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Capítulo 68 de 74

Os Essênios. João Batista. A Tentação — parte 3 de 8

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

O que anuncia o novo doutor? O jejum? A maceração? As penitências públicas? Não. Ele diz: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque o reino dos céus lhes pertence! Bem-aventurados aqueles que choram, porque serão consolados!” Desenrola a seguir, numa ordem ascendente, as quatro virtudes dolorosas: o poder maravilhoso da humildade, da tristeza pelos outros, o poder da bondade íntima do coração, da fome e da sede de justiça. Depois, vêm radiosas, as virtudes ativas e triunfantes: a misericórdia, a pureza do coração, a bondade militante, afinal o martírio pela justiça. “Bem-aventurado aqueles que têm o coração puro, porque eles verão a Deus!” Como o som de um sino de ouro, estas palavras entreabrem aos olhos dos ouvintes o céu que se semeia de estrelas acima da cabeça do Mestre. Eles ali vêem as humildes virtudes, não mais como pobres mulheres emancipadas, com vestes cinzentas de penitentes, mas transformadas em beatitudes, em virgens de luz, apagando com seu brilho o esplendor dos lírios e a glória de Salomão. Com a aragem de suas palmas elas espalham sobre aqueles corações alterados os perfumes do reino celeste. O maravilhoso é que esse reino não desabrocha nas distâncias longínquas do céu, mas no interior dos assistentes. Eles trocam entre si olhares admirados, e os pobres de espírito tornam-se de repente tão ricos! Mais poderoso do que Moisés, o mágico da alma tocou-lhes o coração; uma fonte imortal dele emana. Seu ensinamento popular está contido nesta palavra: o reino do céu está dentro de vós mesmos! Agora que lhes expôs os meios necessários para atingir essa felicidade inaudita, eles não se admiram mais com as coisas extraordinárias que lhes pede: matar até o desejo do mal, perdoar as ofensas, amar seus inimigos. Tão poderoso é o rio de amor que transborda de seu coração, que os arrasta. Em sua presença tudo lhes parece fácil. Imensa novidade, singular ousadia desse ensinamento; o profeta galileu coloca a vida interior da alma acima de todas as práticas exteriores, o invisível acima do visível, o reino dos céus acima dos bens da terra. Ele ordena escolher entre Deus e Mamon. Resumindo, enfim, sua doutrina, ele diz: “Amai

vosso próximo como a vós mesmos, e sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ele deixava entrever assim, sob uma forma popular, toda a profundeza da moral e da ciência. Pois o supremo mandamento da iniciação é reproduzir a perfeição divina na perfeição da alma, e o segredo da ciência reside na cadeia das semelhanças e correspondências que une em círculos crescentes o particular ao universal, o finito ao infinito. Se tal foi o ensinamento público e puramente moral de Jesus, é evidente que a seus discípulos ele deu um ensinamento íntimo, paralelo, que explicava o primeiro, que dele mostrava os recônditos e penetrava até o fundo as verdades espirituais que ele recebera da tradição esotérica dos essênios e de sua própria experiência. Tendo essa tradição sido violentamente sufocada pela Igreja a partir do século II, a maior parte dos teólogos não conhece mais o verdadeiro alcance das palavras do Cristo, com seu sentido às vezes duplo e triplo, e nelas só vêem o sentido primário e literal. Para aqueles que se aprofundaram na doutrina dos Mistérios na Índia, no Egito e na Grécia, o pensamento esotérico de Cristo anima não somente suas mínimas palavras mas também todos os atos de sua vida. Já visível nos três sinóticos, manifesta-se completamente no Evangelho de João. Eis um exemplo, que se refere a um ponto essencial da doutrina: Jesus está de passagem em Jerusalém. Não prega ainda no templo, mas cura os doentes e ensina em casa de amigos. A obra de amor deve preparar o terreno em que cairá a boa semente. Nicodemos, fariseu instruído, ouvira falar do novo profeta. Cheio de curiosidade, mas não querendo comprometer-se diante dos seus, pede uma entrevista secreta ao galileu. Jesus concorda. Nicodemos chega à noite em sua morada e lhe diz: “Mestre, sabemos que és um doutor vindo da parte de Deus; pois ninguém poderia fazer estes milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele”. Jesus respondeu-lhe: “Em verdade, em verdade, digo-te que, se um homem não nasce de novo, ele não pode ver o reino de Deus”. Nicodemos pergunta se é possível a um homem entrar de novo no ventre da mãe e nascer uma segunda vez. Jesus responde: “Em

