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Capítulo 46 de 74
A Ordem E A Doutrina
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
A cidade de Crotona ocupava a extremidade do golfo de Tarento, perto do promontório Laciniano, diante do alto mar. Era, com Síbaris, a cidade mais florescente da Itália meridional. Era admirada por sua constituição dórica, seus atletas vencedores nos jogos olímpicos, seus médicos rivais dos asclepíades. Os sibaritas devem sua imortalidade ao luxo e à indolência. Os crotoniatas seriam talvez esquecidos, apesar de suas virtudes, se não tivessem tido a glória de oferecer asilo à grande escola de filosofia esotérica, conhecida pelo nome de seita pitagórica, que se pode considerar mãe da escola platônica e avó de todas as escolas idealistas. Por mais nobres que sejam as descendentes, a avó as supera em muito. A escola platônica procede de uma iniciação incompleta; a escola estóica perdeu a verdadeira tradição. Os outros sistemas de filosofia antiga e moderna são especulações mais ou menos felizes, enquanto que a doutrina de Pitágoras estava baseada em uma ciência experimental e acompanhada de uma organização completa da vida. Como as ruínas da cidade desaparecida, os segredos da ordem e o pensamento do mestre estão hoje profundamente enterrados. Procuraremos, contudo, fazê-los reviver. Será para nós ocasião de penetrar no coração da doutrina teosófica, arcano das religiões e das filosofias, e erguer uma ponta do véu de Ísis, com a clareza do gênio grego. Várias razões levaram Pitágoras a escolher esta colônia dórica para centro da ação. Seu fim não era unicamente ensinar a doutrina esotérica a um círculo de discípulos escolhidos, mas ainda aplicar seus princípios à educação da juventude e à vida do Estado. Esse plano comportava a fundação de um instituto para a iniciação laica, com a intenção oculta de transformar, pouco a pouco, a organização política das cidades, à imagem daquele ideal filosófico e religioso. É certo que nenhuma das repúblicas da Hélade ou do Peloponeso teria tolerado esta
inovação. O filósofo foi acusado de conspirar contra o Estado. As cidades gregas do golfo de Tarento, menos minadas pela demagogia, eram mais liberais. Pitágoras não se enganou contando ali encontrar um acolhimento favorável para suas reformas, por parte do Senado de Crotona. Devemos acrescentar que suas pretensões se estendiam para além da Grécia. Adivinhando a evolução das idéias, ele previa a queda do helenismo e sonhava em depositar no espírito humano os princípios de uma religião científica. Fundando sua escola no golfo de Tarento, disseminava as idéias esotéricas na Itália e conservava, no vaso precioso de sua doutrina, a essência purificada da sabedoria oriental para os povos do Ocidente. Ao chegar a Crotona, que tendia então à vida voluptuosa de sua vizinha, Síbaris, Pitágoras promoveu uma verdadeira revolução. Porfírio e Jamblico nos pintam suas apresentações iniciais mais como as de um mágico do que de um filósofo. Reuniu os jovens no templo de Apolo e conseguiu, com sua eloqüência, arrancá-los do deboche. Reuniu as mulheres no templo de Juno e as persuadiu a levarem suas roupas douradas e seus ornamentos a este mesmo templo, como troféus à derrota da vaidade e do luxo. Cercava de graça a austeridade de seus ensinamentos. De sua sabedoria emanava uma chama comunicativa. A beleza de sua fisionomia, a nobreza de sua pessoa, o encanto de seu rosto e de sua voz completavam sua sedução. As mulheres comparavam-no a Júpiter, os jovens, a Apolo hiperbóreo. Ele cativava, arrebatava a multidão pasmada que o ouvia, fazendo-a apaixonar-se pela virtude e pela verdade. O Senado de Crotona ou inquietou-se com esta Conselho dos mil ascendência. Intimou Pitágoras a explicar diante dele sua conduta e os meios que empregava para dominar os espíritos. Para Pitágoras, esta foi uma oportunidade para desenvolver suas idéias sobre a educação e demonstrar que, longe de ameaçar a constituição dórica de Crotona, elas não fariam mais que fortalecê-la. Quando conquistou para seu projeto os cidadãos mais ricos e a maioria do Senado, propôs-lhes a criação de um instituto, para si e seus discípulos. Essa confraria de iniciados leigos levaria vida comunitária,
em um edifício construído especialmente com esse objetivo, mas sem abandonar a vida civil. Entre eles, aqueles que já mereciam o nome de mestres podiam ensinar as ciências físicas, psíquicas e religiosas. Quanto aos jovens, seriam admitidos nas lições dos mestres e nos diversos graus de iniciação, segundo sua inteligência e boa vontade, sob o controle do chefe da ordem. Para começar, deviam submeter-se às regras da vida comunitária e passar todo o dia no instituto, sob a supervisão dos mestres. Aqueles que quisessem entrar formalmente na ordem entregariam sua fortuna a um curador, com a liberdade de retomá-la quando lhes aprouvesse. Haveria no Instituto uma fala para as mulheres, com iniciação paralela, mas diferenciada e adaptada aos deveres de seu sexo. O projeto foi adotado com entusiasmo pelo Senado de Crotona. Alguns anos depois, erguia-se nos arredores da cidade um edifício cercado de imensos pórticos e belos jardins. Os habitantes de Crotona chamaram-no de Templo das Musas, E na realidade havia, no centro da construção, junto à modesta habitação do mestre, um templo dedicado àquelas divindades. Assim nasceu o instituto pitagórico, que se tornou ao mesmo tempo um colégio de educação, uma academia de ciências e uma pequena cidade-modelo, sob a direção de um grande iniciado, Pela teoria e pela prática, pelas ciências e pelas artes reunidas, chegava-se lentamente à ciência das ciências, à harmonia mágica da alma e do intelecto com o Universo, que os pitagóricos consideravam como o arcano da filosofia e da religião. A escola pitágorica tem para nós um interesse supremo, porque foi a mais notável tentativa de iniciação leiga. Síntese antecipada do helenismo e do cristianismo, ela enxertou o fruto da ciência na árvore da vida; conheceu a realização interna e viva da verdade, que somente a fé profunda pode proporcionar. Realização efêmera, mas de uma importância capital, revelou-se exemplo fecundo. Para fazermos uma idéia do que foi, penetremos no instituto pitagórico com um noviço e acompanhemos, passo a passo, sua iniciação.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.