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Capítulo 41 de 74
A Grécia No Século Vi
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
A alma de Orfeu atravessara como um divino meteoro o céu tempestuoso da Grécia nascente. Com o seu desaparecimento, as trevas a invadiram de novo. Após uma série de revoluções, os tiranos da Trácia queimaram seus livros, derrubaram seus templos, expulsaram seus discípulos. Os reis gregos e muitas cidades, mais preocupados com a liberdade desenfreada do que com a justiça que decorre das puras doutrinas, imitaram-nos. Quiseram apagar a lembrança do profeta, destruir seus últimos vestígios, e o fizeram tão bem que, alguns séculos depois de sua morte, uma parte da Grécia duvidava de sua existência. Em vão os iniciados conservaram sua tradição durante mais de mil anos. Em vão Pitágoras e Platão falavam dele como de um homem divino. Os sofistas e os retóricos não viam nele mais do que uma lenda sobre a origem da Música. Ainda hoje os estudiosos negam decididamente a existência de Orfeu. Apóiam-se principalmente no fato de que nem Homero nem Hesíodo mencionam seu nome. Mas o silêncio desses poetas se explica, amplamente, pela proibição a que os governos locais submeteram o nome do grande iniciador. Os discípulos de Orfeu não perdiam ocasião de atribuir todos os poderes à autoridade suprema do Templo de Delfos e não cessavam de repetir que era preciso submeter as desavenças entre os diversos Estados da Grécia ao conselho dos Anfictiões. Isto incomodava tanto os demagogos quanto os tiranos. Homero, que provavelmente recebeu sua iniciação no santuário de Tir, e cuja mitologia é a tradução poética da teologia de Sanconiaton, Homero, o jônio, pôde muito bem ignorar Orfeu, o dórico, cuja tradição se mantinha tanto mais secreta quanto mais era perseguida. Quanto a
Hesíodo, nascido perto de Parnaso, deve ter conhecido seu nome e sua doutrina através do santuário de Delfos. Mas seus iniciadores impuseram-lhe silêncio, e com razão. Orfeu, porém, vivia em sua obra. Vivia em seus discípulos e naqueles mesmos que o negavam. Essa obra, qual seria? Essa alma viva, onde procurá-la? Seria na oligarquia militar e feroz de Esparta, onde a ciência é desprezada, a ignorância erigida em sistema, a brutalidade exigida como um complemento da coragem? Seria nas implacáveis guerras de Messénia, onde os espartanos perseguiram um povo vizinho até seu completo extermínio, ou os romanos da Grécia se prepararam na rocha tarpéia e nos lauréis sangrentos do Capitólio, precipitando num abismo o heróico Aristomeno, defensor de sua pátria? Ou seria talvez na democracia turbulenta de Atenas, sempre pronta a sucumbir na tirania? Seria na guarda pretoriana de Psístrato ou no punhal de Harmônio e de Aristógito, escondido sob um ramo de mirta? Seria nas inúmeras cidades da Hélade, da Magna Grécia e da Ásia Menor, das quais Atenas e Esparta oferecem dois exemplos opostos? Seria em todas aquelas democracias e aquelas tiranias invejosas, ciumentas e sempre prestes a se entredevorarem? Não. A alma da Grécia não está aí. Ela está em seus templos, em seus mistérios e em seus iniciados. Ela está no santuário de Júpiter em Olímpia, de Juno em Argos, de Ceres em Elêusis. Ela reina em Atenas com Minerva, ela resplandece em Delfos com Apolo, que domina e invade todos os templos com sua luz. Eis o centro da vida helênica, o cérebro e o coração da Grécia. Aí vão instruir-se os poetas que traduzem à multidão as verdades sublimes em imagens vívidas, os sábios que as propagam em dialética sutil. O espírito de Orfeu circula por toda a parte onde palpita a Grécia imortal. Nós o encontramos nas competições de poesia e ginástica, nos jogos de Delfos e Olímpia, instituições felizes imaginadas pelos sucessores do mestre para reaproximar e fundir as doze tribos gregas. Nós o tocamos com o dedo no tribunal dos Anfictiões, nesta assembléia dos grandes iniciados, corte suprema e arbitral, que se reunia em Delfos, grande poder de justiça e de concórdia, o único onde a Grécia encontrou sua unidade, nas horas de heroísmo e de abnegação (1).
