Voltar ao livro Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

Capítulo 61 de 74

Os Mistérios De Elêusis — parte 2 de 2

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

trovões cortavam as trevas. A seu clarão, percebiam-se visões assustadoras: ora um monstro, quimera ou dragão; ora um homem dilacerado aos pés de uma esfinge; ora uma larva humana. Essas aparições eram tão súbitas que não se tinha tempo de distinguir o artifício que as produzia, e a obscuridade completa que lhes sucedia redobrava o horror. Plutarco comparava o terror causado por essas visões ao estado de um homem em seu leito de morte. A cena mais estranha, referente à magia verdadeira, passava-se em uma cripta, onde um sacerdote frígio, vestido com uma túnica asiática de listas verticais vermelhas e pretas, estava de pé, diante de um braseiro de cobre que iluminava vagamente a sala com seus clarões intermitentes. Com um gesto que não admitia réplica, ele forçava os recém-chegados a sentarem à entrada e lançava no braseiro grandes porções de um perfume narcotizante. A sala enchia-se logo de densos turbilhões de fumaça, onde se distinguia uma mistura de formas cambiantes, ora animalescas, ora humanas. Algumas vezes eram enormes serpentes que se estiravam como sereias ou se emaranhavam num enrolamento interminável. Outras vezes, bustos de ninfas voluptuosamente curvados, com os braços estendidos, se transformavam em morcegos; cabeças encantadoras de adolescentes, em focinhos de cachorro. E todos esses monstros, alternadamente bonitos e hediondos, aéreos, fluidos, enganosos, irreais, tão subitamente aparecendo e desaparecendo, rodopiavam, reluziam, provocavam vertigem e envolviam os místicos fascinados, como que para barrar-lhes o caminho. De vez em quando o sacerdote de Cibele estendia sua varinha no meio dos vapores, e o eflúvio de sua vontade parecia imprimir àquela ronda multiforme um movimento turbilhonante e uma vitalidade inquietante. E o Frígio dizia: “Entrai!” Os místicos levantavam-se e entravam no círculo. Então, sentiam-se, roçados estranhamente, ou rapidamente tocados por mãos invisíveis, ou violentamente lançados por terra. Alguns recuavam aterrorizados e voltavam para o lugar de onde tinham vindo. Somente os mais corajosos prosseguiam, sendo atacados várias vezes. Uma firme resolução punha fim ao sortilégio. (2).

Então, chegava-se a uma grande sala circular, iluminada pela luz fúnebre de raros lampadários. No centro, uma única coluna, uma árvore de bronze, cuja folhagem metálica se estende por todo o teto (3). Nessa folhagem incrustam-se quimeras, górgonas, hárpias, mochos, esfinges e estrígias, imagens que falavam de todos os males terrestres, de todos os demônios que se enfurecem contra o homem. Esses monstros, reproduzidos em metais reluzentes, enrolam-se na ramagem e, do alto, parecem espreitar sua presa. Sob a árvore, num trono magnífico, está sentado Plutão-Aidoneu com um manto purpurino. A seus pés, a nébride, Sua mão segura o tridente; seu semblante está carregado. Ao lado do rei dos Infernos, que jamais sorri, sua esposa: a alta e esbelta Perséfone. Os místicos a reconhecem como a hierofântida que já havia representado a deusa nos pequenos mistérios. Ela continua bela, mais bela talvez em sua melancolia. Mas, como está mudada, em sua veste de luto com lágrimas de prata, e com o diadema de ouro! Não é mais a Virgem da gruta. Agora ela conhece a vida de baixo e sofre. Reina sobre os poderes inferiores, é soberana entre os mortos, mas estrangeira em seu império. Um pálido sorriso aflora à sua fisionomia entristecida pela sombra do Inferno. Ah! nesse sorriso vê-se a ciência do Bem e do Mal, o encanto inexprimível da dor vivida e muda. O sofrimento ensina a piedade. Ela acolhe com um olhar de compaixão os místicos que se ajoelham e depõem a seus pés coroas de narciso. Então brilha em seus olhos uma chama lânguida, esperança perdida, longínqua lembrança do céu! De repente, no fundo de uma galeria que sobe, luzem tochas e, como o som de uma trombeta, conclama uma voz: “Vinde, místicos! Iaco voltou! Deméter espera sua filha. Evoé!” Os ecos sonoros do subterrâneo repetem este grito. Perséfone ergue-se no trono, como que despertada em sobressalto de um longo sono e trespassada por um pensamento fulgurante: “A luz! Minha mãe! Iaco!” Ela quer avançar, mas Aidoneu retém-na com um gesto, segurando suas vestes. E ela torna a cair sobre o trono, como morta. Então, os lampadários apagamse subitamente e uma voz grita: “Morrer é renascer!” Os místicos apressam-se pela galeria dos heróis e dos semideuses, em direção da

abertura do subterrâneo, onde os esperam Hermes e o porta-tochas. Despojam-nos da pele da corça, borrifam-nos com água lustral, revestem-nos de linho fresco e conduzem-nos para o templo esplendidamente iluminado, onde os recebe o hierofante, o grãosacerdote de Elêusis, um ancião majestoso vestido de púrpura. E agora, deixemos falar Porfírio. Eis como ele narra a iniciação suprema de Elêusis:

