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Capítulo 21 de 74
Hermes
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
A raça negra, que sucedeu à raça vermelha do domínio do mundo, fez do Alto Egito seu principal santuário. O nome de Hermes-Tote, misterioso e primeiro iniciador do Egito nas doutrinas sagradas, relaciona-se, sem dúvida, a uma primeira e pacífica mistura da raça branca com a negra, nas regiões da Etiópia e do Alto Egito, muito tempo antes da época ariana. Hermes é um nome genérico, como Manu e Buda. Designa ao mesmo tempo um homem, uma casta e um deus. O homem, Hermes, é o primeiro, o grande iniciador do Egito; casta, é o sacerdócio depositário das tradições ocultas; deus, é o planeta Mercúrio, assimilado com sua esfera a uma categoria de espíritos, de iniciadores divinos; em resumo, Hermes preside à região supraterrestre da iniciação celestial. Na economia espiritual do mundo, todas essas coisas estão ligadas por secretas afinidades, como que por um fio invisível. O nome de Hermes é um talismã que as sintetiza, um som mágico que as evoca. Daí seu prestígio. Os gregos, discípulos dos egípcios, chamaram-no Hermes Trimegisto ou porque era considerado rei, três vezes grande, legislador e sacerdote. Ele representa uma época em que o sacerdócio, a magistratura e a realeza estavam reunidos em um só corpo governamental. A cronologia egípcia de Maneton denomina esta época de reino dos deuses. Ainda não havia o papiro nem a escrita fonética; mas já existia a ideografia sagrada e a ciência do sacerdócio estava inscrita em hieróglifos nas colunas e nas paredes das criptas. Consideravelmente aumentada, ela passou mais tarde às bibliotecas dos templos. Os egípcios atribuíam a Hermes 42 livros sobre a ciência oculta. O livro grego conhecido sob o nome de Hermes Trimegisto encerra certamente restos alterados, mas infinitamente preciosos, da antiga teogonia que é como o , de onde Moisés e Orfeu fiat lux receberam seus primeiros raios. A doutrina do Fogo-Princípio e do
Verbo-Luz, contida na será o vértice e o centro da Visão de Hermes, iniciação egípcia. Tentaremos dentro em pouco reencontrar esta visão dos mestres, esta rosa mística que só desabrochou na noite do santuário e no arcano das grandes religiões. Algumas palavras de Hermes, impregnadas da antiga sabedoria, são bem elaboradas para nos prepararmos. “Nenhum de nossos pensamentos - disse ele ao discípulo Asclépio - poderia conceber Deus, nem linguagem alguma defini-lo. O que é incorporal, invisível, sem forma, não pode ser apreendido por nossos sentidos; o que é eterno não poderia ser medido pela curta regra do tempo; Deus, portanto, é inefável. Deus pode, é verdade, comunicar a alguns eleitos a faculdade de se elevar acima das coisas naturais, a fim de perceber algum vislumbre de sua suprema perfeição - mas esses eleitos não encontram palavras para traduzir em linguagem vulgar a imaterial visão que os fez estremecer. Podem explicar à humanidade as causas secundárias das criações que passam sob seus olhos como imagens da vida universal, mas a causa primeira permanece velada e só chegaremos a compreende-la atravessando a morte.” É assim que Hermes falava de Deus desconhecido no limiar das criptas. Os discípulos que penetravam com ele em suas profundezas aprendiam a conhece-lo como um ser vivo (1). O livro fala de sua morte como da partida de um deus. “Hermes viu o conjunto das coisas, e, tendo visto, ele compreendeu; e tendo compreendido, ele tinha o poder de manifestar e de revelar. O que ele pensou, ele escreveu; o que ele escreveu ocultou em grande parte, simultaneamente falando e calando-se com sabedoria para que toda a duração do mundo procurasse essas coisas. E assim, tendo ordenado aos deuses, seus irmãos, que lhe servissem de cortejo, ele subiu às estrelas.” Pode-se, a rigor, isolar a história política dos povos, mas não se pode separar sua história religiosa. As religiões da Assíria, do Egito, da Judéia, da Grécia só podem ser compreendidas quando se toma seu ponto de ligação com a antiga religião indo-ariana. Consideradas em particular são enigmas e charadas; vistas em conjunto e do alto, constituem uma soberba evolução, onde tudo se comanda e se explica
