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Capítulo 64 de 74

A Situação Do Mundo Na Época Do — parte 2 de 2

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

de Israel, todo mundo nele acreditava, esperava-o, chamava-o. Tal é a força da ação profética. Assim, como a história romana chega fatalmente a César pelo caminho instintivo e pela lógica infernal do Destino, também a história de Israel conduz livremente ao Cristo pelo caminho consciente e pela lógica divina da Providência, manifestada em seus representantes visíveis: os profetas. O mal é fatalmente condenado a contradizer-se e a destruir-se a si mesmo, porque é falso. Mas o Bem, apesar de todos os obstáculos, engendra a luz e a harmonia na série dos tempos, porque é a fecundidade do Verdadeiro. De seu triunfo, Roma só extraiu o cesarismo; de seu desmoronamento, Israel gerou o Messias, dando razão às belas palavras de um poeta moderno: “de seu próprio naufrágio, a Esperança cria a coisa contemplada!” Uma vaga expectativa pairava sobre os povos. No excesso de seus males, a humanidade inteira pressentia um salvador. Há séculos as mitologias vinham sonhando com um menino divino. Os templos falavam dele misteriosamente. Os astrólogos calculavam sua vinda. Sibilas em delírio tinham vociferado a queda dos deuses pagãos. Os iniciados haviam anunciado que um dia o mundo seria governado por um dos seus, por um filho de Deus. (7) A terra esperava um rei espiritual que seria compreendido pelos pequenos, pelos humildes e pelos pobres. O grande Ésquilo, filho de um sacerdote de Elêusis, quase foi morto pelos atenienses porque ousou dizer em pleno teatro, pela boca de seu Prometeu, que findaria o reinado de Júpiter Destino. Quatro séculos mais tarde, à sombra do trono de Augusto, o doce Virgílio anuncia uma idade nova e sonha com um menino maravilhoso: “Veio a última idade, predita pela sibila de Cumas. Recomeça a grande ordem dos séculos esgotados. Já volta a Virgem e com ela o reinado de Saturno. Já do alto dos céus desce uma raça nova. Esse menino, cujo nascimento deve banir o século de ferro e trazer a idade de ouro para o mundo inteiro, dignai-vos, casta Lucina, a protegê-lo. Já reina Apolo, vosso irmão. Vede, sobre seu eixo abalado, oscilar o mundo. Vede a Terra, os mares em sua imensidão, o céu e a sua abóbada profunda, toda a natureza, estremecerem na esperança do século que está para vir!” (8)

Esse menino, onde nascerá? De que mundo divino virá essa alma? Por qual clarão de amor descerá ela sobre esta terra? Por qual pureza maravilhosa, por qual energia sobre-humana lembrar-se-á do céu que deixou? Por qual esforço gigantesco saberá saltar do fundo de sua consciência terrestre e arrastar a humanidade atrás de si? Ninguém podia dizê-lo, mas esperavam-no. Herodes, o Grande, o usurpador idumeu, o protegido de César Augusto, agonizava então em seu castelo de Cipros, em Jericó, após um reinado suntuoso e sangrento que tinha coberto a Judéia de palácios esplêndidos e de hecatombes humanas. Morria de uma doença horrível, de uma decomposição do sangue, odiado por todos, corroído pelo furor e pelo remorso, atormentado pelos espectros de suas inúmeras vítimas, entre as quais erguia-se sua mulher inocente, a nobre Mariana, da raça dos macabeus, e três de seus próprios filhos. As sete mulheres de seu harém tinham fugido diante do fantasma real, que, vivo ainda, já cheirava a sepulcro. Seus próprios guardas abandonaram-no. Impassível ao lado do moribundo velava sua irmã Salomé, seu mau gênio, instigadora de seus mais negros crimes. O diadema na fronte, o colo cintilante de pedrarias, numa atitude altaneira, ela espreitava o último suspiro do rei para, por sua vez, tomar o poder. Assim morreu o último rei dos Judeus. Nesse mesmo momento, acabava de nascer o futuro rei espiritual da humanidade (9), e os poucos iniciados de Israel preparavam em silêncio seu reinado, numa humildade e numa obscuridade profundas.

(1). O trabalho executado há cem anos pela crítica, sobre a vida de Jesus, é certamente um dos mais consideráveis deste tempo. Encontrar-se-á dele uma visão completa no luminoso resumo feito por M. Sabatier (Dictionnaire des Sciences religieuses, por Lichteriberger, tomo VII Artigo: Jesus.) Esse belo estudo fornece todo o histórico da questão e marca com precisão seu estado atual. Lembrarei simplesmente as duas fases principais que ele atravessou, com Strauss e Renan, para melhor estabelecer o novo ponto de vista, com o qual concordo.

