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Capítulo 43 de 74
Iii — parte 1 de 3
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
O TEMPLO DE DELFOS. A CIÊNCIA APOLÍNEA. A TEORIA DA ADIVINHAÇÃO. A PITONISA TEOCLÉIA
Da planície da Fócida, subia-se por campinas agradáveis que seguem as margens do Plítios, e entrava-se num vale tortuoso, entre altas montanhas. A cada passo ele se tornava mais estreito, a paisagem mais grandiosa e mais desolada. Atingia-se, enfim, um círculo de montanhas abruptas, coroadas de picos selvagens, verdadeiro funil de eletricidade, castigado por freqüentes tempestades. Bruscamente, no fundo da garganta sombria, aparecia a cidade de Delfos, como um ninho de águia, sobre seu rochedo cercado de precipícios e dominado pelos dois cumes do Parnaso. Ao longe viam-se cintilar as Vitórias de bronze, os cavalos também de bronze e as inúmeras estátuas de ouro dispostas em fila na via sagrada, como uma guarda de heróis e Deuses ao redor do templo dórico de Fobos Apolo. Era o local mais santo da Grécia. Lá profetizava a Pítia. Lá se reuniam os Anfictiões. Lá todos os povos helênicos haviam erguido, em torno do santuário, capelas que encerravam tesouros de oferendas. Lá, procissões de homens, mulheres e crianças vindas de longe subiam a via sacra, para saudar o Deus da Luz. A religião havia consagrado Delfos, desde tempos imemoriais, à veneração dos povos. Sua localização central na Hélade, seu rochedo, ao abrigo dos ataques e de fácil defesa, contribuíram para isto. O Deus estava lá para tocar a imaginação; uma singularidade lhe deu seu prestígio. Em uma caverna, atrás do templo, abria-se uma fenda, de onde saíam vapores frios que provocavam, segundo se dizia, a inspiração e o êxtase. Plutarco narra que em tempos muito remotos um sacerdote, estando sentado à beira daquela fenda, pôs-se a profetizar. No início julgavam-no louco. Mas à medida que suas profecias se foram realizando, deram atenção ao fato. Os sacerdotes se apoderaram dele e consagraram o local à divindade. Daí a instituição da Pítia, que se sentava sobre a fenda, sobre um tripé. Os vapores que saíam do abismo provocavam-lhe convulsões, crises
estranhas e aquela que se observa nos sonâmbulos segunda visão notáveis. Ésquilo – cujas afirmações têm peso, pois era filho de um sacerdote de Elêusis e ele mesmo um iniciado – nos ensina nas Eumênidas, pela boca da Pítia, que Delfos tinha sido consagrado primeiro à Terra, em seguida a Têmis (A Justiça), depois a Febe (a lua mediadora) e, finalmente, a Apolo, o Deus solar. Cada um destes nomes representa, no simbolismo dos templos, longos períodos e abrange séculos. Mas a celebridade de Delfos data de Apolo. Júpiter, diziam os poetas, tendo desejado conhecer o centro da Terra, soltou duas águias, uma do levante e outra do poente. Elas se encontraram em Delfos. De onde vem este prestígio, esta autoridade universal e inconteste, que fez de Apolo o Deus grego por excelência e faz com que tenha conservado, até para nós, um brilho inexplicável? A história não nos diz nada sobre este ponto tão importante. Interrogando-se os oradores, os poetas, os filósofos, eles apenas darão explicações superficiais. A verdadeira resposta a esta questão permanece segredo do templo. Procuremos penetrá-lo. No pensamento órfico, Dionísio e Apolo eram duas revelações diversas da mesma divindade. Dionísio representava a verdade esotérica, o fundo e o interior das coisas, aberto somente aos iniciados. Ele continha os mistérios da vida, as existências passadas e futuras, as relações da alma e do corpo, do Céu e da Terra. Apolo personificava a mesma verdade, aplicada à vida terrestre e à ordem social. Inspirador da poesia, da medicina e das leis, era a ciência através da adivinhação, a beleza através da arte, a paz dos povos através da justiça, e a harmonia da alma e do corpo através da purificação. Numa palavra, para o iniciado, Dionísio significava nada menos do que o espírito divino em evolução no Universo; e Apolo, sua manifestação ao homem terrestre. Os sacerdotes tinham feito com que o povo compreendesse isto por meio de uma lenda. Contavam-lhe que no tempo de Orfeu, Baco e Apolo tinham disputado o tripé de Delfos. Baco cedera-o de bom grado ao irmão e se retirara para um dos cumes de Parnaso, onde as mulheres tebanas celebravam seus mistérios. Na realidade, os dois grandes filhos
