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Capítulo 72 de 74

Os Essênios. João Batista. A Tentação — parte 7 de 8

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

centenas de prisioneiros. Lá Varus fizera crucificar dois mil rebeldes. E foi lá também que o doce Messias, predito pelos profetas, devia sofrer o horrível suplício inventado pelo gênio atroz dos fenícios e adotado pela lei implacável de Roma. A coorte dos legionários formou um grande círculo no cimo da colina afastando a golpes de lança os últimos fiéis que seguiram o condenado. São mulheres galiléias, comovidas e desesperadas, que prostram a face contra a terra. A hora suprema chegou para Jesus. É preciso que o defensor dos pobres, dos fracos e dos oprimidos termine sua obra no martírio abjeto reservado aos escravos e aos bandidos. É preciso que o profeta consagrado pelos essênios se deixe pregar na cruz, aceita na visão de Engaddi. É preciso que o Filho de Deus beba o cálice entrevisto na Transfiguração. É preciso que ele desça até o fundo do inferno e do horror terrestre. Jesus recusou a bebida tradicional preparada pelas piedosas mulheres de Jerusalém e destinada a entorpecer os supliciados. É em plena consciência que ele sofrerá aquelas agonias. Enquanto o prendem no infame madeiro, enquanto os duros soldados enterram, com fortes golpes de martelo, os pregos naqueles pés adorados pelos infelizes, naquelas mãos que só sabiam abençoar, a nuvem negra de um sofrimento dilacerante extingue-lhe a visão, sufoca-lhe a garganta. Todavia, do fundo daquelas convulsões e daquelas trevas infernais, a consciência do Salvador, sempre viva, só tem urna palavra para seus algozes: “Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem!” Eis que chega o fundo do cálice: as horas da agonia, do meio-dia até o pôr-do-sol. A tortura moral sobrepõe-se, e ultrapassa a tortura física. O iniciado abdicou de seus poderes. O filho de Deus vai eclipsarse. Só resta o homem que sofre. Por algumas horas ele perderá seu céu para medir o abismo do sofrimento humano. A cruz ergue-se lentamente com sua vítima e sua inscrição, última ironia do procônsul: Este é o rei dos Judeus! Agora o olhar do crucificado vê flutuar, em um nevoeiro angustiante, Jerusalém, a cidade santa que ele quis glorificar e que lhe atira o anátema. Onde estão seus discípulos? Desaparecidos. Eles só

ouvem as injúrias dos membros do Sinédrio, que, supondo que o profeta não precisa mais ser temido, tripudiam sobre sua agonia e dizem: “Ele salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo!” Por meio dessas blasfêmias, por meio dessa perversidade, em uma visão terrificante do futuro, Jesus vê todos os crimes que iníquos potentados, que sacerdotes fanáticos vão cometer em seu nome. Utilizarão o seu signo para amaldiçoar! Crucificarão com sua cruz! Não é o sombrio silêncio do céu velado para ele, mas a luz perdida pela humanidade que o faz soltar este grito de desespero: “Meu Pai, por que me abandonastes?” Então a consciência do Messias, a vontade de toda a sua vida, jorra um último clarão e sua alma liberta-se com este grito: “Tudo está consumado!” Oh! Sublime nazareno, oh! divino filho do Homem! Já não estás mais aqui! Em um único vôo, sem dúvida, tua alma encontrou, em uma luz mais brilhante, teu céu de Engaddi, teu céu do monte Tabor! Viste teu Verbo vitorioso voando para além dos séculos e não quiseste outra glória senão as mãos e os olhares, erguidos para ti, daqueles que curaste e consolaste... Mas a teu derradeiro grito, incompreendido pelos guardas, um tremor passou por eles. Os soldados romanos voltaram-se e, diante do estranho clarão deixado por teu espírito na face tranqüila daquele cadáver, teus algozes espantados entreolham-se e dizem: “Seria ele um deus?” Está verdadeiramente acabado o drama? Está terminada a luta formidável e silenciosa entre o divino Amor e a Morte que se abateu sobre ele com os poderes reinantes da terra? Onde está o vencedor? Seriam aqueles sacerdotes que descem do Calvário, contentes consigo mesmos, seguros de sua realização, uma vez que viram o profeta expirar? Ou seria o pálido crucificado, já lívido? Para aquelas mulheres fiéis que os legionários deixaram aproximar-se e que soluçam aos pés da cruz, para os discípulos consternados e refugiados em uma gruta no vale de Josafá, tudo está terminado. O Messias que devia sentar no trono de Jerusalém morreu miseravelmente pelo suplício infame da

