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Capítulo 4 de 74

As Raças Humanas E As Origens Da Religião — parte 1 de 2

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

ele me gerou. Tenho por família toda esta “O Céu é meu Pai, corte celeste. Minha Mãe é a grande Terra. A parte mais alta de sua superfície é sua matriz; lá o Pai fecunda o seio daquela que é sua esposa e sua filha”. Eis o que cantava o poeta védico, há quatro ou cinco mil anos, diante de um altar feito de terra, onde ardia um fogo de ervas secas. Um vaticínio profundo, uma consciência grandiosa transpira nestas palavras estranhas. Elas encerram o segredo da dupla origem da humanidade. Anterior e superior à Terra é o tipo divino do homem; celeste é a origem de sua alma. Seu corpo, entretanto, é o produto dos elementos terrestres fecundados por uma essência cósmica. Na linguagem dos Mistérios, os amplexos de Urano e da grande Mãe significam chuvas de almas ou de mônadas espirituais que vêm fecundar os germes terrestres; os princípios organizadores sem os quais a matéria não passaria de massa inerte e difusa. A parte mais alta da superfície terrestre, que o poeta védico chama de matriz da Terra, designa os continentes e as montanhas, berços das raças humanas. Quanto ao Céu - o Varuna, Urano dos gregos -, ele representa a ordem invisível, hiperfísica, eterna e intelectual, e abrange todo o Infinito do Espaço e do Tempo. Neste capítulo, apenas consideraremos as origens terrestres da humanidade, segundo as tradições esotéricas confirmadas pela ciência antropológica e etnológica de nossos dias. As quatro raças que atualmente partilham o globo são filhas de terras e de zonas diversas. Criações sucessivas, lentas elaborações da Terra em movimento se deram, e os continentes emergiram dos mares,

em intervalos de tempos consideráveis, que os antigos sacerdotes da Índia denominavam ciclos interdiluvianos. Através de milhares de anos, cada continente produziu sua flora e sua fauna, coroada por uma raça humana de cor diferente. O continente austral, submergido no último grande dilúvio, foi o berço da primitiva raça vermelha, da qual os índios da América são apenas os resquícios provindos de trogloditas que atingiram o cimo das montanhas quando seu continente se desmoronou. A África é a mãe da raça negra, chamada etíope pelos gregos. A Ásia trouxe à. luz a raça amarela, que se mantém nos chineses. A última a surgir, a raça branca, saiu das florestas da Europa, entre as tempestades do Atlântico e os sorrisos do Mediterrâneo. Todas as variedades humanas resultam das misturas, das combinações, das degenerescências ou das seleções destas quatro raças. Nos ciclos precedentes, a raça vermelha e a raça negra reinaram sucessivamente, por meio de poderosas civilizações, que deixaram traços nas construções ciclópicas como na arquitetura do México. Os templos da Índia e do Egito conservavam cifras e tradições sumárias destas civilizações desaparecidas. Em nosso ciclo, é a raça branca que domina e se avaliarmos a provável antigüidade da Índia e do Egito, poderemos deduzir que sua preponderância data de sete ou oito mil anos (1). Segundo as tradições brâmanes, a civilização teria começado na Terra com a raça vermelha, no continente austral, há cinqüenta mil anos, quando toda a Europa e uma parte da Ásia ainda estavam submersas. Estas mitologias falam também de uma raça anterior, de gigantes. Em algumas cavernas do Tibete foram encontrados ossos humanos gigantescos, cuja formação se assemelha muito mais ao macaco do que ao homem. Eles se relacionam a uma humanidade primitiva, intermediária, ainda vizinha da animalidade, que não possuía linguagem articulada, nem organização social, nem religião. Pois estas três coisas brotam sempre ao mesmo tempo; eis aí o sentido desta notável tríade bárdica que diz: “Três coisas são primitivamente contemporâneas - Deus, a luz e a liberdade”. Com o primeiro balbucio da palavra nasce a sociedade e a vaga suspeita de uma ordem divina. É

