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Capítulo 66 de 74

Os Essênios. João Batista. A Tentação — parte 1 de 8

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

O que ele queria saber só podia ser aprendido com os essênios. Os Evangelhos mantiveram um silêncio absoluto sobre os fatos e sobre as ações de Jesus antes de seu encontro com João Batista, no qual, afirmam, Jesus de algum modo tomou posse de seu ministério. Logo depois ele aparece na Galiléia com uma doutrina definida, com a segurança de um profeta e a consciência de ser o Messias. Mas é evidente que este início ousado e premeditado foi precedido de um longo desenvolvimento e de uma verdadeira iniciação. Não é menos certo que essa iniciação deve ter-se processado na única associação que conservava em Israel as verdadeiras tradições e o gênero de vida dos profetas. Disso não há qualquer dúvida para aqueles que, elevando-se acima da superstição da palavra e da mania mecânica do documento escrito, ousam descobrir o encadeamento das coisas por meio de seu espírito. Essa dedução ressalta não somente das relações íntimas entre a doutrina de Jesus e a dos essênios, mas ainda do próprio silêncio mantido por Cristo e os seus sobre aquela seita. Por que ele, que ataca com uma liberdade sem igual todas as seitas religiosas de seu tempo, jamais se refere aos essênios? Por que os apóstolos e os evangelistas também não falam sobre eles? Evidentemente, porque consideram os essênios como irmãos, ligados a eles pelo juramento dos Mistérios, e porque a seita foi fundada com a dos cristãos. A ordem dos essênios constituía, no tempo de Jesus, o último remanescente daquelas confrarias de profetas organizadas por Samuel. O despotismo dos senhores da Palestina, a inveja de um sacerdócio ambicioso e servil forçaram-nos ao recolhimento e ao silêncio. Eles não mais lutavam como seus predecessores; contentavam-se em conservar a tradição. Os essênios tinham dois centros principais: um no Egito, à margem do lago Maoris; outro na Palestina, em Engaddi, à margem do mar Morto. O nome essênios provinha do termo sírio Asaya, que em

grego significa médicos, terapeutas, porque sua única missão publicamente difundida era a de curar as doenças físicas e morais. Segundo Josefo, “eles estudavam com grande interesse certos escritos de Medicina que tratavam das virtudes ocultas das plantas e dos minerais” (1). Alguns possuíam o dom da profecia, como Menahem, que predisse a Herodes que ele seria rei. “Eles servem a Deus, diz Fílon, com uma grande piedade, não oferecendo-lhe vítimas, mas santificando o espírito. Evitam as cidades e dedicam-se às artes da paz. Não existe um só escravo entre eles. São todos livres e trabalham uns pelos outros.(2) As regras da ordem eram severas. Para ingressar era necessário um noviciado de um ano. Quem dava provas suficientes de temperança era admitido nas abluções, sem contudo entrar em contato com os mestres. Eram precisos mais dois anos de provas para ser recebido na confraria. Jurava-se “por terríveis juramentos” observar os deveres da ordem e nada revelar de seus segredos. Somente então tomava-se parte nas refeições comuns, que se celebravam com grande solenidade e constituíam o culto íntimo dos essênios. Consideravam sagrada a vestimenta que traziam nessas refeições e tiravam-na antes de se entregarem ao trabalho. Esses ágapes fraternais, forma primitiva da Ceia instituída por Jesus, começavam e terminavam com uma prece. Lá se dava a primeira interpretação dos livros sagrados de Moisés e dos profetas. Mas, tanto na explicação dos textos como na iniciação, havia três significados e três graus. Muito poucos chegavam ao grau superior. Tudo isto assemelha-se espantosamente à organização dos pitagóricos (3); mas é certo que esta organização era aproximadamente a mesma entre os antigos profetas, porque encontravam-se em toda a parte onde existiu a iniciação. Acrescentemos que os essênios professavam o dogma essencial da doutrina órfica e pitagórica, o da preexistência da alma, conseqüência e razão de sua imortalidade. Diziam eles: “A alma, que desce do éter mais sutil e é atraída para o corpo por um certo encanto natural, nele permanece como em uma prisão. Livre dos laços do corpo como de uma longa escravidão, ela voa com alegria”. (Josefo, A.J.H, 8).

