Voltar ao livro Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

Capítulo 48 de 74

Primeiro Grau – Preparação

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

O noviciado e a vida pitagórica

Somente então começava o noviciado chamado Preparação (paraskéié), que durava pelo menos dois anos e podia prolongar-se até cinco. Os noviços ou eram submetidos, durante as ouvintes (akusikoi) lições, à regra do absoluto silêncio. Não tinham nem o direito de fazer uma objeção aos mestres, nem de discutir seus ensinamentos. Deviam recebê-los com respeito, e depois meditar longamente sobre eles. Para gravar esta regra no espírito do ouvinte novato, mostravam-lhe uma estátua de mulher envolta num longo véu, com um dedo pousado nos lábios: a Musa do silêncio. Pitágoras não acreditava que a mocidade fosse capaz de compreender a origem e o fim das coisas. Pensava que exercitá-la na dialética e no raciocínio, antes de ter-lhe dado o sentido da verdade, formaria cabeças vazias e sofistas pretensiosos. Sonhava em desenvolver em seus alunos, antes de tudo, a faculdade primordial e superior do homem: a intuição. E para isso não ensinava coisas misteriosas ou difíceis. Falava dos sentimentos naturais, dos primeiros deveres do homem em sua entrada na vida, e mostrava sua relação com as leis universais. Como inculcava primordialmente nos jovens o amor pelos pais, exaltava este sentimento assimilando a idéia de pai à de Deus, o grande criador do Universo. “Não há nada de mais venerável, dizia, do que a qualidade de pai. Homero denominou Júpiter rei dos Deuses, mas, para mostrar toda a sua grandeza, denominou-o “pai dos

Deuses e dos homens”. Comparava a mãe à natureza generosa e benfeitora. Como Cibele celeste produz os astros, como Deméter gera os frutos e as flores da Terra, assim a mãe nutre a criança com todas as alegrias. O filho devia, pois, honrar em seu pai e em sua mãe os representantes, as imagens terrestres daquelas grandes divindades. Mostrava ainda que o amor pela pátria vem do amor que se sentiu na infância pela mãe. Os pais não nos são dados por acaso, como acredita o vulgo, mas por uma ordem antecedente e superior, chamada fortuna ou necessidade. É honrá-los, mas deve-se seu amigo. Os preciso escolher noviços eram convidados a se reunirem dois a dois conforme suas afinidades. O mais jovem devia procurar no mais velho as virtudes que desejava para si e os dois companheiros deviam exercitar-se para uma vida melhor. Dizia o mestre: “O amigo é um outro eu. Deve-se honrá-lo como a um Deus”. Se a regra pitagórica impunha ao noviço ouvinte uma submissão absoluta em face dos mestres, devolvia-lhe sua plena liberdade no encanto da amizade, dela fazendo o estimulante de todas as virtudes, a poesia da vida, o caminho do ideal. As energias individuais eram assim despertadas; a moral tornavase viva e poética; a regra, aceita com amor, deixava de ser uma violência e tornava-se a própria afirmação da individualidade. Pitágoras queria que a obediência fosse uma aceitação. Além do mais, o ensino moral preparava o ensino filosófico. Pois as relações que se estabeleciam entre os deveres sociais e as harmonias do Cosmos deixavam entrever a lei das analogias e das concordâncias universais. Nesta lei reside o princípio dos Mistérios, da doutrina oculta e de toda a filosofia. O espírito do aluno habituava-se assim a encontrar a marca de uma ordem invisível na realidade visível. Máximas gerais, prescrições sucintas abriam perspectivas sobre este mundo superior. De manhã e à noite soavam aos ouvidos do aluno, com os acordes da versos dourados lira:

Dedica aos Deuses imortais o culto consagrado, fé. E conserva tua

Comentando-se esta máxima, mostrava-se que os Deuses, diversos na aparência, eram na realidade os mesmos entre todos os povos, pois correspondiam às mesmas forças intelectuais e anímicas, atuantes em todo o Universo. O sábio podia, portanto, honrar os Deuses de sua pátria tendo, de sua essência, uma concepção diferente da do vulgo. Tolerância para com todos os cultos; unidade dos povos na humanidade; unidade das religiões na ciência esotérica. . . Estas idéias novas se desenhavam vagamente no espírito do noviço, como divindades grandiosas entrevistas no esplendor do poente. E a lira de ouro continuava seus graves ensinamentos:

Reverencia a memória Dos heróis-benfeitores, dos espíritos semideuses.

Por trás destes versos, o noviço via reluzir, como que através de um véu, a divina Psiquê, a alma humana. A rota celeste brilhava como um foguete de luz. No culto dos heróis e dos semideuses, o iniciado contemplava a doutrina da vida futura e o mistério da evolução universal. Não se revelava este grande segredo ao noviço. Mas ele era preparado para compreendê-lo, ouvindo falar de uma hierarquia de seres superiores à humanidade, chamados heróis e semideuses, que são seus guias e seus protetores. Acrescentava-se que eles serviam de intermediários entre o homem e a divindade, que por meio deles ele poderia, gradativamente, se aproximar dela, praticando as virtudes heróicas e divinas. “Mas, como se comunicar com estes gênios invisíveis? De onde vem a alma? Para onde vai ela? E por que este sombrio mistério da morte?” O noviço não ousava formular estas questões, mas elas transpareciam em seus olhares. E como única resposta seus mestres mostravam-lhe combatentes na Terra, estátuas nos templos, e almas glorificadas no céu, “na cidadela ígnea dos Deuses”, onde Hércules chegara. No fundo dos mistérios antigos, todos os Deuses conduziam ao Deus único e supremo. Essa revelação, com todas as suas conseqüências, era a chave do Cosmos. Por isso ela era inteiramente