cruz. O mestre desapareceu; e com ele a esperança, o Evangelho, o reino do céu... Um morno silêncio, um profundo desespero pesa sobre a pequena comunidade. Até mesmo Pedro e João estão abatidos. Tudo escureceu em torno deles. Nenhum raio mais brilha em sua alma. No entanto, assim como nos mistérios de Elêusis, urna luz resplandecente sucedia às trevas profundas, assim também, nos Evangelhos, ao desespero profundo sucede uma alegria súbita, instantânea, prodigiosa. Ela explode, ela irrompe como a luz ao nascer do sol. E o grito fremente de alegria propaga-se em toda a Judéia. “Ele ressuscitou!” Maria Madalena foi a primeira que, vagando nas proximidades do túmulo, no auge da dor, viu o Mestre e o reconheceu pela voz que a chamava: Maria! Louca de alegria, ela precipitou-se a seus pés. Viu ainda Jesus olhá-la, fazer um gesto como que para impedir que o tocasse. Depois, a aparição esvaneceu-se bruscamente, deixando em torno de Madalena a quente atmosfera e a embriaguez de uma presença real. Depois as santas mulheres encontraram o Senhor e ouviram-no dizer estas palavras: “Ide e dizei a meus irmãos que se dirijam para a Galiléia É lá que eles me verão”. Na mesma noite, estando os onze reunidos a portas fechadas, viram Jesus entrar. Ele tomou seu lugar entre eles, falou-lhes docemente, reprovando-lhes a incredulidade. Depois disse. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a todas as criaturas humanas.” (12) Coisa estranha: enquanto o escutavam, sentiam-se como em um sonho. Tinham esquecido completamente a morte dele, acreditavam-no vivo e estavam persuadidos de que o Mestre não os deixaria mais. No momento em que iam falar, viram-no desaparecer como urna luz que se extingue. O eco de sua voz vibrava ainda em seus ouvidos. Os apóstolos, ofuscados, tatearam seu lugar vazio. Uma vaga claridade flutuava ali. De repente apagou-se. Segundo Mateus e Marcos, Jesus reapareceu pouco depois em uma montanha, diante de quinhentos irmãos reunidos pelos apóstolos. Mostrou-se ainda uma vez aos onze, reunidos. Depois as aparições cessaram. Mas a fé estava criada, o

impulso dado, o cristianismo vivia. Os apóstolos, cheios do fogo sagrado, curavam os doentes e pregavam o Evangelho de seu Mestre. Três anos depois, um jovem fariseu de nome Saulo, animado contra a nova religião por um ódio violento, e que perseguia os cristãos com ardor juvenil, dirigiu-se a Damasco com vários companheiros. No caminho, viu-se subitamente envolvido por um relâmpago tão ofuscante que caiu por terra. Tremendo todo, gritou: “Quem és tu?” Então ouviu uma voz que dizia: “Eu sou Jesus, que tu persegues. Seria duro para ti resistir aos aguilhões”. Seus companheiros, tão assustados quanto ele, ergueram-no. Eles tinham ouvido a voz sem nada ver. O jovem, ofuscado pelo relâmpago, só recobrou a visão após três dias. (13). Converteu-se à fé do Cristo e tornou-se Paulo, o apóstolo dos gentios. Todo o mundo concorda em que, sem essa conversão, o cristianismo, confinado na Judéia, não teria conquistado o Ocidente. Tais são os fatos referidos pelo Novo Testamento. Qualquer esforço que se faça para reduzi-los ao mínimo, e qualquer que seja, aliás, a idéia religiosa ou filosófica que a eles se ligue, é impossível fazê-los passar por puras lendas e recusar-lhes o valor de um testemunho autêntico quanto ao essencial. Há dezoito séculos as ondas da dúvida e da negação têm investido contra o rochedo desse testemunho. Há cem anos a crítica se abateu encarniçada contra ele, com todos os engenhos e todas as armas. Conseguiu abrir-lhe algumas brechas, mas não abalá-lo. O que há por trás das visões dos apóstolos? Os teólogos primários, os exegetas do texto literal e os sábios agnósticos poderão discutir sobre isso até o infinito e bater-se na obscuridade; eles não se converterão uns aos outros e raciocinarão no vazio, até que a Teosofia, que é a ciência do Espírito, amplie suas concepções, e até que uma psicologia experimental superior, que é a arte de descobrir a alma, lhes abra os olhos. Mas para nos colocarmos aqui simplesmente do ponto de vista do historiador consciencioso, isto é, da autenticidade daqueles fatos como fatos psíquicos, há algo de que não se pode duvidar. É que os apóstolos tenham presenciado aquelas aparições e que sua fé na ressurreição de Cristo era inquebrantável.

