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Capítulo 30 de 74
O Séfer Bereschit — parte 2 de 2
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
Procura em si mesmo o Verbo e seu livro, a figura de sua obra, a Palavra que será a Ação. A lâmpada se extingue, mas, à sua visão interior, na noite da cripta, reluz este nome: IAVÉ. A primeira letra – I – tem a cor branca da luz, as três outras brilham como um fogo cambiante onde passam todas as cores do arcoíris. E que vida estranha nesses caracteres! Na letra inicial, Moisés percebe o Princípio masculino, Osíris, o Espírito criador por excelência; em Eva, a faculdade conceptiva, a Ísis celeste, que dela faz parte. Assim, as faculdades divinas, que encerram em potência todos os mundos, desdobram-se e se organizam no seio de Deus. Por sua união perfeita, o Pai e a Mãe inefável formam o Filho, o Verbo vivo que cria o Universo. Eis o mistério dos mistérios, fechado para os sentidos, mas que fala pelo sinal do Eterno como o Espírito fala ao Espírito. E o tetragrama sagrado brilha com urna luz sempre mais intensa. Moisés dela vê irromper, em grandes fulgurações, os três mundos, todos os reinos da natureza e a ordem sublime das ciências. Então, o seu olhar ardente se concentra no signo masculino do Espírito criador. Invoca-o para penetrar na ordem das criações e haurir na vontade soberana a força para realizar sua própria criação, depois de ter contemplado a obra do Eterno. E eis que nas trevas da cripta reluz outro nome divino: ELOIM. Eloim significa para o iniciado: Ele, – os Deuses, o Deus dos (6) Não é mais o Ser dobrado em si mesmo e no Absoluto, mas Deuses . o Senhor dos mundos cujo pensamento desabrocha em milhões de estrelas, esferas móveis de universos flutuantes. “No princípio Deus criou os céus e a terra” Mas no início, estes céus foram apenas o pensamento do tempo e do espaço sem limites, habitados pelo vazio e pelo silêncio. “ o sopro de Deus se movia sobre a face do abismo.”(7) O que vai sair primeiro de seu seio? Um sol? Uma terra? Uma nebulosa? Uma substância qualquer deste mundo visível? Não. O que nasceu primeiro dele foi , a Luz. Esta luz, porém, não é a luz física, Aur é a luz inteligível, nascida do estremecimento da Ísis celeste no seio do
Infinito; alma universal, luz astral, substância que constitui as almas e na qual elas despontam como num fluído etéreo; elemento sutil pelo qual o pensamento se transmite a infinitas distâncias; luz divina, anterior e posterior à luz de todos os sóis. Primeiro ela se expande no Infinito, é o poderoso de Deus; depois ela volta sobre si mesma respir num movimento de amor, profundo do Eterno. Nas ondas do aspir divino éter, palpitam como sob um véu translúcido as formas astrais dos mundos e dos seres. E tudo isto se resume, para o Mago-Vidente, nas palavras que ele pronuncia e que reluzem nas trevas em caracteres cintilantes: RUAH ELOIM AUR (8). “Que a luz seja e a luz se fez.” O sopro de Eloim é a Luz! Do seio dessa primitiva luz, imaterial, brotam os seis primeiros dias da Criação, isto é, as sementes, os princípios, as formas, as almas de vida de todas as coisas. É o Universo em potência, antes da palavra e segundo o Espírito. E qual é a última palavra da Criação, a fórmula que resume o Ser em ato, o Verbo vivo em quem aparece o pensamento primeiro e último do Ser absoluto? É: ADÃO EVA. - Este símbolo não representa de modo algum, Homem