verdade te digo que, se um homem não nascer pela água e pelo espírito, não poderá entrar no reino de Deus” (3). Jesus resume, sob essa forma evidentemente simbólica, a antiga doutrina da regeneração já conhecida nos Mistérios do Egito. Renascer pela água e pelo espírito, ser batizado com água e com fogo indica dois graus da iniciação, duas etapas do desenvolvimento interno e espiritual do homem. A água representa aqui a verdade percebida intelectualmente, isto é, de uma maneira abstrata e geral. Ela purifica a alma e desenvolve seu germe espiritual. O renascimento pelo espírito ou o batismo pelo fogo (celeste) significa a assimilação daquela verdade pela vontade, de tal sorte que ela se torna o sangue e a vida, a alma de todas as ações. Disso resulta a completa vitória do espírito sobre a matéria, o domínio absoluto da alma espiritualizada sobre o corpo transformado em instrumento dócil; domínio que desperta suas faculdades adormecidas, abre seu sentido interior, dá-lhes a visão intuitiva da verdade e a ação direta da alma sobre a alma. Esse estado equivale ao estado celeste, chamado reino de Deus por Jesus Cristo. O batismo pela água ou iniciação intelectual é portanto um começo de renascimento. O batismo pelo espírito é um renascimento total, uma transformação da alma pelo fogo da inteligência e da vontade e, por conseguinte, até certo ponto, dos elementos do corpo; numa palavra, uma regeneração radical. Daí os poderes excepcionais que confere ao homem. Eis o sentido terrestre da conversa eminentemente teosófica entre Nicodemos e Jesus. Há um segundo significado, que se poderia chamar, em poucas palavras, a doutrina esotérica sobre a constituição do homem. Segundo essa doutrina, o homem é tríplice: corpo, alma, espírito. Ele tem uma parte imortal e indivisível: o espírito; uma parte perecível e divisível: o corpo. A alma que os liga participa da natureza dos dois. Organismo vivo, ela possui um corpo etéreo e fluido, semelhante ao corpo material, que, sem esse duplo invisível, não teria vida, nem movimento, nem unidade. Conforme o homem obedece às sugestões do espírito ou às incitações do corpo, conforme ele se liga de preferência a um ou a outro, o corpo fluido eteriza-se ou adensa-se,