reservada à iniciação propriamente dita. O noviço nada sabia dela. Só o deixavam entrever esta verdade através do que lhe diziam sobre as potências da Música e do Número. Os números, ensinava o mestre, contêm o segredo das coisas, e Deus é a harmonia universal. Os sete modos sagrados, construídos sobre as sete notas do heptacórdio, correspondem às sete cores da luz, aos sete planetas e aos sete modos de existência que se reproduzem em todas as esferas da vida material e espiritual, desde a menor até a maior. As melodias destes modos, sabiamente infundidas, deviam afinar a alma e torná-la suficientemente harmoniosa para vibrar ao sopro da verdade. À purificação da alma correspondia necessariamente a do corpo, alcançada pela higiene e pela severa disciplina dos costumes. Vencer as paixões era o primeiro dever do iniciado. Quem não fez de seu próprio ser uma harmonia não pode refletir a harmonia divina. Entretanto, o ideal da vida pitagórica nada tinha da vida ascética, uma vez que o casamento era considerado uma coisa santa. Porém recomendava-se a castidade aos noviços e a moderação aos iniciados, como um elemento de força e perfeição. “Não cedas à volúpia senão quando consentires em ser inferior a ti mesmo”, dizia o mestre. E acrescentava que a volúpia não existe espontaneamente, comparando-a “ao canto das sereias, que desaparecem quando alguém delas se aproxima, deixando no local apenas ossos partidos e carnes ensangüentadas, sobre um recife gasto pelas ondas, ao passo que a verdadeira alegria é semelhante ao concerto das musas, que deixa na alma uma celeste harmonia”. Pitágoras acreditava nas virtudes da mulher iniciada, mas não confiava na mulher natural. A um discípulo que lhe perguntou quando lhe seria permitido aproximar-se de uma mulher, ele respondeu ironicamente: “Quando estiveres cansado de teu repouso.” O dia pitagórico ordenava-se da seguinte maneira: assim que o disco ardente do sol saía das ondas azuis do mar Jônio e dourava as colunas do templo das Musas, acima da morada dos iniciados, os jovens pitagóricos, cantavam um hino a Apolo, executando uma dança dórica de caráter másculo e sagrado. Após as abluções de rigor, faziam um passeio ao templo, guardando silêncio. Cada despertar é uma

ressurreição, que tem sua flor de inocência. A alma devia recolher-se no começo do dia e permanecer virgem para a lição da manhã. No bosque sagrado, agrupavam-se em torno do mestre ou de seus intérpretes, e a lição decorria sob a frescura das grandes árvores ou à sombra dos pórticos. Ao meio-dia faziam uma prece aos heróis, aos gênios benfazejos. A tradição esotérica supunha que os bons espíritos preferem se aproximar da terra com os raios do sol, enquanto os maus espíritos procuram a sombra e se espalham na atmosfera quando vem a noite. A refeição frugal do meio-dia compunha-se geralmente de pão, mel e azeitonas. A tarde era consagrada aos exercícios de ginástica, depois ao estudo, à meditação e a um trabalho mental sobre a lição da manhã. Após o pôr-do-sol faziam uma oração coletiva, cantavam um hino aos Deuses cosmogônicos, a Júpiter celeste, a Minerva Providência, a Diana protetora dos mortos. Durante esse tempo, o estirax, o maná ou o incenso queimavam no altar ao ar livre, e o hino, misturado ao perfume que dali exalava, subia docemente ao crepúsculo, enquanto as primeiras estrelas varavam o pálido firmamento. O dia terminava com a refeição da noite, depois da qual o mais jovem fazia uma leitura comentada pelo mais velho. Assim decorria o dia pitagórico, límpido com uma fonte, claro como uma manhã sem nuvens. O ano se ritmava segundo as grandes festas astronômicas. Assim a volta de Apolo hiperbóreo e a celebração dos mistérios de Ceres reuniam os noviços e os iniciados de todos os graus, homens e mulheres. Viam-se ali moças tocando liras de marfim, mulheres casadas em peplos púrpura e açafrão executando coros alternados, acompanhados de cantos, com movimentos harmoniosos da estrofe e da ante-estrofe, que mais tarde foram imitados pela tragédia. Em meio destas grandes festas, em que a divindade parecia presente na graça das formas e dos movimentos, na melodia incisiva dos coros, o noviço tinha como que um pressentimento das forças ocultas, das leis todo-poderosas do Universo animado, do céu profundo e transparente. Os casamentos, os ritos fúnebres tinham um caráter mais íntimo, não menos solene. Uma cerimônia original era realizada para impressionar a imaginação. Quando um noviço saía voluntariamente do instituto para

retomar a vida vulgar, ou quando um discípulo havia traído um segredo da doutrina, o que aconteceu somente uma vez, os iniciados erguiam-lhe um túmulo no recinto consagrado, como se ele tivesse morrido. O mestre dizia: “Ele está mais morto do que os mortos, pois voltou para a vida má; seu corpo passeia entre os homens, mas sua alma está morta. Choremos por ela”. E este túmulo, erguido para um ser vivo, perseguiao como seu próprio fantasma e como um sinistro augúrio.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.