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Capítulo 42 de 74

Os Anos De Viagem

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

No começo do sexto século antes de nossa era, Samos era uma das ilhas mais florescentes da Jônia. A enseada de seu porto abria-se diante das montanhas cor de violeta da quente Ásia Menor, de onde vinham todos os luxos e todas as seduções. Numa larga baía, a cidade se estendia sobre a margem verdejante e se dispunha em anfiteatro sobre a montanha, ao pé de um promontório coroado pelo templo de Netuno. As colunatas de um palácio magnífico sobressaíam. Ali reinava o tirano Polícrates. Este, depois de ter privado Samos de suas liberdades, dera-lhe o brilho das artes e de um esplendor asiático. Hetaíras de Lesbos, chamadas por ele, tinham-se estabelecido em um palácio vizinho ao seu e convidavam os jovens da cidade para festas, onde elas lhes ensinavam as volúpias mais refinadas, temperadas com música, danças e festins. Anacreonte, chamado por Polícrates a Samos, para lá se dirigiu sobre um trirreme com velas cor de púrpura e mastros dourados. E o poeta, com uma taça de prata cinzelada a mão, fez ouvir diante desta alta corte do prazer suas odes acariciantes e perfumadas como uma chuva de rosas. A sorte de Polícrates tornara-se proverbial em toda a Grécia. Ele era amigo do faraó Amasis, que várias vezes o advertira que desconfiasse de uma felicidade tão constante e que, sobretudo, dela não se gabasse. Polícrates respondeu ao aviso do monarca egípcio, atirando seu anel ao mar e dizendo: “Faço este sacrifício aos Deuses”. No dia seguinte, um pescador levou ao tirano o anel precioso que encontrara no ventre de um peixe. Quando o faraó soube disto, declarou que rompia sua amizade com Polícrates, porque uma felicidade tão insolente atrairlhe-ia a vingança dos Deuses. Seja qual for a veracidade desta historieta, o certo é que o fim de Polícrates foi trágico. Um de seus sátrapas o atraiu a uma província vizinha, mandou matá-lo sob terríveis tormentos e ordenou que pregassem seu corpo numa cruz, no monte Micala. Assim os sâmios

puderam ver, em um sangrento pôr-de-sol, o cadáver de seu tirano crucificado num promontório, diante da ilha onde ele reinara na glória e nos prazeres. Mas voltemos ao princípio do reinado de Polícrates. Em noite clara, um jovem estava sentado numa floresta de de folhas agnus-cactus luzidias, não longe do templo de Juno, cuja fachada dórica a lua cheia banhava e cuja mística majestade fazia ressaltar. Há muito tempo um rolo de papiro, contendo um canto de Homero, estendia-se a seus pés. Sua meditação, iniciada no crepúsculo, durava ainda e se prolongava no silêncio da noite. Há muito tempo o sol se pusera, mas seu disco chamejante flutuava ainda diante do olhar do jovem sonhador como algo irreal. Seu pensamento vagava longe do mundo invisível. Pitágoras era filho de um rico joalheiro de Samos e de uma mulher chamada Partênis. A Pítia de Delfos, consultada durante uma viagem, pelos jovens recém-casados, prometera-lhes “um filho que seria útil a todos os homens, em todos os tempos”, e o oráculo enviara os esposos a Sidon, na Fenícia, para que o filho predestinado fosse concebido, gerado e nascido longe das influências perturbadoras de sua pátria. Antes mesmo de seu nascimento, a criança maravilhosa fora dedicada por seus pais à luz de Apolo, na lua do amor. O menino nasceu; quando completou um ano, sua mãe, atendendo ao conselho dos sacerdotes de Delfos, levou-o ao templo de Adonai, num vale do Líbano. Lá, o pontífice o abençoou. Depois a família voltou a Samos. O filho de Partênis era muito bonito, meigo, moderado, pleno de senso de justiça. Somente a paixão intelectual brilhava em seus olhos e imprimia aos seus atos uma energia secreta. Longe de contrariálo, seus pais encorajavam sua inclinação precoce para o estudo da sabedoria. Assim, ele pôde livremente conferenciar com os sacerdotes de Samos e com os sábios que começavam a fundar, na Jônia, escolas onde ensinavam os princípios da Física. Aos dezoito anos, recebia as lições de Hermodamas, de Samos; aos vinte, as de Ferecides, em Siro. E já conferenciara com Tales e Anaximandro, em Mileto. Estes mestres tinham-lhe aberto novos horizontes, mas nenhum satisfizera. Entre seus ensinamentos contraditórios ele procurava interiormente o liame, a

