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Capítulo 58 de 74
A Juventude De Platão E A Morte De Sócrates
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
Ele nasceu em Atenas, na cidade do Belo e da Humanidade. Não havia limites para seus jovens olhares. A Ática, aberta a todos os ventos, avança como a proa de um navio no mar Egeu e domina como rainha o ciclo das ilhas, brancas sereias sentadas no azul escuro das ondas. Cresceu aos pés da Acrópole, sob a guarda de Palas Atenas, naquela extensa planície emoldurada por montanhas cor de violeta e envolta num azul luminoso, entre o Pentélico de flancos de mármore, Himeto coroado de pinheiros perfumados onde zumbem as abelhas, e a tranqüila baía de Elêusis. Tanto mais sombrio e mais perturbado foi, ao contrário, o horizonte político na infância e na mocidade de Platão. Elas decorreram na época da implacável guerra do Peloponeso, a luta fratricida entre Esparta e Atenas, que preparou a dissolução da Grécia. Estavam longe os grandes dias das guerras médicas. Tinham-se posto os sóis de Maratona e de Salamina. O ano do nascimento de Platão (429 a.C.) foi o ano da morte de Péricles, o maior estadista da Grécia, tão íntegro quanto Aristides, tão hábil quanto Temístocles, o mais perfeito representante da civilização helênica, o fascinador daquela democracia turbulenta, patriota ardente, que soube entretanto conservar a calma de um semideus em meio às tempestades populares. A mãe de Platão deve ter contado ao filho uma cena, à qual certamente teria assistido dois anos antes do nascimento do futuro filósofo. Os espartanos tinham invadido a Ática. Atenas, já ameaçada em sua existência nacional, lutara durante todo um inverno, e Péricles fora a alma da defesa. Naquele ano sombrio, uma cerimônia imponente teve lugar no Cerâmico. Os féretros dos guerreiros mortos pela pátria foram colocados em carros fúnebres, e o povo foi convocado à frente do túmulo monumental destinado a reuni-los. Este mausoléu parecia o
símbolo magnífico e sinistro do túmulo que a Grécia estava cavando para si mesma em sua luta criminosa. Foi então que Péricles pronunciou o mais belo discurso que a Antigüidade nos legou. Tucídides transcreveu-o em placas de bronze. E ali brilha, como um escudo no frontão de um templo, esta sentença: “O túmulo dos heróis é o todo Universo, e não se apóia em colunas enfeitadas de faustosas inscrições”. Não será a consciência da Grécia e de sua imortalidade que respiram nessas palavras? Mas, morto Péricles, o que restava da antiga Grécia, que vivia em seus homens de ação? No interior de Atenas, as discórdias de uma demagogia desesperadora. No exterior, a invasão lacedemônia sempre às portas, a guerra em terra e no mar, e o ouro do rei da Pérsia circulando como um veneno corruptor nas mãos dos tribunos e dos magistrados. Alcibíades substituíra Péricles no prestígio público. Aquele modelo de mocidade dourada de Atenas tinha-se tornado o do homem do momento. Político aventureiro, intrigante, sedutor, sorrindo ele levou a pátria à perda. Platão observara-o bem. Mais tarde, como mestre, descreveu a psicologia daquele caráter. Compara o desejo exacerbado de poder que ocupa a alma de Alcibíades a um grande zangão alado, “em torno de quem as paixões coroadas de flores, perfumadas de essências, inebriadas de vinho e de todos os prazeres desenfreados que marcham em seu séquito, vêm zumbir, alimentando-o, criando-o, armando-o, enfim, com o aguilhão da ambição. Então este tirano da alma, escoltado pela demência, agita-se com furor. Se encontra em torno pensamentos e sentimentos honestos que ainda poderiam enrubescer, mata-os, expulsa-os, até que tenha purgado a alma de toda a temperança e a tenha inundado do furor que carrega em si”. O céu de Atenas, portanto, teve cores bastante sombrias durante a mocidade de Platão. Aos vinte e cinco anos, ele assistiu à tomada de Atenas pelos espartanos, depois da desastrosa batalha naval de Aigos Pótamos. Depois, assistiu à entrada de Lisandro em sua cidade natal, o que significava o fim da independência ateniense. Viu as extensas muralhas, construídas por Temístocles, serem demolidas ao som de uma
