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Capítulo 20 de 74
A Esfinge
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
Diante de Babilônia, metrópole tenebrosa do despotismo, o Egito foi no mundo antigo uma verdadeira cidadela da ciência sagrada, uma escola para seus mais ilustres profetas, um refúgio e um laboratório das mais nobres tradições da humanidade. Graças a imensas escavações e admiráveis trabalhos, conhecemos hoje o povo egípcio melhor do que qualquer outra civilização anterior à grega, pois ele nos reabre sua história escrita em páginas de pedra (1). Desenterram-se seus monumentos, decifram-se seus hieróglifos; e, no entanto, ainda falta penetrar no mais profundo arcano de seu pensamento. Este arcano é a doutrina oculta de seus sacerdotes, a qual, cientificamente cultivada nos templos, prudentemente velada sob os mistérios, mostra-nos ao mesmo tempo a alma do Egito, o segredo de sua política e seu papel capital na história universal. Nossos historiadores falam dos faraós no mesmo tom com que se referem aos déspotas de Nínive e de Babilônia. Para eles, o Egito é uma monarquia absoluta e conquistadora como a Assíria, só diferindo dela por ter durado alguns milhares de anos a mais. Teriam levado em consideração que na Assíria a realeza esmagou o sacerdócio fazendo dele seu instrumento, enquanto no Egito o sacerdócio disciplinou a realeza, e jamais abdicou, mesmo nas piores épocas, impondo-se aos reis, expulsando os déspotas, governando sempre a nação? E isto, por uma superioridade intelectual, por uma sabedoria profunda e oculta, que nenhum corpo docente jamais igualou em qualquer país ou qualquer tempo. É pouco provável. Pois, muito longe de colher as inúmeras
conseqüências desse fato essencial, nossos historiadores apenas o entreviram e parecem não lhe atribuir nenhuma importância. Todavia, não é necessário ser arqueólogo ou lingüista para compreender que o ódio implacável entre a Assíria e o Egito provém de que esses dois povos representam no mundo dois princípios opostos e que o povo egípcio ficou devendo sua longa duração a uma estrutura religiosa e científica mais forte do que todas as revoluções. Desde a época ariana, através do período agitado que seguiu os tempos védicos até a conquista persa e a época alexandrina, isto é, durante um lapso de mais de cinco mil anos, o Egito foi a fortaleza das mais puras e elevadas doutrinas, cujo conjunto constitui a ciência dos princípios e que se poderia chamar a ortodoxia esotérica da Antigüidade. Cinqüenta dinastias puderam suceder-se e o Nilo pôde carregar seus aluviões sobre cidades inteiras; a invasão fenícia pôde inundar o país e dele ser expulsa. Porém, em meio aos fluxos e refluxos da História, sob a idolatria aparente de seu politeísmo exterior, o Egito conservou o velho fundo de sua teologia oculta e sua organização sacerdotal. Esta resistiu aos séculos como a pirâmide de Gisé, meio soterrada na areia, mas intacta. Graças a esta imobilidade de esfinge guardando seu segredo, a esta resistência de granito, o Egito tomou-se o eixo em torno do qual evoluiu o pensamento religioso da humanidade, passando da Ásia para a Europa. A Judéia, a Grécia, a Etrúria, igualmente almas de vida que formaram civilizações diversas. Mas, onde colheram elas suas idéiasmães, senão na reserva orgânica do velho Egito? Moisés e Orfeu criaram duas religiões opostas e prodigiosas, uma com seu áspero monoteísmo, outra com seu politeísmo efervescente. Porém, em que molde se formou seu gênio? Onde encontrou a força, a energia, a audácia para reformar um povo semi-selvagem, como o bronze numa fornalha, e o outro, a magia de fazer falar os deuses, como uma lira afinada, à alma de seus bárbaros encantados? Nos templos de Osíris, na antiga Tebas, que os iniciados chamavam de cidade do sol ou Arca Solar - porque ela continha a síntese da ciência divina e todos os segredos da iniciação.
