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Capítulo 15 de 74
Iniciação
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
O rei Cansa, tendo sabido que sua irmã Devac vivera entre os anacoretas e não tendo podido descobri-la, pôs-se a persegui-los e a caçá-los como animais selvagens. Eles, então, foram obrigados a se refugiar na parte mais distante e mais agreste da floresta. Então, seu chefe, o velho Vasichita, apesar da idade de cem anos, empreendeu uma longa caminhada para falar ao rei de Madura. Os guardas viram, com espanto, um velho cego, guiado por uma gazela que ele segurava por uma trela, aparecer nos portões do palácio. Tomados de respeito pelo richi, deixaram-no passar. Vasichita se aproximou do trono onde Cansa estava sentado ao lado de Nisumba e disse: – Cansa, rei de Madura, desgraçado de ti, filho do Touro, pois persegues os solitários da floresta santa! Desgraçada de ti, filha da Serpente, porque insuflas o ódio. Aproxima-se o dia do vosso castigo. Sabei que o filho de Devac está vivo. Ele virá coberto por uma armadura de escamas infrangíveis e te expulsará do trono que usurpas na ignomínia. De hoje em diante, tremei e vivei no pavor. Este é o castigo que os Devas vos destinam! Os guerreiros, os guardas, os servidores tinham se prostrado diante do santo centenário, que se retirou conduzido por sua gazela, sem que ninguém ousasse tocá-lo. Mas, a partir daquele dia, Cansa e Nisumba sonhavam apenas com os meios de fazer desaparecer secretamente o rei dos anacoretas. Devac estava morta e ninguém, excetuando Vasichita, sabia que Krishna era seu filho. Entretanto, já tinha chegado aos ouvidos do rei o rumor das proezas de Krishna. Cansa pensou: “Tenho necessidade de um homem forte para me defender. Aquele que matou a grande serpente de Calaieni não terá medo do anacoreta”. Então, mandou dizer ao patriarca Nanda: “Envia-me o jovem herói, Krishna. para que eu faça dele o condutor de meu carro e meu primeiro conselheiro (1) ". Nanda participou a Krishna
a ordem do rei, e sua resposta foi: “Eu irei”. Particularmente, ele pensava: “Será o rei de Madura aquele que não muda jamais? Por meio dele saberei onde está minha mãe”. Cansa, vendo a força, a destreza e a inteligência de Krishna, agradou-se dele e confiou-lhe a guarda de seu reino. Nisumba, porém, diante do herói do monte Meru, estremeceu na carne com um desejo impuro, e seu espírito sutil tramou um projeto tenebroso, guiado por um pensamento pecaminoso. Sem que o rei soubesse, ela mandou chamar o condutor do carro em seu gineceu. Diabólica, ela possuía a arte de rejuvenescer momentaneamente por meio de filtros poderosos. O filho de Devac encontrou Nisumba com os seios de ébano desnudos sobre um leito de púrpura; anéis de ouro envolviam seus tornozelos e braços; um diadema de pedras preciosas brilhava em sua fronte. A seus pés ardia um defumador de cobre, de onde se evolava uma nuvem de perfume. Assim falou a filha do rei das serpentes: – Krishna, tua fronte é mais serena do que a neve do Himavat e teu coração é como a ponta do raio. Em tua inocência resplandeces mais do que os reis da terra. Aqui ninguém te reconheceu; tu ignoras a ti mesmo. Somente eu sei quem tu és. Os Devas fizeram de ti o senhor dos homens, mas só eu poderei fazer de ti o senhor do mundo. Queres? – Se é Maadeva quem fala por tua boca,– disse Krishna com a fisionomia séria – poderás me revelar onde está minha mãe e onde encontrarei o grande ancião que me falou sob os cedros do monte Meru. – Tua mãe? – retrucou Nisumba com um sorriso desdenhoso. Certamente não será por mim que o saberás. Quanto ao teu ancião, não o conheço. Insensato! Persegues sonhos e não vês os tesouros da terra que te ofereço. Há reis que sustentam uma coroa e não são reis. Há filhos de pastores que trazem estampada a realeza na fronte e, no entanto, desconhecem sua própria força. Tu és forte, jovem, belo e os corações te pertencem. Mata o rei quando ele estiver dormindo que eu colocarei a coroa em tua cabeça e serás o senhor do mundo. Pois eu te amo e és predestinado para mim. Eu o quero! Eu o ordeno! Assim falando, a rainha erguera-se imperiosa, fascinante, terrível como uma bela serpente. De pé sobre o leito, com seus olhos negros ela
