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Capítulo 51 de 74

Terceiro Grau – Perfeição (6) — parte 2 de 3

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

os discípulos de Hermes e de Orfeu, o homem adquire, por sua a ação, consciência e a posse do divino. Somente então ele se torna filho de Deus. E aqueles que, na Terra, tiveram este nome precisaram, antes de aparecerem entre nós, de descer e tornar a subir a terrível espiral. O que é, pois, a humilde Psiquê, em sua origem? Um sopro que passa, um germe que flutua, um pássaro levado pelos ventos, que emigra de existência em existência. Entretanto, de naufrágio em naufrágio, através de milhões de anos, ela tornou-se a filha de Deus e não reconhece outra pátria além do céu! Eis por que a poesia grega, de um simbolismo tão profundo e tão luminoso, comparou a alma ao inseto alado: ora verme da terra, ora borboleta celeste. Quantas vezes tem ela sido crisálida e quantas vezes, borboleta? Jamais o saberá, mas sente que possui asas! Tal é o vertiginoso passado da alma humana. Ele nos explica sua condição presente e nos permite entrever seu futuro. Qual é a situação da divina Psiquê na vida terrestre? A menor reflexão mostra que seria impossível imaginar algo mais estranho e mais trágico. Desde que, penosamente, despertou na atmosfera espessa da Terra, a alma sentiu-se enlaçada nas sinuosidades do corpo. Não vive, não respira, não pensa, senão através dele. Entretanto, o corpo não é a alma. À medida que se desenvolve, ela sente crescer em si mesma uma luz vacilante, algo invisível e imaterial que ela chama seu espírito, consciência. Sim, o homem possui o sentimento inato de sua tríplice sua natureza, pois que ele distingue, em sua própria linguagem instintiva, corpo e alma; a alma e o espírito. Porém a alma cativa e atormentada se debate entre seus dois companheiros, como no amplexo de uma serpente de mil anéis e um gênio invisível que a chama, mas cuja presença só se faz sentir pelas batidas de asas e por clarões fugidios. Ora, este corpo a absorve a tal ponto que ela só vive através de suas sensações e paixões. Ela rola com ele nas orgias sangrentas da cólera ou na grosseira embriaguez das volúpias carnais, até que ela mesma se espante consigo pelo silêncio profundo do companheiro invisível. Atraída por este, a alma se perde em tal elevação de pensamento que esquece a existência do corpo, até que ele lhe recorde sua presença

mediante um apelo tirânico. E, no entanto, uma voz interior lhe diz que entre ela e o hóspede invisível o liame é indissolúvel, enquanto a morte romperá sua ligação com o corpo. E, sacudida entre os dois em sua luta eterna, a alma busca inutilmente a felicidade e a verdade. Inutilmente ela busca a si mesma nas sensações que passam, nos pensamentos que lhe escapam, no mundo que se modifica como uma miragem. Não encontrando nada que dure, atormentada, arrastada como uma folha ao vento, ela duvida de si mesma e de um mundo divino que apenas se revela por sua dor e sua incapacidade para atingi-lo. A ignorância humana está escrita nas contradições dos pretensos sábios, e a tristeza humana, na sede insondável do olhar humano. Enfim, qualquer que seja a extensão de seus conhecimentos, o nascimento e a morte encerram o homem entre dois limites fatais. São duas portas de trevas, além das quais ele nada vê. A chama de sua vida se acende ao entrar por uma, e se extingue ao sair por outra. Dar-se-ia o mesmo com a alma? Se não, o que lhe acontecerá? A resposta que os filósofos já deram a esse problema pungente tem sido muito diversa. A dos teosofistas iniciados de todos os tempos é essencialmente a mesma. Está de acordo com o sentimento universal e com o espírito íntimo das religiões, que exprimiram a verdade apenas em forma de símbolos ou superstições. A doutrina esotérica abre perspectivas bem mais vastas e suas afirmações relacionam-se com as leis da evolução universal. Eis o que os iniciados, instruídos pela tradição e por inúmeras experiências da vida psíquica, têm dito ao homem: o que se agita em ti, o que chamas tua alma, é um duplo etéreo do corpo, que encerra em si mesmo um espírito imortal. O espírito constrói e tece para si, por sua própria atividade, seu corpo espiritual. Pitágoras denomina-o o carro sutil da alma, porque ele está destinado a transportá-lo da terra após a morte. Este corpo espiritual é o órgão do espírito, seu invólucro sensitivo, seu instrumento volitivo, e serve para animar o corpo, que sem ele permaneceria inerte. Nas aparições dos moribundos ou mortos, esse duplo torna-se visível. Mas isto supõe sempre, no vidente, um estado nervoso especial. A sutileza, a potência, a perfeição do corpo