síntese, a unidade do grande Todo. O filho de Partênis chegara, então, a uma dessas crises em que o espírito, superexcitado pela contradição das coisas, concentra todas as suas faculdades num esforço supremo para entrever o objetivo, para encontrar o caminho que leva ao sol da verdade, ao centro da vida. Naquela noite quente e esplêndida, o filho de Partênis contemplava alternadamente a terra, o templo e o céu estrelado. Ela estava lá, sob seus pés, ao redor dele: Deméter, a terra-mãe, a Natureza que ele queria penetrar. Ele respirava suas emanações poderosas, sentia a invencível atração que o acorrentava ao seu seio, ele, o átomo pensante, como uma parte inseparável dela. Os sábios que ele consultara tinham-lhe dito: “É dela que tudo se origina. Nada vem do nada. A alma vem da água ou do fogo, ou dos dois. Sutil emanação dos elementos, ela deles escapa apenas para a eles voltar. Resigna-te à sua lei fatal. Teu único mérito será o de conhecê-la e a ela te submeteres”. Depois, ele contemplava o firmamento e as letras de fogo que as constelações formam na profundeza insondável do espaço. Aquelas letras deviam ter um significado. Pois se infinitamente pequeno o movimento dos átomos, tem sua razão de ser, como o infinitamente grande, a dispersão dos astros, cujo agrupamento representa o corpo do Universo não o teria também? Sim! Cada um desses mundos tem sua lei própria, e todos juntos se movem conforme um Número e em harmonia suprema. Mas quem algum dia decifrará o alfabeto das estrelas? Os sacerdotes de Juno tinham-lhe dito: “Foi o céu dos Deuses que existiu antes da Terra. Tua alma vem de lá. Orai para que ela volte para lá”. Esta meditação foi interrompida por um canto voluptuoso, que saía de um jardim às margens do Imbrasus. As vozes lascivas das lésbicas harmonizavam-se langorosamente com os sons da cítara. Alguns jovens respondiam entoando árias báquicas. A estas vozes se misturaram, de repente, outros gritos penetrantes e lúgubres, que partiam do porto. Eram rebeldes que Polícrates mandava embarcar para vender como escravos na Ásia. Açoitavam-nos com correias cheias de pregos, para amontoá-los sob os pontões dos remadores. Seus urros e blasfêmias se perderam na noite. Depois, tudo voltou ao silêncio.

O jovem sentiu um estremecimento doloroso, que reprimiu para se recolher em si mesmo. O problema estava diante dele mais pungente, mais agudo. A Terra dizia: O Céu dizia: E a Fatalidade! Providência! Humanidade, que flutua entre os dois, respondia: Loucura! Dor! Escravidão! Mas, no fundo de si mesmo, o futuro adepto ouvia uma voz irrefutável que respondia às cadeias da Terra e aos clarões do céu com este grito: Liberdade! Quem, pois, teria razão? Os sacerdotes, os sábios, os loucos, os infelizes ou ele mesmo? Todas aquelas vozes diziam a verdade, cada uma delas triunfava em sua esfera, mas nenhuma lhe revelava sua razão de ser. Os três mundos existiam imutáveis, como o seio de Deméter, como a luz dos astros e como o coração humano. Mas somente aquele que soubesse encontrar sua harmonia e a lei de seu equilíbrio seria um verdadeiro sábio, somente ele possuiria a ciência divina e poderia auxiliar os homens. Na síntese dos três mundos está o segredo do Cosmos. Ao pronunciar esta palavra – que acabara de encontrar –, Pitágoras se ergueu. Seu olhar fascinado fixou-se na fachada dórica do templo. O severo edifício parecia transfigurado sob os castos raios de Diana. Ele acreditou ver ali a imagem ideal do mundo e a procurada solução do problema. Pois, a base, as colunatas, a arquitrave e o frontão triangular significam para ele, subitamente, a tríplice natureza do homem e do Universo, do microcosmo e do macrocosmo coroado pela unidade divina, que é, ela própria, uma trindade. O Cosmos, dominado e penetrado por Deus, formava: A Tétrada sagrada, imenso e puro símbolo, (1) Fonte da Natureza e modelo dos Deuses . Sim, ela estava lá, oculta naquelas linhas geométricas: a chave do Universo, a ciência dos números, a lei ternária que rege a constituição dos seres, a do setenário que preside à sua evolução. E, numa visão grandiosa, Pitágoras viu os mundos se moverem segundo o ritmo e a harmonia dos números sagrados. Viu o equilíbrio da Terra e do céu, mantido pela liberdade humana. Os três mundos, natural, humano e divino, se sustentam, determinando-se reciprocamente e representando o