Se rejeitarmos as narrativas de João por terem tido redação definitiva cerca de cem anos após a morte de Jesus, e a de Lucas sobre Emaús como uma ampliação poética, restam-nos as afirmações simples e positivas de Marcos e de Mateus, que são a própria raiz da tradição e da religião cristã. Resta alguma coisa de mais sólido e de mais indiscutível ainda: o testemunho de Paulo. Querendo explicar aos coríntios a razão de sua fé e a base do Evangelho que prega, ele enumera, por ordem, seis aparições sucessivas de Jesus: a Pedro, aos onze, aos quinhentos, “cuja maior parte, diz ele, ainda está viva”, a Tiago, aos apóstolos reunidos e, finalmente, sua própria visão na estrada de Damasco. (14). Ora, esses fatos foram comunicados a Paulo pelo próprio Pedro e por Tiago, três anos depois da morte de Jesus, logo após sua conversão, por ocasião de sua primeira viagem a Jerusalém. Ele os ouviu, pois, de testemunhas oculares. Afinal, de todas essas visões a mais incontestável não é a menos extraordinária; refiro-me à do próprio Paulo. Em suas epístolas, ele a menciona a todo momento como a fonte de sua fé. Tendo-se em vista o estado psicológico precedente de Paulo e a natureza de sua visão, ela vem de fora e não de dentro. Ela tem um caráter inesperado e fulminante, mudando o âmago de seu ser completamente. Como um batismo de fogo, tempera-o dos pés à cabeça e o reveste de uma armadura infrangível, fazendo dele, diante do mundo, o cavaleiro invencível de Cristo. Assim, o testemunho de Paulo tem uma dupla força, enquanto ele afirma sua própria visão e corrobora as dos outros. Se duvidarmos da sinceridade de semelhantes afirmações, seria necessário rejeitar em massa todos os testemunhos históricos e renunciar a escrever a história. Acrescente-se que, se não há história crítica sem uma pesagem exata e uma triagem racional de todos os documentos, não há história filosófica se não se concluir a grandeza dos efeitos a partir da grandeza das causas. Pode-se, com Celso, Strauss e M. Renan, não atribuir qualquer valor objetivo à ressurreição e considerá-la como um fenômeno de pura alucinação. Mas nesse caso somos forçados a fundamentar a maior revolução religiosa da humanidade sobre uma aberração dos sentidos e sobre uma quimera do espírito. (15). Ora, que

ninguém se engane, a fé na ressurreição é a base do cristianismo histórico. Sem esta confirmação da doutrina de Jesus por um fato extraordinário, sua religião nem sequer teria começado. Esse fato operou uma revolução total na alma dos apóstolos. De judaica que era, sua consciência tornou-se cristã. Para eles, o Cristo glorioso está vivo. Ele falou-lhes; o céu abriu-se, e o além entrou no aquém. A aurora da imortalidade tocou sua fronte e incendiou suas almas com um fogo que não pode mais extinguir-se. Acima do reino terrestre de Israel que desaba, eles vislumbraram, em todo o seu esplendor, o reino celeste e universal. Daí, seu elã para a luta, sua alegria no martírio. Da ressurreição de Jesus parte aquele impulso prodigioso, aquela imensa esperança que leva o Evangelho a todos os povos e vai atingir com suas ondas as últimas margens da terra. Para que o cristianismo tivesse sucesso, eram necessárias duas coisas, como o diz Fabre d'Olivet: que Jesus quisesse morrer e que ele tivesse a força de ressuscitar. Para conceber do fato da ressurreição uma idéia racional, para compreender também o seu alcance religioso e filosófico, é preciso fixar-se apenas no fenômeno das aparições sucessivas e afastar desde o início a absurda idéia da ressurreição do corpo, um dos maiores obstáculos ao dogma cristão que, sobre esse ponto como sobre muitos outros, é absolutamente primário e infantil. A desaparição do corpo de Jesus pode se explicar por causas naturais. E deve-se notar que os corpos de vários grandes adeptos desapareceram sem deixar vestígios e de maneira também totalmente misteriosa; entre outros, o de Moisés, de Pitágoras e de Apolônio de Tiana, sem que jamais se tenha sabido o que aconteceu com eles. Pode ser que os irmãos conhecidos e desconhecidos que velavam por eles tenham destruído pelo fogo os despojos do mestre, para subtraí-los à profanação dos inimigos. Seja como for, o aspecto científico e a grandeza espiritual da ressurreição só se evidenciam quando compreendidos em seu sentido esotérico. Entre os egípcios como entre os persas da religião masdeísta de Zoroastro, antes como depois de Jesus, em Israel como entre os cristãos dos dois primeiros séculos, a ressurreição foi compreendida de duas