espiritual variam segundo a qualidade do espírito que ele encerra. E existe entre as substâncias das almas, tecidas na luz astral mas impregnadas dos fluidos imponderáveis da terra e do céu, nuances mais numerosas, diferenças maiores do que entre todos os corpos terrestres e todos os estados da matéria ponderável. Esse corpo astral, embora muito mais sutil e mais perfeito que o corpo terrestre, não é imortal. como a Mônada que ele contém. Muda, apura-se, de acordo com os meios que atravessa. O espírito molda-o, transforma-o perpetuamente à sua imagem, mas jamais o abandona. Se dele se despoja pouco a pouco, é para se revestir de substâncias mais etéreas. Isto ensinava Pitágoras, que não concebia a entidade espiritual abstrata, a mônada sem forma. O espírito em ato, tanto no fundo dos céus como na terra, deve ter um órgão. Esse órgão é a alma viva, bestial ou sublime, obscura ou radiosa, mas com a forma humana, a imagem de Deus. O que acontece quando sobrevém a morte? No limiar da agonia, a alma geralmente pressente sua separação do corpo. Revê toda sua existência terrestre em quadros resumidos, em rápida sucessão e com assustadora nitidez. Mas quando a vida se esgota e cessa no cérebro, ela se perturba e perde totalmente a consciência. Se é uma alma santa e pura, seus sentidos espirituais já estão despertados pelo desligamento gradual da matéria. Antes de morrer, de alguma maneira, talvez pela introspecção de seu próprio estado, ela já teve o pressentimento da presença de outro mundo. Perante as solicitações silenciosas, os apelos longínquos, os vagos raios do Invisível, a terra já Perdeu sua consistência. E quando a alma escapa, enfim, do cadáver frio, feliz por sua libertação, sente arrebatar-se em meio a uma intensa luz, para a família espiritual à qual pertence. Mas o mesmo não acontece com o homem comum, cuja vida se dividiu entre os instintos materiais e as aspirações superiores. Ele desperta semiconsciente, como no torpor de um pesadelo. Não tem mais braços para apertar, nem voz para gritar, mas recorda, sofre, existe em um limbo de trevas e de pavor. A única coisa que percebe é a presença de seu cadáver, do qual está desligado, mas pelo qual ainda experimenta

uma invencível atração, pois, é por seu intermédio que vivia. E agora, o que é ele? Procura-se com pavor nas fibras geladas de seu cérebro, no sangue congelado de suas veias, e não se encontra mais. Está morto? Está vivo? Queria ver, queria agarrar-se a alguma coisa. Mas não vê, não toca em nada. As trevas o envolvem. Ao redor dele, nele, tudo é caos. Vê apenas uma coisa, e esta coisa o atrai e causa-lhe horror... a fosforescência sinistra de seu próprio despojo... E o pesadelo recomeça. Este estado pode prolongar-se por meses, anos. Sua duração depende da força dos instintos materiais da alma. Porém, boa ou má, infernal ou celeste, essa alma pouco a pouco tomará consciência de si mesma e de seu novo estado. Uma vez livre do corpo, ela se evadirá nos sorvedouros da atmosfera terrestre, cujas correntes elétricas transportam-na de um lado para outro, onde ela começa a perceber os errantes multiformes, mais ou menos semelhantes e ela mesma, como se fossem clarões fugazes em uma bruma espessa. Começa então uma luta vertiginosa, enfurecida, da alma ainda entorpecida, para subir às camadas superiores do ar, para livrar-se da atração terrestre e alcançar no céu de nosso sistema planetário a região que lhe é própria e que somente guias amigos podem mostrar-lhe. Mas até que possa ouvi-los e vê-los decorre um longo tempo. Esta fase da vida da alma tem recebido nomes diversos nas religiões e nas mitologias. Moisés denomina-a Horeb; Orfeu, Erebo; o cristianismo, Purgatório ou o vale da sombra da morte. Os iniciados gregos identificavam-na com o cone de sombra que a terra arrasta sempre atrás de si e que vai até a lua, denominando-a, por esta razão, o Nesse poço tenebroso turbilhonam, abismo de Hécate. segundo os órficos e os pitagóricos, as almas que procuram, por meio de esforços desesperados, alcançar o círculo da lua, e que a violência dos ventos torna a lançar aos milhares para a Terra. Homero e Virgílio comparam-nas a turbilhões de folhas, a bandos de pássaros enlouquecidos pela tempestade. A lua desempenhava um grade papel no esoterismo antigo. Em sua face voltada para o céu, supunha-se que as almas purificavam seu corpo astral antes de continuarem sua ascensão celeste. Supunha-se também que os heróis e os gênios permaneciam algum tempo em sua

