imutável e cujas partes estão fortemente cimentadas, e sim por fragmentos analíticos. Platão, como Sócrates, coloca-se no mesmo plano dos jovens de Atenas, dos

mundanos, dos retóricos e dos sofistas. Combate-os com suas próprias armas. Mas seu gênio está sempre lá. A cada instante, ele rompe como uma águia a malha da dialética, para elevar-se num vôo audacioso às verdades sublimes, que são sua pátria e sua atmosfera natal. Esses diálogos têm um encanto picante e único. Sente-se ali, ao lado do entusiasmo de Delfos e de Elêusis, uma clareza maravilhosa, o sal ático, a malícia do homem simples que foi Sócrates, a ironia fina e ligeira do sábio. Nada mais fácil do que encontrar as diferentes partes da doutrina esotérica em Platão e descobrir, ao mesmo tempo, as fontes em que ele bebeu. A doutrina das idéias típicas das coisas, expostas no é um Fedro, corolário da doutrina dos de Pitágoras. (4) O Números Sagrados Tímeo apresenta uma exposição bastante confusa e obscura da cosmogonia esotérica. Quanto à doutrina da alma, suas migrações e evolução, ela permeia toda a obra de Platão, mas em nenhuma parte transparece tão claramente quanto no no e na no final Banquete, Fédon Lenda de Er, desse diálogo. Percebemos Psiquê sob um véu; mas quão bela e comovente ela brilha através dele, com suas formas delicadas e sua graça divina! Vimos no livro anterior que a chave do Cosmo, o segredo de sua constituição, de alto a baixo, encontra-se no princípio dos três mundos, refletidos pelo microcosmo e pelo macrocosmo, no ternário humano e divino. Pitágoras havia magistralmente formulado e resumido esta doutrina, sob o símbolo da Esta doutrina do Verbo Tétrada sagrada. vivo, eterno, constituía o grande arcano, a fonte da magia, o templo de diamante do iniciado, sua cidadela inexpugnável acima do oceano das coisas. Platão não podia nem queria revelar esse arcano em seus ensinamentos públicos. Inicialmente, o juramento dos mistérios cerravalhe os lábios. Além disso, ninguém o teria compreendido e o vulgo teria profanado indignamente este mistério teogônico, que contém a geração dos mundos. Para combater a corrupção dos costumes e o desencadeamento das paixões políticas, era preciso outra coisa. Com a grande iniciação ia fechar-se logo a porta do além, aquela porta que,

aliás, só se abre luminosamente para os grandes profetas, aos raríssimos, aos verdadeiros iniciados. Platão substituiu a doutrina dos três mundos por três conceitos que, na ausência da iniciação organizada, permaneceram por dois mil anos como três caminhos abertos para a finalidade suprema. Esses três conceitos relacionam-se igualmente com o mundo humano e o mundo divino. Eles têm a vantagem de uni-los, embora de maneira abstrata. Aqui se revela o gênio vulgarizador e criador de Platão. Lançou torrentes de luz sobre o mundo, colocando na mesma linha as idéias da Verdade, da Beleza e do Bem. Elucidando-as uma através da outra, ele demonstrou que elas são três raios que partem do mesmo foco que, juntando-se, reconstituem esse mesmo foco, isto é, Deus. Buscando o Bem, ou seja, o Justo, a alma se purifica. Prepara-se para conhecer a Verdade. Esta é a primeira indispensável condição de seu progresso. Buscando, alargando a idéia do Belo, ela atinge o Belo intelectual, aquela luz inteligível, mãe das coisas, animadora das formas, substância e órgão de Deus. Mergulhando na alma do mundo, a alma humana sente crescerem-lhe as asas. Buscando a idéia do Verdadeiro, ela atinge a pura Essência, os princípios contidos no Espírito puro. Ela reconhece sua imortalidade pela identidade de seu princípio com o princípio divino. Perfeição; epifania da alma. Abrindo estas grandes vias ao espírito humano, Platão definiu e criou, fora dos sistemas estreitos e das religiões particulares, a categoria que devia substituir por séculos, e substitui até nossos dias, do Ideal, a iniciação orgânica e completa. Ele franqueou as três vias sagradas que conduzem a Deus, como a via sagrada de Atenas conduzia a Elêusis pela porta do Cerâmico. Tendo penetrado no interior do templo com Hermes, Orfeu e Pitágoras, julgamos melhor a solidez e a retidão daqueles largos caminhos construídos pelo divino engenheiro Platão. O conhecimento da Iniciação nos dá a justificação e a razão de ser do Idealismo. O é a afirmação ousada das verdades divinas pela alma idealismo que se interroga na solidão e julga realidades celestes por suas faculdades íntimas e suas vozes interiores.

