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Capítulo 54 de 74

Quarto Grau – Epifania — parte 2 de 2

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

necessidade, para não se atrofiar, da quente atmosfera maternal. O pai a deformaria; eram necessários os beijos e carícias da mãe para desabrochar. Era necessário o amor forte, envolvente da mulher, que defendesse dos perigos externos esta alma que a vida assustava. Por cumprir em plena consciência estas altas funções, consideradas divinas pela Antigüidade, que a mulher era verdadeiramente a sacerdotisa da família, a guardiã do fogo sagrado da vida, a Vesta do lar. A iniciação feminina pode, portanto, ser considerada a verdadeira razão da beleza da raça, da força das gerações, da duração das famílias na Antigüidade greco-romana (13). Estabelecendo uma ala para as mulheres em seu Instituto, Pitágoras não fez mais que purificar e aprofundar o que já existia antes dele. As mulheres iniciadas por ele recebiam, com os ritos e os preceitos, os princípios supremos de sua função. Ele dava assim, àquelas que eram dignas disso, a consciência de seu papel. Revelavalhes a transfiguração do amor no casamento perfeito, que é a penetração de duas almas no próprio centro da vida e da verdade. O homem, em sua força, não é o representante do princípio e do espírito criador? A mulher, em todo o seu poder, não personifica a natureza na sua força plástica, em suas realizações maravilhosas, terrestres e divinas? Pois bem, quando esses dois seres chegarem a se penetrar completamente, corpo, alma, espírito, eles formarão juntos um resumo do Universo. Mas para crer em Deus a mulher tem necessidade de vê-lo viver no homem; e para isto é preciso que o homem seja iniciado. Só ele é capaz, por sua inteligência profunda da vida, por sua vontade criadora, de fecundar a alma feminina, de transformá-la pelo ideal divino. E este ideal, a mulher amada devolve-lhe multiplicado em seus pensamentos vibrantes, em suas sensações sutis, em suas profundas adivinhações. Ela envia-lhe sua imagem transfigurada pelo entusiasmo, seu ideal, pois o torna-se realiza pelo poder de seu amor em sua própria alma. Por meio dela, ele se torna vivo e visível, faz-se carne e sangue. Se o homem cria pelo desejo e pela vontade, a mulher, física e espiritualmente, gera por amor. Em seu papel de amante, esposa, mãe ou inspirada, ela não é menor, e é mais divina ainda, do que o homem. Pois amar é esquecer. A

mulher que se esquece e que se entrega em seu amor é sempre sublime. Ela encontra nesse aniquilamento seu renascimento celeste, sua coroa de luz e irradiação imortal de seu ser. O amor reina como senhor na literatura moderna, há dois séculos. Não é o amor puramente sensual que se ilumina à beleza do corpo, como nos poetas antigos. Não é o culto insípido de um ideal abstrato e convencional, como na Idade Média. Não! É o amor ao mesmo tempo sensual e psíquico que, deixado em total liberdade e em plena fantasia individual, avança. Mais freqüentemente os dois sexos se guerreiam no amor. Revoltas da mulher contra o egoísmo e a brutalidade do homem; desprezo do homem pela falsidade e a vaidade da mulher; gritos da carne, cóleras impotentes das vítimas da volúpia, dos escravos do deboche. No meio disto, paixões profundas, atrações terríveis, tanto mais poderosas quanto mais são entravadas pelas convenções mundanas e instituições sociais. Daí aqueles amores plenos de tormenta, de destruições morais, de catástrofes trágicas, sobre os quais se desenrolam, quase que exclusivamente, o romance e o drama modernos. Dir-se-ia que o homem, cansado, não encontrando Deus nem na ciência nem na religião, procura-o perdidamente na mulher. E faz muito bem. Entretanto, é só através da iniciação das grandes verdades que Ele o encontra n’Ela e Ela n’Ele. Entre estas almas que se ignoram reciprocamente e que se ignoram a si mesmas, que às vezes se deixam, amaldiçoando-se, existe uma sede imensa de se penetrarem e de encontrar nesta fusão a felicidade impossível. Apesar das aberrações e dos excessos que disso resultam, essa procura desesperada é necessária. Ela sai de um divino inconsciente e será um ponto vital para a reedificação do futuro. Porque quando o homem e a mulher se encontrarem a si mesmos e um ao outro pelo amor profundo e pela iniciação, sua fusão será a força radiante e criadora por excelência. O amor psíquico, o amor-paixão da alma somente há pouco tempo entrou na literatura e, por esta, na consciência universal. Mas tem sua fonte na iniciação antiga. Se a literatura grega mal o deixa transparecer, era por ser uma exceção raríssima. Isso também decorre do segredo profundo dos mistérios. Todavia, a tradição religiosa e filosófica

