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Capítulo 70 de 74

Os Essênios. João Batista. A Tentação — parte 5 de 8

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

divina, repetia implacavelmente: O caminho da vitória passa pela porta da agonia! Afinal, era-lhe necessário obedecer a esta última? Em todos os grandes momentos de sua vida, vimos Jesus refugiarse na montanha para orar. Não dissera o sábio veda: “A oração sustenta o céu e a terra e domina os deuses”? Jesus conhecia esta força das forças. Habitualmente, não admitia nenhuma companhia naqueles retiros, em que descia no arcano de sua consciência. Dessa vez, porém, levou Pedro e os dois filhos de Zebedeu, João e Tiago, para uma alta montanha, a fim de lá passar a noite. A lenda quer que tenha sido o monte Tabor. Foi ali que teve lugar, entre o Mestre e os três discípulos mais iniciados, aquela cena misteriosa que os Evangelhos narram sob o nome de Transfiguração. Segundo Mateus, os apóstolos viram na penumbra transparente de uma noite do Oriente a forma do Mestre fazer-se luminosa e como que diáfana. Viram sua face resplandecer como o sol e suas vestes tornaremse brilhantes como a luz. Depois duas figuras surgiram ao seu lado, as quais tomaram por Moisés e Elias. Quando saíam trêmulos de sua estranha prostração, que lhes parecia ao mesmo tempo um sono mais profundo e uma vigília mais intensa, viram o mestre sozinho ao seu lado, tocando-os para despertá-los completamente. E o Cristo transfigurado, que eles tinham contemplado naquele sonho, jamais apagou-se em sua memória. (3) Mas o próprio Jesus, o que havia visto ele, o que havia ele sentido e atravessado durante aquela noite que precedeu o ato decisivo de sua missão profética? Um enfraquecimento gradual das coisas terrestres sob o fogo da oração; uma ascensão de esfera em esfera sobre as asas do êxtase. Pouco a pouco pareceu-lhe que reentrava, por sua consciência profunda, em uma existência anterior, toda espiritual e divina. Distante dele, os sóis, os mundos, as terras, turbilhões das encarnações dolorosas. Mas, em uma atmosfera homogênea, uma substância fluida, uma luz inteligente. Nessa luz, legiões de seres celestes formam uma abóbada móvel, um firmamento de corpos etéreos, brancos como a neve, de onde jorram doces fulgurações. Sobre a nuvem brilhante em que ele mesmo está de pé, seis homens, com vestimentas sacerdotais e

de poderosa estatura, erguem, com as mãos unidas, um Cálice resplandecente. São os seis Messias que já apareceram sobre a terra. O sétimo é ele. E aquele Cálice significa o Sacrifício que ele deve suportar, encarnando-se por sua vez. Sob a nuvem estruge o trovão. Um negro abismo se abre: o círculo das gerações, a voragem da vida e da morte, o inferno terrestre. Os filhos de Deus, com um gesto suplicante, erguem o Cálice. O céu, imóvel, espera. Jesus, em sinal de consentimento, estende os braços em forma de cruz, como se quisesse abraçar o mundo. Então os filhos de Deus se prosternam, a face contra a terra. Um grupo de anjos femininos, de longas asas e de olhos baixos, leva o Cálice incandescente para a cúpula de luz. O retumbou pelos céus, melodioso, inefável... Hosana Mas, Ele, sem mesmo escutá-lo, mergulha no abismo... Eis o que ocorrera outrora no mundo dos essênios, no seio do Pai, onde se celebram os mistérios do Amor eterno e onde as revoluções dos astros passam leves como ondas. Eis o que ele tinha jurado cumprir. Eis porque nascera e por que havia lutado até aquele dia. E eis que o grande juramento retomava-o no término de sua obra, pela plenitude de sua consciência divina que retornara no êxtase. Juramento formidável, cálice assustador! Era necessário bebê-lo. Após a embriaguez do êxtase, ele despertava no fundo do abismo à beira do martírio. Nenhuma dúvida mais. O tempo tinha chegado. O céu falara. A terra gritava por socorro! Então, voltando atrás, por lentas etapas, Jesus desceu o vale do Jordão e tomou o caminho de Jerusalém.

