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Capítulo 52 de 74
Terceiro Grau – Perfeição (6) — parte 3 de 3
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
Inconsciente, e só reviverá pela Ciência ou pela Dor, pelo Amor ou pela Morte! A lei da encarnação e da desencarnação revela-nos pois o verdadeiro sentido da vida e da morte. Constitui o núcleo essencial na evolução da alma, e nos permite acompanhá-la para trás e para frente, até o mais profundo da natureza e da divindade; pois essa lei nos revela o ritmo e a medida, a razão e o fim de sua imortalidade. Abstrata ou fantástica, ela torna-a viva e lógica, mostrando as correspondências da vida e da morte. O nascimento terrestre é uma morte do ponto de vista espiritual; a morte, uma ressurreição celeste. A alternância das duas vidas é necessária ao desenvolvimento da alma, e cada uma das duas é ao mesmo tempo a conseqüência e a explicação da outra. Todo aquele que se penetrou dessas verdades encontra-se no coração dos mistérios, no centro da iniciação. Entretanto, perguntarão, o que nos prova a continuidade da alma, da mônada, da entidade espiritual através de todas essas existências, uma vez que delas ela perde sucessivamente a memória? E o que vos prova, responderemos, a identidade da vossa personalidade, durante a vigília e durante o sono? Despertais cada manhã de um estado tão estranho, tão inexplicável como a morte. Ressuscitais desse nada para recair nele à noite. Era o nada? Não. Pois sonhastes, e vossos sonhos foram para vós tão reais quanto a realidade da vigília. Uma alteração das condições fisiológicas do cérebro modificou as relações entre a alma e o corpo e deslocou vosso ponto de vista psíquico. Permanecestes o mesmo indivíduo, mas estivestes em outro meio e vivestes outra existência. Nos magnetizados, nos sonâmbulos e nos clarividentes, o sono desenvolve faculdades novas que nos parecem miraculosas, mas que são as faculdades naturais da alma desligada do corpo. Uma vez despertos, esses clarividentes não se lembram mais do que viram, do que disseram ou fizeram durante o sono lúcido. Mas em outro de seus sonos recordam-se perfeitamente do que aconteceu no sono anterior, e predizem às vezes com exatidão matemática o que acontecerá no próximo. Parecem ter duas consciências, duas vidas alternadas inteiramente distintas, cada uma
com sua continuidade racional, envolvendo uma mesma individualidade como cordões de cores diversas em torno de um fio invisível. Foi pois num sentido bastante profundo que os antigos poetas iniciados denominaram o sono Um véu de o irmão da morte. esquecimento separa o sono da vigília, como o nascimento da morte. E assim como nossa existência terrestre divide-se em duas partes sempre alternadas, também a alma se alterna, na imensidão de sua evolução cósmica, entre a encarnação e a vida espiritual, entre a terra e os céus. Essa passagem alternativa de um plano do Universo para outro, essa inversão dos pólos de seu ser não é menos necessária ao desenvolvimento da alma do que a alternativa da vigília e do sono é necessária à vida corporal do homem. Temos necessidade das ondas do Lethê ao passar de uma existência para outra. Nesta, um véu salutar nos esconde o passado e o futuro. O esquecimento porém não é total, e a luz atravessa o véu. As idéias inatas provam, por si sós, uma existência anterior. Todavia há mais: nascemos com um mundo de vagas recordações, de impulsos misteriosos, de pressentimentos divinos. Em crianças nascidas de pais mansos e tranqüilos às vezes irrompem paixões selvagens que o atavismo não é suficiente para explicar e que vêm de uma existência precedente. Nas vidas mais humildes muitas vezes há inexplicáveis e sublimes fidelidades a um sentimento, a uma idéia. Não virão elas das promessas e dos juramentos da vida celeste? Pois a lembrança oculta que dela a alma guardou é mais forte do que todas as razões terrestres. Conforme se prenda a esta lembrança ou a abandone, ela vence ou sucumbe. A verdadeira fé é aquela muda fidelidade da alma a si mesma. Compreende-se assim que Pitágoras, como todos os teósofos, tenha considerado a vida corporal como uma elaboração necessária da vontade, e a vida celeste como um crescimento espiritual e uma realização. As vidas sucedem-se e não se assemelham, mas encadeiam-se com uma lógica impiedosa. Se cada uma delas tem sua lei própria e seu destino especial, sua seqüência é regida por uma lei geral que se poderia chamar de (8) Segundo esta lei, as ações de uma repercussão das vidas . vida repercutem fatalmente na seguinte. Não somente o homem
