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Capítulo 69 de 74

Os Essênios. João Batista. A Tentação — parte 4 de 8

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

(3). João, III, 15

(4). João. III, 6-8.

LUTA COM OS FARISEUS. A FUGA PARA CESARÉIA. A TRANSFIGURAÇÃO

Durou dois anos aquela primavera na Galiléia, em que, sob a palavra de Cristo, os lírios cintilantes dos anjos pareciam desabrochar no ar embalsamado, e erguer-se sobre as multidões atentas a aurora do reino do céu. Mas de repente o céu enegreceu, cortado por sinistros relâmpagos, prenúncios de uma catástrofe. A tempestade desabou sobre a pequena família espiritual, como uma daquelas tempestades que agitam o lago de Genesaré e engolem em sua fúria os frágeis barcos dos pescadores. Se os discípulos ficaram consternados, Jesus não se surpreendeu. Já esperava. Era impossível que sua pregação e sua popularidade crescente não perturbassem as autoridades religiosas dos judeus. Era impossível ainda que a luta não fosse intensa. Ainda mais: a luz só poderia brotar deste choque. Os fariseus formavam no tempo de Jesus um corpo compacto de seis mil homens. Seu nome, significava: os separados ou Perishin, distintos. De um patriotismo exaltado, muitas vezes heróico, mas estreito e orgulhoso, eles representavam o partido da restauração nacional. Sua existência datava apenas do tempo dos macabeus. Ao lado da tradição escrita, admitiam uma tradição oral. Acreditavam nos anjos, na vida futura, na ressurreição. Mas esses clarões de esoterismo que lhes vinham da Pérsia eram sufocados sob as trevas de uma interpretação grosseira e material. Estritos observadores da lei, mas inteiramente opostos ao espírito dos profetas, que colocavam a religião no amor a Deus e aos homens, eles concentravam a piedade nos ritos e nas práticas, nos jejuns e nas penitências públicas. Eram vistos, nos grandes dias, a percorrer as ruas, com o rosto coberto de cinza, recitando orações com um ar constrito e distribuindo esmolas com ostentação. Fora isto, viviam no luxo, tramando grosseiramente pelos cargos e pelo poder.

Ainda assim eram os chefes do partido democrático e tinham o povo em suas mãos. Os saduceus, ao contrário, representavam o partido sacerdotal e aristocrático. Originavam-se de famílias que pretendiam exercer o sacerdócio por direito de herança desde o tempo de Davi. Conservadores extremados, eles rejeitavam a tradição oral, admitindo apenas a Lei em sentido estrito e negavam a alma e a vida futura. Zombavam igualmente das práticas turbulentas dos fariseus e de suas crenças extravagantes. Para eles a religião consistia unicamente nas cerimônias sacerdotais. Tinham detido o pontificado sob o domínio dos selêucidas, entendendo-se perfeitamente com os pagãos, impregnandose mesmo da sofística grega e do epicurismo elegante. Sob o domínio dos macabeus, os fariseus afastaram-nos do pontificado. Porém sob o domínio de Herodes e dos romanos conseguiram retomar seu lugar. Eram homens duros e tenazes, sacerdotes que usufruíam a boa vida e que tinham apenas uma fé: a fé em sua superioridade; e apenas uma idéia: conservar o poder que possuíam por tradição. O que podia ver nessa religião Jesus, o iniciado, o herdeiro dos profetas, o vidente de Engaddi, que buscava na ordem social a imagem da ordem divina, em que a justiça reina sobre a vida, a ciência sobre a justiça, o amor e a sabedoria sobre todos os três? No templo, em lugar da ciência suprema e da iniciação, a ignorância materialista e agnóstica, manejando a religião como um instrumento de poder. Em outros termos: a impostura sacerdotal. Nas escolas e nas sinagogas, em lugar do pão da vida e do orvalho celeste caindo nos corações, uma moral interesseira, encoberta por uma devoção formalista, isto é, a hipocrisia. Muito longe, acima de todos eles, entronizado em um nimbo, César todo-poderoso, apoteose do mal, deificação da matéria; César, único Deus do mundo, único mestre dos saduceus e dos fariseus, quisessem eles ou não. Teria Jesus, tomando ao esoterismo persa uma idéia, como os profetas, cometido um erro ao denunciar aquele reino como reino de Satã ou Arima, isto é, o domínio da matéria sobre o espírito, que queria substituir pelo domínio do espírito sobre a matéria? Como todos os

