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Capítulo 71 de 74
Os Essênios. João Batista. A Tentação — parte 6 de 8
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
das mais sublimes alturas aos sofrimentos da terra que sentia como se fossem seus, ele derramou lágrimas por Jerusalém, pela cidade santa e por seu povo, cujo destino pavoroso pressentia. O seu destino também se aproximava a passos de gigante. O Sinédrio já havia deliberado sobre ele e decidido sua morte. Judas Escariotes já havia prometido entregar o Mestre. O que determinou esta negra traição não foi a avareza sórdida, mas a ambição e o amor-próprio ferido. Judas, modelo de egoísmo frio e de positivismo absoluto, incapaz do menor idealismo, só se fizera discípulo de Cristo por especulação mundana. Ele contava com o triunfo terrestre, imediato, do profeta, e com o proveito que poderia tirar disso. Nada havia compreendido daquela profunda palavra do Mestre: “Aqueles que quiserem ganhar sua vida, perdê-la-ão. E aqueles que quiserem perdê-la, ganhá-la-ão”. Jesus, em sua caridade ilimitada, havia-o admitido entre os seus na esperança de mudar-lhe a natureza. Quando Judas viu que as coisas iam mal, que Jesus estava perdido, seus discípulos comprometidos, ele mesmo frustrado em todas as suas esperanças, sua decepção transformou-se em raiva. O infeliz denunciou aquele que, a seus olhos, era apenas um falso Messias e pelo qual se considerava enganado. Com seu olhar penetrante, Jesus adivinhara o que se passava no íntimo do apóstolo infiel. Resolveu não mais evitar o destino, cuja inextricável. rede apertava-se a cada dia mais em torno dele. Estava-se na véspera da Páscoa. Jesus ordenou aos discípulos que preparassem a ceia, na cidade, em casa de um amigo. Pressentia que esta seria a última e queria dar-lhe uma solenidade excepcional. Eis-nos chegando ao último ato do drama messiânico. Para apreender a alma e a obra de Jesus em sua fonte, era necessário primeiro esclarecer interiormente os dois primeiros atos de sua vida: sua iniciação e sua carreira pública. O drama interior de sua consciência lá se desenrolou. O último ato de sua vida, ou o drama da paixão, é a conseqüência lógica dos dois precedentes. Conhecido de todos, ele se explica por si só pois é próprio do sublime ser ao mesmo tempo simples, imenso e claro. O drama da paixão contribuiu muitíssimo para
formar o cristianismo. Ele arrancou lágrimas de todos os homens que têm um coração e converteu milhões de almas. Em todas essas cenas, os Evangelhos são de uma beleza incomparável. O próprio João desce de suas alturas. Sua narrativa detalhada assume aqui a verdade pungente de um testemunho ocular. Cada um pode reviver em si mesmo o drama divino, ninguém saberia refazê-lo. Para terminar minha tarefa, devo, no entanto, concentrar os raios da tradição esotérica sobre os três acontecimentos essenciais pelos quais findou a vida do divino Mestre: a santa ceia, o processo do Messias e a ressurreição. Se a luz brilhar sobre esses pontos, ela brilhará para trás sobre toda a carreira do Cristo, e para diante sobre toda a história do cristianismo. Os doze, formando treze com o Mestre, estavam reunidos na ampla sala de uma casa de Jerusalém. O amigo desconhecido, o hospedeiro de Jesus, havia ornado a sala com um rico tapete. Segundo a moda oriental, os discípulos e o Mestre deitaram-se, três a três, sobre quatro largos divãs em forma de triclínio, dispostos em redor da mesa. Quanto trouxeram o cordeiro pascal, os vasos cheios de vinho e a taça preciosa, o cálice de ouro emprestado pelo amigo desconhecido, Jesus, sentado entre João e Pedro, disse: “Eu desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa, pois, não mais comeremos dela, até que se tenha realizado no reino do céu” (9). Depois destas palavras, as fisionomias ficaram sombrias e o ambiente tornou-se pesado. “O discípulo que Jesus amava”, o único que adivinhava tudo, inclinou em silêncio a cabeça sobre o peito do Mestre. Conforme o costume dos judeus, na refeição da Páscoa, comeram, sem falar, as ervas amargas e o assado. Então Jesus tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em minha memória”. Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice e apresentoulhes, dizendo: “Este é o cálice da nova aliança, com meu sangue, derramado por vós” (10).