renascerá com os instintos e as faculdades que desenvolveu em sua precedente encarnação, mas o próprio gênero de sua existência será determinado em grande parte pelo bom ou mau emprego que ele teria feito de sua liberdade na vida anterior. Não há palavra, não há ação que não tenha eco na eternidade, diz um provérbio. Segundo a doutrina esotérica, esse provérbio aplica-se literalmente de uma vida à outra. Para Pitágoras, as injustiças aparentes do destino, as deformidades, as misérias, os golpes da sorte, as infelicidades de todo gênero encontram sua explicação no fato de cada existência ser a recompensa ou o castigo da precedente. Uma vida criminosa engendra uma vida de expiação; uma vida imperfeita, uma vida de provas. Uma vida boa determina uma missão; uma vida superior, uma missão criadora. A sanção moral, que se aplica com imperfeição aparente do ponto de vista de uma única existência, aplica-se, no entanto, com perfeição admirável e justiça minuciosa na série de existências. Nessa série pode haver progressão rumo à espiritualidade e à inteligência, como pode haver progressão rumo à bestialidade e à matéria. À medida que a alma progride, adquire maior participação na escolha de suas reencarnações. A alma inferior submete-se. A alma média escolhe entre aquelas que lhe são oferecidas. A alma superior, que se impõe uma missão, elege-a por devotamento. Quanto mais a alma se eleva, mais ela conserva em suas encarnações a consciência clara, irrecusável, da vida espiritual, que reina além de nosso horizonte terrestre, que a envolve como uma esfera de luz e envia seus raios em nossas trevas. A tradição pretende mesmo que os iniciadores de primeira linha, os divinos profetas da humanidade, tenham recordado suas precedentes vidas terrestres. Segundo a lenda, Gautama Buda, Sáquia-Muni, teria encontrado em seus êxtases o fio das suas existências passadas. E conta-se que Pitágoras dizia dever a um favor especial dos Deuses o fato de lembrar-se de algumas de suas vidas anteriores. Já dissemos que, na série das vidas, a alma pode retroceder ou avançar, conforme se entregue à sua natureza inferior ou à divina. Daí uma conseqüência importante, cuja verdade a consciência humana sempre sentiu com um estremecimento estranho. Em todas as
existências há lutas a sustentar, escolhas a fazer, decisões a tomar, cujos resultados são incalculáveis. Mas, na rota ascendente do bem, que atravessa uma série considerável de encarnações, deve existir uma vida, um ano, um dia, uma hora talvez, em que a alma, alcançando a plena consciência do bem e do mal, pode elevar-se, por um derradeiro e supremo esforço, a uma altura tal que não terá mais de descer, iniciando o caminho dos pináculos. O mesmo acontece no caminho descendente do mal. Há um ponto do qual a alma perversa pode ainda voltar. Contudo, uma vez transposto esse ponto, a insensibilidade é definitiva. De existência em existência, ela rolará até o fundo das trevas e perderá sua humanidade. O homem tornar-se-á demônio, o demônio, animal, e sua indestrutível mônada será forçada a recomeçar a penosa, assustadora evolução através da série dos reinos ascendentes e inumeráveis existências. Eis o verdadeiro inferno, segundo a lei da evolução. E não é ele tão terrível e até mais lógico que o das religiões esotéricas? A alma pode, portanto, subir ou descer na série das vidas. Quanto à humanidade terrestre, sua marcha opera-se segundo a lei de uma progressão ascendente, que faz parte da ordem divina. Esta verdade, que supomos ser descoberta recente, era conhecida e ensinada nos Mistérios antigos. “Os animais são parentes do homem e o homem é parente dos deuses”, dizia Pitágoras. Ele desenvolvia filosoficamente o que ensinavam também os símbolos de Elêusis: o progresso dos reinos ascendentes, a aspiração do mundo vegetal ao mundo animal, do mundo animal ao mundo humano e a sucessão, na humanidade, de raças cada vez mais perfeitas. Esse progresso não se realiza de maneira uniforme, mas em ciclos regulares e crescentes, contidos uns nos outros. Cada povo tem sua juventude, sua maturidade e seu declínio. Ocorre o mesmo com raças inteiras: a raça vermelha, a raça negra e a raça branca, têm reinado sucessivamente no globo. A raça branca, ainda em plena juventude, não atingiu sua maturidade em nossos dias. Em seu apogeu, ela desenvolverá, no próprio seio, uma raça aperfeiçoada, pelo restabelecimento da iniciação e pela seleção espiritual dos casamentos. Assim se sucedem as raças, assim progride a humanidade. Os iniciados antigos iam muito mais longe do que os modernos em suas