“Coroados de mirta, entramos com os outros iniciados no vestíbulo do templo, cegos ainda. O hierofante, que está no interior, vai logo abrir-nos os olhos. Mas primeiro, pois não se deve fazer nada com precipitação, lavamo-nos na água sagrada; porque é com mãos puras e coração puro que devemos entrar no recinto sagrado. Levados diante do hierofante, ele nos lê em um livro de pedra coisas que não devemos divulgar, sob pena de morte. Digamos somente que elas são adequadas ao local e às circunstâncias. “Vós talvez rísseis, se ouvísseis aquelas coisas fora do templo. Mas lá dentro não teríeis nenhuma vontade de rir, ao escutar as palavras ditas pelo ancião, pois, sempre é ele quem fala, contemplando os símbolos revelados. (4). “E estaríeis longe de rir quando Deméter confirmasse, em sua linguagem particular e seus sinais, por meio de vivas cintilações de luz e de nuvens empilhadas sobre nuvens, tudo o que vimos e ouvimos de seu sacerdote sagrado. Então, finalmente, a luz de uma serena maravilha enche o Templo. Vemos os puros campos de Elísio. Ouvimos o coro dos bem-aventurados. Então não é somente por uma aparência exterior ou por uma interpretação filosófica, mas de fato e em realidade, que o hierofante torna-se o criador e o revelador de todas as (demiurgo) coisas. O Sol é apenas seu porta-tochas, a Lua, seu oficiante junto do altar, e Hermes, seu arauto místico. Enfim, a última palavra foi pronunciada: (5). Konx Om Pax. “O rito foi consumado e nós somos Videntes (epoptai) para sempre."

O que dizia o grande hierofante? Quais seriam aquelas palavras sagradas, aquela revelação suprema? Os iniciados aprendiam que a divina Perséfone, que eles tinham visto no meio dos terrores e dos suplícios dos infernos, era a imagem da alma humana acorrentada à matéria nesta existência, ou entregue a quimeras e tormentos maiores ainda, se viveu escrava de suas paixões. Sua vida terrestre é uma expiação ou uma provação de existências anteriores. Mas a alma pode purificar-se pela disciplina, pode lembrarse e pressentir, pelo esforço combinado da intuição, da razão e da vontade, e participar por antecipação das vastas verdades, das quais deve tomar posse plena e total no imenso além. Somente então, Perséfone tornar-se-á pura, luminosa, a Virgem inefável, distribuidora do amor e da alegria. Quanto à sua mãe, Ceres, ela era, nos mistérios, o símbolo da Inteligência divina e do princípio intelectual do homem, que a alma deve alcançar para atingir sua perfeição. Se podemos acreditar em Platão, Jâmblico, Próclus e todos os filósofos alexandrinos, a elite dos iniciados tinha no interior do templo visões de caráter extático e maravilhoso. Já citei o testemunho de Porfírio. Eis agora o de Próclus:

“Em todas as iniciações e mistérios, os deuses (aqui esta palavra significa todas as ordens de espíritos) mostram-se sob muitas formas e aparecem com grande variedade de figuras. Às vezes é uma luz sem forma, às vezes esta luz reveste-se da forma humana ou de uma forma diferente”. (6). Eis a passagem de Apuleio: “Aproximei-me dos confins da morte e tendo atingido o átrio de Proserpina, voltei, transportado através de todos os elementos (espíritos elementares da terra, da água, do ar e do fogo). Nas profundezas da meia-noite, vi o Sol resplandecente de uma luz esplêndida, ao mesmo tempo que os deuses infernais e os deuses superiores. E aproximando-me dessas divindades paguei-lhes o tributo de uma piedosa adoração”. Por mais vagos que sejam esses testemunhos, eles parecem reportar-se a fenômenos ocultos. Segundo a doutrina dos mistérios, as