grandes reformadores, ele atacava, não aos homens, que podiam ser excelentes por exceção, mas às doutrinas e às instituições, que são os moldes da maioria. Era preciso que o desafio fosse lançado, que a guerra fosse declarada aos poderosos do momento. A luta travou-se inicialmente nas sinagogas da Galiléia, para continuar sob os pórticos do templo de Jerusalém, onde Jesus passou vários dias pregando e desafiando seus adversários. Nisto, como em toda sua prática, Jesus agiu com um misto de prudência e audácia, de reserva meditativa e ação impetuosa, que caracterizavam sua natureza maravilhosamente equilibrada. Não tomou a ofensiva contra os adversários. Esperou seu ataque, para rebatê-lo. E ele não tardou. Desde o início da vida pública do profeta, os fariseus; tinham-lhe inveja por causa de suas curas e de sua popularidade. Logo perceberam nele seu mais perigoso inimigo. Então o abordaram com a urbanidade zombeteira, a malevolência astuciosa, velada de doçura hipócrita que lhes era própria. Como sábios doutores, como homens de importância e de autoridade, pediram-lhe explicações para seu relacionamento com homens do povo e pessoas de má vida. Por que, enfim, seus discípulos ousavam tratar as espigas de trigo aos sábados? Tantas violações graves contra suas prescrições! Jesus respondeu-lhes com doçura e grandeza, por meio de parábolas de ternura e mansidão. Experimentou com eles sua palavra de amor. Falou-lhes do amor de Deus, que se alegra mais por um pecador arrependido do que por alguns justos. Contou-lhes a parábola da ovelha perdida e do filho pródigo. Confundidos, eles calaram-se. Porém, tendo novamente confabulado entre si, voltaram à carga, reprovando-o por curar os doentes no sábado. “Hipócritas! replicou Jesus com súbita indignação no olhar. Não tirais a corda do pescoço de vossos bois, para conduzi-los ao bebedouro, no dia de sábado? E a filha de Abraão não foi libertada neste mesmo dia das cadeias de Satã?” Não sabendo mais o que dizer, os fariseus acusaram-no de expulsar os demônios em nome de Belzebu. Jesus respondeu-lhes, com graça e profundeza, que o demônio não se expulsa a si mesmo. E acrescentou que o pecado contra o filho do Homem seria perdoado, mas não o pecado contra o Espírito

Santo, querendo dizer com isto que pouco se importava com as injúrias contra sua pessoa, mas que negar o Bem e a Verdade depois de constatados é a perversidade intelectual, o vício supremo, o mal irremediável. Estas palavras foram uma declaração de guerra. Chamavam-no: “Blasfemador!” Ele respondia: “Hipócritas!” Eles: “Preposto de Belzebu!” E Jesus respondia: “Raça de víboras!” A partir de então, a luta foi-se envenenando e crescendo sempre. Jesus desenvolveu uma dialética cerrada, incisiva. Sua palavra flagelava como um chicote, transpassava como um dardo. Mudara de tática: em lugar de defender-se, atacava e respondia às acusações com acusações mais graves, sem piedade para com o vício radical, a hipocrisia. “Por que transgredis a lei de Deus por causa de vossa tradição? Deus ordenou: Honra teu pai e tua mãe. E vós dispensais de honrar os pais quando o dinheiro aflui para o templo. Vós só servis a Isaías com os lábios. Sois devotos sem coração.” Jesus dominava-se, mas também exaltava-se e crescia nessa luta. Quanto mais o atacavam mais ele afirmava ser o Messias. Começava a ameaçar o templo, a predizer as desgraças de Israel, a apelar aos pagãos, dizendo que o Senhor enviaria outros obreiros para sua vinha. Com isso os fariseus de Jerusalém perturbaram-se. Vendo que não podiam fecharlhe a boca nem retrucar-lhe, eles também mudaram de tática. Arquitetaram atraí-lo para uma armadilha. Enviaram delegados para fazê-lo dizer uma heresia que permitisse ao sinédrio considerá-lo blasfemador em nome da lei de Moisés, ou então condená-lo como rebelde por intermédio do governador romano. Daí a questão insidiosa sobre a mulher adúltera e sobre o denário de Cesar. Percebendo sempre os desígnios de seus inimigos, Jesus os desarmou com suas respostas, plenas de profundidade psicológica e hábil estratégia. Encontrando-o inatacável, os fariseus tentaram intimidá-lo, assediando-o a cada passo. Grande parte da população trabalhada por eles, já se afastava dele, ao perceber que não lhes restauraria o reino de Israel. Por toda parte, na menor das aldeias, ele encontrava faces cautelosas e suspeitas, espiões para vigiá-lo, emissários pérfidos para desencorajá-lo. Alguns vieram dizer-lhe: “Retira-te daqui, pois Herodes