Tal é a instituição da ceia em toda a sua simplicidade. Ela encerra muito mais coisas do que se supõe e se sabe comumente. Este ato simbólico e místico não somente é a conclusão e o resumo de toda a doutrina de Cristo; é ainda a consagração e o revigoramento de um símbolo de iniciação bastante antigo. Entre os iniciados do Egito e da Caldéia, como entre os profetas e os essênios, o ágape fraternal marcava o primeiro grau da iniciação. A comunhão sob a espécie do pão, fruto do trigo, significava o conhecimento dos mistérios da vida terrestre ao mesmo tempo que a partilha dos bens da terra e, por conseguinte, a união perfeita dos irmãos filiados. No grau superior, a comunhão sob a espécie do vinho, o sangue da vinha penetrado pelo sol, significava a partilha dos bens celestes, a participação nos mistérios espirituais e na ciência divina. Jesus, legando esses símbolos aos Apóstolos, ampliou-os, porque através deles estende a fraternidade e a iniciação, outrora limitadas a alguns, à humanidade inteira. Acrescenta a eles o mais profundo dos mistérios, a maior das forças: o seu sacrifício, que estabeleceu a cadeia do amor invisível, mas inquebrantável, entre ele e os seus. Ela dará à sua alma glorificada um poder divino sobre os seus corações e sobre os de todos os homens. Aquele cálice da verdade vindo do fundo das trevas das eras proféticas, o cálice de ouro da iniciação que o velho essênio havia-lhe apresentado, chamando-o profeta, o cálice do amor celeste que os filhos de Deus haviam-lhe ofertado no transporte de seu mais elevado êxtase, aquele cálice em que agora ele vê brilhar seu próprio sangue, ele o estende aos discípulos bem-amados, com a ternura inefável do adeus supremo. Vêem eles, compreendem eles, os Apóstolos, aquele pensamento redentor que abraça os mundos? Ele brilha no profundo e doloroso olhar que o Mestre transfere do discípulo amado para aquele que vai traí-lo. Não, eles não compreendem ainda. Respiram penosamente, como em um sonho mau. Uma espécie de vapor pesado e avermelhado flutua no ar e eles se perguntam de onde vem a estranha irradiação que paira sobre a cabeça de Cristo. Quando afinal Jesus declara que vai passar a
noite em oração, no jardim das Oliveiras, e levanta-se dizendo: Vamos!, eles não têm dúvidas quanto ao que está para acontecer. Jesus atravessou a noite e a angústia de Getsêmani. Primeiro viu, com uma assustadora lucidez, estreitar-se o círculo infernal que vai sufocá-lo. No terror daquela situação, na terrível espera, no momento de ser preso pelos inimigos, ele estremeceu. Por um instante sua alma recuou diante das torturas que o esperavam. Um suor de sangue brotou em sua fronte. Depois, a oração revigorou-o. Rumores de vozes confusas, clarões de tochas sob as sombrias oliveiras, um tilintar de armas... é a tropa dos soldados do Sinédrio. Judas, que os conduz, abraça seu Mestre, para que reconheçam o profeta. Jesus retribuiu-lhe o beijo com uma inefável piedade e lhe diz: “Meu amigo, o que fazes aqui?” O efeito daquela doçura, daquele beijo fraternal em troca da mais baixa traição, será tal sobre aquela alma tão dura que, um instante depois, Judas, dominado pelo remorso e pelo horror a si mesmo, irá suicidar-se. Com suas mãos rudes, os soldados agarraram o rabino galileu. Após uma curta resistência, os discípulos, atemorizados, fugiram como punhado de caniços levados pelo vento. Somente João e Pedro permaneceram nas proximidades e seguirão o Mestre até o tribunal, com o coração partido e a alma ligada indissoluvelmente a seu destino. Jesus, entretanto, readquiriu a calma. A partir daquele momento, nenhum protesto, nenhuma queixa mais sairá de sua boca. O Sinédrio reuniu-se às pressas em sessão plenária. No meio da noite Jesus é conduzido para lá, pois o tribunal quer acabar rapidamente com o perigoso profeta. Os sacrificadores, os sacerdotes de túnicas púrpuras, amarelas, violetas, turbantes na cabeça, estão solenemente sentados em semicírculo. No meio deles, em um assento mais elevado, no trono de Caifás, o grande-pontífice, com a cabeça coberta pelo migbá. Em cada extremidade do semicírculo, sobre duas pequenas tribunas, onde estava colocada uma mesa, mantêm-se dois escribas: um para a absolvição, outro para a condenação, advogado de Deus, Jesus, impassível, está de pé no centro, com sua advogado do Diabo. veste branca de essênio. Oficiais de justiça, armados de correias e de