(1). Mateus, XVI, 13-16.

(2). Mateus, XVI, 21-28.

(3). Mateus, XVII, 1-3.

VI

ÚLTIMA VIAGEM A JERUSALÉM. A PROMESSA. A CEIA. O PROCESSO. A MORTE E A RESSURREIÇÃO

“Hosana ao filho de Davi!” Esse grito repercutia sobre os passos de Jesus à sua entrada pela porta oriental de Jerusalém; ramos de palmeira estendiam-se sob seus pés. Aqueles que o acolhiam com tanto entusiasmo eram os adeptos do profeta galileu, que acorreram das regiões vizinhas e do interior da cidade para aquela ovação. Eles saudavam o libertador de Israel, que logo seria coroado rei. Os doze apóstolos que o acompanhavam partilhavam ainda dessa ilusão obstinada, apesar das predições formais de Jesus. Somente ele, o Messias aclamado, sabia que marchava para o suplício e que os seus só penetrariam no santuário de seu pensamento depois de sua morte. Ele se oferecia resolutamente, com plena consciência e plena vontade. Daí sua resignação, sua doce serenidade. Enquanto passava sob o pórtico colossal, aberto na sombria fortaleza de Jerusalém, o clamor ecoava sob a abóbada e o perseguia como a voz do Destino que agarrou sua presa: “Hosana ao filho de Davi!” Com aquela entrada solene, Jesus declarava publicamente às autoridades religiosas de Jerusalém que assumia o papel do Messias, com todas as suas conseqüências. No dia seguinte, apareceu no templo, no pátio dos gentios e, avançando para os mercadores de animais e os cambistas que com suas fisionomias de usurários e com o tinido ensurdecedor das moedas profanavam o adro do santo lugar, proferiu aquela frase de Isaías: “Está escrito: minha casa é uma casa de oração, e vós fazeis dela um covil de ladrões”. Os mercadores fugiram, levando suas mesas e suas bolsas de dinheiro, intimidados pelos partidários do profeta que o cercavam como uma muralha sólida, mais ainda por seu olhar flamejante e seu gesto imperioso. Os sacerdotes, estupefatos, admiraram-se daquela audácia e ficaram assustados com tanto poder. Uma delegação do Sinédrio veio

perguntar-lhe a razão daquilo, com estas palavras: “Com que autoridade fazes estas coisas?” A esta pergunta capciosa, Jesus, segundo seu hábito, respondeu com outra pergunta não menos embaraçosa para seus adversários: “O batismo de João, de onde vinha? Do céu ou dos homens?” Se os fariseus respondessem “vem do céu”, Jesus lhes diria: Então, por que não acreditastes nele? E se eles dissessem “vem dos homens”, eles teriam de temer o povo, que considerava João Batista um profeta. Então responderam “Nada sabemos sobre isso”. Jesus então declarou: “Eu também não vos direi com que autoridade faço estas coisas”. Mas, tendo aparado o golpe, ele tomou a ofensiva e acrescentou: “Em verdade vos digo que os humildes e as mulheres de má vida alcançarão o reino de Deus antes de vós”. Depois ele os comparou, em uma parábola, ao mau vinhateiro que matou o filho do Senhor para herdar a vinha, e chamou a si mesmo “a pedra angular que os esmagaria”. Por estes atos, por estas palavras, vê-se que, em sua última viagem à capital de Israel, Jesus quis cortar totalmente suas possibilidades de fuga. Há muito tempo tinham, de sua própria boca, os dois grandes argumentos de acusação necessários para perdê-lo: suas ameaças contra o templo e a afirmação de que era o Messias. Aqueles últimos ataques acabaram de exasperar seus inimigos. A partir de então sua morte, decidida já pelas autoridades, foi só uma questão de tempo. Desde sua chegada, os membros mais influentes do Sinédrio, saduceus e fariseus, reconciliados no ódio contra Jesus, tinham-se entendido para matar “o sedutor do povo”. Hesitavam somente em detê-lo publicamente, porque temiam um levante popular. Várias vezes já, soldados enviados contra ele voltavam, ou seduzidos por sua palavra ou assustados com a multidão que o cercava. Várias vezes os soldados do templo tinham-no visto desaparecer no meio deles de forma incompreensível. Foi assim que o imperador Domiciano, fascinado, sugestionado e como que cego pelo mago que queria condenar, viu desaparecer Apolônio de Tiana, diante do tribunal e rodeado de guardas!