A iniciação é a penetração dessas mesmas verdades pela experiência da alma, pela visão direta do espírito, pela ressurreição interior. No grau supremo, é a comunicação da alma com o mundo divino. O é uma moral, uma poesia, uma filosofia. A é Ideal iniciação uma ação, uma visão, uma presença sublime da Verdade. O Ideal é o sonho e a saudade da pátria divina. A Iniciação, templo dos eleitos, é sua lembrança clara, a própria posse. Estabelecendo a categoria do Ideal, o iniciado Platão criou portanto um refúgio, abriu o caminho da salvação a milhões de almas que não podem, nesta existência, alcançar a iniciação direta, mas aspiram dolorosamente à verdade. Assim, Platão fez da filosofia o vestíbulo de um santuário futuro, a ele convidando todos os homens de boa vontade. O idealismo de seus numerosos filhos, pagãos ou cristãos, aparece-nos como a sala de espera da grande iniciação. Isto nos explica a imensa popularidade e a força irradiante das idéias platônicas. Essa força reside em seu fundo esotérico. Aí está a razão de a Academia de Atenas, fundada por Platão, ter durado séculos e ter-se prolongado na grande escola da Alexandria. E eis por que os primeiros Pais da Igreja renderam homenagem a Platão, tendo Santo Agostinho retomado dois terços de sua teologia. Dois mil anos decorreram desde que o discípulo de Sócrates exalara seu último suspiro, à sombra da Acrópole. O cristianismo, as invasões dos bárbaros, a Idade Média tinham passado pelo mundo. Mas a Antigüidade renascia de suas cinzas. Em Florença, os Médicis quiseram fundar uma academia e chamaram um sábio grego, exilado de Constantinopla, para organizá-la. Que nome lhe deu Marcílio Ficino? Chamou-a academia platônica. Mesmo hoje, depois que tantos sistemas filosóficos se sobrepuseram, se tornaram pó; hoje, que a ciência pesquisou a matéria em suas últimas transformações, e se vê face ao inexplicável e ao invisível, hoje ainda Platão volta para nós. Sempre simples e modesto, mas radiante de mocidade eterna, ele nos estende o ramo sagrado dos Mistérios, o ramo de mirta e de cipreste, com o

narciso: a flor da alma, que promete o divino renascimento em uma nova Elêusis.

(1). Xenofonte: Apologia de Sócrates.

(2). Platão, Apologia de Sócrates.

(3). “O que Orfeu promulgou por meio de obscuras alegorias, diz Próclus, Pitágoras ensinou após ter-se iniciado nos mistérios órficos, e Platão disso teve pleno conhecimento pelos escritos órficos e pitagóricos.” Esta opinião da escola alexandrina sobre a filiação das idéias platônicas é plenamente confirmada pelo estudo comparado das tradições órficas e pitagóricas com os textos de Platão. E esta filiação, mantida secreta durante séculos, só foi revelada pelos filósofos alexandrinos, porque eles foram os primeiros a publicar o sentido esotérico dos Mistérios.

(4). Ver esta doutrina no livro precedente.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.