face voltada para a terra, a fim de se revestirem de um corpo apropriado ao nosso mundo antes de se reencarnarem. Também se atribuía à Lua o poder de magnetizar a alma para a encarnação terrestre e de desmagnetizá-la para o céu. De maneira geral, estas asserções, às quais os iniciados atribuíam um sentido ao mesmo tempo real e simbólico, significavam que a alma deve passar por um estado intermediário de purificação e se desembaraçar das impurezas da terra antes de prosseguir sua viagem. Porém, como descrever a chegada da alma pura em seu mundo? A Terra desapareceu como um sonho. Um sono novo, um desvanecimento delicioso envolve a alma, como uma carícia. Ela nada mais vê a não ser o seu guia alado, que a leva com a rapidez de um relâmpago pelas profundezas do espaço. O que dizer de seu despertar nos vales de um astro etéreo, sem a elementar atmosfera, onde tudo, montanhas, flores, vegetação, se constitui de uma natureza deliciosa, sensível e eloqüente? O que dizer sobretudo das formas luminosas, homens e mulheres, que a cercam como uma procissão sagrada, para iniciá-la no santo mistério de sua nova vida? São deuses ou deusas? Não, são almas como ela mesma. E a maravilha está em que o pensamento íntimo delas desabrocha-lhes na face; que a ternura, o amor, o desejo ou o temor brilham através daqueles corpos diáfanos numa gama de colorações luminosas. Ali, corpos e faces não são mais as máscaras da alma, mas a alma transparente aparece em sua forma verdadeira e brilha no dia claro de sua verdade pura. Psiquê reencontrou sua pátria divina; pois a luz secreta onde ela se banha, que dela emana e que volta para ela no sorriso dos bem-amados e das bem-amadas, aquela luz de felicidade é a alma do mundo... ela sente ali a presença de Deus! Agora não haverá mais obstáculos. Ela amará, saberá, viverá, sem qualquer outro limite que não seja seu próprio impulso. Que felicidade estranha e maravilhosa! Sente-se unida a todas as suas companheiras por afinidades profundas. Porque na vida do além aqueles que não se amam se evitam e só aqueles que se compreendem se procuram. Ela celebrará com as outras os divinos mistérios em templos mais belos, numa comunhão mais perfeita. Surgirão poemas vivos sempre renovados,

onde cada alma será uma estrofe e onde cada uma reviverá sua existência na das outras. Depois, fremente, ela se lançará para a luz do alto, atendendo ao apelo dos Enviados, dos Gênios alados, daqueles que se chamam Deuses porque escaparam do círculo das gerações. Conduzida por estas inteligências sublimes, ela se esforçará para soletrar o grande poema do Verbo oculto, para compreender o que puder apreender da sinfonia do universo. Receberá os ensinamentos hierárquicos dos círculos do Amor divino; procurará ver as Essências que derramam nos mundos os Gênios animadores; contemplará os espíritos glorificados, raios vivos do Deus dos Deuses, e não poderá suportar seu esplendor ofuscante, que faz empalidecer os sóis como se fossem lâmpadas enfumaçadas! E quando, espantada, ela voltar dessas viagens resplandecentes – pois estremece diante daquelas imensidões –, ouvirá ao longe o apelo das vozes amadas e recairá nas plagas douradas de seu astro, sob o véu róseo de um sono embalador, pleno de formas brancas, de perfumes e melodia. Assim é a vida celeste da alma que nosso espírito adensado pela Terra mal consegue imaginar, mas que os iniciados adivinham, os videntes vêem e a lei das analogias e das concordâncias universais demonstra. Nossas imagens grosseiras, nossa linguagem imperfeita tentam em vão traduzi-la, mas cada alma viva sente-lhe o germe em suas profundezas ocultas. Se, no estado atual, nos é impossível realizála, a filosofia do oculto formula suas condições psíquicas. A idéia de astros etéreos, invisíveis para nós, mas constitutivos de nosso sistema solar e que servem de morada às almas felizes, encontra-se freqüentemente nos arcanos da tradição esotérica. Pitágoras denomina-a uma contrapartida da Terra: a antichtone iluminada pelo Fogo central, isto é, pela luz divina. No final do Platão descreve longamente, Fédon, embora de forma disfarçada, essa terra espiritual. Diz que ela é leve como o ar e cercada por uma atmosfera etérea. Na outra vida, a alma conserva, portanto, toda sua individualidade. De sua existência terrestre, ela só guarda lembranças nobres e deixa as outras caírem no esquecimento que os poetas chamaram as ondas do Lethê. Liberta de suas nódoas a alma humana