Mulher. como se ensina em nossas igrejas e como o crêem nossos exegetas, o primeiro casal humano da terra, mas Deus em ato no Universo e o Gênero humano tipificado; a Humanidade universal através de todos os céus. “Deus criou o homem à sua imagem; e o criou macho e fêmea.” Este casal divino é o verbo universal pelo qual manifesta sua Ieva própria natureza através dos mundos. A esfera que ele habita primitivamente e que Moisés alcançou com o pensamento poderoso não é o jardim do Éden, o lendário paraíso terrestre, mas a esfera temporal, sem limites, de Zoroastro, a terra superior de Platão, o reino celeste universal, Heden, Hadama, substância de todas as terras. Porém, qual será a evolução da Humanidade no tempo e no espaço? Moisés a percebe sob uma forma resumida na história da queda. No Gênese, Psiquê, a Alma humana, chama-se Aísha, outro nome de Eva (9). Sua pátria é , o céu. Lá, ela vive feliz, no éter Shamaim divino, mas inconsciente de si mesma. Ela desfruta o céu sem
compreendê-lo. Pois para compreendê-lo, é preciso ter esquecido e depois lembrar; para amá-lo, é preciso tê-lo perdido e depois reconquistá-lo. Ela não saberá senão pelo sofrimento, não compreenderá senão pela queda. E que outra queda profunda e trágica senão a Bíblia infantil que lemos? Atraída para o abismo tenebroso pelo desejo do conhecimento, Aísha deixa-se cair... Deixa de ser a alma pura, um corpo sideral que vive do divino éter. Reveste-se de um corpo material e entra no círculo das gerações. E suas encarnações não são uma, mas cem, mil, em corpos cada vez mais grosseiros, conforme os astros que habita. Ela desce de mundo em mundo... desce e esquece... Um negro véu cobre sua visão interior: foi afogada a consciência divina, obscurecida a lembrança do céu na espessa trama da matéria. Pálida como uma esperança perdida, uma fraca recordação de sua antiga felicidade brilha nela! E, desta centelha, ela deveria renascer e regenerar-se por si mesma! Sim, Aísha vive ainda nesse casal nu que jaz sem defesa numa terra selvagem, sob um céu inimigo, onde ruge a tempestade. E o paraíso perdido? – É a imensidão do céu velado, adiante e atrás! Moisés contempla, assim, as gerações de Adão no Universo (10). Considera em seguida os destinos do homem sobre a Terra. Vê os ciclos passados e o presente. Na Aísha terrestre, na alma da humanidade, a consciência de Deus havia brilhado outrora com o fogo de Agni, no país de Cuche, nas vertentes do Himalaia. Mas, ei-la prestes a se extinguir na idolatria, sob infernais paixões, sob a tirania assíria, entre os povos inimigos e deuses que se entredevoram. Moisés jura a si mesmo despertá-la, instituindo o culto de Eloim. A humanidade coletiva, como o homem individual, deveriam ser a imagem de Eva. Mas, onde encontrar o povo que a encarnasse e que seria o Verbo vivo na humanidade? Então, Moisés, tendo concebido seu Livro e sua Obra, tendo sondado as trevas da alma humana, declara guerra à Eva terrestre, à natureza fraca e corrompida. Para combatê-la e reerguê-la, ele invoca o Espírito, o Fogo originário e todo-poderoso, Eva, de cuja fonte ele acaba
de subir. Sente que seus eflúvios o envolvem e lhe transmitem uma têmpera de aço. Seu nome é Vontade. E, no silêncio negro da cripta, Moisés ouve uma voz. Ela sai das profundezas de sua consciência, vibra como uma luz e diz: “Vai à montanha de Deus! Vai para Horeb!”
(1). Fabre d'Olivet, Vers dorés de Pythagore.