drama universal por meio de um duplo movimento, descendente e ascendente. Ele adivinhou as esferas do mundo invisível envolvendo o visível e animando-o sem cessar. Concebeu, enfim, a purificação e a liberação do homem, já nesta Terra, pela tríplice iniciação. Viu tudo isto, sua vida e sua obra, numa iluminação instantânea e clara, com a certeza irrecusável do espírito que se sente diante da Verdade. Foi um relâmpago. Tratava-se, agora, de provar pela Razão o que sua pura Inteligência havia apreendido no Absoluto. E para isto era preciso uma vida de Homem, um trabalho de Hércules. Mas, onde encontrar a ciência necessária para levar a bom termo semelhante labor? Nem os cantos de Homero, nem os sábios da Jônia, nem os templos da Grécia seriam suficientes. O espírito de Pitágoras, que logo encontrara asas, mergulhou em seu passado, em seu nascimento envolto em véus e no misterioso amor de sua mãe. Uma lembrança da infância voltou-lhe com uma precisão incisiva. Recordou-se de que sua mãe o levara, com a idade de um ano, a um vale do Líbano, ao templo de Adonai. Ele se reviu muito criança, nos braços de Partênis, no meio de montanhas colossais, de florestas imensas, onde um rio caía em catarata. Ela estava de pé, num terraço à sombra de grandes cedros. Diante dela, um sacerdote majestoso, de barba branca, sorria para eles, pronunciando palavras graves que ele não compreendia. Depois, várias vezes a mãe repetira-lhe aquelas palavras do hierofante de Adonai: “Mulher de Jônia, teu filho será grande pela sabedoria; mas lembra-te que, se os gregos possuem ainda a ciência dos a ciência só se encontra no Egito”. Deuses, de Deus Aquelas palavras voltavam-lhe agora, juntamente com o sorriso materno, a bela fisionomia do ancião e o estrépito distante da catarata, dominado pela voz do sacerdote, em uma paisagem grandiosa como o sonho de outra vida. Pela primeira vez ele adivinhava o significado do oráculo. Muito ouvira sobre o saber prodigioso dos sacerdotes egípcios, e seus formidáveis mistérios; mas acreditara poder abster-se deles. Agora, entretanto, compreendia que era necessária aquela “ciência de Deus” para penetrar a fundo na natureza, e que só a encontraria nos