sente sua consciência retornar. De fora do Universo ela voltou para seu interior. Cibele-Maia, a alma do mundo, retomou-a em seu seio com uma aspiração profunda. Ali Psiquê realizará seu sonho, aquele sonho interrompido a todo o instante e recomeçado sem cessar na Terra. Ela o realizará na medida de seu esforço terrestre e de sua luz conquistada, mas amplia-lo-á ao cêntuplo. As esperanças esmagadas reflorescerão na aurora de sua vida divina. Os sombrios poentes da Terra se abrasarão em radiosos clarões. Sim, que o homem só tenha vivido uma hora de entusiasmo ou de abnegação, esta única nota pura, arrancada à gama dissonante de sua vida terrestre, se repetirá em seu além em progressões maravilhosas, em harmonias eolianas. As felicidades fugidias que obtemos dos encantamentos da música, dos êxtases do amor ou dos transportes da caridade são apenas as notas debulhadas de uma sinfonia que ouviremos então. Será que esta vida é apenas um longo sonho, uma grandiosa alucinação? Porém o que há de mais verdadeiro do que aquilo que a alma sente em si mesma e que ela realiza mediante sua comunhão divina com outras almas? Os iniciados, que são idealistas conseqüentes e transcendentes, sempre pensaram que as únicas coisas reais e duráveis da Terra são as manifestações da Beleza, do Amor e da Verdade espirituais. Como o Além não pode ter outro objeto que não seja essa Verdade, essa Beleza e esse Amor, para aqueles que deles fizeram o objeto de sua vida, eles estão persuadidos de que o céu será mais verdadeiro do que a Terra. A vida celeste da alma pode durar centenas ou milhares de anos, de acordo com sua posição e sua força impulsora. Mas cabe apenas às mais perfeitas, às mais sublimes, àquelas que atravessaram o círculo das gerações, prolongá-la indefinidamente. Estas não somente atingiram o repouso temporário, mas a ação imortal na verdade. Criaram suas próprias asas. São invioláveis, porque são a luz. Governam os mundos, porque vêem através deles. Quanto às outras, são levadas, por uma lei inflexível, a se reencarnarem para se submeterem a uma nova prova elevando-se a um escalão superior ou caindo mais baixo ainda, se falharem.

Como a vida terrestre, a vida espiritual tem seu começo, seu apogeu e sua decadência. Quando esta vida se esgota, a alma sente-se dominada por lentidão, vertigem e melancolia. Uma força invencível a atrai de novo para as lutas e os sofrimentos da Terra. Esse desejo é um misto de apreensões terríveis e de imensa dor por deixar a vida divina. Mas chegou a hora. A lei deve ser cumprida. O peso aumenta, a escuridão a invade e só vê suas companheiras luminosas através de um véu, que cada vez mais espesso a faz pressentir a separação iminente. Ouve seus tristes adeuses. As lágrimas das bem-aventuranças que ama penetram-na como um orvalho celeste que deixará em seu coração a sede ardente de uma felicidade desconhecida. Então, com juramentos solenes, ela promete recordar a luz no mundo das trevas, a recordar. . . verdade no mundo da mentira, o amor no mundo do ódio. A volta, a coroa imortal, só existe a este preço! Ela desperta numa atmosfera espessa. Astro etéreo, almas diáfanas, oceanos de luz, tudo desapareceu. Ei-la de volta à Terra, no abismo do nascimento e da morte. Entretanto ela ainda não perdeu a lembrança celeste, e o guia alado, ainda visível a seus olhos, mostra-lhe a mulher que será sua mãe. Esta traz dentro de si o germe de uma criança. E este germe só viverá se um espírito vier animá-lo. Então, durante nove meses, realiza-se o mistério mais impenetrável da vida terrestre: a encarnação e a maternidade. A fusão misteriosa opera-se lentamente, sabiamente, órgão por órgão, fibra por fibra. À medida que a alma mergulha nesse antro quente embebido de vapor e pululante, à medida que se sente presa nos meandros das vísceras de mil pregas, a consciência de sua vida divina apaga-se e extingue-se; pois entre ela e a luz do alto interpõem-se as ondas do sangue, os tecidos da carne que a estreitam e envolvem em trevas. Aquela luz longínqua já não é mais do que um clarão agonizante. Afinal, uma dor horrível comprime-a, aperta-a num torno. Uma convulsão sangrenta arranca-a à alma materna e fixa-a num corpo palpitante. A criança nasceu, miserável efígie terrestre, e grita de pavor. Mas a lembrança celeste penetrou nas profundezas ocultas do

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