cordas, cercam-no de braços nus, mãos nos quadris e olhar mau. Só há testemunhas de acusação. Nem ao menos um único defensor. O pontífice, juiz supremo, é o acusador principal; o processo é uma pretensa medida de proteção pública contra um crime de lesa-religião. Mas na realidade é a vingança preventiva de um sacerdote inquieto que se sente ameaçado em seu poder. Caifás levanta-se e acusa Jesus de ser um sedutor do povo, um mistificador. Algumas testemunhas, reunidas ao acaso na multidão, fazem seu depoimento, mas se contradizem. Finalmente, uma delas refere-se àquela frase, considerada blasfêmia, que o nazareno havia lançado mais de uma vez em rosto dos fariseus sob o pórtico de Salomão: “Eu posso destruir o templo e reconstruí-lo em três dias.” Jesus cala-se. Pergunta-lhe o grão-sacerdote: “Não respondes nada?” Jesus, sabendo que será condenado, não quer prodigalizar seu verbo inutilmente e guarda silêncio. Porém aquela acusação, mesmo provada, não seria suficiente para motivar uma pena capital. É preciso uma acusação mais grave. Para arrancá-la ao acusado, o hábil saduceu Caifás dirige-lhe uma questão de honra, a questão vital de sua missão. A maior habilidade consiste em ir direto ao fato essencial: “Se és o Messias, dize-nos!” Jesus responde primeiro de maneira evasiva, o que prova que não está alheio ao estratagema: “Se eu vô-lo digo, vós não me acreditais. E se eu vô-lo pergunto, não me respondereis”. Caifás, vendo fracassar sua astúcia de juiz de instrução, usa de seu direito de grão-pontífice e continua com solenidade: “Conjuro-te, pelo Deus vivo, a dizer-nos se és o Messias, o Filho de Deus”. Assim interpelado, intimado a desmentir ou a afirmar sua missão diante do mais alto representante da religião de Israel, Jesus não hesita mais. E responde tranqüilamente: “Tu o disseste. Mas, eu vos declaro que, a partir deste momento, vereis o Filho de Deus sentado à direita do Pai, vindo sobre as nuvens do céu” (11). Exprimindo-se assim na linguagem profética de Daniel e do livro de Enoch, o iniciado Essênio Ieoshua não fala a Caifás como indivíduo. Ele sabe que o saduceu agnóstico é incapaz de compreendê-lo. Fala,
sim, a todos os futuros pontífices, a todos os sacerdotes da terra e afirma-lhes: “Depois que minha missão for selada com minha morte, o reino da Lei religiosa sem explicação estará terminado, em princípio e de fato. Os Mistérios serão revelados e o homem verá o divino através do humano. As religiões e os cultos que não souberem demonstrar e vivificar um pelo outro, não terão autoridade”. Este é, segundo o esoterismo dos profetas e dos essênios, o sentido do Filho sentado à direita do Pai. Assim compreendida, a resposta de Jesus ao sumo sacerdote de Jerusalém contém o testamento intelectual e científico de Cristo às autoridades religiosas da terra, como a instituição da Ceia contém seu testamento de amor e de iniciação aos Apóstolos e aos homens. Olhando acima da cabeça de Caifás, Jesus falou para o mundo. Mas o saduceu, tendo obtido o que desejava, não o escuta mais. Rasgando-lhe a veste de linho fino, exclama: “Ele blasfemou! Para que precisamos de mais testemunhas? Ouvistes sua blasfêmia! Que vos parece?” Um murmúrio unânime e lúgubre do Sinédrio responde: “Ele merece a morte!” Logo, a vil injúria e o ultraje brutal dos subalternos fazem eco à sentença dos seus superiores. Os soldados escarram-lhe, batem-lhe no rosto e gritam-lhe: “Profeta, adivinha quem te bateu?” Sob esse transbordamento de ódio baixo e feroz, a sublime e pálida face do grande sofredor retoma sua imobilidade marmórea e visionária. Dizem que existem estátuas que choram, mas existem também dores sem lágrimas; existem orações mudas de vítimas, que assombram os carrascos e os perseguem pelo resto de sua vida. Mas ainda não está terminado. O Sinédrio pode pronunciar a pena de morte; porém para executá-la é preciso o braço secular e a aprovação da autoridade romana. O encontro com Pilatos, relatado em seus detalhes por João, não é menos notável do que aquele com Caifás. O curioso diálogo entre Cristo e o governador romano, em que as interjeições violentas dos sacerdotes judeus e os gritos de uma população fanática fazem a parte dos coros na tragédia antiga, tem a persuasão da grande verdade dramática. Ele desnuda a alma dos personagens, mostra o choque dos três poderes em jogo: o cesarismo