música festiva, e o inimigo, triunfante, literalmente dançar sobre as ruinas da pátria. Depois vieram os trinta tiranos e suas proscrições. Esses espetáculos entristeceram a alma juvenil de Platão, mas não conseguiram perturbá-la. Aquela alma era tão doce, tão límpida, tão aberta quanto a abóbada do céu acima da Acrópole. Platão era um jovem de elevada estatura, ombros largos, grave, concentrado, quase sempre silencioso. Mas, quando falava, uma sensibilidade delicada, uma doçura encantadora emanavam de suas palavras. Nele nada havia de saliente, nada de excessivo. Suas aptidões variadas dissimulavam-se como que fundidas na harmonia superior de seu ser. Uma graça alada, uma modéstia natural ocultavam a seriedade de seu espírito. Uma ternura quase feminina servia de véu para a firmeza de seu caráter. Nele a virtude se revestia de um sorriso; o prazer, de uma castidade ingênua. Contudo, o que constituía a marca dominante, extraordinária, única, daquela alma, é que, ao nascer, ela parecia ter concluído um pacto misterioso com a Eternidade. Sim, somente as coisas eternas pareciam vivas para seus grandes olhos; as outras ali passavam como vãs aparências em um espelho profundo. Por trás das formas visíveis, mutáveis, imperfeitas, do mundo e dos seres, apareciam-lhe as formas invisíveis, perfeitas, para sempre radiantes, destes mesmos seres, que o espírito vê e que são seus modelos eternos. Eis por que o jovem Platão, sem ter formulado sua doutrina, sem mesmo saber que um dia seria filósofo, tinha já consciência da realidade divina do Ideal e de sua onipresença. Eis por que, vendo passarem as mulheres, os carros fúnebres, os exércitos, as festas e os lutos, seu olhar parecia ver outra coisa e dizer: “Por que choram eles e por que gritam de alegria? Eles acreditam ser e não são. Por que não consigo ligar-me ao que nasce e ao que morre? Por que só posso amar o Invisível, que não nasce e não morre jamais, e que existe sempre?" Amor e Harmonia: eis o fundo da alma de Platão. Mas, qual Harmonia e qual Amor? O Amor pela Beleza eterna e pela Harmonia que abrange o Universo. Quanto mais a alma é grande e profunda, mais necessita de tempo para se conhecer a si mesma. Seu primeiro entusiasmo dirigiu-se para as Artes. Ele era de origem nobre, pois seu
pai pretendia descender do rei Codrus e sua mãe, de Sólon. Sua mocidade, portanto, foi a de um ateniense rico, cercado de todos os luxos e todas as seduções de uma época de decadência. Desfrutou-as sem excessos e sem hipocrisia, vivendo a vida de seus semelhantes, gozando de uma bela herança, cercado e festejado por numerosos amigos. Em bem descreveu a paixão do amor em todas as suas Fedro, fases para não ter experimentado seus transportes e suas cruéis desilusões. Um único verso nos resta dele, tão apaixonado como um verso de Safo, tão fervilhante de luz como uma noite estrelada sobre o mar das Cíclades: “Eu quisera ser o céu, a fim de ser todo olhos para te olhar”. Buscando o Belo supremo através de todos os modos e de todas as formas da beleza, ele cultivou, alternadamente, a pintura, a música e a poesia. Esta parecia responder a todos os seus anseios e terminou por fixar seus desejos. Tinha uma maravilhosa facilidade para todos os gêneros. Sentia com igual intensidade a poesia amorosa e ditirâmbica, a epopéia, a tragédia, a própria comédia com o seu mais fino tempero ático. O que lhe faltava para tornar-se um outro Sófocles e reerguer da decadência o teatro de Atenas? Esta ambição tentou-o e os amigos encorajaram-no. Aos vinte e sete anos, tinha composto várias tragédias e ia apresentar uma delas em concurso. Foi nessa época que Platão encontrou Sócrates, que discutia com os jovens nos jardins da Academia. Ele falava sobre o Justo e o Injusto, sobre o Belo, o Bom e o Verdadeiro. O poeta aproximou-se do filósofo, escutou-o, voltou no dia seguinte e em todos os outros. Em algumas semanas, uma revolução completa tinha-se operado em seu espírito. O jovem feliz, o poeta cheio de ilusões não se reconhecia mais. O curso de seus pensamentos, o objetivo de sua vida haviam mudado. Um outro Platão acabava de nascer nele às palavras daquele que chamava a si mesmo de “parteiro de almas”. O que se passara, afinal? Por qual sortilégio aquele raciocinador com rosto de sátiro arrebatara ao luxo, às volúpias, à poesia o belo, o genial Platão, para convertê-lo à grande renúncia da sabedoria? Um homem muito simples; mas que grande original era Sócrates! Filho de um escultor, esculpiu as três Graças na época da adolescência.