de Júpiter dividiram entre si o império do mundo. Um reinava sobre o misterioso além; o outro reinava sobre os seres vivos. Encontramos em Apolo o Verbo solar, a Palavra universal, o grande Mediador, o Visnu dos hindus, o Mitras dos persas, o Hórus dos egípcios. Mas as velhas idéias do esoterismo asiático se revestiram, na lenda de Apolo, de uma beleza plástica, de um esplendor incisivo, que lhes permitiu infiltrarem-se mais profundamente na consciência humana como as flechas do Deus, “serpentes de asas brancas impelidas de seu arco de ouro”, segundo Ésquilo. Apolo irrompeu, da grande noite, em Delfos. Todas as deusas saúdam seu nascimento. Ele anda, toma o arco e a lira. Seus cabelos cacheados esvoaçam no ar, a aljava ressoa em seus ombros. E o mar palpita e toda a ilha resplandece num banho de fogo e ouro. É a epifania da luz divina, que por sua augusta presença cria a ordem, o esplendor e a harmonia, dos quais a poesia é o maravilhoso eco. O Deus segue para Delfos e fere com suas flechas uma serpente monstruosa que assolava a região, saneia o país e funda o templo, imagem da vitória daquela luz divina sobre as trevas e o mal. Nas religiões antigas, a serpente simbolizava ao mesmo tempo o círculo fatal da vida e o mal que dele resulta. Dessa compreensão advém o seu conhecimento. Apolo, matador da serpente, é o símbolo do iniciado que traspassa a natureza com a ciência, domina-a com sua vontade e, rompendo o círculo fatídico da carne, eleva-se no esplendor do espírito, enquanto os destroços da animalidade humana se contorcem na areia. Eis por que Apolo é o mestre das expiações, das purificações da alma e do corpo. Salpicado com o sangue do monstro, ele expiou, purificou-se num exílio de oito anos, sob os loureiros amargos e salubres do vale de Tempe. Apolo, educador dos homens, gosta de estar entre eles; sente-se bem nas cidades, entre a juventude masculina, nos concursos de poesia e oratória, mas ele aí fica só temporariamente. No outono, volta à sua pátria, ao país dos hiperbóreos. É o povo misterioso das almas luminosas e transparentes que vivem na eterna aurora de uma felicidade perfeita. Lá estão seus verdadeiros mestres e suas amadas sacerdotisas.
Com eles vive numa comunidade íntima e profunda: e, quando quer fazer aos homens um dom real, envia-lhes do país dos hiperbóreos uma das grandes almas luminosas e a faz nascer na Terra, para ensinar e encantar os mortais. Ele mesmo volta a Delfos em todas as primaveras, quando se entoam peãs e hinos. Chega, visível somente para os iniciados, em sua brancura hiperbórea, num carro puxado por cisnes melodiosos. Volta a habitar o santuário onde a Pítia transmite seus oráculos e os sábios e os poetas a escutam. Então os rouxinóis cantam, a fonte de Castália borbulha em ondas prateadas, os eflúvios de uma luz ofuscante e de uma música celeste penetram no coração do homem e nas veias da natureza. Nesta lenda dos hiperbóreos manifesta-se em raios brilhantes o fundo esotérico do mito de Apolo. O país dos hiperbóreos é o Além, o empírico das almas vitoriosas, cujas auroras astrais iluminam as zonas multicores. O próprio Apolo personifica a luz imaterial e inteligível, na qual o Sol é apenas a imagem física e de onde decorre toda a verdade. Os cisnes maravilhosos que o conduzem são os poetas, os divinos gênios, mensageiros de sua grande alma solar, que deixam atrás de si estremecimentos de luz e de melodia. Apolo hiperbóreo personifica, pois, a descida do Céu sobre a Terra, a encarnação da beleza espiritual no sangue e na carne, o afluxo da verdade transcendente por meio da inspiração e da adivinhação. Mas é tempo de soerguer o véu dourado das lendas e penetrar no próprio templo. Como se praticava a adivinhação? Tocamos aqui os arcanos da ciência apolínea e dos mistérios de Delfos. Um laço profundo unia, na Antigüidade, a adivinhação e os cultos solares. O culto do sol é a chave de ouro de todos os mistérios considerados mágicos. A adoração do homem ariano dirigiu-se, desde a origem da civilização, ao Sol como fonte de luz, calor e vida. Mas quando o pensamento dos sábios se elevou do fenômeno à causa, eles conceberam, para além deste fogo sensível e desta luz visível, um fogo imaterial e uma luz inteligível. Identificaram o primeiro com o princípio masculino, com o espírito criador e a essência intelectual do Universo, e