Saindo da escola filosófica de Hegel e ligando-se à escola crítica e histórica de Bauer, Strauss, sem negar a existência de Jesus, tentou provar que sua vida, tal como é narrada nos Evangelhos, é um mito, uma lenda criada pela imaginação popular para as necessidades do cristianismo que nascia e segundo as profecias do Antigo Testamento. Sua tese, puramente negativa, defendida com extrema engenhosidade e profunda erudição, é verdadeira em certos detalhes, mas absolutamente insustentável no conjunto e nos pontos essenciais. Ela tem, além do mais, o grave defeito de não explicar nem o caráter de Jesus, nem a origem do cristianismo. A vida de Jesus, para Strauss, é um sistema planetário sem Sol. É preciso admitir-lhe, contudo, um mérito considerável: o de ter transferido o problema do domínio da teologia dogmática para o da crítica dos textos e da história. A vida de Jesus, de M. Renan, deve sua grande acolhida às suas altas qualidades estéticas e literárias, e também à audácia do escritor, que foi o primeiro a ousar fazer da vida do Cristo um problema de psicologia humana. Conseguiu-o? Depois do sucesso surpreendente do livro, a opinião geral da crítica séria disse que não. O Jesus de M. Renan começa sua carreira como doce sonhador, como moralista entusiasta, e altivo; e terminou-a corno um taumaturgo violento que perdeu o sentido da realidade. “Apesar de todo o comedimento do historiador, diz M. Sabatier, é a marcha de um espírito sadio para a loucura. O Cristo de M. Renan flutua entre os cálculos do ambicioso e os sonhos do iluminado.” O fato é que ele se torna o Messias sem o querer e quase sem o saber. Só aceita este nome para comprazer aos apóstolos e ao desejo popular. Não é com uma fé tão fraca que um verdadeiro profeta cria uma religião nova e transforma a alma da terra. A vida de Jesus, de M. Renan, é um sistema planetário iluminado por um pálido sol, sem magnetismo vivificador e sem calor criador. Como Jesus tornou-se o Messias? Eis a questão primordial, essencial à concepção do Cristo. Foi justamente diante desta que M. Renan hesitou e desviou-se. M. Théodore Keim compreendeu que era preciso abordá-la de frente. (Das Leben Jesu, Zurique, 1875, 3 ª ed.). Sua Vida de Jesus é a mais notável que se tem escrito desde a de M. Renan. Ela esclarece a questão com toda luz que se pode tirar dos textos e da história interpretados esotericamente. Mas o problema não é dos que se podem resolver sem a esotérica. intuição e sem a tradição É com essa luz esotérica, chama interior de todas as religiões, verdade central de toda a filosofia fecunda, que tentei reconstruir a Vida de Jesus em

suas grandes linhas, levando em conta todo o trabalho anterior da crítica histórica que desobstruiu o terreno. Não vejo necessidade de definir aqui o que entendo por ponto de vista esotérico, síntese da Ciência e da Religião. Todo este livro é o desenvolvimento dele, e acrescentarei simplesmente, no que concerne ao valor histórico e relativo dos Evangelhos, que tomei os três sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) por base, e João como o arcano da doutrina esotérica de Cristo, sempre admitindo a redação posterior e a tendência simbólica desse Evangelho. É preciso comparar os Evangelhos entre si e retificá-los. Eles são autênticos, mas de formas diferentes. Mateus e Marcos são os Evangelistas preciosos da letra e do fato; neles encontram-se os atos e as palavras públicas. O doce Lucas deixa entrever o sentido dos Mistérios sob o véu poético da lenda; é o Evangelho da Alma, da Mulher e do Amor. São João desvela estes Mistérios. Encontram-se nele as bases profundas da doutrina, o ensinamento secreto, o sentido da promessa, a reserva esotérica. Clemente de Alexandria, um dos raros bispos cristãos que possuíram a chave do esoterismo universal, chamou-o, com muita propriedade, de Evangelista do Espírito. João tem uma visão profunda das verdades transcendentes reveladas pelo Mestre e uma maneira poderosa de resumi-las Tem ele também por símbolo a Águia, cujas asas transpõem os espaços e cujo olho chamejante os possui.

(2). Esse ponto de vista, diametralmente oposto à escola empírica de Aristóteles e de Mostesquieu, foi o dos grandes iniciados, dos sacerdotes egípcios, e também de Moisés e Pitágoras. Ele foi mencionado e esclarecido La Mission des de forma vigorosa em uma obra já citada: Juifs, de M. Saint- Yves. Ver seu notável capítulo sobre a fundação de Roma.

(3). Ewald, Die Propheten. – Introdução.

(4). Isaías, LXVI, 10-18.

(5). Isaías, XI, 1-5.

(6). Isaías, LIII, 2-8.

(7). Tal é o sentido esotérico da bela lenda dos reis magos, que vieram dos confins do Oriente para adorar o menino de Belém.

Écloga, IV – 4.10, (8). Virgílio, 50.53. Última Cumoei venit jam carminis aetas, Magnus ab integro soeculorum nascitur ordo, Jam rediter Virgo, redeunt Saturnia regna; Jam nova progenies coelo demittitur alto. Tu modo nascenti puero, quo ferrea primum Desinet, ac toto surget gens aurea mundo, Casta, fave, Lucina; tuus jam regnat Apollo. Aspice convexo natantem pondere mundum, Terrasque, tractusque maris, coelumque profundum; Aspice venturo laetantur ut omnia soeclo. Virgílio, Écloga, IV.

(9). Herodes morreu no ano 4 antes de nossa era. Hoje quase todos os cálculos da crítica concordam em fazer remontar àquela data o nascimento de Kleim, das Leben Jesu. Jesus. Ver

II

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.