o sopro de Jeová na boca de Adão, o verbo de Hermes, a lei do primeiro Manu, o fogo de Prometeu. Um Deus estremece no fauno humano. A raça vermelha, como dissemos, ocupava o continente austral hoje submerso, chamado Atlântida por Platão, segundo as tradições egípcias. Um grande cataclismo o destruiu em parte e dispersou seus destroços. Várias raças polinésias, assim como os indígenas da América do Norte e os astecas, que Pizarro encontrou no México, são sobreviventes dessa raça vermelha cuja civilização, para sempre perdida, teve seus dias de glória e de esplendor material. Todos esses pobres retardatários carregam na alma a melancolia incurável das velhas raças que definham sem esperança. Depois da raça vermelha foi a raça negra que dominou o globo. É preciso procurar o tipo superior não no negro degenerado, mas no abissínio e no núbio, nos quais se conserva o molde desta raça que um dia atingiu o apogeu. Em tempos pré-históricos, os negros conquistaram o sul da Europa, tendo sido depois rechaçados pelos brancos. Sua lembrança foi completamente apagada de nossas tradições populares. Entretanto, ali deixaram duas marcas indeléveis: o horror ao dragão, o emblema de seus reis, e a idéia de que o diabo é negro. Os negros devolveram o insulto à raça rival fazendo branco o seu próprio diabo. No tempo de sua soberania, os negros tiveram centros religiosos no Alto-Egito e na Índia. Suas cidades ciclópicas guarneciam as montanhas da África, do Cáucaso e da Ásia central. Sua organização social consistia em uma teocracia absoluta. No ápice, sacerdotes temidos como deuses; embaixo, tribos inquietas, sem família reconhecida, as mulheres escravas. Esses sacerdotes tinham conhecimentos profundos, o princípio da unidade divina do Universo e o culto dos astros que, sob o nome de sabeísmo, se infiltrou entre os povos brancos (2). Mas, entre a ciência dos sacerdotes negros e o fetichismo grosseiro das massas, não havia absolutamente intermediário, nem arte idealista nem mitologia sugestiva. De resto, uma indústria já adiantada, sobretudo a arte de manejar massas de pedras colossais, por meio da balística, e de fundir metais nas imensas fornalhas, nas quais trabalhavam os prisioneiros de guerra. Nessa raça poderosa pela resistência física, pela energia

passional e pela capacidade de dedicação, a religião foi, entretanto, o reinado da força pelo terror. A Natureza e Deus quase não se mostram à consciência desses povos infantis, a não ser sob a forma do dragão, o terrível animal antediluviano que os reis mandavam pintar em suas bandeiras e que os sacerdotes esculpiam no alto da porta de seus templos. Se o sol da África fomentou a raça negra, dir-se-ia que os gelos do pólo ártico viram a eclosão da raça branca. São os hiperbóreos de que fala a mitologia grega. Estes homens de cabelos ruivos, olhos azuis, vieram do Norte através das florestas iluminadas por clarões boreais, acompanhados por cães e renas, comandados por chefes intrépidos e conduzidos por mulheres videntes. Cabeleiras de ouro e olhos azuis, cores predestinadas. Esta raça iria inventar o culto do sol e do fogo sagrado, e trazer ao mundo a nostalgia do céu. Ora se revoltaria contra ele até querer assaltá-lo, ora se prosternaria diante de seus esplendores em uma adoração absoluta. Como as outras raças, a raça branca também teve que se livrar do estado selvagem, para depois tomar consciência de si mesma. Suas características distintivas são o gosto pela liberdade individual, a sensibilidade meditada que gera o poder da simpatia, e a predominância do intelecto que atribui à imaginação uma aparência idealista e simbólica. A sensibilidade anímica motivou a dedicação, a preferência do homem por uma única mulher; daí a tendência dessa raça à monogamia, o princípio conjugal e a família. A necessidade de liberdade, somada à sociabilidade, originou o clã com seu princípio eletivo. A imaginação ideal criou o culto dos ancestrais, que constitui a raiz e o centro da religião dos povos brancos. O princípio social e político se manifesta no dia em que alguns homens semi-selvagens, perseguidos por um populacho inimigo, se reúnem instintivamente e escolhem o mais forte e o mais inteligente dentre eles, para os defender e comandar. Nesse dia nasceu a sociedade. O chefe é um rei em potencial, seus companheiros, os futuros nobres; os velhos que deliberavam, mas eram incapazes de marchar, formam já uma espécie de senado ou assembléia dos anciãos.