a segunda com seu princípio feminino, sua alma formadora, sua substância plástica. Esta instituição remonta a um tempo imemorial. A concepção que menciono mistura-se com as mais velhas mitologias. Ela circula nos hinos védicos sob a forma de Agni, o fogo universal que penetra todas as coisas. Desabrocha na religião de Zoroastro, cujo culto de Mitras representa a parte esotérica. Mitras é o fogo masculino e Mitra, a luz feminina. Zoroastro diz, formalmente, que o Eterno criou, por meio do Verbo vivo, a luz celeste, semente de Ormuz, princípio da luz material e do fogo material. Para o iniciado de Mitras, o Sol é apenas um reflexo grosseiro daquela luz. Em sua gruta escura, com a abóbada pintada de estrelas, ele invoca o sol da graça, o fogo do amor, vencedor do mal, reconciliador de Ormuz e de Arimã, purificador e mediador, que habita a alma dos santos profetas. Nas criptas do Egito, os iniciados procuram este mesmo Sol, sob o nome de Osíris. Quando Hermes pede para contemplar a origem das coisas, inicialmente sente-se mergulhado nas ondas etéreas de uma luz deliciosa, onde se movem todas as formas vivas. Depois, imerso nas trevas da matéria espessa, ouve uma voz e nela reconhece a voz da luz. Ao mesmo tempo, um fogo irrompe das profundezas. Logo o caos se organiza e se ilumina. No livro dos mortos dos egípcios, as almas vagam penosamente em direção àquela luz na barca de Ísis. Moisés adotou plenamente esta doutrina, no Gênese: “Eloim disse: faça-se a luz; e a luz se fez”. Ora, a criação dessa luz precede a do Sol e das estrelas. Isto quer dizer que na ordem dos princípios e da cosmogonia, a luz inteligível precede a luz material. Os gregos, que dramatizaram e vazaram na forma humana as idéias mais abstratas, exprimiram a mesma doutrina no mito de Apolo hiperbóreo. O espírito humano chegou pois, pela contemplação interna do Universo, do ponto de vista da alma e da inteligência, a conceber uma luz inteligível, um elemento imponderável que servia de intermediário entre a matéria e o espírito. Seria fácil mostrar que os físicos modernos se aproximaram insensivelmente da mesma conclusão, por um caminho oposto, isto é, buscando a constituição da matéria e vendo a impossibilidade de explicá-la por si mesma. Já no século XVI, Paracelso, estudando as combinações químicas e as metamorfoses dos
corpos, chegara a admitir um agente universal e oculto, mediante o qual elas operam. Os físicos dos séculos XVII e XVIII, que conceberam o Universo como uma máquina morta, acreditaram no vazio absoluto dos espaços celestes. Entretanto, quando se reconheceu que a luz não é a emissão de uma matéria radiante, mas a vibração de um elemento imponderável, teve-se de admitir que todo o espaço está repleto de um fluido infinitamente sutil, que penetra todos os corpos e pelo qual se transmitem as ondas de calor e luz. Voltava-se assim às idéias da Física e da teosofia grega. Newton, que havia passado a vida inteira estudando os movimentos dos corpos celestes, foi mais longe. Chamou a esse éter sensorium Dei, ou o cérebro de Deus, isto é, o órgão pelo qual o pensamento divino age no infinitamente grande e no infinitamente pequeno. Externando esta idéia, que lhe parecia necessária para explicar a simples rotação dos astros, o grande físico vogava em plena filosofia esotérica. O éter que o pensamento de Newton encontrava nos espaços, Paracelso havia encontrado no fundo de seus alambiques e denominara luz astral. Ora, este fluido imponderável, mas presente por toda a parte, que penetra em tudo, este agente sutil, mas indispensável, esta luz invisível a nossos olhos, mas que está no fundo de todas as cintilações e de todas as fosforescências, um físico alemão constatou-os todos, numa série de experiências sabiamente ordenadas. Reichenbach notara que indivíduos de constituição nervosa muito sensível, colocados numa câmara completamente escura, diante de um ímã, viam, nas duas extremidades, fortes raios de luz vermelha, amarela e azul. Às vezes, estes raios vibravam, num movimento ondulatório. Continuou suas experiências com todas as espécies de corpos, principalmente com cristais. Ao redor de todos esses corpos, os indivíduos viram emanações luminosas. E em torno da cabeça dos homens colocados na câmara escura, viram raios brancos; e de seus dedos saíam pequenas chamas. Na primeira fase do sono, os sonâmbulos algumas vezes viam o seu magnetizador com aqueles mesmos sinais. A pura luz astral só aparece no alto êxtase, mas se polariza em todos os corpos, combina-se com todos os fluidos