Depois abandonou o cinzel, dizendo que gostava mais de esculpir sua alma do que o mármore. A partir desse momento, consagrou sua vida à busca da sabedoria. Era visto no ginásio, em praças públicas e no teatro, conversando com os jovens, os artistas, os filósofos e perguntando a cada um a razão daquilo que afirmava. Já há alguns anos os sofistas tinham-se abatido como uma nuvem de gafanhotos sobre a cidade de Atenas. O sofista é a falsificação e a negação viva do filósofo, como o demagogo é a falsificação do homem de Estado, o hipócrita é o oposto do sacerdote, a magia-negra é a falsificação infernal da verdadeira iniciação. O tipo grego do sofista é mais sutil, mais raciocinador, mais corrosivo do que os outros. Mas o gênero pertence a todas as civilizações decadentes. Os sofistas ali pululam, tão inevitavelmente quanto os vermes em um corpo em decomposição. Chamem-se eles ateus, niilistas ou pessimistas, os sofistas de todos os tempos se parecem. Sempre negam Deus e a Alma, ou seja, a Verdade e a Vida supremas. Os sofistas do tempo de Sócrates, os Górgias, os Pródicus e os Protágoras, diziam que não existe diferença entre a verdade e o erro. Empenhavam-se em provar qualquer idéia e o seu contrário, afirmando que só há uma justiça, a força; que só há uma verdade, a opinião do indivíduo. Com essas idéias, contentes consigo mesmos, espertos, cobrando muito caro suas lições, impeliam os jovens para o deboche, para a intriga e para a tirania. Sócrates aproximava-se dos sofistas com sua doçura insinuante, sua fina bonomia, como se fosse um ignorante que quisesse instruir-se. Seu olhar brilhava com humor e benevolência. Depois, de pergunta em pergunta, forçava-os a afirmar o contrário do que tinham pretendido no início e a confessar implicitamente que nem sabiam de que estavam falando. Sócrates demonstrava em seguida que os sofistas não conheciam a causa nem o princípio de nada, embora pretendessem possuir a ciência universal. Após tê-los assim reduzido ao silêncio, não se vangloriava de sua vitória, mas, sorrindo, agradecia a seus adversários terem-no instruído com suas respostas, acrescentando que reconhecer que nada se sabe é o começo da verdadeira sabedoria.
O que acreditava, o que afirmava o próprio Sócrates? Ele não negava os deuses, prestando-lhes o mesmo culto que seus concidadãos. Mas dizia que a natureza deles era impenetrável e confessava nada compreender da Física e da Metafísica que se ensinavam nas escolas. O importante, dizia, é crer na Justiça e na Verdade e aplicá-las na vida. Estes argumentos adquiriam grande força em sua boca, pois ele mesmo fornecia o exemplo: cidadão irrepreensível, soldado intrépido, juiz íntegro, amigo fiel e desinteressado, senhor absoluto de todas suas paixões. Assim, a tática da educação moral muda segundo os tempos e os meios. Pitágoras, diante de seus discípulos iniciados, trazia a moral das alturas da cosmogonia. Em Atenas, em praça pública, entre os Cléon e os Górgias, Sócrates falava do sentimento inato do Justo e do Verdadeiro para reconstituir o mundo e o estado social enfraquecido. E ambos, um na ordem descendente dos princípios, o outro na ordem ascendente, afirmavam a mesma verdade. Pitágoras representa os princípios e o método da mais elevada iniciação. Sócrates anuncia a era da ciência aberta. Para não se afastar do papel de vulgarizador, ele recusou fazer-se iniciar nos mistérios de Elêusis. Mas nem por isso deixava de ter o sentido e a fé da verdade total e suprema que os grandes Mistérios ensinavam. Quando falava disso, o bom, o espiritual Sócrates mudava de fisionomia, como se fosse um fauno inspirado do qual se apodera um Deus. Seu olhar se iluminava, um raio iluminava sua cabeça calva, e de sua boca saía urna daquelas sentenças simples e luminosas que clareiam o fundo das coisas. Por que Platão ficou irresistivelmente encantado e subjugado por aquele homem? Ele compreendeu, vendo-o, a superioridade do Bem sobre o Belo. Pois o Belo só realiza o Verdadeiro na miragem da Arte, enquanto que o Bem a realiza no fundo das almas. Rara e poderosa fascinação, pois os sentidos dela não participam. A visão de um verdadeiro justo fez se apagarem na alma de Platão os esplendores resplandecentes da arte visível, para ser substituída por um sonho mais divino.