reciprocamente. Em resumo, a história de uma religião será sempre estreita, supersticiosa e falsa. Nada existe de verdadeiro, a não ser a história religiosa da humanidade. A esta altura, só se sentem as correntes que dão a volta ao globo. O povo egípcio, o mais independente e o mais fechado de todos às influências exteriores, não pode esquivar-se a esta lei universal. Cinco mil anos antes de nossa era, a luz de Rama, acesa no Irã, brilhou sobre o Egito e tornou-se a lei de Âmon-Rá, o Deus solar de Tebas. Essa constituição permitiu-lhe enfrentar muitas revoluções. Menes foi o primeiro rei justo, o primeiro faraó executor daquela lei. Ele procurou não negar a antiga teologia do Egito, que também era a sua. Apenas confirmou-a e a fez desabrochar; a ela acrescentando uma organização social nova: o sacerdócio, isto é, o ensinamento, a um primeiro conselho; a justiça, a um outro; o governo, aos dois; a realeza foi concebida como sua delegação e submetida ao seu controle; a independência relativa dos nomos ou comunas, na base da sociedade. A isto podemos chamar governo dos iniciados. Seu princípio fundamental era uma síntese das ciências conhecidas sob o nome de Osíris (O-Sir-is), o senhor intelectual. A grande pirâmide e o gnomo matemático são seu símbolo. O faraó, que recebia seu nome iniciático no templo, que exercia a arte sacerdotal e real sobre o trono, era um personagem muito diferente do déspota assírio, cujo poder arbitrário apoiava-se no crime e no sangue. O faraó era o iniciado coroado, ou pelo menos aluno e instrumento dos iniciados. Durante séculos, os faraós defenderão, contra a Ásia que se tornara despótica e contra a Europa anárquica, a lei do Carneiro, que representava então os direitos da justiça e da arbitragem internacional. Por volta do ano 2.000 antes de Cristo, o Egito sofreu a crise mais terrível que um povo pode atravessar: a invasão estrangeira e uma semiconquista. A invasão fenícia era a conseqüência do grande cisma religioso asiático, que sublevara as massas populares, semeando a discórdia nos templos. Liderada pelos reis-pastores chamados hicsos, essa invasão derramou seu dilúvio sobre o Delta e o Médio-Egito. Os reis cismáticos traziam com eles uma civilização corrompida, a
indolência jônia, o luxo asiático, os costumes do harém, uma idolatria grosseira. A existência nacional do Egito estava comprometida, sua intelectualidade em perigo, sua missão universal ameaçada. Mas o Egito tinha uma alma de vida, isto é, um corpo organizado de iniciados, depositários da antiga ciência de Hermes e de Âmon-Rá. O que fizeram eles? Retiraram-se para o fundo de seus santuários, recolheram-se em si mesmos para melhor resistirem ao inimigo. Aparentemente, o sacerdócio se curvou diante da invasão e reconheceu os usurpadores que traziam a lei do Touro e o culto do boi Ápis. Entretanto, ocultos nos templos, os dois conselhos lá guardavam, como um depósito sagrado, sua ciência, suas tradições, a antiga e pura religião e, com ela, a esperança de uma restauração da dinastia nacional. Foi por essa época que os sacerdotes espalharam entre a multidão a lenda de Ísis e de Osíris, do desmembramento deste último e de sua próxima ressurreição através do filho, Hórus, o qual reencontraria seus membros esparsos trazidos pelo Nilo. Excitou-se a imaginação da multidão mediante a pompa das cerimônias públicas. Manteve-se seu amor pela velha religião representando-lhe as infelicidades da deusa, suas lamentações pela perda do esposo celeste e a esperança que tinha no filho, Hórus, o divino mediador. Mas, ao mesmo tempo, os iniciados julgaram necessário tornar a verdade esotérica inatacável, ocultando-se sob um tríplice véu. À difusão do culto popular de Ísis e de Osíris corresponde a organização interior e sábia dos pequenos e grandes Mistérios, cercados de barreiras intransponíveis, de perigos terríveis. Inventaram-se provas morais, exigiu-se o juramento do silêncio e a pena de morte foi rigorosamente aplicada contra os iniciados que divulgassem o mínimo detalhe dos Mistérios. Graças a essa organização severa, a iniciação egípcia tornou-se não somente refúgio da doutrina esotérica, mas ainda cadinho de uma ressurreição nacional e escola das futuras religiões. Enquanto os usurpadores coroados reinavam em Menfis, Tebas preparava lentamente a regeneração do país. De seu templo, de sua arca solar, saiu o salvador do Egito, Amos, que expulsou os hicsos, após nove séculos de domínio, restaurando os direitos da ciência egípcia e da varonil religião de Osíris. Assim os Mistérios