E corno nasceu a religião? Dizem que foi do temor do homem primitivo diante da natureza. Mas o temor nada tem de comum com o respeito e o amor. Ele não liga o fato à idéia, o visível ao invisível, o homem a Deus. Enquanto o homem não fez senão tremer diante da natureza, ele não foi homem. Tornou-se homem no dia em que percebeu o liame que o prendia ao passado e ao futuro, a algo de superior e benigno e passou a adorar esse mistério desconhecido. Todavia, de que maneira ele o adorou pela primeira vez? Fabre d'Olivet levantou uma hipótese genial e sugestiva sobre a forma como deve ter-se estabelecido o culto dos ancestrais na raça branca (3). Em um clã belicoso, dois guerreiros rivais discutem. Furiosos, eles vão se bater; e já estão atracados, quando uma mulher desgrenhada se atira entre eles e os separa. É a irmã de um deles e esposa do outro. Seus olhos lançam chispas, sua voz tem a tônica do comando. Ela grita com palavras ofegantes, incisivas, que vira na floresta o Ancestral da raça; o guerreiro vitorioso de outrora, o herói lhe aparecera. Ele não quer que dois guerreiros irmãos briguem entre si, mas que se unam contra o inimigo comum. “É a sombra do grande Ancestral, é o herói que me disse - clama a mulher exaltada - ele me falou! Eu vi!” E ela acredita no que diz. Convencida, ela convence. Emudecidos, assombrados e como que aterrados por uma força invencível, os adversários se dão as mãos, reconciliados, e olham para a mulher inspirada, como se ela fosse uma espécie de divindade. Tais sugestões seguidas de bruscas mudanças devem ter sido numerosas e das mais diversas formas na vida pré-histórica da raça branca. Entre os povos bárbaros, é a mulher quem, por sua sensibilidade nervosa, logo pressente o oculto, afirma o invisível. Procuremos agora vislumbrar as conseqüências inesperadas e prodigiosas de um tal acontecimento. No clã, na povoação, todo mundo fala do fato maravilhoso. O carvalho, onde a mulher inspirada viu o Ancestral, torna-se uma árvore sagrada. Para lá a reconduzem e, sob a influência magnética da Lua, que a mergulha num estado visionário, ela continua a profetizar em nome do grande Ancestral. Logo, esta mulher e outras

semelhantes, de pé sobre os rochedos, em meio às clareiras, ao ruído do vento e do Oceano longínquo, evocarão as almas diáfanas dos ancestrais diante das multidões palpitantes, que os verão ou acreditarão vê-los, seduzidas pelos mágicos sortilégios das brumas flutuantes de transparências lunares. O último dos grandes Celtas, Ossian, evocará Fingal e seus companheiros reunidos nas nuvens. Assim foi, na própria origem da vida social, que se estabeleceu o culto dos antepassados na raça branca. O grande Ancestral toma-se o Deus da coletividade. Eis o começo da religião. Mas, isto não é tudo. Em tomo da profetisa se reúnem os velhos, que a observam durante seus sonos lúcidos e seus êxtases proféticos. Estudam seus diversos estados, controlam suas revelações e interpretam seus oráculos. Observam que quando ela profetiza no estado visionário, sua fisionomia se transfigura, sua palavra se torna rítmica, sua voz se eleva e profere seus oráculos cantando numa melopéia grave e significativa (4). Daí o verso, a estrofe, a poesia e a música, cuja origem é considerada divina entre todos os povos da raça ariana. A idéia da revelação só poderia surgir a propósito de fatos dessa ordem. Assim também vemos brotar a religião e o culto, os sacerdotes e a poesia. Na Ásia, no Irã e na Índia, onde os povos de raça branca fundaram as primeiras civilizações arianas misturando-se a povos de cores diversas, os homens rapidamente sobrepujaram as mulheres quanto à inspiração religiosa. Aí, só ouvimos falar de sábios, de , de richis profetas. A mulher repelida, submissa, é sacerdotisa apenas no lar. Mas, na Europa, a característica do papel preponderante da mulher é reencontrada nos povos da mesma origem, que permaneceram bárbaros durante milhares de anos. Isto se manifesta na pitonisa escandinava, na Voluspa de Edda, nas druidisas célticas, nas mulheres adivinhas que acompanhavam os exércitos germânicos e decidiam o dia das batalhas (5), e até nas bacantes da Trácia que subsistem na lenda de Orfeu. A vidente pré-histórica continua na Pítia de Delfos. As primitivas profetisas da raça branca se organizam em colégios de druidisas, sob a supervisão dos velhos instruídos ou druidas, os homens do carvalho. No início elas apenas faziam o bem. Por sua