templos do Egito. E foi a doce Partênis, com seu instinto de mãe, que o preparara para essa obra, e o levara como uma oferenda ao Deus soberano! Nesse instante tomou a decisão de ir ao Egito e lá receber a iniciação Polícrates se gabava de proteger os filósofos tanto quanto os poetas. Apressou-se a dar a Pitágoras uma carta de recomendação para o faraó Amasis, que o apresentou aos sacerdotes de Mênfis. Estes só o receberam a contragosto e depois de muitas dificuldades. Os sábios egípcios desconfiavam dos gregos, que tachavam de levianos e inconstantes. Tudo fizeram para desencorajar o jovem de Samos. Contudo, o noviço se submeteu com uma paciência e uma coragem inquebrantáveis às demoras e às provas que lhe impuseram. Ele sabia, por antecipação, que somente chegaria ao conhecimento pelo total domínio da vontade em todo o seu ser. Sua iniciação durou vinte e dois anos, sob o pontificado do grande sacerdote de Sonchis. Já narramos, no livro de Hermes, as provas, as tentações, os pavores e os êxtases do iniciado de Ísis, até a morte aparente e cataléptica do adepto e sua ressurreição na luz de Osíris. Pitágoras atravessou todas as fases que permitiam realizar, não como uma vã teoria, mas como um elemento vivo, a doutrina do Verbo-Luz ou da Palavra universal e da evolução humana através dos sete ciclos planetários. A cada passo daquela vertiginosa ascensão as provas se repetiam sempre mais terríveis. Ali, cem vezes correu risco de vida, sobretudo quando queriam levá-lo ao manejo das forças ocultas, à perigosa prática da magia e da teurgia. Como todos os grandes homens, Pitágoras tinha fé em sua estrela. Nada que pudesse conduzi-lo à ciência o desanimava, e o medo da morte não o detinha, porque queria a vida do Além. Quando os sacerdotes egípcios reconheceram nele uma força de alma extraordinária e aquela paixão impessoal pela sabedoria, que é a coisa mais rara no mundo, abriram-lhe os tesouros de sua experiência. Foi entre eles que Pitágoras se formou e adquiriu sua têmpera. Foi lá que pôde se aprofundar na matemática sagrada, a ciência dos números ou dos princípios universais, da qual ele fez o centro de seu sistema,

formulando-a de uma maneira nova. A severidade da disciplina egípcia nos templos fê-lo conhecer, por outro lado, a força prodigiosa da vontade humana sabiamente exercida e treinada, suas aplicações infinitas tanto no corpo quanto na alma. “A ciência dos números e a arte da vontade são as duas chaves da magia”, diziam os sacerdotes de Mênfis; “elas abrem todas as portas do Universo”. Foi, pois, no Egito, que Pitágoras adquiriu a visão elevada que permite perceber as esferas da vida e as ciências em uma ordem concêntrica, compreender a involução do espírito na matéria pela criação universal e sua evolução ou subida para a unidade por aquela criação individual que se chama o desenvolvimento de uma consciência. Pitágoras atingira o ápice do sacerdócio egípcio e sonhava, talvez, em voltar à Grécia, quando foi desencadeada a guerra na bacia do Nilo, com todos os seus flagelos e arrastou o iniciado de Osíris em um novo turbilhão. Há muito tempo os déspotas da Ásia tramavam a derrota do Egito. Durante séculos, seus repetidos ataques haviam fracassado diante da sabedoria das instituições egípcias, diante da força do sacerdócio e da energia dos faraós. Mas o imemorial. reino, asilo da ciência de Hermes, não devia durar eternamente. O filho do vencedor da Babilônia, Cambises, abateu-se sobre o Egito com seus exércitos inumeráveis e famintos como nuvens de gafanhotos, e pôs fim à instituição do faraonato, cuja origem se perdia na noite dos tempos. Aos olhos dos sábios era uma catástrofe, para o mundo inteiro. Até então, o Egito defendera a Europa da Ásia. Sua influência protetora se estendia ainda sobre toda a bacia do Mediterrâneo, sobre templos da Fenícia, da Grécia e da Etrúria, com os quais o alto sacerdócio egípcio mantinha relações constantes. Uma vez desmoronado esse baluarte, o Touro iria precipitarse, de cabeça baixa, sobre as margens do mundo helênico. Pitágoras viu, pois, Cambises invadir o Egito. Viu o déspota persa, digno herdeiro das celeradas coroas de Nínive e Babilônia, saquear os templos de Mênfis e de Tebas e destruir o de Âmon. Viu o faraó Psamenit acorrentado e conduzido diante de Cambises, colocado numa colina, ao redor da qual foram enfileirados os sacerdotes, as principais famílias e a corte do rei. Viu a filha do faraó, vestida de