terrestres e desempenha funções diversas na eletricidade, no magnetismo terrestre e no magnetismo animal (1). O interesse nas experiências de Reichenbach está em ter chegado aos limites e à transição da visão física para a visão astral, que pode conduzir à visão espiritual. Fazem entrever também as sutilezas infinitas da matéria ponderável. Neste caminho, nada nos impede de concebê-la tão fluida, tão sutil e penetrante que se torne de certa maneira homogênea ao espírito e lhe sirva de vestimenta perfeita. Acabamos de ver que a Física moderna teve de reconhecer um agente universal imponderável para explicar o mundo, cuja presença constatou mesmo, voltando assim, sem o saber, para as idéias das teosofias antigas. Procuremos agora definir a natureza e a função do fluido cósmico, segundo a filosofia do oculto em todos os tempos. Sobre este período capital da cosmogonia, estão de acordo Zoroastro e Heráclito, Pitágoras e São Paulo, os cabalistas e Paracelso. Ela reina em toda a parte, Cibele-Maia, a grande alma do mundo, a substância vibrante e plástica que manipula à sua vontade o sopro do Espírito criador. Seus oceanos etéreos servem de argamassa entre todos os mundos. Ela é a grande mediadora entre o invisível e o visível, entre o espírito e a matéria, entre o interior e o exterior no Universo. Condensada em massas enormes na atmosfera, sob a ação do Sol, ela aí eclode em forma de raio. Bebida pela Terra, circula em correntes magnéticas. Sutilizada no sistema nervoso do animal, transmite sua vontade aos membros, suas sensações ao cérebro. Ainda mais: esse fluido sutil forma organismos vivos semelhantes aos corpos materiais. Pois serve de substância ao corpo astral da alma, vestimenta luminosa que o espírito tece sem cessar para si mesmo. Conforme as almas que reveste, conforme os mundos que envolve, este fluido se transforma, afina-se ou se condensa. Não somente ele corporifica o espírito e espiritualiza a matéria, mas também reflete, em seu seio animado, as coisas, as vontades e os pensamentos humanos em uma perpétua miragem. A força e a duração dessas imagens é proporcional à intensidade da vontade que as produz. Na verdade, não há outro meio de se explicar a sugestão e a transmissão do pensamento à distância, este
princípio da magia hoje constatado e reconhecido pela ciência (2). Assim o passado dos mundos tremula na luz astral em imagens incertas, e o futuro aí perambula com as almas vivas que o inelutável destino força a descer à carne. Eis o sentido do véu de Ísis e do manto de Cibele, em que são tecidos todos os seres. Vê-se agora que a doutrina teosófica da luz astral é idêntica à doutrina secreta do verbo solar nas religiões do Oriente e da Grécia. Vêse também como essa doutrina se liga à da adivinhação. A luz astral aí se revela como o médium universal dos fenômenos de visão e de êxtase, e os explica. E ao mesmo tempo o veículo que transmite os movimentos do pensamento, e o espelho vivo onde a alma contempla as imagens do mundo material e espiritual. Uma vez transportado para este elemento, o espírito do vidente deixa as condições corporais. A medida do espaço e do tempo mudam para ele, que participa, de algum modo, da ubiqüidade do fluido universal. A matéria opaca torna-se-lhe transparente. E a alma, separando-se do corpo, elevando-se em sua própria luz, chega através do êxtase a penetrar no mundo espiritual, a ver as almas revestidas, de seus corpos etéreos e a se comunicar com elas. Todos os antigos iniciados tinham uma idéia nítida dessa ou visão direta segunda visão do espírito. Temos o testemunho de Ésquilo, que atribui à sombra de Clitemnestra esta frase: “Olha estas feridas, teu espírito pode vê-las; quando se dorme, o espírito tem olhos mais penetrantes; à luz do dia, os mortais não abrangem um vasto campo com sua visão”. Acrescentamos ainda que esta teoria da clarividência e do êxtase harmoniza-se maravilhosamente com as numerosas experiências cientificamente praticadas pelos sábios e médicos deste século com sonâmbulos lúcidos e clarividentes de todo tipo (3). Em conformidade com estes fatos contemporâneos, tentaremos caracterizar brevemente a sucessão de estados psíquicos, desde a clarividência simples até o êxtase cataléptico. O estado de clarividência, conforme demonstram milhares de fatos constatados, é um estado psíquico que difere tanto do sono quanto da vigília. Longe de embotarem, as faculdades intelectuais do clarividente aumentam de maneira surpreendente. Sua memória é mais
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