Entre os essênios, os irmãos propriamente ditos viviam na comunidade dos bens e no celibato, em regiões retiradas, lavrando a terra e, algumas vezes, educando crianças estrangeiras. Quanto aos essênios casados, constituíam uma espécie de terceira ordem, filiada e submetida à outra. Silenciosos, suaves e graves, eram vistos aqui e ali cultivando as artes pacíficas: tecelões, carpinteiros, vinhateiros ou jardineiros, jamais armeiros nem comerciantes. Espalhados em pequenos grupos por toda a Palestina, no Egito, e até no monte Horeb, eles se ofereciam mutuamente a mais completa hospitalidade. É assim que veremos Jesus e seus discípulos viajarem de cidade em cidade, de província em província, sempre seguros de encontrarem abrigo. Segundo Josefo, “os essênios eram de uma moralidade exemplar. Esforçavam-se para reprimir toda paixão e todo movimento de cólera. Eram sempre benevolentes em suas relações, pacíficos e com a melhor boa fé. Sua palavra tinha mais força do que um juramento; por isso consideravam o juramento, na vida comum, uma coisa supérflua e um perjúrio. Suportavam com admirável energia de alma e com o sorriso nos lábios as mais cruéis torturas, mas não violavam o menor preceito religioso”. Indiferente à pompa exterior do culto de Jerusalém, repelido pela dureza dos saduceus, pelo orgulho farisaico, pelo pedantismo e secura da sinagoga, Jesus foi atraído para os essênios por uma afinidade natural. (4) A morte prematura de José tornou inteiramente livre o filho de Maria, já homem adulto. Seus irmãos continuaram o ofício do pai e sustentaram a casa. Sua mãe deixou-o partir secretamente para Engaddi. Acolhido como irmão, saudado como eleito, ele deve ter conquistado rapidamente sobre os próprios mestres uma invencível ascendência, por suas faculdades superiores, sua ardente caridade e algo de divino que transparecia em todo o seu ser. Recebeu deles o que só os essênios podiam dar-lhe: a tradição esotérica dos profetas e, por ela, sua própria orientação histórica e religiosa. Compreendeu o abismo que separava a doutrina judaica oficial da antiga sabedoria dos iniciados, verdadeira mãe das religiões, mas sempre perseguida por Satã, isto é, pelo espírito do Mal, espírito de egoísmo, de ódio e de negação, unido

ao poder político absoluto e à impostura sacerdotal. Aprendeu que o Gênese encerrava, sob a chancela de seu simbolismo, uma teogonia e uma cosmogonia tão afastadas de seu sentido literal quanto a ciência mais profunda está distante da fábula mais infantil. Contemplou os dias de Eloim, ou a criação eterna pela emanação dos elementos e pela formação dos mundos; a origem das almas flutuantes e seu retorno a Deus através das existências progressivas ou as gerações de Adão. Foi tocado pela grandeza do pensamento de Moisés, que pretendera preparar a unidade religiosa das nações, criando o culto do Deus único e encarnando essa idéia em um povo. Comunicaram-lhe em seguida a doutrina do Verbo divino, já ensinada por Krishna na Índia, pelos sacerdotes de Osíris no Egito, por Orfeu e Pitágoras na Grécia, e conhecida pelos profetas sob a denominação de Mistério do Filho do Homem e do Filho de Deus. Segundo essa doutrina, a mais alta manifestação de Deus é o Homem, que, por sua constituição, sua forma, seus órgãos e sua inteligência, é a imagem do Ser universal, dele possuindo as faculdades. Porém, na evolução terrestre da humanidade, Deus está como que esparso, fracionado e mutilado, na multiplicidade dos homens e da imperfeição humana. Ele sofre, busca-se a si mesmo e luta nela. Ele é o Filho do Homem. O Homem perfeito, o Homem-Modelo, que é o pensamento mais profundo de Deus, permanece oculto no abismo infinito de seu desejo e de sua potência. No entanto, em certas épocas, quando se trata de arrancar a humanidade de um abismo, de reuni-la para lançá-la mais alto, um Eleito identifica-se com a divindade, atraindo-a para si pela Força, pela Sabedoria e pelo Amor, manifestando-se de novo aos homens. Então a divindade, pela virtude e sofrimento do Espírito, mostra-se completamente presente nele. O torna-se o Filho do Homem e seu verbo vivo. Filho de Deus Em outras eras e em outros povos já tinham existido filhos de Deus. Mas desde Moisés isso não acontecia em Israel. Todos os profetas esperavam esse Messias. Os Videntes diziam mesmo que dessa vez ele se chamaria da Ísis celeste, da luz divina que é a o Filho da Mulher,