A luta entre Jesus e os sacerdotes continuava assim, dia após dia, com um ódio crescente da parte deles; e de sua, com um vigor, uma impetuosidade, um entusiasmo exaltados pela certeza do resultado fatal. Foi o último ataque de Jesus contra os poderes constituídos. Nele empregou uma extrema energia e toda a força masculina que revestia, como uma armadura, a ternura sublime que se pode chamar de o Eterno- Feminino de sua alma. Esse combate formidável terminou com as terríveis maldições contra os falsificadores da religião: “Desgraçados de vós, escribas e fariseus, que fechais o reino dos céus àqueles que nele querem entrar!” “Insensatos e cegos, que pagais o dízimo e negligenciais a justiça, a misericórdia e a fidelidade!” “Vós vos assemelhais a sepulcros caiados, que parecem belos por fora, mas dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda espécie de podridão!” Após ter assim estigmatizado, por todos os séculos, a hipocrisia religiosa e a falsa autoridade sacerdotal, Jesus considerou sua luta terminada. Saiu de Jerusalém acompanhado de seus discípulos, e tomou o caminho do Monte das Oliveiras. Lá em cima contemplava do alto o templo de Herodes em toda a sua majestade, com seus terraços, seus vastos pórticos, seu revestimento de mármore branco incrustado de jaspe e de pórfiro, o brilho de seu teto chapeado de ouro e prata. Os discípulos, desanimados, pressentiam uma catástrofe e chamaram-lhe a atenção para o esplendor do edifício que o Mestre abandonava para sempre. Havia no tom de sua voz um misto de melancolia e desgosto, porque tinham esperado até o derradeiro momento lá sentarem-se como juizes de Israel, em torno do Messias coroado pontífice-rei. Jesus voltou-se, contemplou longamente o templo e disse: “Estais vendo tudo isto? Não restará pedra sobre pedra!” (1) Ele julgava a duração do templo de Jeová pelo valor moral daqueles que o dominavam. Compreendia que o fanatismo, a intolerância e o ódio não eram armas suficientes contra os aríetes e os machados do César romano. Com seu olhar de iniciado, tornado mais penetrante por aquela clarividência que dá a aproximação da morte, via o orgulho judaico, a política dos reis, toda a história dos judeus terminar fatalmente nesta catástrofe. O triunfo não estava lá; estava no