maneiras: uma, material e absurda; outra, espiritual e teosófica. A primeira é a idéia popular finalmente adotada pela Igreja após a repressão do agnosticismo. A segunda é a idéia profunda dos iniciados. No primeiro sentido, a ressurreição significa a volta à vida do corpo material, em uma palavra, a reconstituição do cadáver decomposto ou disperso, como se imaginava que iria acontecer com a volta do Messias ou no dia do juízo final. É inútil mencionar o materialismo grosseiro e absurdo dessa concepção. Para o iniciado a ressurreição tinha um significado muito diferente, relacionado à doutrina da constituição ternária do homem. Significava: a purificação e a regeneração do corpo sideral, etéreo e fluido, que é o próprio organismo da alma e, de certa maneira, a cápsula do espírito. Essa purificação pode ocorrer já nesta vida, pelo trabalho interior da alma e por um certo modo de existência. Mas só se realiza, para a maior parte dos homens, depois da morte, e somente para aqueles que, de uma maneira ou de outra, aspiraram ao justo e ao verdadeiro. No outro mundo a hipocrisia é impossível. Lá as almas aparecem como são na realidade. Manifestam-se fatalmente sob a forma e a cor de sua essência: tenebrosas e medonhas, se são más; radiosas e belas, se são boas. É esta a doutrina exposta por Paulo na epístola aos Coríntios. Ele declara formalmente: “Há um corpo animal e há um corpo espiritual” (16). Jesus anuncia-o simbolicamente, mas com mais profundidade, para quem sabe ler nas entrelinhas, na conversa secreta com Nicodemos. Ora, quanto mais uma alma está espiritualizada, maior será seu afastamento da atmosfera terrestre, mais longínqua a região cósmica que a atrai por sua lei de afinidade, mais difícil sua manifestação aos homens. Por esse motivo as almas superiores só se manifestam ao homem no estado de sono profundo ou de êxtase. Então, estando fechados os olhos físicos, a alma semi-desligada do corpo algumas vezes vê almas. Pode ocorrer, entretanto, que um grande profeta, um verdadeiro filho de Deus, manifeste-se aos seus de maneira sensível e no estado de vigília, para melhor persuadi-los atingindo seus sentidos e sua imaginação. Em tais casos, a alma desencarnada chega a dar momentaneamente a seu

corpo espiritual uma aparência visível, às vezes até tangível, por meio do dinamismo particular que o espírito exerce sobre a matéria, por intermédio das forças elétricas da atmosfera e das forças magnéticas dos corpos vivos. É o que acontece, segundo todas as aparências, com Jesus. As aparições mencionadas pelo Novo Testamento entram alternativamente em uma e em outra dessas duas categorias: visão espiritual e aparição sensível. É certo que elas tiveram, para os apóstolos, o caráter de uma realidade suprema. Eles antes teriam duvidado da existência do céu e da terra do que de sua comunhão viva com o Cristo ressuscitado, pois essas visões comoventes do Senhor eram o que havia de mais radioso em sua vida, de mais profundo em sua consciência. Não há o sobrenatural, mas há o desconhecido da natureza, sua continuação oculta no infinito e a fosforescência. do invisível nos confins do visível. Em nosso estado corporal presente, nós temos dificuldade para crer e mesmo conceber a realidade do impalpável; no estado espiritual, é a matéria que nos parece irreal e não-existente. Porém a síntese da alma e da matéria, essas duas faces da substância una, encontra-se no Espírito. Pois se remontarmos aos princípios eternos, às causa finais, são as leis inatas da Inteligência que explicam o dinamismo da natureza, e é o estudo da alma pela psicologia experimental que explica as leis da vida. A ressurreição, compreendida no seu sentido esotérico tal como acabei de indicá-lo, era pois ao mesmo tempo a conclusão necessária da vida de Jesus e o prefácio indispensável à evolução histórica do cristianismo. Conclusão necessária, porque Jesus muitas vezes anunciara-a a seus discípulos. Se ele teve o poder de aparecer-lhes, depois de sua morte, com aquele esplendor triunfante, foi graças à pureza, à força inata de sua alma, centuplicada pela grandeza do esforço e da obra realizada. Visto de fora e do ponto de vista terrestre, o drama messiânico, terminou sobre a cruz. Sublime em si, falta-lhe no entanto o cumprimento da promessa. Visto de dentro, do fundo da consciência de Jesus e do ponto de vista celeste, ele tem três atos: A A Tentação, Transfiguração e A Ressurreição, que marcam os seus pontos mais

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