Aquele homem mostrou-lhe a inferioridade da beleza e da glória tal como as concebera até então, diante da beleza e da glória da alma em ação, que atrai para sempre outras almas à sua verdade, enquanto as pompas da Arte só conseguem espelhar, por um instante uma verdade enganadora, sob um véu falacioso. Esta Beleza radiante, eterna, que é o “Esplendor da Verdade”, matou a beleza volúvel e mentirosa na alma de Platão. Eis por que, esquecendo e abandonando tudo o que havia amado até então, deu-se a Sócrates, com toda a poesia de sua alma na flor da juventude. Grande vitória da Verdade sobre a Beleza, e que teve incalculáveis conseqüências para a história do espírito humano. Enquanto isso, os amigos de Platão esperavam vê-lo estrear como trágico. Ele os convidou para um grande festim em sua casa, e todos se admiraram que quisesse dar uma festa naquele momento, pois o costume era só oferecê-la depois de ter obtido o prêmio e de a tragédia premiada ter sido representada. Mas ninguém recusava um convite para a casa do rico filho da família, onde as Musas e as Graças se encontravam em companhia de Eros. Há longo tempo sua casa era o ponto de encontro da mocidade elegante de Atenas. Platão gastou uma fortuna para aquele festim. Ergueu-se um tablado no jardim. Jovens empunhando tochas iluminavam o caminho para os hóspedes. As três mais belas hetairas de Atenas compareceram. O festim durou toda a noite. Entoaram-se hinos ao Amor e a Baco. Os tocadores de flauta executaram suas danças mais voluptuosas. Afinal, pediram a Platão que ele próprio declamasse um de seus ditirambos. Ele levantou-se e, sorrindo, disse: “Este festim é o último que vos ofereço. A partir de hoje, renuncio aos prazeres da vida para consagrar-me à sabedoria e seguir o ensinamento de Sócrates. Sabei todos o seguinte: renuncio até à poesia, porque reconheci sua impotência para exprimir a verdade que procuro. Não farei mais nenhum verso, e vou queimar em vossa presença todos que já compus”. Um grito unânime de espanto e protesto ergueu-se de todos os pontos da mesa, em torno da qual estavam reclinados sobre leitos suntuosos os convivas coroados de rosas. Entre aquelas fisionomias enrubescidas pelo vinho, pelas brincadeiras e alegres conversas de
mesa, algumas exprimiam surpresa; outras, indignação. Houve entre os elegantes e os sofistas risos de incredulidade e desprezo. Tacharam o projeto de Platão de loucura e de sacrilégio. Intimaram-no a voltar atrás no que havia dito. Todavia, ele reafirmou sua resolução, com uma calma e uma segurança que não permitiam réplicas. Terminou dizendo: “Agradeço a todos os que quiseram tomar parte nesta festa de adeus. Mas só reterei junto a mim aqueles que quiserem participar de minha vida nova. Os amigos de Sócrates, de hoje em diante, serão meus únicos amigos”. Estas palavras passaram como uma geada sobre um campo de flores, dando àquelas fisionomias o ar triste e perturbado de pessoas que assistem a um enterro. As cortesãs levantaram-se e partiram em suas liteiras, lançando um olhar despeitado ao dono da casa. Os elegantes e os sofistas esquivaram-se com palavras irônicas e joviais: “Adeus, Platão! Sê feliz! Um dia voltarás para nós! Adeus! Adeus!” Somente dois jovens mais sérios permaneceram junto dele. Platão tomou pela mão estes amigos fiéis e, abandonando as ânforas de vinho meio vazias, as rosas desfolhadas, as liras e flautas largadas em meio às taças ainda cheias, conduziu-os ao pátio interno da casa. Eles ali viram, num pequeno altar, uma pirâmide de rolos de papiro. Eram todas as obras poéticas de Platão. O poeta, pegando uma tocha, ateou-lhes fogo com um sorriso, pronunciando estas palavras: “Vulcano, vem! Platão tem necessidade de ti” (1). Quando as chamas dançantes se extinguiram no ar, os dois amigos tinham lágrimas nos olhos e, silenciosamente, disseram adeus a seu futuro mestre. Platão ficou só. Não chorava. Uma paz, uma serenidade maravilhosa ocupava todo o seu ser. Pensava em Sócrates, a quem logo ia ver. A aurora nascente iluminava os terraços das casas, as colunatas, os frontões dos templos. E logo o primeiro raio do sol fez cintilar o capacete de Minerva no alto da Acrópole.
(1). Fragmento das obras completas de Platão, conservado sob o título: “Platão queimando suas poesias.”
II
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.