pensamento dos profetas, naquela religião universal, naquele tempo invisível do qual somente ele tinha plena consciência naquele momento. Quanto à antiga cidadela de Sião e ao templo de pedra, ele via já o anjo da destruição de pé às suas portas, empunhando uma tocha. Jesus sabia que sua hora estava próxima. Mas não queria deixar-se surpreender pelo Sinédrio; retirou-se para Betânia. Como tinha predileção pelo Monte das Oliveiras, ali vinha quase todos os dias conversar com seus discípulos. Daquela altura gozava-se de uma vista admirável. Vislumbram-se as severas montanhas da Judéia e de Moab, de coloridos violáceos e azulados. Percebe-se ao longe uma ponta do Mar Morto, como um espelho de chumbo de onde evolam vapores sulfurosos. Ao pé do monte estende-se Jerusalém, que o templo e a cidadela de Sião dominam. Ainda hoje, quando o crepúsculo desce nas gargantas fúnebres de Hinom e de Josafá, a cidade de Davi e do Cristo, protegida pelos filhos de Ismael, surge imponente desses sombrios vales. Suas cúpulas, seus minaretes refletem a luz agonizante do céu e parecem sempre esperar os anjos do julgamento. Foi ali que Jesus transmitiu a seus discípulos as últimas instruções sobre o futuro da religião que tinha vindo fundar e sobre os destinos futuros da humanidade, legando-lhes assim sua promessa terrestre e divina, profundamente ligada a seu ensinamento esotérico. É claro que os redatores dos nos Evangelhos sinóticos transmitiram os discursos apocalípticos de Jesus numa confusão que os torna quase indecifráveis. Seu sentido só começa a tornar-se inteligível no evangelho de João. Se Jesus havia realmente acreditado em sua volta sobre as nuvens, alguns anos após sua morte, como o admite a exegese naturalista; ou ainda, se imaginou que o fim do mundo e o último julgamento dos homens teriam lugar daquela forma, como o crê a teologia ortodoxa, então não passaria de um iluminado quimérico, um visionário bastante medíocre, ao invés do sábio iniciado, do Vidente sublime que evidencia cada palavra de seu ensinamento, cada passo de sua vida. Evidentemente, aqui mais do que nunca, suas palavras devem ser entendidas no sentido alegórico, segundo o simbolismo transcendente

dos profetas. Dos quatro Evangelhos, o que melhor nos transmitiu o ensinamento esotérico do Mestre, o de João, impõe-nos, ele próprio, aquela interpretação tão conforme ao gênio parabólico de Jesus, quando nos relembra aquelas palavras do Mestre: “Eu teria ainda muitas coisas a dizer-vos, mas elas estão acima de vosso alcance... Eu vos tenho dito estas coisas por analogias; mas virá o tempo em que não lhes falarei mais por analogias, mas falarei abertamente a vós, de meu Pai.” A promessa solene de Jesus aos apóstolos visa quatro objetivos, quatro esferas crescentes da vida planetária e cósmica: a vida psíquica individual; a vida nacional de Israel; toda a evolução humana. Retomemos um a um esses quatro objetivos da promessa, essas quatro esferas onde brilha o pensamento de Cristo antes de seu martírio, como um sol poente que enche com sua glória toda a atmosfera terrestre até o zênite, antes de luzir em outros mundos. 1. O primeiro juízo significa o destino ulterior da alma depois da morte. Ele está determinado por sua natureza íntima e pelos atos de sua vida. Expus anteriormente essa doutrina, a propósito da conversa de Jesus com Nicodemos. No monte das Oliveiras, ele disse, a propósito, aos seus apóstolos: “Cuidai de vós mesmos, para que vossos corações não sejam oprimidos pela gula e que esse dia não vos surpreenda” (2). E ainda: “Estai preparados, porque o filho do Homem virá numa hora que não pensais” (3). 2. A destruição do templo e o fim de Israel. “Uma nação se erguerá contra outra. . . Sereis entregues aos governadores para serdes atormentados ... Em verdade vos digo que esta geração não passará sem que estas coisas aconteçam.” (4). 3. que não está fixado para uma O fim terrestre da humanidade, época determinada, mas que deve ser atingido através de uma série de acontecimentos escalonados e sucessivos. Esse fim é o advento do Cristo social, ou do homem divino sobre a terra. É a implantação da Verdade, da Justiça e do Amor na sociedade humana e, por conseguinte, a pacificação dos povos. Isaías já previra essa época longínqua numa visão magnífica, que começa com estas palavras: “Quanto a mim, vendo suas obras e seus pensamentos, eu venho para reunir todas as nações e