unifica-se ou desagrega-se. Acontece então que, após a morte física, a maior parte dos homens tem de passar por uma segunda morte, a da alma, que consiste em livrar-se dos elementos impuros de seu corpo astral, algumas vezes mesmo suportar sua lenta decomposição; enquanto o homem completamente regenerado, tendo formado desde aqui embaixo seu corpo espiritual, possui seu céu em si mesmo e se lança para a região a que o atrai sua afinidade. Ora, a água, no esoterismo antigo, simboliza a matéria fluida infinitamente transformável, como o fogo simboliza o espírito uno. Falando do renascimento pela água e pelo espírito, Cristo faz alusão àquela dupla transformação de seu ser espiritual e de seu invólucro fluido, que espera o homem depois da morte, e sem a qual ele não pode entrar no reino das almas gloriosas e dos puros espíritos. Pois “o que nasceu da carne é carne (isto é, acorrentado e perecível), e o que nasceu do espírito é espírito (isto é, livre e imortal). O vento sopra onde quer e ouves seu ruído. Mas não sabes de onde ele vem nem para onde vai. Acontece o mesmo com todo o homem que nasceu do espírito (4). Assim fala Jesus diante de Nicodemos, no silêncio das noites de Jerusalém. Uma pequena lamparina colocada entre eles ilumina vagamente as figuras dos dois interlocutores e a colunata da alta câmara. Os olhos do Mestre galileu brilham com um clarão misterioso na obscuridade. Como não acreditar na alma ao ver esses olhos ora doces, ora chamejantes? O doutor fariseu viu ruir a sua ciência dos textos, mas entrevê ao mesmo tempo um mundo novo. Viu o raio de luz nos olhos do profeta, cujos longos cabelos ruivos caem pelas espáduas. Sentiu o calor poderoso que emana de seu ser atraindo-o para ele. Viu aparecerem e desaparecerem, como uma auréola magnética, três pequenas chamas brancas em tomo de suas têmporas e de sua fronte. Então teve a impressão de sentir o vento do Espírito passar em seu coração. Comovido, silencioso, Nicodemos volta furtivamente para casa, na noite profunda. Ele continuará a viver entre os fariseus, mas, no íntimo de seu coração, permanecerá fiel a Jesus. Notemos ainda um ponto capital desse ensinamento. Na doutrina materialista, a alma é um resultado efêmero e acidental das forças do

corpo. Na doutrina espiritualista ordinária, ela é uma coisa abstrata, sem liame concebível com ele. Na doutrina esotérica, a única racional, o corpo físico é um produto do trabalho incessante da alma, que age sobre ele pelo organismo similar do corpo astral, assim como o Universo visível é apenas um dinamismo do Espírito infinito. Eis por que Jesus apresenta essa doutrina a Nicodemos como a explicação dos milagres que opera. Ela pode servir, com efeito, de chave à terapêutica oculta, praticada por ele e por um pequeno número de adeptos e de santos, antes e depois de Cristo. A medicina ordinária combate os males do corpo agindo sobre o corpo. O adepto ou o santo, sendo um foco de força espiritual e fluida age diretamente sobre a alma do doente e, mediante o corpo astral, sobre o corpo físico. Acontece o mesmo em todas as curas magnéticas. Jesus opera por meio das forças que existem em todos os homens, mas opera em alta dose, por projeções poderosas e concentradas. Apresenta aos escribas e aos fariseus seu poder de curar os corpos como uma prova de seu poder de perdoar ou de curar a alma, o que é sua finalidade superior. A cura física torna-se assim a contraprova de uma cura moral, que lhe permite dizer ao homem como um todo: Ergue-te e anda! A ciência de hoje quer explicar o fenômeno, que os antigos e a Idade Média denominavam possessão, como uma simples perturbação nervosa. Explicação insuficiente. Psicólogos, que procuram penetrar mais fundo no mistério da alma, vêem nela um desdobramento da consciência. uma erupção de sua parte latente. Essa questão relaciona-se com a dos diversos planos da consciência humana, que age ora sobre um, ora sobre outro, e cujo jogo móvel se estuda nos diversos estados sonambúlicos. Relaciona-se igualmente com o mundo supra-sensível. Seja como for, é certo que Jesus possuiu a faculdade de restabelecer o equilíbrio nos corpos perturbados e de restituir às almas a sua consciência melhor. Plotino disse: “A verdadeira magia é o amor, e o ódio é seu contrário. É por amor e ódio que os mágicos agem, em meio a seus filtros e encantamentos.” O amor, em sua mais alta consciência e em sua potência suprema, tal foi a magia do Cristo.