romano, o judaísmo estreito e a religião universal do Espírito representada pelo Cristo. Pilatos, indiferente àquela disputa religiosa, mas bastante aborrecido com o caso, porque teme que a morte de Jesus provoque um levante popular, interroga-o com precaução e estende-lhe uma tábua de salvação, esperando que Jesus se aproveite dela. “És tu o rei dos Judeus?” “Meu reino não é deste mundo.” “És rei, então?” “Sim. Nasci para isto. Vim ao mundo para dar testemunho da verdade.” Pilatos não compreende aquela afirmação da realeza espiritual de Jesus mais do que Caifás compreendeu seu testemunho religioso. “O que é a verdade?", pergunta ele indiferentemente; esta resposta, no cavaleiro romano cético, revela o estado de alma da sociedade pagã de então, como de toda sociedade decadente. No entanto, vendo no acusado somente um sonhador inocente, acrescenta: “Não encontro nenhum crime nele”. E propõe aos judeus soltarem-no; mas a populaça, instigada pelos sacerdotes, vocifera: “Solta Barrabás!” Então Pilatos, que detesta os judeus, dá-se o prazer irônico de fazer açoitar com varas seu pretenso rei. Ele acredita que isto será suficiente para aqueles fanáticos. Todavia eles se tornam mais furiosos ainda e gritam com raiva: “Crucifica-o!” Apesar do desencadeamento das paixões populares, Pilatos continua resistindo. Está cansado de ser cruel. Já viu tanto sangue correr em sua vida, enviou tantos revoltados para o suplício, ouviu tantos gemidos e maldições sem sair de sua indiferença! Mas o sofrimento mudo e estóico do profeta galileu, sob o manto de púrpura e a coroa de espinhos, provocou-lhe um tremor desconhecido. Em uma visão estranha e fugitiva de seu espírito, sem medir-lhes o alcance soltou estas palavras: “ (Eis o Homem!) O duro romano está quase Ecce Hommo!” comovido. Ele vai pronunciar a absolvição. Os sacerdotes do Sinédrio, que observam-no atentamente, percebem aquela emoção e ficam assustados. Sentem a presa escapar-lhes. Astuciosamente confabulam entre si. Depois, a uma só voz, gritam, avançando a mão direita estendida e voltando a cabeça com um gesto de horror hipócrita: “Ele se diz Filho de Deus!” Quando Pilatos ouviu aquelas palavras, diz João, teve ainda mais medo. Medo de quê? O que aquele homem poderia
provocar no romano incrédulo, que desprezava de todo o seu coração os judeus e sua religião e só acreditava na religião política de Roma e em César? Há uma razão séria para isto. Embora lhe atribuíssem sentidos diferentes, o termo era bastante difundido no esoterismo filho de Deus antigo; e Pilatos, apesar de cético, tinha seu lado supersticioso. Em Roma, nos pequenos mistérios de Mitras, nos quais os cavaleiros romanos se faziam iniciar, ele escutara que um filho de Deus era uma espécie de intérprete da divindade. Em qualquer nacionalidade, em qualquer religião, atentar contra sua vida era um grande crime. Pilatos não acreditava naqueles devaneios persas, mas aquelas palavras o inquietavam apesar de tudo e aumentavam seu embaraço. Percebendo isto, os judeus apresentam ao procônsul a acusação suprema: “Se libertares este homem, não és amigo de César. Porque quem se diz rei declara-se contra César... nós não temos outro rei senão César“. Argumento irresistível. Negar Deus é pouco, matar é nada, mas conspirar contra César é o crime dos crimes. Pilatos é forçado a renderse e pronunciar a condenação. Assim, no término de sua carreira pública, Jesus encontra-se diante do senhor do mundo que ele combatera indiretamente, como adversário oculto, durante toda sua vida. A sombra de César o envia à cruz. Profunda lógica das coisas: os judeus entregaram-no, mas o espectro romano, estendendo a mão, matao. Mata o seu corpo. Mas é Ele, o Cristo glorificado, que, por seu martírio, tirará de César, para sempre, a auréola usurpada, a apoteose divina, a infernal blasfêmia do poder absoluto. Pilatos, depois de lavar as mãos do sangue do inocente, pronunciou a frase terrível: A multidão Condemno, ibis in crucem. impaciente já se apressa em direção ao Gólgota. Eis-nos no monte desnudo e semeado de ossos humanos, que domina Jerusalém e tem o nome de Gilgal, Gólgota ou lugar de crânio; deserto sinistro, consagrado desde séculos a horríveis suplícios. A montanha calva não tem árvores; ali só germinam cadafalsos. Lá Alexandre Jané, rei judeu, assistira com todo o seu harém à execução de
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