todas as línguas. Elas virão e verão a minha glória e eu imprimirei nelas o meu sinal. . . (5). Jesus, completando esta profecia, explica aos discípulos qual será esse sinal: será a revelação completa dos mistérios ou o advento do Espírito Santo, que ele denomina também o Consolador ou “o Espírito de Verdade que vos conduzirá a toda a verdade”. “Eu pedirei a meu Pai e ele vos enviará um outro Consolador, a fim de que ele fique eternamente convosco, o Espírito de Verdade que o mundo não pode receber porque não o vê; mas vós o conheceis, porque ele está convosco e estará sempre em vós.” (6). Os apóstolos terão esta revelação antecipadamente; a humanidade a terá mais tarde, na seqüência dos tempos. Mas, cada vez que ela ocorre em uma consciência ou um grupo humano, ela os atravessa de lado a lado e até o fundo. “A vinda do filho do Homem será como um relâmpago que sai do Oriente e vai até o Ocidente.” (7). Assim, quando se acender a verdade central e espiritual, ela iluminará todas as outras e todos os mundos. 4. O juízo final significa o fim da evolução cósmica da humanidade ou sua entrada em um estado espiritual definitivo. É o que o esoterismo persa denomina a vitória de Ormuz sobre Arimã ou do Espírito sobre a matéria. O esoterismo hindu chamou-o de reabsorção completa da matéria pelo Espírito ou de o fim de um dia de Brama. Depois de milhares e milhões de séculos, virá uma época em que, através da série de nascimentos e renascimentos, de encarnações e regenerações, os indivíduos que compõem a humanidade terão definitivamente entrado no estado espiritual; ou então serão aniquilados, como almas conscientes, pelo mal, isto é, por suas próprias paixões, que são simbolizadas pelo fogo da geena e pelo ranger de dentes. “Então o sinal do Filho do Homem aparecerá no céu. O Filho do Homem virá sobre uma nuvem. Ele enviará seus anjos com um grande som de trombetas e reunirá seus eleitos dos quatro cantos da terra.” (8) O filho termo genérico, significa aqui a humanidade em seus do Homem, representantes perfeitos, ou seja, o pequeno número daqueles que se elevaram até a posição de filhos de Deus. Seu é o Cordeiro e a signo Cruz, isto é, o Amor e a Vida eterna. A é a imagem dos Nuvem

Mistérios que se tornaram translúcidos, assim como da matéria sutil transfigurada pelo espírito, da substância fluídica que não é mais um véu espesso e obscuro, mas um vestuário leve e transparente da alma; não mais um obstáculo grosseiro, mas a expressão da verdade; não mais uma aparência enganosa, mas a própria verdade espiritual, o mundo interior manifestado, instantânea e diretamente. Os que reúnem os Anjos eleitos são os espíritos glorificados, saídos, eles mesmos, da humanidade. A que eles fazem ressoar simboliza o verbo vivo Trombeta do Espírito, que mostra as almas como são e destrói todas as aparências mentirosas da matéria. Jesus, sentindo-se às vésperas da morte, abriu e revelou assim, diante dos apóstolos pasmados, as altas perspectivas que, desde os tempos antigos, tinham feito parte da doutrina dos mistérios, mas às quais cada fundador religioso sempre conferiu uma forma e uma cor pessoais. Para gravar essas verdades em seu espírito, para facilitar a sua propagação, ele as resumiu naquelas imagens de extrema ousadia e de incisiva energia. A imagem reveladora, o símbolo falante era a linguagem universal dos iniciados antigos. Possui uma virtude comunicativa, uma força de concentração e de permanência que falta ao termo abstrato. Assim, servindo-se dos símbolos, Jesus só fez seguir o exemplo de Moisés e dos profetas. Ele sabia que a Idéia não seria compreendida imediatamente, mas queria imprimi-la em letras flamejantes na alma ingênua dos seus, deixando aos séculos a tarefa de gerar as forças contidas em sua palavra. Jesus sente-se com todos os profetas da terra que o um precederam, a ele, o porta-voz da Vida e do Verbo eterno. Nesse sentimento de unidade e de solidariedade com a verdade imutável, diante dos horizontes ilimitados, de uma irradiação sideral, que só se percebem do zênite das Causas primeiras, ele ousou dizer aos discípulos aflitos estas palavras altivas: “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão!” Assim transcorriam as manhãs e as tardes sobre o monte das Oliveiras. Um dia, por um daqueles movimentos de simpatia próprios à sua natureza ardente e impressionável, que o faziam voltar bruscamente

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