Esposa de Deus, porque a luz do Amor brilharia nele acima de todos os outros, com um brilho fulgurante ainda desconhecido na terra. Essas coisas ocultas que o patriarca dos essênios revelava ao jovem galileu nas praias desertas do mar Morto, na solidão de Engaddi, pareciam-lhe ao mesmo tempo maravilhosas e conhecidas. Foi com singular emoção que ouviu o chefe da ordem comentar as palavras que ainda hoje se podem ler no livro de Enoch: “Desde o começo, o Filho do Homem estava no Mistério, o Altíssimo mantinha-o junto de seu poder e o . . . Mas os reis ficarão assustados e manifestava a seus eleitos. prostrarão o rosto contra a terra e o pavor se abaterá sobre eles, quando virem o sentado sobre o trono de sua glória... Então o filho da mulher Eleito chamará todas as forças do céu, todos os santos das alturas e o poder de Deus. Então os querubins, os serafins, os ofanins, todos os anjos da todos os anjos do isto é, do Eleito e da força, Senhor, outra força, que servem sobre a terra e acima das águas, elevarão suas vozes” (5). A essas revelações, as palavras dos profetas, cem vezes relidas e meditadas, cintilaram aos olhos do nazareno com clarões novos, profundos e terríveis, como relâmpagos na noite. Quem seria, portanto, este Eleito? E quando chegaria ele a Israel? Jesus passou vários anos com os essênios. Submeteu-se à sua disciplina, estudou com eles os segredos da natureza e exercitou-se na terapêutica oculta. Dominou inteiramente os sentidos para desenvolver o espírito. Nenhum dia passava sem que meditasse sobre os destinos da humanidade e não se interrogasse a si mesmo. Foi uma noite memorável para a ordem dos essênios e para seu novo adepto aquela em que ele recebeu, no mais profundo segredo, a iniciação superior do quarto grau, que só se concedia no caso especial de uma missão profética, desejada pelo irmão e confirmada pelos anciãos. Reuniam-se numa gruta talhada no interior da montanha como uma imensa sala, com um altar e assentos de pedra. O chefe da ordem lá estava, com alguns anciãos. Algumas vezes, duas ou três essênias, profetisas iniciadas, também eram admitidas na misteriosa cerimônia. Carregando tochas e palmas, elas saudavam o novo iniciado, vestido de

linho branco, como “o Esposo e o Rei” que elas tinham pressentido e que viam talvez pela última vez! A seguir, o chefe da ordem, em geral um velho centenário (Josefo diz que os essênios viviam muito tempo) apresentava-lhe o símbolo da iniciação suprema, que cálice de ouro, continha o símbolo da inspiração divina. vinho da vinha do Senhor, Diziam que Moisés bebera nesse cálice aos setenta anos. Alguns remontavam a prática desse ritual até Abraão, que recebera de Malquisedec a mesma iniciação, sob as espécies do pão e do vinho.(6) Jamais o Ancião apresentava a taça a um homem no qual não reconhecesse com certeza os sinais de uma missão profética. Porém, esta missão, ninguém a podia definir para ele; devia encontrá-la sozinho. Tal é a lei dos iniciados: nada do exterior, tudo do interior. De agora em diante, estava livre, senhor de suas ações, liberado pela ordem, hierofante ele próprio, entregue ao vento do Espírito, que podia lançá-lo ao abismo ou transportá-lo para os cumes, acima das regiões das tormentas e das vertigens. Quando, depois dos cânticos, das orações, das palavras sacramentais do Ancião, o Nazareno tomou a taça, um pálido raio da aurora, penetrando por uma fenda da montanha, deslizou tremulante sobre as tochas e as longas vestes brancas das jovens essênias. Elas também tremeram quando o raio de luz caiu sobre o pálido galileu, pois uma grande tristeza pairou em sua bela fisionomia. Seu olhar perdido revia os doentes de Siloé e, no fundo daquela dor sempre presente, já entrevia, talvez, a estrada que deveria percorrer? Ora, naquele tempo, João Batista pregava às margens do Jordão. Ele não era um essênio, mas um profeta popular da forte raça de Judá. Impelido para o deserto por uma piedade feroz, ele levava a vida mais dura, em orações, jejuns e macerações. Sobre o corpo nu curtido pelo sol, trazia, à guisa de cilício, uma veste tecida com pêlo de camelo, como sinal da penitência que queria impor a si mesmo e a seu povo; pois sentia profundamente a aflição de Israel e esperava libertá-la. Imaginava, conforme a idéia judaica, que o Messias viria logo, como vingador e justiceiro; que, como um novo macabeu, sublevaria o povo, expulsaria o romano, castigaria todos os culpados, e depois entraria