conservou os traços da mulher iniciada. Por trás da poesia e da filosofia oficiais, algumas figuras de mulheres aparecem meio veladas, mas luminosas. Já conhecemos a pitonisa Teocléia, que inspirou Pitágoras. Mais tarde virá a sacerdotisa Corina, rival muitas vezes feliz de Píndaro, o qual foi o mais iniciado dos líricos gregos. Finalmente, a misteriosa Diotima aparece no banquete de Platão, para fazer a suprema revelação sobre o Amor. Ao lado dessas missões excepcionais, a mulher grega exerceu seu verdadeiro sacerdócio no lar e no gineceu. Sua criação própria foram justamente os heróis, os artistas, os poetas, dos quais admiramos os cantos, os mármores e as ações sublimes. Foi ela que os concebeu no mistério do amor, que os moldou em seu seio com o desejo da beleza, que os fez desabrochar sob a proteção materna. Acrescentemos que para a mulher e o homem verdadeiramente iniciados, a criação do filho tem um sentido infinitamente mais belo, um alcance maior do que para nós. Quando o pai e a mãe sabem que a alma da criança preexiste a seu nascimento terrestre, a concepção torna-se um ato sagrado, o apelo de uma alma à encarnação. Entre a alma encarnada e a mãe, existe quase sempre um profundo grau de semelhança. Assim como as mulheres más e perversas atraem os espíritos demoníacos, assim também as mães ternas atraem os espíritos divinos. Esta alma invisível que se espera, que está para vir e que vem tão misteriosamente e tão seguramente, não será ela algo divino? Seu nascimento, seu aprisionamento na carne será doloroso; pois se entre ela e seu céu abandonado um véu grosseiro se interpõe, e se ela deixa de lembrar, ah! ela não poderia sofrer menos! Por isso, santa e divina é a tarefa da mãe, que deve criar para ela uma nova morada, dulcificar-lhe a prisão e facilitar-lhe a prova. Assim, o ensinamento de Pitágoras, que começara nas profundezas do Absoluto pela trindade divina, terminava no centro da vida pela trindade humana. No Pai, na Mãe e no Filho o iniciado sabia reconhecer agora o Espírito, a Alma e o Coração do Universo vivo. Esta última iniciação constituía para ele o fundamento da obra social concebida à altura e em toda a beleza do ideal, edifício para o qual cada iniciado devia trazer sua pedra.

(1). Orígenes acredita que Pitágoras tenha sido o inventor da fisiognomonia.

Katharsis (2). em grego.

(3). Na matemática transcendental, demonstra-se algebricamente que zero multiplicado pelo infinito é igual a Um. Zero, na ordem das idéias absolutas, significa o Ser indeterminado. O Infinito, o Eterno, na linguagem dos templos, marcava-se por um círculo ou por uma serpente a morder a cauda. Isto significava o Infinito movendo-se por si mesmo. Ora, no momento em que Infinito se determina, ele produz todos os números que contém em sua grande unidade e que governa numa harmonia perfeita. Este é o sentido transcendente do primeiro problema da teogonia pitagórica, a razão pela qual a grande Mônada contém todas as pequenas e todos os números brotam da grande unidade em movimento.

(4). Encontra-se doutrina idêntica no iniciado São Paulo, que fala do corpo espiritual.

(Vers dorés (5). Como primeiro dessa série deve-se citar Fabre d'Olivet de Pythagore). Esta concepção viva das forças do Universo, atravessando-o de alto a baixo, nada tem a ver com as especulações vazias dos puros tese, antítese síntese metafísicos, como, por exemplo, a a e a de Hegel, simples jogos do espírito.

(6). Em grego: Teleiótés.

(7). Certas definições estranhas, sob forma de metáfora, que nos foram transmitidas que provêm do ensinamento secreto do mestre, deixam entrever, em seu sentido oculto, a concepção grandiosa que Pitágoras tinha do Cosmo. Falando das constelações, ele chamava a grande e a pequena Ursa de: as mãos de Réa-Cibele. Ora, Réa-Cibele significa esotericamente a luz astral que rola, a divina esposa do fogo universal ou do Espírito criador que, concentrando-se apodera-se delas nos sistemas solares, atrai as essências imateriais dos seres, e faz com que entrem no turbilhão das vidas. – Ele chamava também os os cães de Proserpina. planetas de Esta expressão singular só tem sentido esotericamente. Proserpina, a deusa das almas, presidia sua encarnação na

matéria. Pitágoras chamava os planetas de cães de Proserpina porque eles guardam as almas encarnadas como o Cérbero mitológico guarda as almas no inferno.

Karma, (8). A lei chamada dos brâmanes e budistas.

Epifania autópsia ou teofania (9). ou visão do alto; visão direta; ou manifestação de Deus, são idéias correlatas e expressões diversas para marcar o estado de perfeição no qual o iniciado, tendo unido sua alma a Deus, contempla a verdade total.

(10). Citaremos dois fatos célebres deste gênero, absolutamente autênticos. O primeiro passa-se na Antigüidade e seu herói é o ilustre filósofomágico Apolônio de Tiana.