Numerosos discípulos participaram de seu ensinamento íntimo. Entretanto, para fazer perdurar a nova religião, era necessário um grupo de escolhidos ativos, que se tornassem os pilares do templo espiritual que ele queria edificar diante do outro. Daí a instituição dos apóstolos. Ele não os escolheu entre os essênios, porque necessitava de naturezas vigorosas e virgens, e porque queria implantar sua religião no coração do povo. Dois grupos de irmãos: Simão-Pedro e André, filhos de Jonas, de um lado; João e Tiago, filhos de Zebedeu, do outro, todos os quatro pescadores de profissão e de famílias abastadas, formaram o núcleo dos apóstolos. No início de sua missão, Jesus aparece em casa deles, em Cafarnaum, às margens do lago de Genesaré, onde tinham suas pescarias. Aloja-se na casa deles, ensina e converte toda a família. Pedro e João se destacam em primeiro plano e dominam do alto os doze, como as duas figuras principais. Pedro, coração reto e simples, espírito ingênuo e limitado, tão inclinado à esperança quanto ao desânimo, mas homem de ação capaz de conduzir os outros, por seu caráter enérgico e sua fé absoluta. João, natureza fechada e profunda, de um entusiasmo tão fervente que Jesus o chamava “filho do trovão"; além disso, espírito intuitivo, alma ardente, quase sempre concentrada em si mesma, habitualmente sonhadora e triste, com impulsos formidáveis, furores apocalípticos, mas também profundezas de ternura, que os outros eram incapazes de supor, e que somente o Mestre via. Só ele, o silencioso, o contemplativo, compreenderá seu pensamento íntimo. Ele será o evangelista do Amor e da Inteligência divina, o apóstolo esotérico por excelência. Persuadidos por sua palavra, convencidos por suas obras, dominados por sua grande inteligência e envolvidos por sua irradiação magnética, os apóstolos seguiam o Mestre de aldeia em aldeia. As pregações populares alternavam com os ensinamentos íntimos. Pouco a pouco ele abria-lhes seu pensamento. Todavia guardava ainda profundo silêncio sobre si mesmo, sobre seu papel e seu futuro. Havia-lhes dito que o reino dos céus estava próximo, que o Messias viria. Já os apóstolos murmuravam entre si: “É ele!” E o repetiam aos outros. Mas

ele próprio, com uma gravidade suave, denominava a si mesmo simplesmente “o filho do Homem”, expressão cujo sentido esotérico eles ainda não compreendiam, mas que em sua boca parecia significar: mensageiro da humanidade sofredora. Pois acrescentava ele: “os lobos têm os seus covis, mas o filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. Os apóstolos ainda viam o Messias segundo a idéia judaica popular e, em suas ingênuas esperanças, concebiam o reino dos céus como um governo político, do qual Jesus seria o rei coroado e eles, seus ministros. Combater esta idéia, transformá-la totalmente, revelar aos apóstolos o verdadeiro Messias, a realeza espiritual; comunicar-lhes aquela verdade sublime que ele denominava o Pai, aquela força suprema que ele denominava o Espírito, força misteriosa que une todas as almas ao invisível; mostrar-lhes através de seu verbo, de sua vida e de sua morte, um verdadeiro filho de Deus; deixar-lhes a convicção de que eles e todos os homens eram seus irmãos e podiam reunir-se a ele novamente se quisessem; só deixá-los depois de ter aberto à sua esperança toda a imensidão do céu – eis a obra prodigiosa de Jesus junto a seus apóstolos. Eles acreditarão ou não? Eis o cerne do drama que se desenrola entre eles e Cristo. Mas há um drama mais pungente e mais terrível que se passa no mais fundo de si mesmo. Logo chegaremos lá. Naquele momento, uma onda de alegria submerge o trágico pensamento na consciência de Cristo. A tempestade ainda não soprara sobre o lago de Tiberíades. É a primavera galiléia do Evangelho, é a aurora do reino de Deus, é o casamento místico do iniciado com sua família espiritual. Esta o segue, viaja com ele, com o cortejo dos padrinhos segue o esposo da parábola. A multidão crente comprime-se, para seguir pegadas do mestre bem-amado até as plagas do lago azul encerrado em suas montanhas como em uma taça de ouro. Ela vai das frescas margens de Cafarnaum aos maciços laranjais de Betsaída, à montanhosa Korasim, onde galhos de palmeiras umbrosas dominam todo o Mar de Genesaré. Nesse cortejo de Jesus, as mulheres têm um lugar à parte. Mães ou irmãs de discípulos, virgens tímidas ou pecadoras arrependidas rodeiam-no por toda parte. Atentas, fiéis, apaixonadas,