Todos os anos, no solstício do verão, quando caem as chuvas torrenciais da Abissínia, o Nilo muda de cor e adquire o tom de sangue a que se refere a Bíblia. O rio aumenta até o equinócio do outono e esconde sob as vagas o horizonte de suas margens. Mas, de pé sobre seus planaltos graníticos, sob o sol deslumbrante, os templos talhados em rocha viva, as necrópoles, os pilões e as pirâmides refletem a majestade de suas ruínas no Nilo transformado em mar. Assim o sacerdócio egípcio atravessou os séculos com sua organização e seus símbolos, os arcanos de sua ciência por longo tempo impenetráveis. Nesses templos, criptas e pirâmides elaborou-se a famosa doutrina do Verbo-Luz, da Palavra universal, que Moisés encerrará em sua arca de ouro e da qual Cristo será a chama viva. A verdade é imutável em si mesma; só ela sobrevive a tudo; porém ela muda de morada como de formas e suas revelações são intermitentes. “A luz de Osíris”, que outrora iluminava para os iniciados as profundezas da natureza e as abóbadas celestes, extinguiu-se para sempre nas criptas abandonadas. Cumpriu-se a profecia de Hermes e Asclépio: “Egito! Egito! não restarão de ti senão fábulas inacreditáveis para as futuras gerações, e de ti só ficarão palavras talhadas nas pedras”. Entretanto, é um raio deste misterioso sol dos santuários que queremos fazer reviver, seguindo a via secreta da antiga iniciação egípcia, tanto quanto o permite a intuição esotérica e a fugaz refração das eras. Mas, antes de entrar no templo, lancemos um rápido olhar sobre as grandes fases que o Egito atravessou antes do tempo dos hicsos. Quase tão velha quanto a carcaça de nossos continentes, a primeira civilização egípcia remonta à antiga raça vermelha. A esfinge colossal de Gisé (2), junto da grande pirâmide, é sua obra. No tempo em que o Delta não existia ainda (formado mais tarde pelos aluviões do Nilo), o animal monstruoso e simbólico já estava deitado na colina de granito, diante da cadeia dos montes líbios e olhava o mar quebrar-se a seus pés, lá onde se estende hoje a areia do deserto. A esfinge, primeira criação do Egito, tornou-se seu símbolo principal, sua marca característica. O mais antigo sacerdócio humano a esculpiu, imagem de
natureza calma e temível em seu mistério. Uma cabeça de homem sai de um corpo de touro com garras de leão, e asas de águia curvam-se sobre seus flancos. É Ísis terrestre, a natureza na unidade viva de seus reinos. Pois já nos tempos imemoriais os sacerdotes sabiam e ensinavam que, na grande evolução, a natureza humana emerge da natureza animal. Naquele composto de touro, leão, águia e homem estão também encerrados os quatro animais da visão de Ezequiel, representando quatro elementos constitutivos do microcosmo e do macrocosmo: a água, a terra, o ar e o fogo, bases da ciência oculta. Eis porque, nos séculos posteriores, quando os iniciados viram o animal sagrado deitado no limiar dos templos ou no fundo das criptas, sentiram viver este mistério neles próprios e curvaram em silêncio as asas do espírito sobre a verdade interior. Pois antes de Édipo, eles souberam que a palavra do enigma da esfinge era o homem, o microssomo, o agente divino, que resume todos os elementos e todas as forças da natureza. A raça vermelha, pois, não deixou outra testemunha de si mesma além da esfinge de Gisé, prova irrecusável de que ela havia formulado e resolvido à sua maneira o grande problema.
L Egypte sous les Pharaons; Aegyptische (1). Champollion, Bunsen, Alterthümer; Denkmaeler, Le Livre des morts; Lepsius, Paul Pierret, François Histoire des peuples de I'Orient; Histoire ancienne des Lenormant, Maspero, peuples de L'Orient, etc.
(2). Em uma inscrição da 4ª dinastia, fala-se da esfinge como um monumento cuja origem se perde na noite dos tempos, que foi encontrado fortuitamente sob o reinado desse príncipe, coberto pela areia do deserto e esquecido por longas gerações. Fr. Lenormant, Hist. d'Orient, 11, 55. - Ora, a 4ª dinastia nos leva a 4.000 anos antes de Cristo. Por aí pode-se deduzir a antigüidade da Esfinge!
II
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.