lançou um jato de luz tão sombria nos olhos límpidos de Krishna, que ele estremeceu de espanto. Naqueles olhares apareceu-lhe o inferno. Ele viu, então, o abismo do templo de Cali, a deusa do Desejo e da Morte, e serpentes que lá se retorciam como numa agonia eterna. Subitamente, os olhos de Krishna pareceram duas espadas, que atravessaram a rainha de um lado ao outro. E o herói do monte Meru gritou: – Eu sou fiel ao rei que me tomou como seu defensor, mas tu, saibas que morrerás! Nisumba soltou um grito lancinante e rolou sobre o leito mordendo a púrpura. Toda sua juventude fictícia evaporara-se e ela voltou a ser velha e encarquilhada. E Krishna retirou-se, deixando-a entregue à sua cólera. Atormentado dia e noite pelas palavras do velho anacoreta, o rei de Madura disse a seu condutor de carro: – Desde que o inimigo pôs o pé em meu palácio não durmo mais em paz. Um mágico infernal chamado Vasichita, que vive numa profunda floresta, veio lançar-me sua maldição. Desde então não respiro; o velho envenenou meus dias. Mas contigo, que nada temes, eu não o temo também. Vem comigo à floresta maldita. Um espião, que conhece todas as sendas, nos conduzirá até ele. Assim que o vires, corre até ele e atinge-o antes que possa dizer uma única palavra ou lançar-te um olhar. Quando ele estiver ferido mortalmente , pergunta-lhe onde está o filho de minha irmã, Devac e qual é o seu nome. A paz de meu reino depende deste mistério. – Fica tranqüilo, respondeu Krishna, eu não tive medo de Calaieni nem da serpente de Cali. Quem poderia me fazer tremer agora? Por mais poderoso que seja este homem, eu saberei o que ele te oculta. Disfarçados em caçadores, o rei e seu guia saíram num carro puxado por cavalos fogosos e rodas rápidas. O espião, que tinha explorado a floresta, mantinha-se atrás deles. Era o começo da estação das chuvas. Os rios aumentavam de volume, uma vegetação densa cobria os caminhos e a fila branca das cegonhas se mostrava acima das nuvens. Quando eles se aproximaram da floresta sagrada, o horizonte escureceu, o sol se escondeu, a atmosfera se encheu de uma bruma
acobreada. Do céu tempestuoso, desciam nuvens como trompas sobre os galhos agitados dos bosques. Perguntou Krishna ao rei: – Por que o céu escureceu de repente? E por que a floresta tomouse tão negra? O rei de Madura respondeu: – Sei perfeitamente que foi Vasichita, o perigoso solitário, quem escureceu o céu e eriça contra mim a floresta maldita. Mas, Krishna, tens medo? – Embora o céu tenha mudado de aspecto e a terra de cor, eu não tenho medo. Então, adiante! – Krishna chicoteou os cavalos e o carro penetrou na sombra espessa dos baobás, rodando algum tempo numa velocidade maravilhosa. A floresta, porém, sempre se tornava mais selvagem e mais terrível. Raios jorravam impetuosamente e trovões ribombavam. Falou Krishna: – Jamais vi o céu tão negro e nem as árvores se curvarem assim. É muito poderoso o teu mágico. – Krishna, matador de serpentes, herói do monte Meru, tens medo? – Ainda que a terra trema e o céu se desmorone, eu não tenho medo. Então, prossegue! – De novo o ousado condutor chicoteou os cavalos e o carro retomou sua desabalada carreira. Então, a tempestade tornou-se tão terrível que as árvores gigantes se dobraram. A floresta sacudida rugiu como se fosse o uivo de mil demônios. Um raio caiu ao lado dos viajantes; um baobá despedaçado fechou o caminho; os cavalos se detiveram e a terra tremeu. Krishna, então, exclamou: – Teu inimigo deve ser um deus, visto que o próprio Indra o protege! E o espião do rei informou:
– Chegamos ao fim. Estás vendo esta alameda verde? Lá no fim há uma cabana miserável. Nela reside Vasichita, o grande muni, alimentando as aves, temido pelas feras e defendido por uma gazela. Porém, nem por uma coroa darei mais um passo. A estas palavras, o rei de Madura tomou-se lívido: Ele está lá? De verdade? Atrás daquelas árvores?... – E agarrando-se a Krishna, Cansa cochichou, com todo o corpo tremendo: – Vasichita! Vasichita, que trama a minha morte, está lá! Ele me vê do fundo de seu refúgio... seu olhar me persegue... Livra-me dele! E Krishna disse, descendo do carro e saltando sobre o tronco de baobá: Sim, por Maadeva, eu quero ver aquele que te faz tremer assim! – Vasichita, o muni centenário, há um ano vivia naquela cabana, escondido no mais profundo da floresta santa, esperando a morte. Antes da morte do corpo, ele já se libertara de sua prisão. Seus olhos tinham se apagado, mas ele via através da alma. Sua pele apenas sentia o calor e o frio, mas seu espírito vivia numa unidade perfeita com o espírito soberano. Ele só via as coisas deste mundo através da luz de Brama, rezando e meditando sem cessar. Todos os dias, vinha do eremitério um discípulo fiel trazer-lhe grãos de arroz para seu sustento. A gazela, que tirava seu alimento da própria mão do ancião, advertia-o, bramindo, da aproximação das feras. Então, ele as afugentava murmurando uma mantra e estendendo o bastão de bambu de sete nós. Quanto aos homens, quaisquer que fossem, ele os pressentia por intermédio do olhar interior, a léguas de distância. Krishna, caminhando pela alameda obscura, viu-se de repente diante de Vasichita. O rei dos anacoretas estava sentado, com as pernas cruzadas, sobre uma esteira, apoiado contra a estaca da cabana, numa paz profunda. De seus olhos cegos saía uma cintilação interior de vidente. Assim que Krishna o viu, reconheceu nele. . . “o velho sublime!”... Sentiu uma emoção de alegria, o respeito fez sua alma curvar-se inteiramente. Esquecendo o rei, seu carro e seu reino, ajoelhou-se diante do santo e o adorou. –
