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Capítulo 47 de 74

As Provas

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

Brilhava sobre uma colina, entre ciprestes e oliveiras, a alva morada dos irmãos iniciados. Quem viesse de baixo, ladeando a costa, veria seus pórticos, seus jardins, seu ginásio. O templo das Musas ultrapassava as duas alas do edifício com sua colunata circular, de uma elegância etérea. Do terraço dos jardins exteriores dominava-se a cidade, o Pritaneu, o porto, o local das assembléias. Ao longe, o golfo estendia-se entre as cotas pontiagudas como uma taça de ágata, e o mar Jônio arrematava o horizonte com sua Unha azulada. Algumas vezes viam-se mulheres vestidas de cores diversas saírem da ala esquerda e desceram para o mar, em longas filas, pela alameda dos ciprestes. Iam cumprir seus ritos no templo de Ceres. Freqüentemente, também da ala direita viam-se homens, em vestes brancas, subirem para o templo de Apolo. Não era o menor atrativo para a imaginação investigadora da juventude pensar que a escola dos iniciados estava colocada sob a proteção daquelas duas divindades, das quais uma, a Grande Deusa, era possuidora dos mistérios profundos da Mulher e da Terra, e a outra, o Deus solar, revelava os do Homem e do Céu. Sorria pois acima da cidade populosa a pequena cidade dos eleitos. Sua tranqüila serenidade atraía os nobres instintos na juventude, mas nada se via do que se passava no interior, e sabia-se que não era fácil fazer-se admitir ali, Uma simples cerca viva servia como defesa aos jardins pertencentes ao instituto de Pitágoras e a porta de entrada permanecia aberta durante o dia. Porém havia lá uma estátua de Hermes em cujo pedestal se lia: Eskato bébéloi: Para trás os profanos! Todo mundo respeitava esta ordem dos Mistérios. Pitágoras era muito exigente na admissão dos noviços, dizendo que “nem toda a madeira era própria para fazer um Mercúrio”. Os jovens que quisessem entrar para a associação deviam submeter-se a um período de prova e de ensaio. Apresentados por seus pais ou por um dos mestres, era-lhes permitido, no início, entrar no ginásio pitagórico, onde os noviços entregavam-se aos jogos próprios de sua idade. O jovem

notava, ao primeiro olhar, que esse ginásio não se assemelhava ao da cidade. Nada de gritos violentos, nada de grupos brigões, nada da fanfarronice ridícula ou da vã exibição da força dos atletas imaturos, desafiando-se entre si ou mostrando seus músculos. Havia grupos de jovens afáveis e distintos, passeando aos pares sob os pórticos ou jogando na arena. Eles o convidavam com graça e simplicidade a tomar parte em sua conversação, como se fosse um dos seus, sem tolhê-lo com um olhar desconfiado ou um sorriso malicioso. Na arena, exercitava-se a corrida, o arremesso do dardo e do disco. Executavam-se também combates simulados sob forma de danças dóricas; mas Pitágoras. havia severamente banido de seu instituto a luta corporal, dizendo que era supérfluo e mesmo perigoso desenvolver o orgulho e o ódio com a força e a agilidade; que os homens destinados a praticar as virtudes da amizade não deviam começar por se lançarem por terra, rolando na areia como animais selvagens; que um verdadeiro herói sabia combater com coragem, sem furor; que o ódio nos torna inferiores a qualquer adversário. O novato ouvia estas máximas do mestre repetidas pelos noviços, muito orgulhosos de lhe comunicarem sua sabedoria precoce. Ao mesmo tempo, eles o exortavam a manifestar suas opiniões, a contradizê-los livremente. Dessa forma estimulado, o pretendente ingênuo mostrava logo, abertamente, sua verdadeira natureza. Feliz por estar sendo ouvido e admirado, ele perorava e se desoprimia à vontade. Durante todo esse tempo, os mestres observavam-no de perto, sem repreendê-lo. Pitágoras vinha de improviso estudar seus gestos e suas palavras. Dava particular atenção ao modo de andar e ao riso dos jovens. O riso, segundo ele, manifesta o caráter de uma maneira indubitável; nenhuma dissimulação pode embelezar o riso do Homem mau. Ele realizara um estudo tão profundo da fisionomia humana que podia ler no fundo da alma (1). Mediante estas observações minuciosas, o mestre fazia uma avaliação precisa de seus futuros discípulos. Após alguns meses vinham as provas decisivas. Imitavam as provas da iniciação egípcia, porém bastante suavizadas e adaptadas à natureza grega, cuja

impressionabilidade não suportaria os pavores mortais das criptas de Mênfis e Tebas. Faziam o aspirante pitagórico passar a noite numa caverna, nos arredores da cidade, onde se dizia que havia monstros e aparições. Os que não tinham força para suportar as impressões fúnebres da solidão e da noite, os que recusavam entrar ou fugiam antes da manhã, eram considerados fracos para a iniciação e despedidos. A prova moral era mais séria. Numa bela manhã, bruscamente, sem nenhuma preparação, encerrava-se o candidato a discípulo numa cela triste e nua. Deixavam-lhe uma ardósia e ordenavam-lhe friamente que encontrasse o significado de um dos símbolos pitagóricos, por exemplo: “O que significa o triângulo inscrito no círculo?” ou “por que o dodecaedro compreendido na esfera é o algarismo do Universo?” Ele passava doze horas na cela. com sua ardósia e seu problema, sem nenhuma outra companhia além de pão seco e um jarro de água. Depois levavam-no para uma sala, diante dos noviços reunidos. Nessa circunstância, estes tinham ordem de escarnecer sem piedade do infeliz que, aborrecido e faminto, parecia um culpado.” – Eis, diziam eles, o novo filósofo. Seu semblante parece inspirado! Ele vai nos contar suas meditações. Não nos escondas o que descobriste. Vais passar por todos os símbolos. Com mais um mês deste regime, tu te tornarás um grande sábio!” Nesse momento o mestre observava com profunda atenção as atitudes e a fisionomia do jovem. Irritado pelo jejum, coberto de sarcasmos, humilhado por não ter resolvido um enigma incompreensível, ele precisava fazer um esforço enorme para se dominar. Alguns choravam de raiva, outros respondiam com palavras cínicas; e outros, fora de si, quebravam a ardósia com furor, cobrindo de injúrias a escola, o mestre e seus discípulos. Pitágoras aparecia então e dizia com calma que, tendo suportado tão mal a prova do amor-próprio, pedia-lhe para não mais voltar a uma escola da qual tinha tão mau conceito e cujas virtudes elementares eram a amizade e o respeito aos mestres. O candidato recusado ia embora envergonhado, e algumas vezes tornava-se inimigo terrível da ordem, como o famoso Cilon, que depois amotinou o povo contra os Pitagóricos e contribuiu para a

catástrofe da ordem. Aqueles que, ao contrário, suportavam com firmeza os ataques, que respondiam às provocações por meio de reflexões justas e espirituais, e declaravam estar dispostos a recomeçar cem vezes a prova para obterem uma única parcela da sabedoria, estes eram solenemente admitidos no noviciado e recebiam as felicitações entusiastas de seus novos condiscípulos.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.