(Antipas) quer mandar matar-te”. Ele respondia altivamente: “Dizei a essa raposa que nenhum profeta morre fora de Jerusalém!” Entretanto, teve de atravessar várias vezes o mar de Tiberíades e refugiar-se na margem oriental, para fugir das emboscadas. Não estava mais em segurança em parte alguma. Nesse ínterim deu-se a morte de João Batista, a quem Antipas mandou degolar a cabeça, na fortaleza de Makerus. Dizem que Anibal, ao ver a cabeça de seu irmão Asdrúbal, morto pelos romanos, exclamou: “Agora reconheço o destino de Cartago!” Jesus pôde antever seu próprio destino na morte de seu precursor. Aliás, não tinha dúvida alguma, desde sua visão de Engaddi. Já começara sua obra aceitando-o por antecipação. Contudo a notícia, trazida pelos discípulos contristados do pregador do deserto, atingiu Jesus como um pressentimento fúnebre. E clamou: “Eles não o reconheceram e fizeram com ele o que quiseram. É assim que o filho do Homem sofrerá por eles”. Os doze inquietavam-se. Jesus hesitava quanto ao caminho que devia seguir. Não queria deixar-se prender, e sim oferecer-se espontaneamente uma vez terminada a obra, e acabar como profeta na hora escolhida por ele. Perseguido já há um ano, habituado a escapar ao inimigo por marchas e contramarchas, desprezado pelo povo, cujo distanciamento sentiu depois daqueles dias de entusiasmo, Jesus resolveu ainda uma vez fugir com os seus. Chegando ao alto de uma montanha, com os doze, voltou-se para contemplar uma derradeira vez seu lago bem-amado, em cujas margens pretendera fazer reluzir a alvorada do reino dos céus. Abraçou com o olhar aquelas cidades deitadas à borda das ondas ou dispostas sobre os montes, submersas em seus oásis de vegetação e brancas sob o véu dourado do crepúsculo, todas elas aldeias queridas, onde ele tinha semeado a palavra da vida e que agora o abandonavam. Nesse momento teve o pressentimento do futuro. Com um olhar profético, viu aquele país esplêndido transformado em deserto sob a mão vingadora de Ismael, e estas palavras sem cólera, mas cheias de amargura e de melancolia, saíram de sua boca: “Desgraça para ti, Cafarnaum! Desgraça para ti, Korasim! Desgraça para ti, Betsaída!” Depois, voltando-se para o mundo pagão,

tomou com os apóstolos o caminho que leva ao vale do Jordão, de Gadara à Cesaréia de Felipe. Triste e longa foi a jornada do bando fugitivo através das grandes planícies cobertas de caniços e pântanos do alto Jordão, sob o sol ardente da Síria. Passavam a noite sob as tendas dos pastores de búfalos ou em casas de essênios estabelecidos nas pequenas aldeias daquele país perdido. Os discípulos, deprimidos, baixavam a cabeça. O Mestre, triste e silencioso, mergulhava em meditação. Refletia sobre a impossibilidade de fazer triunfar sua doutrina entre o povo pela pregação, e sobre as maquinações terríveis de seus adversários. A luta suprema tomava-se iminente. Chegara a um impasse. Como sair dele? Por outro lado, seu pensamento reportava-se com uma solicitude infinita à sua família espiritual disseminada, e sobretudo aos doze apóstolos, que, fiéis e confiantes, tudo tinham abandonado para segui-lo: a família, profissão, fortuna; e que, no entanto, teriam seus corações despedaçados e seriam desiludidos da grande esperança de ver o Messias triunfante. Poderia ele abandoná-los a si mesmos? Teria a verdade neles penetrado suficientemente? Pelo menos acreditariam nele e em sua doutrina? Saberiam quem era ele? Dominado por esta preocupação, perguntou-lhes um dia: “Quem dizem os homens que eu sou, eu, o filho do Homem?” E eles responderam: “Uns dizem que és João Batista. Outros pensam que és Jeremias ou um dos profetas”. “E vós, quem dizeis que eu sou?” Então, Simão Pedro, tomando a palavra, disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” (1) Na boca de Pedro e no pensamento de Jesus, aquelas palavras não significavam, como o pretendeu mais tarde a Igreja: “Tu és a única encarnação do Ser absoluto e todo-poderoso, a segunda pessoa da Trindade”, mas simplesmente: “Tu és o eleito de Israel anunciado pelos profetas”. Na iniciação hindu, egípcia e grega, o termo Filho de Deus significava uma consciência identificada com a verdade divina, uma vontade capaz de manifestá-la. Segundo os profetas, aquele Messias devia ser a maior dessas manifestações. Ele seria o filho do Homem, isto é, o Eleito da Humanidade terrestre; o Filho de Deus, isto é, o