Vasichita parecia vê-lo, pois seu corpo, apoiado à cabana, endireitou-se com uma ligeira oscilação. Estendeu os braços para abençoar o hóspede e seus lábios murmuraram a sílaba santa: AUM (2). Enquanto isto, o rei Cansa, não escutando nenhum grito e vendo que o condutor não voltava, avançou furtivamente pela alameda e ficou petrificado de espanto ao surpreender Krishna. ajoelhado diante do santo anacoreta. Este dirigiu seus olhos cegos para Cansa e, levantando o bastão, disse-lhe: – Rei de Madura, vens aqui para matar-me. Salve! Pois tu vais me libertar da miséria deste corpo. Queres saber onde está o filho de tua irmã, Devac, que deve destroná-lo? Ei-lo, curvado diante de mim e diante de Maadeva. É Krishna, teu próprio condutor! Considera o quanto és insensato e maldito, pois que teu mais temível inimigo é ele próprio. Tu mo trouxeste para que eu lhe diga que ele é a criança predestinada. Treme! Estás perdido, pois tua alma infernal será a presa dos demônios. Cansa, estupefato, escutava. Não ousava olhar o velho face a face. Lívido de raiva e vendo Krishna sempre de joelhos, tomou o arco e, estendendo-o com toda a sua força, desfechou uma flecha contra o filho de Devac. Mas o braço tremera, o golpe desviou-se e a flecha penetrou no peito de Vasichita, que, com os braços cruzados, parecia esperar em êxtase. Um grito partiu, um grito terrível – não do peito do velho mas do de Krishna. Ele sentira a flecha vibrar rente à sua orelha, vira-a enterrada na carne do santo... e parecia-lhe que ela estava enterrada em seu próprio coração, tanto sua alma, naquele momento estava identificada com a do richi. Dir-se-ia que com aquela flecha afiada toda a dor do mundo transpassara a alma de Krishna e a dilacerara até suas profundezas. No entanto, Vasichita, com o dardo enfiado no peito, sem mudar de posição, movimentava ainda os lábios, murmurando: – Filho de Maadeva, por que gritar assim? Matar é inútil. A flecha não pode atingir a alma, e a vítima é o vencedor do assassino. Triunfa, Krishna, o destino se cumpriu: volto para Aquele que não muda jamais!
Que Brama receba minha alma! Mas tu, seu eleito, salvador do mundo, fica de pé! Krishna! Krishna! E Krishna ergueu-se, levou a mão à espada e voltou-se contra o rei. Mas, Cansa tinha fugido. Então, um clarão cortou o céu negro e Krishna caiu por terra, como que fulminado sob a luz ofuscante. Enquanto seu corpo permanecia insensível, sua alma, unida à do velho pelo poder da simpatia, elevou-se nos espaços. A Terra, com seus rios, seus mares e seus continentes, desapareceu como uma esfera negra, e todos os dois subiram ao sétimo céu dos Devas, para junto do Pai dos seres, o sol dos sóis, Maadeva, a inteligência divina. Mergulharam num oceano de luz que se abria diante deles. No centro da esfera, Krishna viu Devac, sua radiante mãe, glorificada. Com um sorriso inefável, ela estendia-lhe os braços e o atraía para si. Milhares de Devas vinham aquecer-se na irradiação da Virgem-Mãe, como em um foco incandescente. E Krishna sentiu-se absorvido pelo olhar de amor de Devac. Então, do coração da mãe radiosa, o seu ser resplandeceu através de todos os céus. Sentiu que era o Filho, a alma divina de todos os seres., a Palavra da vida, o Verbo criador. Superior à vida universal, ele, no entanto, a penetrava pela essência da dor, pelo fogo da oração e pela felicidade de um divino sacrifício (3). Quando Krishna voltou a si, o trovão ainda rolava no céu, a floresta estava sombria e torrentes de chuva despencavam sobre a cabana. Uma gazela lambia o sangue do corpo do asceta traspassado. “O velho sublime” era apenas um cadáver. Krishna ergueu-se como se tivesse ressuscitado. Um abismo o separava do mundo e de suas vãs aparências. Ele vivera a grande verdade e tinha compreendido sua missão. Quanto ao rei Cansa, aterrorizado, fugia em seu carro arrastado pela tempestade, e seus cavalos empinavam como que fustigados por mil demônios.