intuição, sua capacidade de adivinhar e seu entusiasmo, elas impulsionaram intensamente a raça que apenas começava a luta com os negros, que duraria séculos. Mas foram inevitáveis a rápida corrupção e os enormes abusos desta instituição. Sentindo-se donas dos destinos dos povos, as druidisas quiseram dominá-los a todo custo. Faltando-lhes a inspiração, elas tentaram reinar pelo terror. Exigiram sacrifícios humanos e fizeram deles o elemento essencial de seu culto. Nisso, favoreciam-nas os instintos heróicos de sua raça. Os brancos eram corajosos. Seus guerreiros desprezavam a morte e, ao primeiro apelo, vinham espontaneamente e por bravata se lançar sob o cutelo das sacerdotisas sanguinárias. Durante as hecatombes humanas, os vivos eram despachados para a casa dos mortos como mensageiros, e se acreditava assim obter os favores dos ancestrais. Essa ameaça perpétua, pairando sobre a cabeça dos primeiros chefes pela boca das profetisas e das druidisas, tornou-se em suas mãos um formidável instrumento de domínio. Eis o primeiro exemplo de perversão que fatalmente sofrem os mais nobres instintos da natureza humana, quando não são orientados por uma autoridade sábia ou dirigidos para o bem por uma consciência superior. Abandonada à contingência da ambição e da paixão pessoal, a inspiração degenera em superstição, a coragem em ferocidade, a idéia sublime do sacrifício em instrumento de tirania, em exploração pérfida e cruel. Entretanto, a raça branca estava apenas no início de sua violência e loucura. Apaixonada na esfera anímica, ela deveria atravessar muitas outras crises e mais sangrentas. Acabava de ser sacudida pelos ataques da raça negra que começava a invadir o sul da Europa. Luta desigual no início. Os brancos, ainda semi-selvagens, saindo de suas florestas e habitações lacustres, não tinham outros recursos a não ser suas lanças e flechas com pontas de pedra. Os negros possuíam armas de ferro, armaduras de bronze, todos os recursos próprios de uma civilização industriosa em cidades ciclópicas. Esmagados no primeiro embate, os brancos, levados para o cativeiro, se tornaram escravos dos negros, que os obrigaram a trabalhar na pedra e a transportar minério para seus

fornos. No entanto, prisioneiros evadidos levaram para suas pátrias os costumes, as artes e os fragmentos de ciência de seus vencedores. Aprenderam dos negros duas coisas capitais: a fundição dos metais e a escritura sagrada, isto é, a arte de fixar certas idéias, por meio de sinais misteriosos e hieróglifos em peles de animais, na pedra ou na casca de árvore. Daí provêm as runas dos celtas. O metal fundido e forjado foi o instrumento da guerra; a escritura sagrada foi a origem da ciência e da tradição religiosa. A luta entre a raça branca e a negra oscilou, durante longos séculos, dos Pirineus ao Cáucaso e do Cáucaso ao Himalaia A salvação dos brancos foram suas florestas, onde como feras eles podiam se esconder para saltar no momento propício. Ousados, aguerridos, a cada século mais bem armados, eles enfim se vingaram, arrasando as cidades dos negros, expulsando-os das costas da Europa e invadindo por sua vez o norte da África e o centro da Ásia ocupado pelos povos melaninos. O cruzamento das duas raças se operou de duas maneiras diferentes, seja pela colonização pacífica, seja pela conquista belicosa. Fabre d'Olivet, o maravilhoso vidente do passado pré-histórico da humanidade, parte dessa idéia para emitir uma opinião luminosa sobre a origem dos povos chamados semitas e dos povos arianos. Nas regiões onde os colonos brancos se submeteram aos povos negros, aceitando seu domínio e recebendo de seus sacerdotes a iniciação religiosa, originaram-se os povos semitas, tais como os egípcios, antes de Menes, os árabes, os fenícios, os caldeus e os judeus, As civilizações arianas, ao contrário, se teriam originado nas regiões onde os brancos dominaram os negros por meio da guerra ou da conquista, ou seja, os iranianos, os gregos, os hindus e os etruscos. Quando falamos em povos arianos, incluímos também todos os brancos que permaneceram no estado bárbaro e nômade na Antigüidade, tais como os citas, os getos, os sármatos, os celtas e, mais tarde, os germanos. Dessa maneira se explicaria a diversidade fundamental das religiões e também da escrita existente nas duas grandes categorias de nações. Entre os semitas, onde a intelectualidade da raça negra dominou primitivamente, nota-se, acima da idolatria popular, uma tendência ao monoteísmo - o princípio

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