visões estáticas do templo seriam produzidas através do mais puro dos elementos: a luz espiritual assimilada à Ísis celeste. Os oráculos de Zoroastro chamam-na: a Natureza que fala por si mesma, isto é, um elemento pelo qual o Mago dá uma expressão visível e instantânea ao pensamento, e que serve igualmente de corpo e de vestimenta para as almas, as quais são os mais belos pensamentos de Deus. Por isso o hierofante, tendo o poder de produzir esse fenômeno, de colocar os iniciados em contato com as almas dos heróis e dos deuses (anjos e arcanjos), identificava-se, nesse momento, ao Criador, ao Demiurgo; o Porta-tocha, ao Sol, isto é, à luz hiperfísica; e Hermes, à palavra divina, que é sua intérprete. Quaisquer que sejam essas visões, não há, na antigüidade, uma só voz discordante sobre a exaltação serena produzida pelas últimas revelações de Elêusis. Uma felicidade desconhecida, uma paz sobre-humana descia no coração dos iniciados. A vida parecia vencida; a alma, liberta, e cumprido o ciclo terrível das existências. Todos sentiam uma alegria límpida, uma certeza inefável no puro éter da alma universal. Acabamos de reviver o drama de Elêusis com seu significado íntimo e oculto. Indiquei o fio condutor que atravessa aquele labirinto. Mostrei a grande unidade que domina sua riqueza e complexidade. Por uma harmonia sábia e soberana, um laço estreito unia as cerimônias variadas ao drama divino, que formava o centro ideal, o foco luminoso daquelas festas religiosas. Assim os iniciados identificavam-se pouco a pouco com a ação. De simples espectadores, tornavam-se atores e reconheciam, afinal, que o drama de Perséfone ocorria no íntimo deles mesmos. E que surpresa, que alegria naquela descoberta! Se sofriam, se lutavam como ela na vida presente, tinham também, como ela, a esperança de reencontrar a felicidade divina, a luz da grande Inteligência. As palavras do hierofante, as cenas e as revelações do templo proporcionavam-lhes o antegozo. Não é preciso dizer que cada um compreendia estas coisas de acordo com seu grau de cultura e sua capacidade intelectual. Porque, como diz Platão, e isto é verdadeiro para todos os tempos, muitas são as pessoas que carregam o tirso e a varinha, mas poucos são os inspirados.

Após a época de Alexandre, os Mistérios de Elêusis foram atingidos, até certo ponto, pela decadência pagã; mas seu fundo sublime subsistiu e salvou-os da desgraça que se abateu sobre os outros templos. Pela profundidade de sua doutrina sagrada, pelo esplendor de sua encenação, os Mistérios mantiveram-se durante três séculos, frente ao Cristianismo que crescia. Eles reuniam então aquela elite que, sem negar Jesus como manifestação da ordem heróica e divina, não queriam esquecer, como já o fazia a Igreja de então, a velha ciência e a doutrina sagrada. Foi preciso um édito de Teodósio, proibindo as cerimônias do templo de Elêusis, para pôr fim àquele augusto culto, onde a magia da arte grega comprazia-se em incorporar as mais elevadas doutrinas de Orfeu, de Pitágoras e de Platão. Hoje, o asilo da antiga Deméter desapareceu sem deixar vestígios na baía silenciosa de Elêusis. E só a borboleta, o inseto de Psiquê que atravessa o golfo azulado nos dias de primavera, lembra que ali, outrora, a grande Exilada, a Alma humana, evocou os Deuses e reconheceu sua eterna pátria.

(1). Ver o hino homérico a Deméter.

(2). A ciência contemporânea só veria nesses fatos, simples alucinações ou sugestões. A ciência do esoterismo antigo atribuía a esse gênero de fenômenos, que se produziam freqüentemente nos Mistérios, um valor ao mesmo tempo subjetivo e objetivo. Ela acreditava na existência de espíritos elementares, sem alma individualizada e sem razão, semiconscientes, que enchem a atmosfera terrestre e são, de certo modo, as almas dos elementos. A magia, que é a vontade colocada em ação no manejo das forças ocultas, tornaos visíveis às vezes. É deles que fala Heráclito quando diz: “A natureza, em todos os lugares, está cheia de demônios.” Platão chama-os “demônios dos elementos"; Paracelso, “elementais”. Segundo esse médico teósofo, do século XVI, eles são atraídos pela atmosfera magnética do homem; eletrizam-se e são capazes de assumir todas as formas imagináveis. Quanto mais o homem está entregue às suas paixões, mais ele se torna sua presa, sem o perceber. Somente o mago domina-os e se utiliza deles. Constituem uma esfera de

ilusões falazes e de loucuras que ele deve dominar e transpor, à sua entrada no mundo oculto. São eles que Bulwer chama “os guardiões do umbral”, em seu curioso romance, Zanoni.

(3). É a árvore dos sonhos, mencionada por Virgílio, na descida de Eneida, Enéias aos Infernos, no livro VI da que reproduz as cenas principais dos mistérios de Elêusis, com amplificações poéticas.

(4). Os objetos de ouro contidos no cisto eram: a pinha (símbolo da fecundidade, da geração), a serpente em espiral (evolução universal da alma: queda na matéria e redenção pelo espírito), o ovo (lembrando a esfera ou perfeição divina, finalidade do homem).

(5). Essas palavras misteriosas não têm sentido em grego. Isto prova, em todo o caso, que são bastante antigas e vêm do Oriente. Wilford atribuilhes origem sânscrita. Konx viria de Kansha, que significa o objeto do mais Om, Oum, Pax, Pasha, profundo desejo; de alma de Brahma, e de giro, troca, ciclo. A bênção suprema do hierofante de Elêusis significava, portanto: “Que teus desejos sejam cumpridos: volta à alma universal!”

(6). Próclus, Commentaire de La République de Platon.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.