previsões. Admitiam que chegaria um momento em que a grande massa dos indivíduos que compõem a humanidade atual passaria a um outro planeta, a fim de lá começar um novo ciclo. Na série dos ciclos que constituem a cadeia planetária, a humanidade inteira desenvolverá os princípios intelectuais, espirituais e transcendentes que os grandes iniciados cultivaram em si mesmos já nesta vida, e os levará assim a uma florescência mais geral. Não é preciso dizer que tal desenvolvimento abrange não somente milhares, mas milhões de anos, e que provocará mudanças inimagináveis na condição humana. Para caracterizá-las, Platão disse que nesse tempo os Deuses habitarão realmente os templos dos homens. É lógico admitir que na cadeia planetária, isto é, nas evoluções sucessivas de nossa humanidade em outros planetas, suas encarnações se tornem de uma natureza cada vez mais etérea, o que as aproximará insensivelmente do estado puramente espiritual, daquela oitava esfera que está fora do círculo das gerações, e pela qual os antigos teósofos designavam o estado divino. É natural também que, não tendo todos o mesmo impulso, pois muitos ficam no caminho ou caem fora, o número dos eleitos vá diminuindo sempre nessa prodigiosa ascensão. Ela causa vertigem a nossas inteligências limitadas pela Terra; mas as inteligências celestes contemplam-na sem medo, como nós contemplamos uma única vida. A evolução das almas, assim compreendida, não estaria de acordo com a unidade do Espírito, o princípio dos princípios; com a homogeneidade da Natureza, a lei das leis; com a continuidade do movimento, a força das forças? Visto através do prisma da vida espiritual, um Sistema Solar não constitui somente um mecanismo material, mas um organismo vivo, um reino celeste, em que as almas viajam de mundo em mundo como o próprio sopro de Deus que o anima. Qual é pois o fim último do homem e da humanidade, segundo a doutrina esotérica? Após tantas vidas, mortes, renascimentos, calmarias e despertares pungentes, existirá um término para os labores de Psiquê? Sim, dizem os iniciados, quando a alma tiver definitivamente vencido a matéria; quando, desenvolvendo todas as suas faculdades espirituais, ela
tiver encontrado em si mesma o princípio e o fim de todas as coisas. Então, não sendo mais necessária a encarnação, ela entrará no estado divino, mediante sua união completa com a inteligência divina. Se mal podemos pressentir a vida espiritual da alma após cada vida terrestre, como poderemos imaginar esta vida perfeita que deverá resultar de toda a série de suas existências espirituais? O céu dos céus será para suas venturas precedentes o que o Oceano é para os rios. Para Pitágoras, a apoteose do homem não era a imersão na inconsciência, mas a atividade criadora na consciência suprema. A alma transformada em puro espírito não perde sua individualidade; completa-a, pois reúne-se a seu arquétipo em Deus. Ela se lembra de todas as existências anteriores, que lhe parecem outros tantos degraus para atingir o degrau máximo, de onde ela abrange e penetra o universo. Nesse estado, o homem não é mais homem, como dizia Pitágoras. É semideus; porque reflete em todo o seu ser a luz inefável, com a qual Deus preenche toda a imensidade. Para ele, saber é poder; amar é criar; ser é irradiar a verdade e a beleza. E esse término, será ele definitivo? A Eternidade espiritual tem outras medidas além do tempo solar. Mas tem também suas etapas, suas normas e seus ciclos. Acontece apenas que eles ultrapassam inteiramente as concepções humanas. Porém a lei das analogias progressivas nos reinos ascendentes da natureza permite-nos afirmar que o espírito, tendo chegado a este estado sublime, não pode mais voltar atrás e que se os mundos visíveis mudam e passam, o mundo invisível, que é sua razão de ser, sua fonte e sua embocadura – e do qual participa a divina Psiquê –, é imortal. Com essas perspectivas luminosas, Pitágoras terminava a história da . A última palavra tinha expirado nos lábios do sábio, divina Psiquê mas o sentido da incomunicável verdade permanecia suspenso na atmosfera imóvel da cripta. Cada um acreditava ter acabado o sonho das vidas para despertar na grande paz, no doce oceano da vida única e sem limites. As lâmpadas de nafta iluminavam tranqüilamente a estátua de Perséfona, em pé, como ceifadora celeste, e faziam reviver sua história simbólica nas pinturas sagradas do santuário. Às vezes uma sacerdotisa entrava em êxtase sob o domínio da voz harmoniosa de Pitágoras, e
parecia encarnar nas atitudes e na fisionomia radiante a inefável beleza de sua visão. E os discípulos, tomados de emoção religiosa, assistiam em silêncio. Mas logo o mestre, com um gesto lento e seguro, trazia de novo para a terra a profândida inspirada. Pouco a pouco, seus traços se descontraíam, ela tombava nos braços das companheiras e caía em profunda letargia, da qual despertava confusa, triste e como que esgotada pelo esforço despendido. Então subiam todos na cripta para os jardins de Ceres, para a frescura da aurora que começava a branquear o mar, sob o céu estrelado.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.