Enviado da Humanidade celeste; e como tal, tendo nele o Pai ou o Espírito, que por Ele reina sobre o universo. Diante daquela afirmação da fé dos apóstolos por intermédio de seu porta-voz, Jesus sentiu uma alegria imensa. Então seus discípulos tinham-no compreendido. Ele viveria neles. O laço entre o céu e a terra seria restabelecido. Jesus então disse a Pedro: “Tu és feliz, Simão, filho de Jonas. Porque não foi a carne e o sangue que te revelaram isto, mas meu Pai, que está nos céus”. Por estas palavras, Jesus dá a entender a Pedro que o considera iniciado assim como a ele mesmo: pela visão interior e profunda da verdade. Eis a verdadeira, a única revelação; eis “a pedra sobre a qual Cristo quer construir sua Igreja e contra a qual as portas do inferno não prevalecerão.” Jesus somente conta com o apóstolo Pedro na medida em que ele tiver esta compreensão. Um instante depois, tendo Pedro voltado a ser o homem natural, temeroso e limitado, o Mestre trata-o de outro modo. Tendo Jesus anunciado aos discípulos que ia ser condenado à morte em Jerusalém, Pedro se pôs a protestar: “Deus não há de permitir que isto aconteça, Senhor!” E Jesus, como visse nessa manifestação de simpatia uma tentação da carne procurando abalar sua grande resolução, voltou-se vivamente para o apóstolo e disse: “Afastate de mim, Satanás! És um escândalo para mim pois não compreendes as coisas que são de Deus, mas somente as que são dos homens” (2). E o gesto imperioso do Mestre dizia: Para a frente, através do deserto! Intimidados por sua voz solene, por seu olhar severo, os apóstolos curvaram a cabeça em silêncio e recomeçaram a caminhada através das colinas pedregosas da Gaulanítida. Essa fuga, na qual Jesus arrastava seus discípulos para fora de Israel, assemelhava-se a uma marcha para o enigma de seu destino messiânico, cuja derradeira palavra ele buscava. Tinham chegado às portas de Cesaréia. A cidade, que se tornara pagã desde Antíoco, o Grande, abrigava-se num oásis verdejante, nas nascentes do Jordão, ao pé dos picos nevados do Hermon. Ela possuía seu anfiteatro e resplandecia com os palácios luxuosos e os templos gregos. Jesus atravessou-a e avançou até a região em que o Jordão desaparece, numa onda borbulhante e clara, em uma caverna da

montanha, como a vida que jorra do seio profundo da imutável natureza. Havia ali um pequeno templo dedicado a Pã; e na gruta, sobre as margens do rio nascente, uma imensidão de colunas, de ninfas de mármore e de divindades pagãs. Os judeus tinham horror a estas imagens de um culto idólatra. Jesus olhou-as sem cólera, com um sorriso indulgente. Reconheceu nelas as efígies imperfeitas da beleza divina, cujos radiosos modelos ele trazia na alma. Não viera para amaldiçoar o paganismo, mas para transfigurá-lo. Não viera para lançar o anátema à Terra e a seus poderes misteriosos, mas para mostrar-lhe o céu. Seu coração era bastante grande, sua doutrina bastante vasta para abranger todos os povos e dizer a todos os cultos: “Levantai a cabeça e reconhecei que todos vós tendes o mesmo Pai”. E no entanto ali estava ele, no extremo limite de Israel, acuado como um animal, oprimido, sufocado entre dois mundos que o repeliam igualmente. Diante dele, o mundo pagão que não o compreendia ainda e onde sua palavra expirava impotente. Atrás, o mundo judeu, o povo que apedrejava seus profetas, tapava os ouvidos para não ouvir o seu Messias. O bando de fariseus e de saduceus espreitava sua presa. Que coragem sobre-humana, que ação inaudita ser-lhe-ia então necessária para romper todos aqueles obstáculos, a fim de penetrar para além da idolatria pagã e da dureza judaica, até o coração daquela humanidade sofredora que ele amava com todas as suas fibras, e fazê-la ouvir seu verbo de ressurreição? Então, subitamente, seu pensamento retrocedeu e tornou a descer pelo curso do Jordão, o rio sagrado de Israel. Voou do templo de Pã ao templo de Jerusalém. Mediu toda a distância que separava o paganismo antigo do pensamento universal dos profetas e, remontando à sua própria origem, como a águia a seu ninho, retornou da angústia de Cesaréia à visão de Engaddi! E novamente ele viu surgir do Mar Morto aquele fantasma terrível da cruz!... Teria chegado a hora do grande sacrifício? Como todos os homens, Jesus tinha em si duas consciências. Uma, terrestre, embalavao em ilusões e dizia-lhe: Quem sabe? Talvez evitarei o destino! A outra,

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