triunfalmente em Jerusalém, reestabelecendo o reinado de Israel acima de todos os povos, na paz e na justiça. Ele anunciava às multidões a vinda próxima desse Messias, acrescentando que para isso era necessário preparar-se através do arrependimento no coração. Tomando emprestado aos essênios o costume das abluções, transformando-o à sua maneira, João Batista havia imaginado o batismo do Jordão como um símbolo visível, como uma realização pública da purificação interior que ele exigia. Essa cerimônia nova, essa pregação veemente diante das multidões imensas, na moldura do deserto, em face das águas sagradas do Jordão, entre as montanhas severas da Judéia e da Peréia, dominava as imaginações e atraía as multidões. Relembrava os dias gloriosos dos velhos profetas e dava ao povo o que ele não mais encontrava no templo: aquela comoção interior e, após os terrores do arrependimento, uma esperança vaga e prodigiosa. Acorria-se de todos os pontos da Palestina e até de mais longe para ouvir o santo do deserto que anunciava o Messias. As multidões, atraídas por sua voz, lá ficavam acampadas por várias semanas para ouvi-lo todos os dias, e não queriam mais ir embora, esperando que o Messias aparecesse. Muitos só desejavam tomar as armas sob seu comando para recomeçar a guerra santa. Herodes Antipas e os sacerdotes de Jerusalém começavam a inquietar-se com esse movimento popular. Além disso, os sinais do tempo eram graves. Tibério, com setenta e quatro anos, terminava sua velhice nos deboches de Capri. Pôncio Pilatos redobrava sua violência contra os judeus. No Egito, sacerdotes tinham anunciado que a Fênix ia renascer das cinzas. (7) Jesus, que sentia crescer interiormente sua vocação profética, mas ainda procurava seu caminho, veio também ao deserto do Jordão, com alguns irmãos essênios que já o seguiam como mestre. Ele quis ver o Batista, ouvi-lo e submeter-se ao batismo público. Desejava entrar em cena por um ato de humildade e de respeito ante o profeta que ousava erguer a voz contra os poderosos do momento, e despertar de seu sono a alma de Israel.

Ele viu o rude asceta, peludo e cabeludo, com sua cabeça de leão visionário, de pé em um púlpito de madeira sob um tabernáculo rústico coberto de ramagens e peles de cabras. Em volta dele, entre os magros arbustos do deserto, uma multidão estava acampada: peões, soldados de Herodes, samaritanos, levitas de Jerusalém, idumeus com seus rebanhos de carneiros, até árabes estavam lá com seus camelos, tendas e caravanas, por causa da “voz que retumbava no deserto”. E essa voz tonitruante rolava sobre aquela multidão, dizendo: “Emendai-vos, preparai os caminhos do Senhor, endireitai suas veredas”. Dizia que os fariseus e os saduceus eram “uma raça de víboras”. Proclamava que “o machado já estava na raiz das árvores” e referia-se ao Messias, dizendo: “Eu somente vos batizo com água, mas ele vos batizará com fogo”. Em seguida, ao pôr-do-sol, Jesus viu aquelas massas populares se apressarem na direção de um ancoradouro, às margens do Jordão, e mercenários de Herodes, até bandidos inclinarem-se sob a água que lhes derramava Batista. Ele mesmo aproximou-se. João não conhecia Jesus, nada sabia sobre ele, mas reconheceu o essênio por suas vestes de linho. Ele o viu, perdido na multidão, entrar na água até a cintura e curvar-se humildemente para receber a aspersão. Quando o neófito se levantou, o olhar temível do feroz pregador e o olhar do galileu se encontraram. O homem do deserto estremeceu sob a irradiação da doçura maravilhosa daquele olhar, e estas palavras escaparam-lhe involuntariamente: “Serás tu o Messias?” (8) O misterioso essênio nada respondeu, mas, inclinando a cabeça pensativa e cruzando as mãos sobre o peito, pediu ao Batista sua bênção. João sabia que o silêncio era a lei dos essênios noviços. Então, solenemente, estendeu as duas mãos. Depois o Nazareno desapareceu com seus companheiros entre os caniços às margens do rio. O Batista viu-o partir com uma mistura de dúvida, de alegria secreta e de melancolia profunda. Que eram sua ciência e sua esperança profética diante da luz que havia percebido nos olhos do desconhecido, luz que parecia iluminar todo o seu ser? Ah! Se o jovem e belo galileu fosse o Messias, ele teria visto a alegria de seus dias! E sua missão estaria terminada, sua voz iria calar-se! A partir daquele dia, ele pôs-se a

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