(2). O verdadeiro restaurador da cosmogonia de Moisés é um homem genial, hoje quase esquecido, e ao qual a França fará justiça no dia em que a ciência esotérica, que é a ciência integral e religiosa, for restabelecida em bases indestrutíveis. - Fabre d'Olivet não podia ser compreendido por seus contemporâneos, pois estava um século à frente de sua época. Espírito universal, possuía, no mesmo grau, três faculdades cuja união forma as inteligências transcendentais: a intuição, a análise e a síntese. Nascido às margens do Ganges (Hérault), em 1767, iniciou o estudo das doutrinas místicas do Oriente, após ter adquirido noções profundas das ciências, das filosofias e das literaturas do Ocidente. Court de Gébelin, por meio do seu Monde Primitif, abriu-lhe os primeiros horizontes sobre o sentido simbólico dos mitos da antigüidade e sobre a língua sagrada dos templos. Para se iniciar nas doutrinas do Oriente, ele aprendeu o chinês, o sânscrito, o árabe e o hebreu. Em 1815, publicou seu livro capital: La Langue Hébraique Restituée. Este livro contém: 1º Uma dissertação introdutória sobre a origem da palavra; 2º Uma gramática hebraica fundamentada em novos princípios; 3º As raízes hebraicas examinadas segundo a ciência etimológica; 4º Um discurso preliminar; 5º Uma tradução francesa e inglesa dos dez primeiros capítulos do Gênese, que contêm a cosmogonia de Moisés. Esta tradução é acompanhada de um comentário do maior interesse. Aqui só é possível. resumir os princípios e a substância desse livro revelador. Ele foi inspirado pelo espírito esotérico mais profundo, e elaborado segundo o método científico mais rigoroso. O método do qual Fabre d'Olivet se utiliza para penetrar no significado íntimo do texto hebraico do Gênese é a comparação do hebreu com o árabe, o sírio, o aramaico e o caldeu, sob o ponto de vista das raízes primitivas e universais, das quais ele fornece um
léxico admirável, apoiado em exemplos tomados de todas as línguas, léxico que pode servir de chave para os nomes sagrados em todos os povos. De todos os livros esotéricos sobre o Antigo Testamento, o de Olivet fornece as chaves mais seguras. Ele faz, além do mais, uma luminosa exposição da história da Bíblia, e mostra as razões aparentes de ter-se perdido o sentido oculto, e de ser ele, até nossos dias, profundamente ignorado pela ciência e pela teologia oficial. Tendo falado desse livro, direi, agora, algumas palavras sobre outra obra mais recente que dele procede e que, além de seu mérito próprio, teve o de reconduzir a atenção de alguns pesquisadores independentes para seu Mission des Juifs primeiro inspirador. É a , de M. Saint-Yves d'Alveydre (1884, Calmann-Lévy). M. Saint-Yves deve sua iniciação filosófica aos livros Langue de Fabre d'Olivet. Sua interpretação do Gênese é essencialmente a da Hébraique Restituée, Vers Dorés de Pythagore, sua metafísica, a dos sua filosofia da história e o quadro geral de sua obra são emprestados à Histoire Philosophique Du Genre Humain. Retomando essas idéias-mães, ali juntando sua matéria e talhando-a à sua vontade, ele construiu um edifício novo, de grande riqueza, de um valor inigualável e de um gênero composto. Seu fim é duplo: provar que a ciência e a religião de Moisés constituíram a resultante necessária dos movimentos religiosos que o precederam na Ásia e no Egito, o que Fabre d'Olivet já havia trazido à luz em suas obras geniais; provar em seguida que o governo ternário e arbitral, composto dos três poderes -econômico, judiciário e religioso ou científico - foi em todos os tempos um corolário da doutrina dos iniciados e uma parte constitutiva das religiões do antigo ciclo, antes da Grécia. Tal é a idéia própria de M. Saint-Yves, idéia sinarquia, ou fecunda e digna da maior atenção. Ele o chama de governo segundo os princípios; ele aí encontra a lei social orgânica, a única salvação para o futuro. Aqui não é o lugar para se examinar até que ponto o autor demonstrou historicamente sua tese. M. Saint-Yves, não gosta de mencionar suas fontes; ele procede muitas vezes mediante simples afirmações e não teme as hipóteses arriscadas, quando elas favorecem sua idéia preconcebida. Mas seu livro, de uma rara elevação, de uma vasta ciência esotérica, transborda em páginas de grande alento, de quadros grandiosos, de visões profundas e novas. Minhas idéias diferem das suas em muitos pontos, notadamente no que se refere à concepção de Moisés, ao qual M. Saint-Yves deu, penso eu, proporções fortemente gigantescas e lendárias. Isto dito, apresso-me a reconhecer o alto valor desse livro extraordinário, ao qual muito devo. Seja
qual for a opinião que se tenha da obra de M. Saint-Yves, ele tem um mérito diante do qual é preciso inclinar-se: o de uma vida inteiramente consagrada a Mission des Souverains France Vraie, uma idéia. Ver sua e sua onde M. Saint-Yves fez justiça, ainda que um pouco tarde e como que a contragosto, ao mestre Fabre d'Olivet.