(1). Na Índia antiga, estas duas funções muitas vezes eram desempenhadas juntamente. Os condutores de carros dos reis eram grandes personagens e, freqüentemente, ministros dos monarcas. Há inúmeros exemplos na poesia hindu.
(2). Na iniciação bramânica, significa: o Deus supremo, o Deus- Espírito. Cada uma de suas letras corresponde a uma das faculdades divinas, popularmente falando, a uma das pessoas da Trindade.
(3). A lenda de Krishna nos faz lembrar, em sua própria fonte, a idéia da Virgem-Mãe, do Homem-Deus e da Trindade. - Na Índia esta idéia aparece desde a origem em seu simbolismo transparente, com seu profundo sentido metafísico. No livro V, cap. 11, o Visnu-Purana, após contar a concepção de Krishna por Devac, acrescenta: ‘Ninguém podia olhar para Devac, por causa da luz que a envolvia, e aqueles que contemplavam seu esplendor sentiam o espírito perturbado; os deuses, invisíveis aos mortais, continuamente entoavam-lhe louvores, porque em suas entranhas estava Visnu. Diziam eles: “Tu és Pacriti, infinita e sutil, que outrora carregou Brama em seu seio; foste a deusa da Palavra, a energia do Criador do Universo e a mãe dos Vedas. Oh! tu, ser eterno, que encerras em tua substância a essência de todas as coisas criadas és a própria criação, és o sacrifício de onde procede tudo o que produz a terra; tu és a madeira que, por sua fricção, engendra o fogo. Como Aditi, és a mãe dos deuses; como Diti, és a mãe dos datías, seus inimigos. És a luz de onde nasce o dia, és a humildade, mãe da verdadeira sabedoria; és a política dos reis, mãe da ordem; és o desejo, de onde nasce o amor; és a satisfação, de onde deriva a resignação; és a inteligência, mãe da ciência; és a paciência, mãe da coragem; todo o firmamento e as estrelas são teus filhos; de ti procede tudo o que existe... Desceste à Terra para a salvação do mundo. Tem compaixão de nós, e mostra-te favorável ao Universo, orgulha-te de carregares o deus que sustenta o mundo’ ”. Esta passagem prova que os brâmanes identificavam a mãe de Krishna com a substância universal e o princípio feminino da natureza. Fizeram dela a segunda pessoa da Trindade divina, da tríade inicial não manifestada. O Pai, Nara (o Eterno-Masculino), a Mãe, Nari (o Eterno-Feminino), e o Filho, Viradi (o Verbo-Criador), estas são as faculdades divinas. Em outras palavras: o princípio intelectual, o princípio plástico, o princípio produtor. Todos os três juntos constituem a natura naturans, para empregar uma expressão de
natura naturans Spinosa. O mundo organizado, o universo vivo, , é o produto Brama do verbo criador, que se manifesta por sua vez sob três formas: , o Espírito, corresponde ao mundo divino; Visnu, a alma, corresponde, ao mundo Siva humano; , o corpo, corresponde ao mundo natural. Nesses três mundos, o princípio masculino e o princípio feminino (essência e substância) são igualmente ativos, e o EternoFeminino se manifesta ao mesmo tempo na natureza terrestre, humana e divina. Ísis é tríplice, Cibele também. - Vemos, assim concebida, a dupla trindade, a de Deus e a do Universo, encerrando os princípios e o quadro de uma teodicéia e de uma cosmogonia. É justo reconhecer que esta idéia-mãe saiu da Índia Todos os templos antigos, todas as grandes religiões e inúmeros filósofos célebres adotaram-na. No tempo dos apóstolos e nos primeiros séculos do cristianismo, os iniciados cristãos reverenciavam o princípio feminino da natureza visível e invisível sob o nome de Santo-Espírito, representado por uma pomba, sinal da potência feminina, em todos os templos da Ásia e da Europa. Se, depois, a Igreja ocultou e perdeu a chave desses mistérios, seu sentido ainda está inscrito em seus símbolos.
VI
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.