elas derramam por onde ele passa, como um rastro de amor, seu eterno perfume de tristeza e esperança. Não é para elas que ele precisa demonstrar que é o Messias. Vê-lo é suficiente. A estranha felicidade que emana de sua atmosfera, misturada à nota de sofrimento divino e inexprimido que ressoa no fundo de seu ser, já as convence de que ele é o filho de Deus. Jesus muito cedo havia sufocado em si mesmo a voz da carne, havia dominado, durante sua estada entre os essênios, o poder dos sentidos. Por isso conquistara o império das almas e o divino poder de perdoar, aquela volúpia dos anjos. Diz à pecadora que se arrasta a seus pés, com uma onda de cabelos esparsos e seu bálsamo derramado: “Muito lhe será perdoado, porque ela muito amou”. Palavra sublime que contém toda uma redenção, pois quem perdoa liberta. Cristo é o restaurador e o libertador da mulher, apesar do que tenham dito São Paulo e os Padres da Igreja, que, rebaixando a mulher ao papel de serva do homem, falsearam o pensamento do Mestre. Os tempos védicos tinham-se glorificado. Buda não confiava nela. Cristo elevou-a, conferindo-lhe sua missão de amor e de providência. A Mulher iniciada representa a Alma da Humanidade, Aisha, como a havia chamado Moisés, ou seja, o Poder da Intuição, a Faculdade de amar e de ver. A tempestuosa Maria Madalena, da qual Jesus expulsou sete demônios segundo a expressão bíblica, tornou-se a mais ardente de suas discípulas. Foi a primeira que viu, segundo São João, o divino Mestre, o Cristo espiritual ressuscitado em seu túmulo. A lenda procurou ver, obstinadamente, na mulher apaixonada e crente a maior adoradora de Jesus, a iniciada do coração. E não se enganou: sua história representa toda a regeneração da mulher, almejada por Cristo. Era na quinta de Betânia, entre Marta e Maria Madalena, que Jesus gostava de repousar dos labores de sua missão, a fim de se preparar para as supremas provas. Era lá que prodigalizava suas mais doces consolações e que, em suaves colóquios, falava dos divinos mistérios que ainda não ousara confiar aos discípulos. Às vezes, na hora em que o ouro do poente empalidecia entre os ramos das oliveiras, na hora em que o crepúsculo já baralhava suas finas folhagens, Jesus tornava-se pensativo. Um véu caía sobre sua fisionomia luminosa. Ele

pensava nas dificuldades de sua obra, na fé vacilante dos apóstolos, nas potências inimigas do mundo. O templo, Jerusalém, a humanidade com seus crimes e suas ingratidões, desabavam sobre ele como urna montanha viva. Seus braços erguidos para o céu seriam bastante fortes para reduzi-la a pó ou ele ficaria esmagado sob a massa enorme? Então falava vagamente de uma prova terrível que o esperava e de seu próximo fim. Impressionadas com a solenidade de sua voz, as mulheres não ousavam interrogá-lo. Apesar da inalterável serenidade de Jesus, elas compreendiam que sua alma estava como que envolta por um sudário de indizível tristeza, que o separava das alegrias da Terra. Pressentiam o destino do profeta, sentiam sua resolução inquebrantável. Por que aquelas nuvens sombrias que se erguiam para os lados de Jerusalém? Por que aquele vento ardente de febre e de morte, que passava pelo coração delas como sobre as colinas fenecidas da Judéia, de tonalidades violáceas e cadavéricas? Uma tarde... misteriosa estrela, uma lágrima brilhou nos olhos de Jesus. As três mulheres estremeceram e suas lágrimas silenciosas deslizaram também, na paz de Betânia. Elas choravam por ele. Ele chorava pela humanidade.

(1). Mateus, XI, 28.

(2). João, I, 46.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.