farrapos e acompanhada de todas as suas damas de honra, nos mesmos trajes, e dois mil jovens ameaçados, com o cabresto ao pescoço, antes de serem decapitados. Viu o faraó Psamenit reprimindo seus soluços diante desta cena horrorosa; e o infame Cambises, sentado no trono, se divertia com a dor de seu adversário abatido. Cruel, mas instrutiva lição da História, depois das lições da Ciência! Que imagem da natureza animal desencadeada no homem, resultando neste monstro de despotismo, que esmaga tudo e impõe à humanidade o reinado do mais implacável destino por sua hedionda apoteose! Cambises mandou Pitágoras à Babilônia, com uma parte do sacerdócio egípcio e ali o manteve confinado (2). Aquela cidade colossal, que Aristóteles compara a um país cercado de muros, oferecia então um imenso campo de observação. A antiga Babel, a grande prostituta dos profetas hebreus, era mais do que nunca, após a conquista persa, um pandemônio de povos, idiomas, cultos e religiões, em cujo seio o despotismo asiático erigia sua torre vertiginosa. Segundo as tradições persas, sua fundação remontava à legendária Semíramis. Fora esta, diziam, quem mandara construir seu recinto colossal, de oitenta e cinco quilômetros de contorno; o Imgum-Bel, suas muralhas, onde duas carruagens corriam de frente, seus terraços superpostos, seus palácios maciços com relevos policrômicos, seus templos sustentados por elefantes de pedra e encimados por dragões multicores. Lá tinha-se sucedido a série de déspotas que escravizara a Caldéia, a Assíria, a Pérsia, uma parte da Tartária, a Judéia, a Síria e a Ásia Menor. Para lá Nabucodonosor, o assassino dos magos, arrastara em cativeiro o povo judeu, que continuava a praticar seu culto em um recanto da imensa cidade na qual Londres caberia quatro vezes. Os judeus tinham até fornecido ao grande rei um ministro poderoso: o profeta Daniel. Com Baltazar, filho de Nabucodonosor, as muralhas da velha Babel finalmente desmoronaram, sob os golpes vingadores de Ciro. E Babilônia ficou por vários séculos sob o domínio persa. Devido a essa série de acontecimentos anteriores, no momento em que Pitágoras ali chegou, três religiões diferentes conviviam no alto do

sacerdócio de Babilônia; os antigos padres caldeus, os sobreviventes do magismo persa e a elite do cativeiro judaico. O que prova que esses diversos sacerdotes se harmonizavam entre si pelo lado esotérico; é precisamente o papel de Daniel, que, sempre dando testemunho do Deus de Moisés, permaneceu primeiro-ministro sob Nabucodonosor, Baltazar e Ciro. Pitágoras teve de alargar seus horizontes, já tão vastos, estudando todas aquelas doutrinas, religiões e cultos, cuja síntese alguns iniciados ainda conservavam. Ele pôde aprofundar na Babilônia os conhecimentos dos magos, herdeiros de Zoroastro. Se somente os sacerdotes egípcios possuíam as chaves universais das ciências sagradas, os magos persas tinham a reputação de terem propagado a prática de certas artes. Eles se atribuíam o manejo daqueles poderes ocultos da natureza que se chamam o fogo pantomórfico e a luz astral. Dizia-se que em seus templos as trevas advinham em pleno dia, as lâmpadas se acendiam sozinhas, viam-se resplandecer os Deuses e ouvia-se cair o raio. Os magos chamavam de àquele fogo leão celeste incorpóreo, agente gerador da eletricidade, que sabiam condensar ou dissipar a sua vontade, e de serpentes às correntes elétricas da atmosfera, magnéticas da Terra, que pretendiam dirigir como flechas sobre os homens. Tinham feito também um estudo especial do poder sugestivo, atrativo e criador do verbo humano. Empregavam, para a evocação dos espíritos, formulários graduados e copiados dos mais antigos idiomas da Terra. Eis a razão psíquica que apresentavam para isso: “Não mudai nada nos nomes bárbaros da evocação. Porque eles são os nomes panteísticos de Deus. São magnetizados pelas adorações de uma multidão e seu poder é inefável” (3). Essas evocações, praticadas no meio das purificações e das preces, eram, propriamente falando, o que se chamou mais tarde de magia branca. Na Babilônia, Pitágoras penetrou nos arcanos da antiga magia. Ao mesmo tempo, naquele antro do despotismo, viu um grande espetáculo: sobre os destroços das religiões decadentes do Oriente, acima de seu sacerdócio dizimado e degenerado, um grupo de iniciados intrépidos, unidos, defendiam sua ciência, sua fé e, tanto quanto possível, a justiça.