1º fato – Segunda visão de Apolônio de Tiana – “Enquanto esses acontecimentos (o assassinato do imperador Domiciano) passavam-se em Roma, Apolônio os via em Éfeso. Domiciano foi atacado por Clemente, ao meio-dia. No mesmo dia, no mesmo momento, Apolônio discursava nos jardins junto ao Xisto. De repente ele abaixou um pouco a voz, como se tivesse sido tomado de um pavor súbito. Continuou o discurso, mas sua linguagem não tinha a força de sempre, como acontece com alguém que fala pensando em outra coisa. Depois calou-se como se tivesse perdido o fio do discurso, olhou assustado para o chão, deu três ou quatro passos para frente e gritou: “Abate o tirano!” Dir-se-ia que ele via não a imagem do fato em um espelho, mas o fato em si mesmo, com toda a sua realidade. Os efesianos (Éfeso inteira assistia ao discurso de Apolônio) ficaram muito espantados. Apolônio deteve-se, como se procurasse ver o resultado de um acontecimento duvidoso. Finalmente, exclamou: “Coragem, cidadãos de Éfeso, o tirano foi morto hoje. Eu disse hoje? Por Minerva! Ele foi morto no mesmo instante em que me interrompi.” Os habitantes de Éfeso julgaram que Apolônio tivesse perdido a razão. Desejavam ardentemente que tivesse dito a verdade, mas temiam que algum perigo lhes resultasse desse discurso. . . porém logo os mensageiros vieram anunciar-lhes a boa nova e testemunhar em favor do conhecimento de Apolônio. O assassinato do tirano, o dia e a hora em que foi perpetrado, o autor, todos estes detalhes estavam perfeitamente de acordo com

aqueles que os deuses lhes haviam mostrado no dia de seu discurso aos efesianos.” – Vida de Apolônio por Filostrato, traduzida por Chassang. 2º fato – Segunda visão de Swedenborg. – O segundo fato relaciona-se com o maior vidente dos tempos modernos. Pode-se discutir a realidade objetiva das visões de Swedenborg, mas não se pode duvidar de sua segunda visão, atestada por inúmeros fatos. A visão que Swedenborg teve, a trinta léguas de distância, do incêndio de Estocolmo, teve grande repercussão na segunda metade do século XVIII. O célebre filósofo alemão, Kant, mandou fazer uma investigação em Gothenburgo, na Suécia, cidade onde ocorreu o fato, e eis o que ele escreveu a uma de suas amigas: “O fato que segue pareceme ter a maior força demonstrativa e pôr fim a toda espécie de dúvida. Foi no ano de 1759. M. de Swedenborg, lá pelo fim do mês de setembro, num sábado, às quatro horas da tarde, voltando da Inglaterra, tomou a direção de Gothenburgo. M. William Castel convidou-o para sua casa, com um grupo de quinze pessoas. À tarde, às seis horas, M. de Swedenborg, que saíra, voltou ao salão, pálido e consternado, dizendo que naquele mesmo instante tinha grassado um incêndio em Estocolmo em Sudermaln e que o fogo se espalhava com violência na direção de sua casa... Disse que a casa de um dos amigos, cujo nome citou, já estava reduzida a cinzas, e que a sua própria estava em perigo. Às oito horas, depois de uma nova saída, disse com alegria: “Graças a Deus, o incêndio foi extinto na terceira casa antes da minha.” Nessa mesma noite, informaram disso o governador. No domingo pela manhã, Swedenborg foi chamado por este funcionário, que o interrogou a respeito. Swedenborg descreveu exatamente o incêndio, o começo, a duração e o fim. No mesmo dia, a novidade se espalhou por toda a cidade, que muito se comoveu, tanto mais porque o governador se ocupara do assunto e muitas pessoas se preocupavam com bens e amigos. Na tarde de segunda-feira chegou a Gothenburgo um estafeta que o comércio de Estocolmo havia despachado durante o incêndio. Nessas cartas, o incêndio era descrito exatamente da maneira como fora contado. O que se pode alegar contra a autenticidade deste acontecimento? O amigo que me escreveu examinou tudo isto, não somente em Estocolmo mas por cerca de dois meses em Gothenburgo, mesmo. Ele conhecia ali as famílias mais importantes e pôde se informar completamente na própria cidade, na qual vive ainda a maioria das testemunhas oculares, devido ao pouco tempo decorrido (9 anos), desde 1859.” – Carta à senhorita Charlotte de Knobloch, citada por Matter. Vie de Swedenborg.

(11). Esta idéia ressalta logicamente do ternário humano e divino, da trindade do microcosmo e do macrocosmo, que expusemos nos capítulos precedentes. A correlação metafísica do Destino, da Liberdade e da Providência foi admiravelmente deduzida por Fabre d'Olivet, em seu comentário aos Vers dorés de Pythagore.

(12). Essa classe de homens corresponde aos quatro graus da iniciação pitagórica, e constitui a base de todas as iniciações, até a dos franco-maçons primitivos, que possuíam algumas migalhas da doutrina esotérica. – Ver Fabre Les Vers dorés de Pythagore. d'Olivet,

(13). Montesquieu e Michelet são quase que os únicos autores a notarem a virtude das esposas gregas. Nenhum deles mostrou a causa que indico aqui.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.