A natura naturans (3). de Spinosa.
A natura naturata (4). do mesmo.
(5). Eis como Fabre d'Olivet explica o nome IAVÉ: “Este nome oferece primeiro o sinal indicador da vida, duplo e formando a raiz essencialmente π viva EE(r ). Esta raiz jamais é empregada como nome e é a única que goza desta prerrogativa. Ela é, desde sua formação, não somente um verbo, mas um verbo único, do qual os outros são apenas derivados; em uma palavra, o verbo πτπ(EVA) ser sendo. Aqui, como se vê, e como tive o cuidado de explicar em τ minha gramática, o sinal inteligível (V), está no meio da raiz de vida. Moisés, tomando este verbo por excelência para com ele formar o nome próprio do Ser dos seres, a ele acrescentou o sinal da manifestação potencial e πτπ sendo da Eternidade, (I), obtendo ’(IEVA), no qual o facultativo se encontra colocado entre um passado sem origem e um futuro sem fim. Esse nome admirável significa, portanto, exatamente: o Ser que é, que foi e que será.
. Eloim Elo, (6) é o plural de nome dado ao ser supremo pelos hebreus e caldeus, derivado da raiz El que representa a elevação, a força e o poder Hod, Ele, expansivo e que significa Deus, num sentido universal. ou seja, é, em hebraico em caldaico, em sírio, em etíope, em árabe, um dos nomes sagrados da divindade. - Fabre d'Olivet, La Langue Hébraique Restituée.
(7). – “Ruah Eloim, o sopro de Deus, indica figurativamente o movimento para a expansão, a dilatação. É, num sentido hieroglífico, a força oposta à das trevas. Se a palavra obscuridade caracteriza uma potência compressiva, ruah caracteriza uma potência expansiva. Encontrar-se-á, numa e noutra, esse sistema eterno de duas forças opostas que os sábios de todos os séculos, desde Parmênides e Pitágoras até Descartes e Newton, viram na
Langue natureza e designaram por nomes diferentes”. - Fabre d'Olivet, Hébraique.
. Sopro,... Eloim,... Luz. (8) Estes três nomes são o resumo hieroglífico do segundo e do terceiro versículo do Gênese. Eis em letras francesas o texto iaômer Aelohim Iêhi-aûr, wa iehi aur. hebreu. do terceiro versículo: Wa, - Eis a tradução dada por Fabre d'Olivet: “E Ele diz, Ele o Ser dos seres, será feita a luz; e a luz se fez” (elementização inteligível). - A palavra rua, que significa o aur, sopro, encontra-se no segundo versículo. Notar-se-á que a palavra rua significativa de luz, é a palavra invertida. O sopro divino, voltando-se sobre si mesmo, cria a luz inteligível.
(9). Gênese, II, 23. Aísha, a Alma, aqui assimilada à Mulher, é a esposa Aísh, de o Intelecto, que corresponde ao homem. Ela está presa a ele e constitui sua metade inseparável, sua faculdade volitiva. A mesma relação existe entre Dionísio e Perséfone, nos Mistérios árticos.
(10). Na versão samaritana da Bíblia, ao nome de Adão é acrescentado universal, infinito. o epíteto de de Trata-se, pois, do gênero humano, do reino do homem em todos os céus.
IV
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.