De pé diante dos déspotas, como Daniel na cova dos leões, sempre preparados para serem devorados, eles fascinavam e domavam a fera do poder absoluto, por meio de seu poder intelectual, e com ela disputavam passo a passo o terreno. Depois de sua iniciação egípcia e caldaica, o filho de Samos sabia muito mais do que seus mestres de Física e do que qualquer grego, padre ou leigo, de seu tempo. Conhecia os princípios eternos do Universo e suas aplicações. A natureza descerrara-lhe seus abismos; os pesados véus da matéria tinham-se dilacerado a seus olhos, para mostrar-lhe as esferas maravilhosas da natureza e da humanidade espiritualizada. No templo de em Mênfis no de na Neit-Ísis, Bel, Babilônia, ele apreendera muitos segredos sobre o passado das religiões, sobre a história dos continentes e das raças. Pudera comparar as vantagens e os inconvenientes do monoteísmo judeu, do politeísmo grego, do trinitarismo hindu. e do dualismo persa. Sabia que todas religiões eram raios de uma mesma verdade, filtrados por diversos graus de inteligência e para diversos estados sociais. Ele possuía a chave, isto é, a síntese de todas estas doutrinas na ciência esotérica. Seu olhar, abrangendo o passado, mergulhando no futuro, julgava o presente com uma singular lucidez. Sua experiência mostrava-lhe a humanidade ameaçada dos maiores flagelos, pela ignorância dos sacerdotes, pelo materialismo dos sábios e pela indisciplina das democracias. Em meio ao afrouxamento universal, ele via crescer o despotismo asiático. E daquela nuvem negra um ciclone formidável iria precipitar-se sobre a Europa indefesa. Já era tempo de voltar à Grécia, para lá cumprir sua missão, começar sua obra. Pitágoras estivera confinado na Babilônia durante doze anos. Para sair de lá era preciso uma ordem do rei dos persas. Um compatriota, Demócedes, médico do rei, intercedeu a seu favor e obteve a liberdade do filósofo. Pitágoras voltou então para Samos, após trinta e quatro anos de ausência. Encontrou sua pátria esmagada sob o domínio de um sátrapa do grande rei. Escolas e templos estavam fechados; poetas e sábios

tinham fugido, como um bando de andorinhas diante do cesarismo persa. Pelo menos ele teve a consolação de recolher o último suspiro de seu primeiro mestre, Hermodamos, e de reencontrar a mãe, Partênis, a única que não duvidara de seu regresso. Pois toda a gente acreditava morto o filho aventuroso do joalheiro de Samos. Ela, porém, jamais duvidara do oráculo de Apolo; e agora compreendia que, sob as vestes brancas de sacerdote egípcio, seu filho se preparava para uma elevada missão. Ela sabia que do templo de Neit-Ísis sairia o mestre benfeitor, o profeta luminoso, com o qual havia sonhado no bosque sagrado de Delfos, e que o hierofante de Adonai lhe prometera, às sombras dos cedros do Líbano. Agora sobre as ondas azuladas das Cícladas um barco veloz levava mãe e filho para um novo exílio. Com todos os seus haveres, eles fugiam de Samos, oprimida e perdida. Iam para a Grécia. Não eram as coroas olímpicas, nem louros do poeta que tentavam o filho de Partênis. Sua obra era mais misteriosa e maior: despertar a alma adormecida dos Deuses nos santuários; restituir ao templo de Apolo a força e o prestígio; depois fundar, em alguma parte, uma escola de ciência e de vida, de onde sairiam, não políticos e sofistas, mas mulheres e homens iniciados, mães verdadeiras e heróis puros!

Versos dourados de Pitágoras, (1). tradução de Fabre d'Olivet.

(2). Jamblique lembra este fato, em sua Vie de Pythagore.

Oráculos de Zoroastro (3). recolhidos na teurgia de Proclus.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.