salvaram a alma do Egito da tirania estrangeira, e para o bem da humanidade. Pois, naquela época, era tal a força da sua disciplina, o poder de sua iniciação, que eles continham a melhor força moral e a mais alta seleção intelectual. A iniciação antiga repousava em uma concepção do homem ao mesmo tempo mais sadia e mais elevada do que a nossa. Nós dissociamos a educação do corpo, da alma e do espírito. Nossas ciências físicas e naturais, bastante avançadas em si mesmas, abstraem o princípio da alma e de sua difusão no Universo; nossa religião não satisfaz às necessidades da inteligência; nossa medicina nada quer saber nem da alma nem do espírito. O homem contemporâneo procura o prazer sem a felicidade, a felicidade sem a ciência, e a ciência sem a sabedoria. A antigüidade não admitia semelhante separação. Em todos os domínios, ela levava em conta a tríplice natureza do homem. A iniciação era um treino gradual de todo ser humano rumo aos cumes vertiginosos do espírito, de onde se pode dominar a vida. “Para atingir o domínio – diziam os sábios de então – o homem tem necessidade de uma refundição total de seu ser físico, moral e intelectual. Ora, esta refundição só é possível mediante o exercício simultâneo da vontade, da intuição e do raciocínio. Por meio de sua completa concordância, o homem pode desenvolver suas faculdades até limites incalculáveis. A alma tem sentidos adormecidos; a iniciação os desperta. Através de um estudo aprofundado, uma aplicação constante, o homem pode colocar-se em comunicação consciente com as forças ocultas do Universo. Através de um esforço prodigioso, ele pode atingir a percepção espiritual direta, abrir os caminhos do além e tornar-se capaz de se dirigir para lá. Somente então pode dizer que venceu o destino e conquistou aqui na terra sua liberdade divina. Somente então o iniciado pode tornar-se iniciador, profeta e teurgo, isto é, vidente e criador de almas. Porque somente aquele que comanda a si mesmo pode comandar os outros; somente aquele que é livre pode libertar.” Assim pensavam os iniciados antigos. Os maiores deles viviam e agiam de acordo com esse pensamento. A verdadeira iniciação, portanto, era muito diferente de um sonho vazio e muito mais do que
um simples ensinamento científico; era a criação de uma alma por ela mesma, sua eclosão em um plano superior, sua eflorescência no mundo divino. Coloquemo-nos no tempo dos Ramsés, na época de Moisés e de Orfeu, cerca do ano 1.300 antes de nossa era – e esforcemo-nos para penetrar no coração da iniciação egípcia. Os monumentos figurados, os livros de Hermes, a tradição judaica e a grega (2) permitem fazer reviver as fases ascendentes e fazer uma idéia de sua mais alta revelação.
(1). A teologia sábia, esotérica, diz M. Maspero, é monoteísta desde os tempos do Antigo Império. A afirmação da unidade fundamental do ser divino se expressa em termos formais e com grande energia nos textos que remontam àquela época. Deus é uno, único, aquele que existe pela essência, o que vive só em substância, o único gerador no céu e sobre a terra, que não foi gerado. Ao mesmo tempo Pai, Mãe e Filho, ele gera, ele procria e é, perpetuamente; e estas três pessoas, longe de dividir a unidade da natureza divina, concorrem para sua infinita perfeição. Seus atributos são a imensidade, a eternidade, a independência, a vontade todo-poderosa, a bondade sem limite. “Ele criou seus próprios membros, que são os Deuses”, dizem os velhos textos. Cada um desses deuses secundários, considerados idênticos ao Deus Único, pode formar um tipo novo, de onde emanam por sua vez, e pelo mesmo processo, outros tipos inferiores. - Histoire ancienne des peuples de I'Orient.
περι Μνστηριωνλογο (2). ’IAMBAIXOV, s.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.