Entretanto, a Grécia de Orfeu, que tinha como intelecto uma pura doutrina guardada nos templos, como alma uma religião plástica e como corpo uma elevada corte de justiça centralizada em Delfos, essa Grécia começara a periclitar desde o sétimo século. As ordens de Delfos não eram mais respeitadas. Violavam-se os territórios sagrados. Isso porque a raça dos grandes inspirados havia desaparecido. O nível intelectual e moral dos templos decaíra. Os sacerdotes se vendiam aos poderes políticos. Os próprios Mistérios começaram a se corromper. O aspecto geral da Grécia havia mudado. À antiga realeza sacerdotal e agrícola sucediam, aqui, a tirania pura e simples, ali, a aristocracia militar, lá ainda, a democracia anárquica. Os templos tornaram-se impotentes para prevenir a dissolução ameaçadora. Necessitavam de uma ajuda nova. Uma vulgarização das doutrinas esotéricas fazia-se necessária. Para que o pensamento de Orfeu pudesse viver e se propagar com todo brilho, era preciso que a ciência dos templos passasse às ordens laicas. Ela se insinuou, pois, sob diversos disfarces, na mente dos legisladores civis, nas escolas dos poetas, sob o pórtico dos filósofos. Estes sentiram, em seu ensinamento, a mesma necessidade que Orfeu havia reconhecido para a religião, a necessidade de duas doutrinas: uma pública, outra secreta, que expusessem a mesma verdade, sob medidas e formas diferentes, próprias ao desenvolvimento de seus alunos. Esta evolução deu à Grécia seus três grandes séculos de criação artística e esplendor intelectual. Ela permitiu ao pensamento órfico, que é ao mesmo tempo o impulso primeiro e a síntese ideal da Grécia, concentrar toda sua luz e se irradiar por todo o mundo, antes que seu edifício político, minado pelas dissensões internas, fosse abalado pelos golpes da Macedônia, para desmoronar, enfim, sob o punho férreo de Roma. A evolução de que falamos teve muitos obreiros. Ela suscitou físicos como Tales, legisladores como Sólon, poetas como Píndaro, heróis como Epaminondas. Mas teve um chefe reconhecido como tal, um iniciado de primeira ordem, uma inteligência soberana, criadora e ordenadora: Pitágoras. Ele é o mestre da Grécia laica, como Orfeu é o mestre da Grécia sacerdotal. Ele traduz e continua o pensamento religioso de seu predecessor, aplicando-o aos novos tempos. Essa
tradução, porém, é uma criação, visto que ele coordena as inspirações órficas em um sistema completo; fornece delas a prova científica em seu ensino e a prova moral em seu instituto de educação, na ordem pitagórica que a ele sobrevive. Embora apareça em plena luz da História, Pitágoras permaneceu sempre um personagem quase legendário. A principal razão disto está na perseguição obstinada de que foi vítima na Sicília e que custou a vida a tantos pitagóricos. Uns pereceram sob os escombros de sua escola incendiada, outros morreram de fome num templo. A lembrança e a doutrina do mestre somente se perpetuaram por meio de alguns sobreviventes que conseguiram fugir para a Grécia. Platão, com dificuldade e por um alto preço, obteve por intermédio de Arquitas um manuscrito do mestre, que, aliás, escrevera toda sua doutrina com sinais secretos e de forma simbólica. Sua verdadeira ação, como a de todos os reformadores, se exercia pelo ensinamento oral. Mas a essência do sistema consiste nos de Ísis, no comentário de Versos Dourados Hiérocles, nos fragmentos de Filolaus e de Arquitas, assim como no Timeu de Platão, que contém a cosmogonia de Pitágoras. Enfim, os escritores da Antigüidade estão repletos do filósofo de Crotona. São inesgotáveis; as historietas que pintam sua sabedoria, sua beleza e seu poder maravilhoso sobre os homens. Os neoplatônicos de Alexandria, os gnósticos, e até os primeiros Padres da Igreja citam-no como uma autoridade. São preciosas testemunhas, nas quais vibra sempre a poderosa onda de entusiasmo que a grande personalidade de Pitágoras soube comunicar à Grécia, e cujos derradeiros ecos são ainda perceptíveis oito séculos após sua morte. Vista do alto, aberta com as chaves do esoterismo comparado, sua doutrina apresenta um magnífico conjunto, um todo solidário cujas partes estão ligadas por uma concepção fundamental. Encontramos nela uma reprodução racional da doutrina esotérica da Índia e do Egito, à qual deu a clareza e a simplicidade helênicas, acrescentando-lhes um sentimento mais enérgico, uma idéia mais nítida da liberdade humana. Na mesma época e em diversos pontos do globo, grandes reformadores divulgavam doutrinas análogas. Lao-Tsé saía, na China,
do esoterismo de Fo-Hi. O último Buda, Sáquia-Muni, pregava às margens do Ganges. Na Itália, o sacerdócio etrusco enviava a Roma um iniciado munido dos livros sibilinos, o rei Numa, que tentou refrear, por meio de sábias instituições, a ameaçadora ambição do Senado romano. E não foi por acaso que esses reformadores apareceram ao mesmo tempo entre povos tão diversos. Suas diferentes missões concorrem para um objetivo comum. Elas provam que em certas épocas uma mesma corrente espiritual atravessa misteriosamente toda a humanidade. De onde vem essa corrente? Do mundo divino que está fora de nossa vista, mas do qual os gênios e os profetas são os enviados e as testemunhas. Pitágoras atravessou todo o mundo antigo antes de revelar sua palavra à Grécia. Ele conheceu a África e a Ásia, Mênfis e Babilônia, sua política e iniciação. Sua vida agitada assemelha-se a uma nave lançada em plena tempestade. Soltas as velas, ela demanda o porto, sem se desviar da rota, imagem da calma e da força no meio dos elementos desencadeados. Sua doutrina é como uma noite fresca que sucede ao ardor intenso de um dia sangrento. Ela evoca a beleza do firmamento que pouco a pouco desenrola seus arquipélagos cintilantes e suas harmonias etéreas sobre a cabeça daquele que vê. Tentemos separar uma e outra das obscuridades da lenda e dos preconceitos da escola.
O juramento anfictiônico (1). dos povos associados dá a idéia da grandeza e da força social dessa instituição: “Juramos jamais destruir as cidades anfictiônicas, jamais desviar, seja durante a paz, seja durante a guerra, as fontes necessárias às suas necessidades. Se alguma potência ousar empreendê-lo, marcharemos contra ela e destruiremos suas cidades. Se os ímpios roubarem as oferendas do templo de Apolo, juramos empregar nossos pés, nossos braços, nossa voz, todas as nossas forças, contra eles e seus
cúmplices.”
II
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.